O quarto da minha tia tinha tanta tralha que era difícil saber onde ela havia colocado minha varinha. Mas, com minhas habilidades de recuperar a varinha quando minha tia a pegava (que era muitas vezes), eu consegui recuperá-la bem facilmente. A guardei no cós da minha calça e sai do quarto bem devagar. Quando entrei no meu quarto, me assustei com Alice sentada em minha cama com um gato.

— Não sabia que tinha um gato – ela comentou enquanto eu fechava a porta. Encarei o bichano castanho.

— Não é meu. Esse gato entra aqui todo dia, acho que me adotou – comentei, andando até eles. Eu olhei a janela quebrada. – Desde que eu quebrei minha janela. Entretanto... — Tranquei a porta, sorri e tirei a varinha: — Consegui!

Ela me encarou.

— Você roubou a varinha?

— A varinha é minha – coloquei a mão na cintura. – Eu apenas a recuperei. Ah, eu sempre faço isso, me surpreendo que minha tia continue com essas coisas – então dei de ombros. Sorri novamente. – Afinal, por que vive no Beco Diagonal? – Perguntei, me sentando ao seu lado e olhando o gato afiar as unhas na minha cama. Revirei os olhos.

— Minha mãe é dona do Caldeirão Furado. Nós moramos lá, por assim dizer – ela sorriu. – Se eu ficar em casa minha mãe me força a trabalhar, então eu fujo de vez em quando...

— Ramona! Cuide do caixa, por favor! – Gritou minha tia.

Ah, não, de novo, não!

Eu encarei Alice, sorrindo. Então simplesmente abri meu guarda roupa, peguei minha vassoura e fui até a janela, agradecendo pela primeira vez que havia a havia quebrado. Alice me encarou com um pouco de medo.

— Oh, não, eu não voo.

— O quê? Por quê?

— Tenho medo de altura.

— Só não olhar para baixo.

— Ramona! Anda logo, eu vou subir se demorar mais cinco minutos! – Minha tia gritou novamente.

Eu encarei Alice de novo.

— Desculpa, mas se não for comigo, você fica e vai ouvir minha tia reclamar o dia todo sobre mim – eu sorri e sai pela janela, andando pelo telhado. Olhei para trás e ela estava olhando pela janela.

— Sério, eu morro de medo de altura. Vou ficar aqui.

A olhei com pena.

— Sério, não vai gostar de conversar com a minha tia o dia inteiro. Ela vai falar da vez que soltei diabretes no refeitório, ou da vez que deixei um caipora entrar no dormitório da Tribo Joaci, ou da vez que...

— O que você faz da sua vida? – Ela me encarou com um pouco de medo. – Me lembra o James.

— James? – Perguntei, depois dei de ombros. – Vamos, vai.

Ouvimos minha tia subir as escadas.

— Ramona, eu...

— Vem – murmurei, puxando para o lado. Subi na vassoura e encarei Alice, que parecia estar com muito medo. – Anda logo – disse.

Minha tia abriu a porta.

— ... mandei você vir.

Ela subiu na vassoura e me abraçou tão forte que pensei que iria me sufocar. Começamos a voar, tentei voar alto o suficiente para que ninguém nos visse com facilidade, mas a Alice gritando foi fácil eles nos perceberem. Depois de um minuto com ela gritando, apertando suas enormes unhas em minha barriga e meus ouvidos começarem a doer, resolvi que era hora de aterrissar.

Aterrissamos. Ela tremia tanto que pensei que fosse desmaiar, mas apenas se sentou e respirou com dificuldade. Me senti mal depois daquilo e...

— Juro que nunca mais te faço voar – disse, me sentando ao seu lado. – Desculpa mesmo. Entretanto, pelo menos não vai escutar as histórias sobre mim pela boca da minha tia. Ela faz parecer que eu sou uma delinquente juvenil.

Ela me encarou.

— E ela não tem razão?

— Um pouco – dei de ombros. – Vamos falar de outra coisa. Você é da Lufa-Lufa, não é? Qual casa acha que eu serei?

Ela não pensou nem um momento.

— Sonserina. Você é mal.

Eu levei a mão ao peito, em um choque falso.

— Cara, não sou! – Tentei me defender, depois dei de ombros. – Acho que não faz diferença, na real. Qualquer uma está boa.

— Sério? Sonserina é a casa da Isabelle, seria um porre ficar na mesma casa que ela e, provável, no mesmo quarto.

— Você parece odiar muito essa garota. O que ela fez?

— Ela me atormenta dia e noite. Desde o primeiro dia, quando não quis ser amiga dela e depois fui para Lufa-Lufa... ela me chama de traidora de sangue por conta que meu pai ajudou a derrotar Você-Sabe-Quem e outras coisas.

— Ah, sim. Pensei que essa coisa tinha terminado junto com a guerra – comentei, meio sem me importar muito.

— Até que são bem poucos os que ligam. Todos sonserinos, por falar nisso.

— Isso é um tipo de preconceito? – Eu sorri, a encarando. Ela não respondeu. Eu ri. – Olha, temos uma preconceituosa aqui.

— Eu? – Ela me encarou com os olhos arregalados. – Não tenho preconceitos.

— Parece ter contra sonserinos – comentei, depois dei de ombros. – Não me importo. Bem, o que vamos fazer nessa bela tarde?

Ela pareceu pensar.

— Não faço ideia – deu de ombros.

Eu sorri, pensando em algo.

— Então você é filha da dona do Caldeirão Furado? Hum...

Logo ela entenderia que deixar para mim decidir o que fazer nunca seria uma boa ideia.

E lá estávamos nós, do lado de fora do Caldeirão Furado, escondidas e prestando atenção em todos por um pequeno furo. Eu tirei minha varinha, dando um pequeno beijo nela, e encarei Alice. Ela não parecia confortável.

— Ah, vamos, isso vai ser divertido – disse, sorrindo.

Ela não parecia achar isso divertido.

— Se acharem lagartixas nas sopas de minha mãe não vai ser uma má imagem para ela? – Perguntou, cruzando os braços.

Eu sorri.

— Ah, vamos, não é bem assim.

— Pare de dizer “ah, vamos”.

Ri mais ainda.

— Ah, vamos, não seja rabugenta – quando ela abriu a boca para continuar, eu a tampei com a minha mão, ela me encarou raivosa, eu apontei a varinha pelo buraco e murmurei: — Veja como travessuras valem a pena, cara Alice. Wingardium Leviosa.

Uma sopa começou a levitar. Alice olhava a tigela que passava pelos clientes com espanto, pensando no que eu faria, enquanto eu apenas estava esperando alguém para derramar a tigela, mas ninguém parecia bom o suficiente para isso; até ver quatro pessoas sentadas.

Um deles parecia muito Alice. Era a Alice em forma masculina, mas parecia mais ousado que ela, enquanto o outro tinha cabelos negros e bagunçados, pele clara, olhos verdes, um ar de bad boy. Outro tinha a pele mais escura, sardas pelo rosto, cabelos ruivos longos e olhos negros. O outro tinha cabelos grandes em dreadlock, olhos negros e era negro também.

Eu escolhi a cópia de Alice. Eles perceberam quando a sopa ficou em cima do garoto e, quando isso aconteceu, eu abaixei a varinha com um sorriso maldoso no rosto; a tigela caiu com tudo e deveria estar quente, pois o garoto gritou. Os demais riram, assim como eu. Quando olhei para trás, Alice estava com o maior sorriso da vida, muito alegre e satisfeita, pareceu entender como aquilo valia sim a pena.

— Isso foi incrível! Você acertou meu irmão!

Me senti sortuda ao ter acertado a pessoa certa para fazê-la entender como aquilo era legal. A melhor parte: eles nem suspeitavam de onde aquilo viera. Alice e eu nos levantamos rapidamente e começamos a correr, eu carregando minha vassoura desleixadamente.

Depois daquilo foi fácil fazê-la testemunhar outras “peças”. Nós assustamos meninas com insetos, que saíram correndo com gritos femininos que me faziam rir muito, assim como soltamos uma bomba de bosta em uma loja de animais e fizemos todos saírem correndo assim como alguns animais, ensinei ela a roubar alguns doces de uma loja (não me julguem, não sabe pelo que eu passei), além de ensinar algumas outras coisas que poderiam ser uteis a ela futuramente.

Terminamos o dia sentadas em nas escadas de uma loja qualquer tomando sorvetes, comprados honestamente. Ela parecia bem feliz com a tarde que havíamos passado, eu também, afinal era bem mais legal aprontar com alguém do que aprontar sozinha.

— Foi bem legal hoje – ela comentou.

Eu sorri.

— Que bom que gostou. Eu disse que compensava! – Então, observei o céu. – Bem, é hora de irmos para casa, não é?

Ela assentiu.

— Amanhã pegamos o trem – ela afirmou. – Vamos para Hogwarts.

Eu sorri.

— É bom saber que vai comigo – dei um abraço de lado em Alice. – Vai ser incrível!

Ela vacilou um pouco.

— Mas em Hogwarts não faremos tantas coisas como aqui – ela alertou. – Eu tenho uma imagem a manter, notas para tirar e um futuro que não quero que nada atrapalhe.

A encarei com um sorriso um pouco maldoso.

— Futuro? Qual?

— Vou ser uma auror – ela anunciou. – Quero ser chefe da Secção de Aurores.

Eu assenti.

— Bem aceitável.

— E você?

Dei de ombros.

— Não penso muito nisso. Acho que um dia eu decido, por enquanto, quero apenas aproveitar minha adolescência enquanto posso e ficar sem nenhum arrependimento!

Ela devolveu um sorriso.

— Entendo. Pois bem, já vou! Vai ser hilário encarar meu irmão e ele nem sabe que fomos nós! Ou melhor, você.

— Fomos nós – afirmei. – E, se quer que maneiramos em Hogwarts, vamos ser bem lights.

Ela pareceu feliz. Se levantou e foi embora, dando um “boa noite”. Eu terminei meu sorvete, subi em minha vassoura e voei até em casa, não sem antes dar uma volta no Beco Diagonal na luz do luar. Eu estava feliz quando aterrissei no meu telhado e entrei em meu quarto. Então encarei o gato deitado em minha cama, todo folgado.

— Olá, folgado. Dormiu o dia todo? – Perguntei. Vocês poderiam dizer “gatos não respondem”; “animais não falam”. Mas isso será uma coisa que vão aprender sobre mim. Para mim, animais falam...

“Sua tia está brava” ele disse. Eu nunca liguei em escutar os animais, mesmo quando minha mãe disse que isso era loucura da minha cabeça e certamente eu era esquizofrênica; depois disso e de meus coleguinhas de sala disserem que sou louca, maluca e coisa e tal, nunca mais falei para ninguém que eu sabia falar com animais. As únicas pessoas que sabiam que eu falava com animais eram minha mãe, meus tios (Eleonor e Egenor) e Melissa. Minha mãe me considerava esquizofrênica e quando meus tios descobriram disseram para não contar para ninguém... Melissa havia descoberto. Não tinha nada que eu escondesse dela.

— Ah, sim. Eu também estou – informei, cruzando os braços. – O que ela pensa, em? Que pode me colocar em Hogwarts e que serei comportada?

“Você é muito rebelde sem causa”.

— Você é um gato muito engraçado. Que tal eu te jogar do telhado e ver você cair em pé?

O gato pulou da cama e saiu pela janela, andando pelo telhado...

“Se me pegar”.

Gatos. Revirei os olhos.

Era melhor eu arrumar minhas coisas e dormir, de qualquer jeito.