Rapsodia Carmesim
1 O idiota que se diz ser mago
Já deviam ser dez horas da manhã na praça central da cidade quando os comércios já haviam terminado suas preparações e as pessoas começavam a se agitar, andando de loja em loja à procura de bons produtos. O barulho dos gritos dos comerciantes e das pechinchas dos clientes, quase um leilão de dúzias dos mesmos produtos de nada pareciam incomodar uma curiosa criatura que se encontrada no banco da praça.
Seria de muito exagero dizer que estava deitado no banco, mas de fato, estava atirado ao banco, quase atirado a ele como um mendigo ainda que estivesse sentado. Esparramado naquele banco, com os braços e a cabeça para traz. Qualquer um o chamaria de mendigo senão fosse pelas suas vestes aparentemente limpas e bem arrumadas.
Tal visão caricata chamava a atenção de todos que ali passavam, mas todos os adultos pareciam ignorar a cena. Todas as crianças olhavam e perguntavam a seus pais o que poderia ter acometido aquele homem para estar em tal situação. Os pais seguindo conselhos passados ao longo das gerações aconselhavam os filhos o mesmo: Afaste-se de pessoas assim, provavelmente é um bêbado que se perdeu do seu caminho. Todas as crianças acatavam o conselho dos pais, alguns com olhares mais tristes do que outros, exceto um garota que cujos pais não a acompanhavam.
Suas vestes eram simplesmente um vestido branco de algodão e carregava uma enorme sacola de pães que segurava sem nenhuma habilidade com os dois braços. Olhando aquele ser humano ali jogado, sua curiosidade se mostrou mais alta que qualquer conselho e então decidiu perguntar:
- O senhor deseja um pão? Estão fresquinhos, pode pegar um se quiser. — Sua voz era calma e doce como seria voz de uma garota nos seus 13 para 14 anos.
Apenas o silencio lhe veio como resposta. Então ele tornou a repetir a mesma frase com todas as letras, mas desta vez pegando um dos pães e estendo-os perto do rosto daquele sujeito para que ele pudesse sentir o cheiro do pão.
Nesse momento seu nariz se moveu atraído pelo cheiro quente, fresco do pão e domado pelo impulso de comer a fonte daquele maravilhoso cheiro, moveu sua boca e abocanhou aquilo o pão antes mesmo de abrir os olhos. Apesar do susto a garota riu da reação daquela pessoa e da forma quase desesperada com que comia o pão.
Acabando ele a refeição, ele ergueu sua cabeça lentamente em direção ao rosto da garota e com um belo sorriso de orelha a orelha e se sentando adequadamente disse:
Muito obrigado por me salvar jovem senhorita e desculpe pela minha falta de modos. Posso saber seu nome?
A garota havia tomado um susto à principio ao ver o rosto daquela pessoa. Possuindo um rosto bonito, sem marcas e um sorriso de sinceridade infantil além de um cabelo ruivo bem arrumado, grande e levemente ondulado, o que realmente assustava era a ausência de cor em sua Iris sendo apenas um grande esfera preta em seu olho.
— Ah, eles são feios não são? Eu não possuo uma Iris, apenas essas esferas pretas e vazias. Desculpa se te assustei com eles. — Disse o garoto ao ver a hesitação da garota ao olhar seus olhos.
— Por favor, não se desculpe. Não é que eu me assustei, é apenas algo incomum. Meu nome é Soraia, mas todos me chamam de Sora. E o seu é?
- Sinkef Valflare, mas todos preferem me chamar de Feniks. Prazer imenso te conhecer Sora.
- Igualmente Feniks, mas o que está fazendo aqui desse jeito? Você não parece um mendigo.
Nesse momento ele decidiu olhar em direção ao sol que estava já à pino e vendo-o nessa posição rapidamente se levantou do banco ficando bem próximo a ela. Nesse momento ela percebeu que apesar do rosto infantil que ele possuía, ele era visivelmente um adulto já nos seus dezoito anos aproximadamente.
- E de fato não sou. Sou apenas um andarilho por esse reino indo de cidade à cidade em busca de um pouco de ar novo. E sobrevivo como um mago nas horas vagas, mas não me peça para te mostrar meus truques senão terei de pegar outro pão. Eu realmente adorei te conhecer e te devo uma pelo pão, mas já estou atrasado e devo seguir viagem. — Feniks apoiando suas mãos no ombro dela e olhando bem em seus olhos disse essas palavras em um tom tão rápido e hipnotizante que ela sequer foi capaz de entender aquelas palavras.
Dito essa palavras Feniks saiu andando seguindo a rua. A garota ainda o observava sem entender metade das palavras que ele dissera quando uma carroça se colocou entre eles e tapou sua visão por não mais que alguns segundos e então sem mais nem menos Feniks havia sumido do campo de visão de Sora. Confusa ela olhou para dentro do seu saco de pão e entre eles encontrou um papel escrito “Meu melhor truque: Desaparecer. Até mais Sora.”
Diante daquela situação tudo o que Sora poderia fazer era rir descontroladamente na rua ao ver que durante todo aquele tempo ela foi a vitima de uma doce e inofensiva piada feita pelo que ela imaginava ser um idiota que se dizia “mago nas horas vagas”. Aquela foi à forma dele agradecer a ela pelo pão oferecido. Deixando a confusa e em seguida mais confusa ainda. De fato havia funcionado. Ela jamais se esqueceria daquele ser humano estirado ao banco.
Horas mais tarde Feniks estava no alto de um torra de uma igreja de estilo gótico sentado na base to telhado observando a passagem do dia, enquanto via o sol lentamente caminhar em direção ao seu lugar de descanso, sendo agraciado pela forte vendo que lhe refrescava e nem o fazia reparar no calor escaldante do sol sem nuvens. Podendo relaxar de forma tão casual, o sono sutilmente o acariciava e o fazia deitar no telhado apoiando sua cabeça nos braços.
Dormiria para sempre naquele lugar se não tivesse que planejar a próxima cidade para qual iria, quando e como. Tais perguntas não lhe perturbavam mais, pois já estava acostumado a tomar essa decisão e dessa forma, partiria no dia seguinte depois do almoço se encontrasse aonde almoçar. Patchirisu é uma cidade muito calma pensava, com poucos guardas zelosos com a população, a rua da praça era a única rua com grande movimento e mesmo assim havia espaço para andar sem esbarrar em ninguém. Para alguém que vive na cidade grande este seria um ótimo lugar para relaxar.
- Espera um pouco... Patchirisu... Essa não é a cidade para a qual disseram que Mjongir Hammer estava se dirigindo na ultima cidade em que estive.
- Não... Sem chance. Aquele psicopata com um martelo gigante não teria o que fazer aqui. E mesmo que ele esteja isso nem de perto é problema meu. Deixe isso pra quem deve lidar com isso. Quem sabe assim aquele chato larga do meu pé e vai atrás daquele maluco. Da ultima vez que ouvi falar dele disseram que ele simplesmente saiu martelando tudo e todo mundo que via pela frente e depois fugiu.
- Só me pergunto duas coisas: Uma é por que não conseguem pegar alguém como um martelo maior que ele. Não tem como ele ser rápido o bastante pra fugir. E a segunda coisa é por que estou perdendo meu tempo nesse monólogo quando podia estar dormindo. E ditas essas palavras pôs-se a dormir.
Já era de noite quando uma enorme barulheira e o que pareciam ser tremores começavam a atrapalhar o sono de Feniks. Quando sua vontade de permanecer deitado e confiança de que voltaria a dormir finalmente acabaram ele se ergueu irritado gritando para o alto da igreja quem estava tocando o sino aquela hora da madrugada.
Logo após ele soltar aquele berro, ele calmamente se esticou na base do telhado em que estava. Estava limpando a remela dos olhos quando notou que em meio a noite o som que ele antes julgou ser badaladas de um sino era na verdade o som de um martelo metálico quebrando o que encontrava. Foi quando ele se deu conta de que a cidade estava em chamas e havia pessoas gritando para todos os lados desesperadas.
Enormes focos de fumaça e chamas subiam pelos céus e engoliam completamente casas e pequenos prédios em iluminando a escuridão da noite como o próprio nascer do sol. O grito das pessoas a cada martelada e o som de pedras e outras coisas se quebrando a cada martelada eram aterradores.
Exceto para Feniks. De fato o desespero das pessoas o incomodava bastante, mas ele estava determinado a não se meter no assunto por mais que ele pudesse intervir.
Então é por isso que ele veio para esta cidade. Como não tem muitas pessoas, a presença da guarda imperial é quase nula e até reforços chegarem ele já poderia ter feito o estrago que quisesse. Psicopata é uma ova. Você é apenas um safado revoltado com a própria falha como ser humano que você é.
Você é um ser odiável, mas como não fui chamado pra festa não vou entrar de penetra nem fazer confusão. Vou apenas observar o que as pessoas vão fazer pra se defender e depois ir embora.
Porém um pouco antes de tornar a se sentar e ignorar o que estava acontecendo ele viu uma pessoa que não podia ignorar. Seus olhos se viraram no mesmo instante e passaram a ficar de olho na pequena Sora que estava correndo completamente desnorteada. O olhar dele que antes era da mais completa despreocupação e até um ar de deboche da situação se tornaram um olhar sério e preocupado.
Seus olhos acompanhavam cada passo da garota no mesmo ritmo e seu corpo tinha leves espasmos de movimento a cada tropeço que a garota dava. Mas sua maior preocupação era durante todo aquele tempo, ele não ter visto Mjongir Hammer em lugar nenhum. E justamente a única coisa que ele não desejava que acontecesse acontecera: Quando Sora foi virar a esquina para se esconder no beco, surge da escuridão um enorme martelo prateado reluzindo as chamas e a luz da lua e coberto de manchas vermelhas.
Sora naquele momento ficou praticamente paralisada. A pausa súbita na respiração era justificada. A pessoa que saía da escuridão possuía provavelmente mais de dois metros de altura. Suas roupas estavam rasgadas e sujas de todo o tipo de sujeira e sangue de tal forma que tentar reconhecer a cor original era simplesmente impossível. A cor agora era como o cheiro que exalava daquele ser. Fétido e apodrecido.
Nem mesmo nos olhos, a única coisa visível por baixo da mascara de couro porcamente costurada possuíam vida alguma. Incapaz de sequer respirar tudo o que ela conseguia fazer era dar um passo para trás a cada passo para frente que aquele ser descomunalmente longe do humano dava em direção a ela. Por fim, quando todo seu corpo nojento jazia fora da escuridão do beco ele levantou seu martelo o mais alto que pode e preparou-se para dar o golpe na pobre garota.
Quando o martelo começou a cair como uma guilhotina prestes a esmagar a cabeça de Sora, no alto de uma igreja, uma pessoa que rangia os dentes e rosnava como um cão de raiva de si próprio gritou em tom crescente: “À merda tudo, mas nela você não encosta.”
(Continua...)
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