Raphael Amaral e o Parente Desagradável
1 O Alinhamento Septissecular dos Planetas
Numa rua iluminada por lampiões mágicos, ergue-se a majestosa Mansão Amaral. Suas paredes de um branco perolado brilham sob a luz suave, enquanto colunas coríntias sustentam um frontão esculpido com figuras mitológicas. Ao passar pelos portões prateados, duas imponentes estátuas de pavões de mármore pintadas nos dão as boas-vindas.
O caminho de pedras, ladeado por jardins exuberantes, leva a gazebos elegantes e bancos de ferro forjado, perfeitos para apreciar a paisagem. Estufas de vidro abrigam plantas exóticas e flores de todas as cores, enchendo o ar com fragrâncias inebriantes. Pequenos caminhos de cascalho serpenteiam pelo jardim, convidando à exploração.
A mansão, com suas janelas altas e detalhes dourados, exibe uma simetria perfeita. No topo, uma cúpula de vidro permite que a luz natural inunde o interior, criando um espetáculo de luz e sombra.
Entretanto, apesar de sua grandiosidade, apenas sete bruxos — da família — habitavam aquele lugar: Eu — Raphael — Eleonora, Astrobaldo, Morgana, Arquibaldo e Amanda Amaral e alguns quadros, que eram ancestrais aprisionados. E havia cinco empregados na casa: Renka Limpôna, a diarista; Flávio Oliveira, o mordomo; Nicolésmico Nigalo, o motorista; Zelan Zorgo, o camareiro e Madalena Moreira, a cozinheira. Eleonora e Astrobaldo são meus pais, Amanda é minha irmã, enquanto Morgana e Arquibaldo são meus avós paternos.
Em uma bela noite, a mansão estava especialmente iluminada. Os lampiões mágicos brilhavam com uma intensidade fora do comum. Eu, um jovem bruxo de treze anos, observava com curiosidade a movimentação da minha família. Meus cabelos que eram negros e curtos e, aparentemente, lisos, meus olhos castanho-escuros e, ainda me lembro do medidrômetro na parede. Segundo ele, eu media 1,80m. Lembro-me de estar trajado com uma camisa vermelha com bolinhas brancas e com mangas bufantes, um colete bordô e uma capoura escarlate.
Mamãe estava na biblioteca, consultando antigos grimórios. Ela era de altura mediana, com cabelos negros e longos, olhos castanhos, e usava uma tunícora roxa, uma capoura roxa-hematoma e brincos-argolas dourados; Papai ajustava um grande planetoscópio. Ele era alto, magro, com cabelos negros e longos, olhos azul-celestes, pele clara e vestia um mantícoro azul com uma capoura azul-petróleo adornada com safiras; Vovó murmurava na cozinha encantamentos em uma língua antiga. Ela tinha cabelos brancos, presos em um coque alto no topo de sua cabeça, era rechonchuda, com olhos castanhos, usava óculos meia-lua, uma blusura de cor verde-esmeralda com mangas longas, uma saiura longa verde-musgo, e uma capoura verde-esmeralda, porém, um pouco diferente de sua blusura; Vovô dormia em seu quadro. Ele tinha cabelos brancos, escondidos por sua cartoloura vermelha, usava uma camisura escarlate com mangas bufantes, uma capoura vermelha-sangue e um óculos redondo, de armação dourada; Renka, a adorável faxineira, tinha cabelos cinza, usava brincos dourados, um elegante uniforme com um avental branco, botilhas pretas, e, em sua boca, havia um lindo batom marrom-chocolate. Ela limpava a mansão de cabo a rabo, parecia uma para-pelas — criatura mágica que corria a mais de 80km/min. Para a família Amaral isso era ótimo. Segundo todos da mansão, durante a Batalha das Bruxílias Amaral e Santos, Renka desestabilizou boa parte da família Santos com sua velocidade sobre-humana; Nicolésmico, nosso rabugento motorista, usava um fraque negro com um chapéu pontudo e de mesma cor que a roupa e luvas brancas. Ele chegou com o carro e de dentro dele, retirou uma maletura de couraça escarlate. Ele quase ficara corcunda ao tentar repetidas vezes de levantar o pesado objeto do chão, mas, para sua sorte — ou, na opinião dele, má-sorte —, Flávio estava indo aos jardins e ajudou-lhe a levar a maletura para dentro da mansão; Zelan estava arrumando os quartouros, as salouras e os escritórios e Madalena estava na cozinha, preparando as receitas de nossa família para o Grande Baile do Alinhamento Septissecular dos Planetas do Sistema Solar.
Quando terminou de ajeitar o planetoscópio, papai me chamou para olhar os planetas:
— Raphael! Venha ver, meu filho! Os planetas estão se alinhando! — disse ele, com o olho no vidro do planetoscópio.
— Como vou ver se o senhor está na frente do planetoscópio? — perguntei.
— Oh! Mas que cabeça a minha, meu caro aprendiz. Suba aqui. Vamos. Suba. — ordenou, colocando um banquinho para eu subir.
Subi no banquinho e fiquei olhando, encantado, admirando os astros aproximando-se e depois de sair do encantamento, perguntei:
— Esses são os planetas, pai? Mas... por que eles estão tão juntinhos?
— Eu vou explicar-te! — disse em tom risonho, aproximando-se de uma maquete — Este é o Sistema Solar com seus oito planetas irmãos: Mercúrio, Vênus, Terra, Marte, Júpiter, Saturno, Urano e Netuno. Por toda a eternidade, eles giram ao redor do Sol. Cada um em sua órbita. Mas a cada setecentos anos, algo de fantástico, de extraordinário acontece!
Ele olhou fixamente para os planetas que estavam a girar e os planetas de isopor começaram a flutuar, desorganizadamente, e começaram a girar em círculos, como se o Sol estivesse ao centro e papai continuou a falar:
— Agora, preste atenção, meu filho! A cada setecentos anos, depois de darem milhares de voltas, os planetas formam uma incrível fileira, alinhando-se em uma poderosa corrente energética que percorre todo o Espaço Sideral. A cada setecentos, nós recebemos essa superdose de energia e nossos amuletos e poderes mágicos são enriquecidos pelos raios cósmicos. — ele brandiu suas mãos e os planetas, que estavam no ar, sumiram e voltaram à maquete. — A última vez que isso aconteceu, você nem era nascido! Mas vamos ao que interessa: onde está a sua lição sobre os quatro elementos e o seu livro de magia?
—M-minha redação?! — perguntei, engolindo a seco.
— Eu tenho certeza de que você tem sido um excelente aprendiz de mago!
— M-mas é claro, pai! — engoli a seco, novamente.
— Pois então... vá pegá-lo! Porque quando os planetas se alinharem, seu amuleto duplicarão, triplicarão, quintuplicarão de poderes!
— Espera, pai... é que... é que ainda faltam algumas linhas...
Ao perceber que o enrolara, ele ficou vermelho como pimenta e gritou:
— RAAAAAIOOOOOSSSS E TROOOOOOOOVOOOOOOOOOÕÕÕÕÕEEEEEEEESSSS!!! — gritou nervoso. Milhares de raios cortaram o céu e seus sons ensurdecedores penetraram em meu ouvido. — PARE DE ME ENROLAR, RAPHAEL!!! E seja lá como for, amanhã. Quando eu voltar da minha viagem à Rússia.
— Tá bom, pai! Tá bom! — disse, desanimado e meio surdo por causa do som dos trovões.
— SEM FALTA! — esbravejou.
Saí cabisbaixo do escritório, sem fechar a porta. E num simples mover de dedos para a esquerda, papai fechou a porta.
— Rapha! Rapha! Rapha! Que bom que você apareceu! Nós vamos relembrar os passos para o Grande Baile do Alinhamento! — disse mamãe, com uma voz doce e delicada.
— Ah, não, mãe, agora não! — disse, num tom choroso.
— Ah, não fique chateado com o Astrobaldo! Você sabe que ele é exigente! E nada melhor do que uma linda música para inspirá-lo a escrever no seu livro e terminar a lição. Pianófia, um bruxibieto!
O piano começou a tocar, mas ainda estava meio chateado. Precisava ser um trovão tão escandaloso? Mas, mesmo contrariado, cedi:
— Tá bom!
E começamos a dançar: rodopiamos, pulamos, deslizamos, giramos os braços. Uma verdadeira maluquice!
— E agora, solte-se, Rapha! Gire, gire, gire como um planeta! Sinta-se livre! Divirta-se! E olhe cá em nosso relógio-planetário: o Alinhamento está próximo!
Ao ouvir a última frase, fiquei novamente entristecido, subi as escadas o mais rápido possível. Ofegante, mamãe perguntou:
— Rapha! Rapha, o que foi? Rapha, é só deixar a mente livre!
Corri até meu quarto, entrei nele e fiquei desesperado ao ver o muquifo que estava.
— Ah, pelas verrugas do Vovô! Onde está a minha redação?!
Revirei o quarto inteiro: retirei as sedosas, macias e vermelhas coberturas da cama, tirei as fronhas dos travesseiros e almofadas, tirei as roupouras do closet e, finalmente, encontrei-a no lugar mais improvável de todos: pendurado no teto.
— Graças à Úrsula! — agradeci. — Já sei! Vou dar uma olhada no livro da vovó!
E lá fui eu, subi as escadas e cheguei ao quarto da minha avó Morgana. Ao chegar, vi que o livro estava aberto no atril e fui correndo para procurar um feitiço, mas ele percebeu e fechou-se sobre minha mão e quase perdi-a, e então ele gritou:
— Ah, então és tu, grandenino?
— É... sabe o que é...? É que eu estava vim aqui para pegar algo e dar um oi.
— Pois então, boa noite!
— Sabe.... é que tem mais coisa, Livro... é que os planetas estão quase se alinhando....
— Hum! Raphael, tu sabes muito bem que só posso abrir-me à minha dona, a sua avó Morgana. A cada bruxo, sua própria redação!
— Mas que droga! Vocês todos querem que eu escreva minha redação, mas não me dizem como!
— Até mais ver, Raphael! — esbravejou.
— "Até mais ver” nada! Eu sou um Amaral e ordeno que você abra! Vamos, abra!
O livro começou a fazer-se de besta e começou a cantarolar. Ao ver que ele não iria abrir, estressei-me e gritei:
— Abra, seu livro mofado e embolorado!
Mesmo fazendo força, não consegui abri-lo e ele me provocou:
— Desista, Raphael!
— Ah, é? — perguntei, debochadamente.
— Não adianta insistir, Raphael! — gritou e parou para me observar — É... o que tu estás a fazer, Raphael? Ah... O que é isso, Raphael?
Ao ver que era uma pena de coçários-coçax, ele gritou:
— RAPHAEL! RAPHAEL! NEM PENSE NISSO!!! NÃO... NÃO... PARA!!! — desatou-se a rir.
— Não paro! Não paro! Só paro se você se render!
— Tás bem! Tu podes consultar-me! Mas só um feitiço e bem simplesinho...
— Tá bom! — disse abrindo-o.
Nesse momento, meus olhos brilharam como se estivesse vendo uma pilhoura de ouro e diamante. Eu estava maravilhado com os feitiços presentes no livro: — Voar... não! Ficar invisível? Interessante, mas não. Animorfomagia? Por enquanto, não. Isso... acender caldeirão com palavras! Chamas sagradas, ouçam meu chamado. No caldeirão, luz e calor sejam derramados. Pelo poder dos elementos, fogo, acenda-se! — recitei o feitiço; porém, nem a chama dos lampiões mexeram-se. — Droga! Vamos lá... de novo: Chamas sagradas, ouçam meu chamado. No caldeirão, luz e calor sejam derramados. Pelo poder dos elementos, fogo, acenda-se! — recitei com mais intensidade e, dessa vez, as cortinas começaram balançar-se; os candelabros de ouro e prata batiam uns nos outros; os sinos das torruras tiniam; meu pentavô, Elopécio Amaral, acordara assustado em seu quadro, e dera um berro alto e estrondoso; o come-come começou a agitar-se na gaiola e os para-péguas piavam altamente e, de repente, eu comecei a flutuar, até ficar preso no teto. Vovó estava no jardim, podando os espinhos das roseiras, quando pressentiu:
— Raphael vai fazer uma besteira! — disse, em um tom altamente irritado. Ouviu-se o estampido da explosão e, junto com ele, a janela do quarto abriu e ela resmungou: — Fez!
Ela entrou, pomposamente, na mansão e subiu direto até o quarto. Ao subir, ela viu o atril do livro perto do caldeirão e disse: — Eu não acredito! Ao invés de escrever sua própria redação, tu viestes abelhudar meu livro novamente?
— Mas vocês não me mostram como fazer! Eu não estou com inspiração nenhuma para fazer uma redação, principalmente de quatrocentas linhas.
— Ora, seu apressadinho! Espere aí que eu vou ajudar-lhe! — disse ela, com uma voz impaciente, mas ainda doce. — E também... tu achas que olhando o feitiço de acender caldeirão com palavras iria ajudar-lhe numa redação sobre os quatro elementos? — deu o sermão.
E então, ela foi para frente do espelho, parou em frente e ficou observando-o por um tempo. O livro, que estava no atril, fechou-se e perguntou a ela:
— Morgana, o que tu vais fazer?
— Eu vou pegar o Grão-Pergaminho Branco!
— O Pergaminho Branco?! — perguntou em um tom preocupado.
— Ô, vó, que pergaminho branco o quê! Me tira logo daqui! — disse, indignado.
— Morgana, há mais de dois milanos tu não pegas o Pergaminho Branco! — disse o livro, em um tom preocupado, porém, suave.
— Sssshhhh!!! Silêncio! Eu preciso concentrar-me! — disse ela. E após uns cinco minutos olhando o espelho, ela esticou seu braço — coberto pelas mangas verde-esmeraldas da blusura — e ele atravessou o vidro; de dentro dele, ela retirou um pergaminho, que parecia mais um papiro, de tão antigo. — Eila! As palavras escritas neste pergaminho servirão para desfazer o seu feitiço!
— Mas eu não quero desfazer os meus feiti... — fui interrompido.
— Até parece que você fez milhares de feitiços! Que eu saiba, festes somente este e ainda foi erroneamente executado! Agora, vamos, leia as palavras e desfaça vosso feitiço; porém, concentre-se. Caso contrário, não funcionará.
— Per virtutem antiquorum, maledictum nunc dissolvatur. — recitei com um falso entusiasmo. Ficar lá em cima era legal.
— Concentre-se, querido!
— Tá bom! — disse e comecei a recitação: — Per virtutem antiquorum, maledictum nunc dissolvatur!
Ao terminar de recitar o feitiço, minha cabeça começou a girar e caí, mas vovó, esperta como sempre, brandiu suas mãos para frente e a cama moveu-se. Pelo menos, caí em cima de algo macio. E depois, vovó com uma cara emburrada me deu um sermão:
— Agora, preste atenção, querido... para saber controlar seus poderes básicos, primeiro você tem que desenvolver um outro poder: a responsabilidade! E escrever uma redação de quatrocentas linhas, é uma delas. Querido, os quatro elementos é o básico da nossa família. É o que nós cobramos das novas gerações antes delas irem para a escola de magia há mais de dois milanos. Portanto, não é pegando atalhos que tu conseguirás a controlar seus poderes e aprender feitiços complexos! E não adiantas fazer esta carroura, pois usar penas autoescrivãs não é digno de um Amaral! E caso fazeres isto, estarás enganando a si, não a mim e muito menos, seu pai. Entendeu? Fiquei em silêncio e ela perguntou novamente:
— Entendeu ou não entendeu?!
— Entendi! — disse, enquanto descia as escadas espirais.
Apesar de baixinho, escutei ela dizendo:
— Não! Ele ainda não entendeu; porém, no momento certo, entenderá.
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