Ramona Castellyn e os Novos Marotos
7 Poções e Murta
Eu estava entediada. Já conhecia o castelo, por assim dizer, já conhecia os professores, não parecia haver nada novo para conhecer... Argo Filch, o velho zelador da escola que sempre estava correndo de um lado para o outro reclamando de um poltergeist que eu simpatizava bastante e queria conhecer melhor (não me julguem), estava passando do meu lado naquele exato momento e me deu uma ideia.
— Ei, onde fica a sala de Filch? – Perguntei para Alice e Lorcan. Ambos me encararam com suspeitas.
— O que você vai fazer? Eu te disse ontem que não quero fazer nenhuma pegadinha – avisou Alice, revirando os olhos. Era verdade. Ontem à noite, quando estávamos terminando uma atividade de Defesa Contra a Arte das Trevas, eu comentei que estava entediada e queria fazer alguma coisa. Ela me encarou e disse “nada de coisas que nos levem a detenção, mocinha. Depois de amanhã é o testes de Quadribol, se mantenha na linha”.
Mas ela não sabia o quanto era difícil estar naquela escola a quase uma semana e não ter feito nada! Estava angustiada. Em Castelobruxo eu tinha Melissa para aprontar comigo, ela sempre estava dentro, mas infelizmente eu havia feito amizade com duas pessoas que nem pensavam nessas coisas: Alice Longbottom, a filha perfeita de Neville Longbottom, e Lorcan Scamander que a única coisa de “mal” que fazia era infernizar as pessoas a comprarem revistas, mas nunca havia recebido uma detenção por isso.
— O que quer fazer? – Ele me perguntou, me deixando feliz. Será que eu conseguiria arrastar Lorcan para o mal caminho? Alice eu sabia que conseguiria, só precisava de mais um tempinho, mas sobre Lorcan eu nunca havia pensado.
— Não sei – admiti. Então, enquanto eu pensava, veio uma ideia um tanto clichê: — Podíamos dar um pouco de Poção para Arrepiar Cabelos e um pouco de Poção Cabelo Color. Ambas não causam mal a ninguém! – Disse, especialmente para Alice, que muitas das vezes tinham uma visão bem errada de mim.
Ela me encarou com dúvidas.
— Qual a necessidade disso?
— Ora, deixar os cabelos de Filch com dois metros de altura e rosa! – Ri. Então, fiz a minha melhor cara de “por favor”. – Eu faço as poções, sou boa nisso. Nunca imaginaram um Filch com cabelos altos e rosa? Deve ser engraçado.
— Não vou fazer parte disso – Alice cruzou os braços.
Lorcan não parecia dar a mínima se eu ia ou não fazer, e nem parecia querer participar. Ele não era alguém que eu conseguiria fazer apreciar a arte das pegadinhas, Alice iria gostar com certeza mas estava se fazendo de difícil.
— No Beco Diagonal você toparia – eu apontei o dedo para o rosto dela, que ficou vermelho.
— Eu... nós estamos em Hogwarts! – Ela usou isso como desculpa.
Eu assenti.
— Exato – sorri.
Ela cruzou os braços novamente.
— Não vou fazer! – Anunciou. – E não se esqueça que tem um teste amanhã para entrar no time de Quadribol, além de muitas tarefas...
— Tarefas estão em dia – anunciei, dando de ombros. – Fiz todas ontem depois que você dormiu, querida. Eu estou completamente em dia em tudo, estou completamente ciente sobre o meu teste e estou entediada! Se não vai junto, okay. Faço sozinha, mamãe!
— Não direi onde é o escritório do Filch! – Ela quase gritou, brava, como uma verdadeira mãe.
Bateu o pé e saiu andando, brava, indo mais rápido em direção ao Salão Comunal. Revirei os olhos. Lorcan pareceu se assustar um pouco com o modo que Alice agiu, mas continuou a andar normalmente ao meu lado e, como sempre, estava no mundo da lua. Eu sorri ao olhar para ele, o abraçando de lado.
— Pode me mostrar o escritório de Filch? – Perguntei com o maior carinho do mundo.
Ele deu de ombros e aceitou. Disse que me mostraria depois das aulas da tarde, o que já era de bom tamanho, pois de qualquer maneira não faria isso antes dos testes de Quadribol, não podia correr o risco de estar de detenção bem no dia. Então hoje eu prepararia as poções, assim como algumas minhas que estavam em falta, como a poção que eu usava como perfume, Poção Aromática.
Sorri e continuei a caminhar com Lorcan. Aquilo era tão adorável!
***
Lá estava eu novamente na Sala Comunal com Lorcan. Ele havia acabado de me levar na sala do Filch e eu estava tão feliz que disse que o ajudaria com o dever de poções; sentados na Sala Comunal perto da fogueira, não demorou meia hora para terminarmos o dever. Fui para meu quarto, peguei todo meu estoque de ingrediente de poções e coloquei-os junto com o caldeirão, uma colher e uns quatro potes. Estava saindo do quarto quando Alice entrou, cansada, se jogou na cama e começou a fazer algum dever. Ela me encarou de forma feia e virou a cara.
Pelo jeito ela agiria daquele modo por uns dias. Dei de ombro e sai, pensando em um local em que poderia fazer as poções. Lembrei do banheiro feminino do segundo andar assombrado por um fantasma e que ninguém chegava a entrar, parecia o local perfeito, então ia rumar para lá. Quando estava passando pelo primeiro andar próximo a biblioteca, fui surpreendida por Matthew Zabini. Em primeiro momento duvidei muito que ele fosse falar comigo, até ele parar em minha frente e sorrir.
— Desculpa o atraso – ele deu um leve sorriso. – James, Frank e Fred estavam me convencendo a não vir fazer o trabalho de Transfiguração e eu acabei perdendo a hora.
O trabalho de Transfiguração! Eu havia me esquecido completamente. Era o único trabalho que eu não havia feito pelo fato de ser em dupla; Lorcan e Alice fariam em uma aula vaga que eles tinham amanhã e seus companheiros também, mas eu não queria usar minha aula vaga para isso (eu estava planejando fazer deveres que os professores passariam amanhã, sim, sou uma aula super aplicada e não gosto de deixar as coisas para última hora e a aula de Tranfiguração era amanhã depois da aula vaga) e havia insistido tanto com Zabini para fazermos o dever hoje... ainda bem que eu estava com o caderno e o livro na bolsa, já que o caderno era o mesmo que usava para anotações de todas as matérias e eu carregava todos os livros (agradecia o feitiço de expansão que minha tia havia colocado na bolsa porque eu a usava para viahar).
— Que isso! Não faz muito tempo que eu estava esperando – sorri, tentando fazê-lo acreditar.
Ele me encarou meio sem entender.
— Estou meia hora atrasado e você já estava indo embora – ele comentou.
Eu soquei seu ombro, fazendo minha melhor careta de brava e o deixando surpreso.
— Isso mesmo, Sr. Zabini! Como se atreve a me deixar meia hora esperando? Que isso não ocorra novamente! – Então me virei e entrei na biblioteca.
Eu suspirei e pensei se ele havia caído nessa, mas na realidade eu pouco me importava, só queria terminar aquilo o mais rápido possível. Era sete e meia, eu ainda tinha que fazer três poções e estava um pouco cansada. Escolhi a mesa com bastante iluminação para não cair no sono e a que possuía menos gente. Nos sentamos e começamos.
Zabini era um péssimo colega de trabalho, eu tinha que admitir. Ele não ligava para nada e, como eu estava sem nenhuma vontade de pegar no pé dele já que isso me faria perder mais tempo, acabei fazendo todo o trabalho sozinha, entregando para ele e dizendo que ele estava encarregado de terminar o desenho. Ele disse “conta comigo” e eu fiquei imaginando se deveria mesmo contar com ele.
Mas eram oito horas, a biblioteca estava fechando e eu tinha apenas duas horas para o toque de recolher.
— Boa noite, Ramona – deu Matthew quando saímos, mas estava tão atrasada que apenas sai correndo e gritei:
— Tá, okay, dorme bem, sonhe com os anjos e outras bobagens.
Cheguei ao banheiro e ele estava completamente vazio. Quando escolhi um local adequado para começar, a tal fantasma que assombra o banheiro apareceu e me encarou com ódio. Seu ódio diminuiu um pouco ao ver minhas vestes e, em vez de dizer alguma coisa, foi para um canto choramingar. Confusa, dei de ombros e agradeci por meu tio sempre me dar artefatos trouxas que funcionam na barreira protetiva das escolas; peguei meu mp3 e coloquei uma música qualquer para começar meu trabalho.
Trinta minutos depois, terminei a primeira poção e coloquei em um frasco com a tampa verde. A observei com grande admiração e coloquei dentro da bolsa, quando fui lavar o caldeirão para fazer a segunda, a menina fantasma me encarava. Eu sorri, tirei os fones e entrei em uma conversa com a mesma, achando que seria algo que deveria fazer por entrar no local dela.
— O que pensa que está fazendo? – Ela perguntou de imediato, em meio a resmungos.
— Desculpa se estou te incomodando – eu fui verdadeira. – Se quiser, posso achar outro lugar para fazer minhas poções. Eu só achei que aqui seria bom porque ninguém vem.
Ela cruzou os braços.
— Claro que ninguém vem aqui! Quem iria querer fazer companhia para uma Murta, feia, chorona e que geme? – Então ela começou a chorar.
Um fantasma com problemas de autoestima. Que coisa. Ela passou direto por mim, mas me virei antes que ela desaparecesse.
— Eu faço companhia para você! – Quando disse isso, ela parou. – Sabe, esse lugar parece ótimo para fazer minhas poções e podemos conversar sobre algumas coisas que quiser. Se quiser também posso trazer alguma coisa para você... mas não sei o que fantasmas gostam.
Ela não respondeu, apenas continuou a flutuar e desapareceu. Dei de ombros, coloquei novamente o mp3 e voltei aos meus afazeres. Eu gostava de fantasmas, mas infelizmente eu não tinha tempo para cuidar da autoestima de um que nem sequer queria que conversasse com ele. Talvez fosse o dia, mas ela parecia bem chateada com algo. Ou fosse ela mesmo.
Demorou quarenta minutos a segunda poção, mas quando terminei, estava tão alegre que havia terminado de prepara-la que cheguei a cantarolar junto com a música; guardei em um frasco com a tampa rosa, rodopiei em uma dança desajeitada e fui lavar novamente o caldeirão, ao terminar vi que faltava quarenta minutos para o toque de recolher. Como havia deixado a Poção Aromática por último, que era a que eu mais estava acostumada a fazer e por isso não demorava mais de vinte e cinco minutos, decidi que dava para fazer tranquilamente. Me sentei novamente no chão e comecei a fazê-la, cantando baixinho.
Não demorou para a Murta aparecer novamente. Dessa vez, ela estava interessada na minha cantoria. Eu tirei os fones, sorri ao olhar para ela e coloquei a água no caldeirão, começando minha poção. Acrescentei, tentando puxar um assunto:
— Gosta de música?
Ela não estava querendo conversar. Eu tirei os fones e coloquei a música um pouco alto, a deixando ouvir e assim foi por mais um tempo. Demorou cerca de dez minutos para ela voltar a falar e estava na metade da poção, feliz por saber que deveria chegar na Sala Comunal antes do toque de recolher.
— Isso é legal – ela comentou.
Eu sorri.
— Música trouxa – disse. – Eu adoro. Meu tio me deu esse mp3 quando entrei para a escola, ele achou que seria útil, já que eu amava música e apetrechos são proibidos no castelo. Ele enfeitiçou para que eu pudesse usar aqui dentro. Esse mp3 é bem antigo, mas é bom.
Ela concordou.
— Se trazer mais dessa música trouxa, eu deixo usar meu banheiro – anunciou, o que não fazia lá tanto sentido, já que ela havia escutado a música apenas dez minutos e eu estava ali há uma hora e meia. Decidi não comentar isso e apenas sorrir.
— Pois bem, temos um trato!
Ela respirou fundo e se encantou com o cheiro da poção.
— Que poção cheirosa! – Disse. – É uma Poção Aromática? Vai dar de presente para algum garoto? – Ela me olhava de um modo safada que me perguntava como uma fantasma poderia ter.
Eu apenas gargalhei.
— Não, esse é o meu perfume! – Enfatizei. – Não daria algo assim para um garoto.
— Hum... – Ela sussurrou. – Pode me dar um pouco da poção?
Que garota gananciosa! Além da música, parecia que a poção também seria moeda de troca. Encarei o conteúdo e assenti, eu poderia dar um pouco a ela e depois de um mês ou dois fazer mais, não iria morrer por conta disso e amava fazer poções, era certamente a minha matéria preferida, mesmo que eu fosse melhor em feitiços. Havia feito muitas poções desastrosas no meu primeiro ano. Tive que ter aulas extras com a Profa. Morais por seis meses para chegar onde estou e isso me deu um amor por poções (a professora era bem legal também, amiga de minha tia, o único motivo para ter passado seis meses me dando aulas extras).
Quando terminei e coloquei o conteúdo em meu frasco de perfume trouxa, coloquei metade em outro frasco e ela estava animada pela primeira vez que a vi, pedindo para jogar um pouco do conteúdo no banheiro, já que ele cheirava muito mal. Eu concordei, joguei um pouco e deixei o resto do frasco escondido ao lado de seu vaso preferido, ela me fez prometer que iria ali de vez em quando a passar ali e jogar um pouco da substância no ar, já que ela não podia segurar objetos.
Eu aceitei. Só esperava me lembrar disso...
Sai animada com meus vinte minutos para chegar a minha Sala Comunal. Andava um pouco rápida, já que não queria detenção por algo tão trival. Estava perto da minha sala comunal quando encontrei a monitora da Corvinal, a garota irmã de Dominique. Ela me encarou com um sorrisinho.
— O que faz fora da cama?
Eu, então, encarei meu relógio de pulso. Havia se passado um minuto do toque de recolher. Sério isso, produção?
— Já estava indo para o meu Salão Comunal – disse, apontando para as cozinhas, já que o salão ficava lá perto.
Ela me encarou por longos momentos e depois a minha mochila.
— Estava estudando? – Perguntou.
— Oh, sim! Estava fazendo um dever de poções – isso era pra caso ela quisesse dar uma olhada na bolsa, já que encontraria o caldeirão, umas poções feitas e vários ingredientes.
Ela deve ter reparado que meus cabelos mudaram de cor. Eu não tinha controle sobre a minha metamorfomagia, eles mudavam de cor quase que diariamente, tinha dias que nem eu conseguia fazê-los ficarem da cor que desejava; por esse motivo, na minha antiga escola, era chamada de Camaleã. Ela sorriu.
— É metamorfomaga? – Perguntou.
Agora eu me pergunto o que ela pensaria se achasse a Poção Cabelo Color, afinal era uma poção tão inútil para mim que nem dava para inventar uma desculpa plausível... então levei em conta que podia dizer que era para outra pessoa.
— Sim – sorri de volta.
Ela deu um sorriso maior.
— Meu namorado também é – disse, então. Que papo, em? – Sou Victorie Weasley. E você?
Weasley. Parece que aquela escola estava infestada de Weasley.
— Ramona Castellyn.
Ela pareceu se lembrar e sorriu novamente.
— Oh, claro, havia me esquecido! É a menina que veio de Castelobruxo. Você está arrasando os corações dos professores – ela riu. Eu ri também, pois sabia que esse “arrasar de corações” ia durar pouco: até eu começar a extravasar. – Até o Prof. Skruses estava falando de você. Bem, por ser nova na escola, vou deixar essa passar. Mas espero que não se repita, lufana! – A última frase foi tão autoritária que me deu medo.
— Certamente, irmã da Dominique – fiz uma leve reverência e sai correndo.
Depois eu pensei que teria sido melhor chamá-la de Victorie e não irmã da Dominique. Mas já havia passado, era coisa de tempos atrás, então apenas me concentrei a chegar na Sala Comunal o mais rápido possível. Entrei, não encontrei nem Lorcan nem Alice na Sala Comunal, então fui para meu quarto. Alice estava andando de um lado para o outro, as Barbies riram quando me viram chegar e Amy estava, como sempre, lendo.
— O que estava fazendo lá fora depois do toque de recolher? – Gritou ela.
Eu ergui as mãos em protesto.
— Eu só me atrasei seis minutos, mãe! Me dê uma folga. Vou banhar!
Joguei a bolsa em minha cama, peguei meu pijama enquanto ela dizia o quanto eu fui irresponsável e, se eu estava mesmo pensando em fazer o que havia dito, ela mesmo iria me fazer me dar mal. Eu suspeitava que era blefe, mas iria descobrir quando fizesse. Ela falou até eu entrar no banheiro e fechar a porta, quando sai, ela já estava dormindo. Eu estava exausta e segui o exemplo de minha amada mamãe Alice Longbottom e fui dormir.
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