Ramona Castellyn e os Novos Marotos
5 Primeiras Aulas - pt. 1
O dia amanheceu rapidamente. Acordei bem feliz, o que era de se estranhar, e encarei meu quarto novo; ele era grande, convidativo, parecia a toca de um hobbit e certamente eu iria dizer para todo mundo que eu morava na toca de um hobitt. Haviam cinco camas, o que queria dizer que dividia o quarto com mais quatro meninas. Por sorte todas elas tinham cortinas e as meninas pareciam legais.
A primeira cama era de Ellen Gyvirfolin. Uma menina alta, esbelta, com cabelos castanhos claros, usava muita maquiagem e gostava de ficar até tarde lendo “revistas de garotas” e conversar sobre garotos com outra garota, que se deitava ao lado dela.
A que se deitava ao lado e a segunda cama era de Penélope Helpan, uma menina um pouco menor, um pouco mais encorpada, com cabelos castanhos escuros, também usava muita maquiagem e de resto era idêntica à Ellen.
A cama que vinha e ficava “no meio”, em frente ao banheiro, ela de Amy Smith. Amy era negra, tinha cabelos crespos em um perfeito black power que usava laço e flores em cima, assim como era pequena e eu achei a mais bonita do quarto.
A cama seguinte era a minha. Eu até iria decorá-la hoje, tomando essa liberdade por ser legal e pelo fato que o lado direito do quarto, onde as duas Barbies moravam, parecia realmente uma casa da Barbie com tantas coisas rosas, pôsteres de meninos com o busto nu e maquiagens. Garotas adolescentes! Amy parecia ser mais intelectual, tinha muitos livros espalhados em sua “parte”.
E, por fim, a cama de Alice. A mais organizada, de longe, não tinha pôsteres ou coisas do gênero. Era... normal demais. Algo me dizia que Alice tinha medo de se expressar ou coisa do gênero. Nada que um tempo ao lado de uma delinquente juvenil não mude, afinal, eu sou uma péssima influência e, no momento, meu objetivo era fazer com que Alice fosse ela mesma. Que ela fosse a Alice do Beco Diagonal e do Salão Principal o tempo todo e não tentasse suprimir sua vontade de falar como uma arara.
Alice era legal.
Minha amiga Alice já estava pronta quando acordei e eu era a última a acordar. Parte boa: o banheiro estava vazio. Parte ruim: eu tinha muita probabilidade de me atrasar. Pelo menos eu havia acordado sozinha! Já era um baita de um avanço para mim.
Tomei banho rapidamente, coloquei minhas vestes lufanas e meu chapéu. Quando sai, as garotas Barbie me encararam como se eu fosse uma aberração.
— Vai usar isso? Vai ser zoada duplamente – advertiu a Barbie E.
— Duplamente? – Franzi o cenho.
Ela assentiu.
— Primeiramente por ser lufana, segundamente por esse chapéu horrível – explicou a Barbie P.
Eu encarei Alice e ela fazia uma cara de “pois bem... é verdade”. Eu sorri e dei de ombros.
— Não ligo – fui até minha cama e separei meus livros colocando em minha mochila. A dupla Barbie riu um pouco mais e saíram, me deixando sozinha com Alice.
Eu estava feliz por ter me arrumado rápido e nem havia precisado que Alice me chamasse. Quando estávamos saindo, percebi que ela me olhava de um modo estranho, como se quisesse pedir ou dizer algo e não conseguisse. Alice era muito fechada, ela tinha que parar com isso.
— O que foi? – Perguntei antes de sairmos, colocando a mochila em minhas costas.
Ela olhou para o chão e começou a mexer o pé.
— Nada.
— Fala logo, Alice. Mostre a sua opinião. Isso não é um crime.
— Esse chapéu. Sério, tira.
Eu franzi o cenho.
— Ontem meu chapéu não te incomodava – disse.
Ela ficou vermelha. Bem vermelha.
— Desculpa – ela falou. – É que ontem estávamos no trem... é diferente. E ontem muitos também usavam chapéu, na verdade, já que eles fazem parte do uniforme. Mas hoje...
Ela não desembuchava logo.
— Faz parte do uniforme. Eu estou usando o uniforme. Qual o problema?
— Isabelle Nott zoa tanto as pessoas que usam chapéu que chega a dar dó – ela desembuchou, mesmo que ainda não olhasse em meus olhos. – Não quero que ela zoe você.
— Eu não ligo – falei novamente, para que entrasse na cabecinha dela.
Mas mesmo assim ela não deixou aquele assunto encerrar tão rapidamente.
— Por favor, Ramona.
Agora ela me olhou. Seus olhinhos estavam mais verdes hoje, grandes e como de cachorro que caiu da mudança, parecia uma versão do gato de botas que era até mais fofo que o gato de botas. Suas bochechas eram coradinhas, ela tinha o cabelo negro dando destaque em sua pele clara e olhos... ela parecia um ursinho fofo. Não tinha como eu dizer não aquilo, então eu simplesmente tirei o chapéu, joguei na cama e percebi que aquela maldita garota me convenceria a várias coisas.
— Feliz? – Perguntei. Ela começou a passar as mãos nos meus cabelos, como que para arrumá-los.
— Agora estou – ela sorria tanto que nem parecia o ursinho fofo de olhos grandes de gato de botas de uns segundos atrás. Maldita Longbottom! – Vamos.
Ao sair, fomos para a Sala Comunal e encontramos algumas pessoas, mas estava visivelmente vazio comparado ao outro dia. Estávamos indo diretamente para a saída quando encontrei, sentado em uma das poltronas com um monte de revistas em suas mãos que ele colocava em sua bolsa, Lorcan Scamander estava exatamente como no dia anterior. O que era comum, afinal estávamos de uniforme.
— Vamos chamar Lorcan para tomar café – parei subitamente, pegando o braço de Alice. – Ele não é seu amigo?
Ela não parecia animada ou nada do gênero.
— Eu não diria amigo. Lorcan não parece ter amigos, ele é sempre um tanto estranho e as pessoas raramente falam com ele, afinal ele sempre está tentando vender o Pasquim e a grande maioria considera o Pasquim uma revista para lunáticos. A única pessoa que já vi andando com ele é Lysander, seu irmão gêmeo.
Eu a encarei com um pouco de pena dela.
— Caramba, Alice. Esperava mais de você! Lorcan parece tão legal – apontei para ele, que na verdade não parecia tão legal tentando colocar aquele monte de revista em uma bolsa. – E, aproposito, você também não tinha amigos.
Ela pareceu se surpreender com minha análise, já que ela nunca havia dito isso, mas só o fato de ter falado que conhecia os Weasley porque seus pais eram amigos, por sentar sozinha na mesa da Lufa-Lufa e nem falar com o restante dos alunos, ou por não ter me apresentado ninguém como “seu amigo”, já dava de cara que Alice era solitária. Ela não discordou.
Eu a arrastei e paramos atrás de Lorcan enquanto ele terminava de fechar a bolsa que parecia estar muito pesada. Lorcan Scamander estava no mundo da lua, tanto que demorou uns dois minutos para eu conseguir chamar sua atenção.
— Bom dia, Lorcan! – Disse pela quinta vez, dessa vez eu passei a mão em seus cabelos, devendo ser isso que chamou sua atenção.
Ele me encarou com surpresa. Ou não. Era difícil saber se estava surpreso porque seus olhos arregalados pareciam sempre estar surpresos.
— Bom dia... – Ele parecia pensar. É claro! Eu nem havia dito meu nome na noite passada.
— Ramona – estendi a mão para cumprimentar, o que fez ele olhar para minha mão com um pouco de curiosidade. – Ramona Castellyn — ele sorriu e apertou. Eu devolvi o sorriso. – Que tal acompanhar Alice e eu no café da manhã?
Agora eu diria que ele estava surpreso. Ou não. Quem consegue ler esse cara? Se alguém conseguisse, deveria ganhar um prêmio.
— Seria ótimo – ele respondeu. – Você leu seu Pasquim ontem?
Ele só falava da revista? Parecia que sim.
— Não deu tempo, sabe. Eu dormi ontem – sorri ao responder. Quando com um braço eu estava entrelaçada com Alice, o outro eu entrelacei com Lorcan, que sorriu. Juntos nos rumamos para o Salão Principal.
Acho que agradeceria todos os dias de minha permanência em Hogwarts pela Sala Comunal da Lufa-Lufa ser tão perto do Salão Comunal. Em menos de cinco minutos já estávamos sentados, rindo e comendo. Percebi que tinha muitos olhos sobre nós, mas os ignorei fortemente. Alice pareceu notar e, ao contrário de Lorcan e eu, não parecia conseguir ignorar, já que a cada segundo que passava ela falava menos e avermelhava mais. Eu não consegui decifrar se Lorcan não ligava para a atenção que recebia ou se simplesmente não notava a atenção que recebia.
A primeira aula que tínhamos era de Feitiços, recebemos papéis com nossas aulas de Poly, que sorriu e disse que eu era sortuda por já ter dois amigos. Eu agradeci e disse que ela mesmo. Com isso, eu virei para os dois e os lembrei que eu não fazia a mínima ideia onde era a aula de Feitiços e por esse motivo eles seriam meus guias pessoas durante uma semana ou mais, já que eu raramente prestava atenção no caminho de algum lugar. Eles riram.
Chegamos na sala bem rápido. A primeira aula era com a Corvinal, o que me fez logo ver a cópia de Lorcan entre os alunos da sala; a diferença de Lorcan e Lysander (eu achava que esse deveria ser o nome) era que Lysander estava visivelmente preocupado e tentava desesperadamente puxar assunto com alguns colegas de classe. Eu fiquei até feliz em saber que ele estava indo bem, já que as pessoas respondiam ele. A face de Lysander não parecia estar no mundo da lua e nem surpreso, outra coisa que o diferenciava de Lorcan.
Como os dois irmãos nem se quer se cumprimentaram, eu não comentei nada sobre Lysander, apenas rumamos para nossos lugares, nos sentamos e eu ajudei Lorcan a tirar o livro de feitiços sem fazer com que suas dezenas de revistas voassem. No final acabei pegando algumas revistas e colocando em minha bolsa, ele agradeceu. Alice começou a me explicar umas coisas sobre as aulas de Hogwarts.
Cada aula era com uma casa diferente. Nossa primeira aula, Feitiços, seria com a Corvinal; na segunda aula, Transfiguração, seria com a Grifinória; a terceira, para Lorcan e eu, era Trato das Criaturas Mágicas enquanto Alice ia para Runas Antigas. Aulas opcionais eram feitas em conjunto, todas as quatro casas. E assim por diante.
A aula começou e o professor era o meio-duende. Ele nem chegou a me olhar, o que era bom, mas pude dizer que não passei completamente despercebida como queria; não sabia se era por andar com Lorcan (Alice tinha comentado que ele era estranho e que as pessoas não gostavam muito dele) ou por ser nova. Eu levei em consideração que era por ser nova.
Alice me disse que o professor se chamava Filius Flitwick.
— Ele não gosta que o chamem de baixinho – cochichou Lorcan em minha orelha. Eu assenti. Alice escutou e o olhou com curiosidade.
— Por que Ramona o chamaria de baixinho? – Perguntou.
Eu a encarei.
— Lorcan me conhece melhor que você, Alice. Eu iria chamar ele de baixinho na primeira oportunidade.
Alice revirou os olhos como “essa garota não tem salvação” (todos sabem disso, Alice) enquanto Lorcan soltou um risinho.
— Flagrate tem o nome de Feitiço de Escrita Pirocinética. Ele faz com que labaredas de fogo sejam conjuradas e formem a palavra desejada, tanto em seres vivos como em objetos e normalmente ele é utilizado para produzir marcas de fogo, embora bruxos experientes e com aptidão em feitiços pode utilizá-lo para produzir um incêndio...
— Interessante – murmurei. Alice me olhou com medo.
— ... a cor de seu lampejo são faíscas de fogo, sua classificação é elementar e seu tipo é corpóreo – enquanto ele falava, todos anotavam. Alice anotava quase tudo que eu falava, Lorcan na realidade parecia desenhar enquanto eu anotei simplesmente “feitiço de fogo; Escrita Pirocinética, feitiço elementar tipo corpóreo”. Isso me fazia lembrar o motivo de ninguém nunca pegar minhas anotações, diziam ser muito vagas. – Podemos começar! Para esse feitiço, vocês precisam acenar a varinha e dizer: Flagrate! – E ele fez.
Em sua frente estava o quadro negro e, quando ele disse, labaredas de fogo escreveram o nome do feitiço no quadro negro e muitos alunos, principalmente da Corvinal, aplaudiram. Eu encarei aquilo como algo muito esquisito, Lorcan também aplaudia e Alice também, então como uma boa pessoa que era (e puxa saco de professor, não podia negar isso), eu também aplaudi. Ele sorriu, orgulhoso, e disse vários obrigadas depois de mandar fazermos. “Imaginem uma palavra pequena, de duas ou três letras, e tentem. Não se decepcionem se não conseguirem hoje”.
Todos pareceram ter dificuldades. Na primeira tentativa saiu um pouco de fogo, na segunda um pouco mais e na terceira consegui formar a palavra que estava tentando, “lua”. Assim que fiz a palavra e admirei minha controvérsia, a palavra lua escrita em fogo, tudo culpa de Alice por ter dito a palavra lunáticos mais cedo, eu quase pulei ao ouvir uma voz vindo diretamente da minha orelha. Que homem pequeno!
— Parabéns, Srta. Castellyn! – Não é que ele sabia meu nome? Não demorou para eu lembrar que ele estava na sala da diretora. Minha memória não é a das melhores. – Dez pontos para a Lufa-Lufa, por ser a primeira a conseguir realizar o feitiço com certa perfeição!
Enquanto todos me encaravam, os alunos da Lufa-Lufa estavam bem animados e os da Corvinal pareciam querer me mutilar com os olhos. Quando ele se afastou, Lorcan e Alice chegaram mais perto de mim e observaram a palavra que estava quase apagando.
— Isso é incrível – sussurrou Alice. – Dez pontos em seu primeiro dia!
Lorcan parecia querer dizer outra coisa...
— Como faz isso?
Eu mostrei e tentei ajuda-lo. Logo a aula acabou e rumamos para a sala de Transfiguração, onde eu fiquei triste ao ver que haviam apenas duas mesas juntas. Disse para Alice e Lorcan sentarem juntos, Alice não pareceu satisfeita mas sentou-se, eu sentei atrás deles, esperando que chegasse meu colega, mas a professora chegou antes disso. Quando ela entrou, todos calaram a boca e a encararam. Ela então sorriu, ela a Profa. Mitchell.
— Esse ano, devido a brigas do ano passado quanto as duplas – os olhos dela caíram na mesa do irmão de Alice, que estava sentado com o negro. Ele revirou os olhos. – Esse ano eu montei um mapa de sala, para vocês, criancinhas. Vamos. Levantem-se e sentem com seus colegas de outras casas.
Alice não estava feliz quando soube com quem sentaria, muito menos Lorcan. Alice se sentou com seu irmão, que também não parecia muito feliz, enquanto o cara negro que estava sentado ao lado dele chegou perto de mim e me encarou. Ele tinha belos dreadlocks.
— Você é... – ele pegou o papelzinho que havia recebido em cima de sua carteira, como alguns receberam. – Ramona Castellyn?
Eu assenti.
— E você é...?
Ele me encarou.
— Está escrito no papel na sua frente – ele disse. Eu encarei o papel dobrado em cima da minha mesa e, com preguiça, eu fiz uma cara de tristeza.
— Eu não sei ler – informei.
Por mais incrível que parecesse, ele riu e se sentou ao meu lado. A aula foi agradável pelo simples fato do garoto ser muito legal, afinal, ele fazia piadas engraçadas e ria das minhas que saiam de forma involuntária, era desleixado e nem chegava a anotar nada, na verdade ele só chegou a pegar o livro e o caderno quando a Profa. Mitchell o obrigou. Seu nome ela Matthew Zabini, ele havia me dito. Antes de sairmos da sala, ele sorriu ao dizer “mas escrever você sabe, não é?”. Eu fiz cara de espanto. “Caraca, eu nem sabia que sabia. São tão estranhas as coisas que acontecem em nossas vidas”.
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