Rainy Sun

2 Capítulo 1


Notas iniciais
Oi, primeiro capítulo (eles serão normalmente curtos...), boa leitura!

1

No mais, mesmo, da mesmice, sempre vem a novidade. —Guimarães Rosa

Começos. Eu odeio começos. São sempre maus começos. Hoje, pela manhã, acordei pensando que minha vida, afinal, tinha um propósito; um deles, era ir à escola. Bom, isso foi pela manhã, isto é, quem acorda no seu mais perfeito juízo? Ocorre que, agora, correndo em círculos pela quadra, em uníssono aos berros do treinador, estou prestes a entrar em uma crise existencial para não mais sair dela. Hoje, pela manhã, apenas me iludi. Não, eu realmente não vejo uma razão prática em ficar correndo em círculos, exceto a demência do meu professor, e minha em obedecê-lo fielmente, tipo another brick in the wall. Isso justifica, e é basicamente nisso que se resume a escola — a um clip do Pink Floyd.

Estava pensando em revidar os gritos "motivacionais" do treinador com alguma maldição, quando de súbito, todos param e eu quase derrubo a menina que está na minha frente. Todos os olhos se dirigem para um canto extremo da quadra, próximo da porta, e aqueles olhos julgadores e críticos passam a fulminar um pequeno elemento de cabelos pretos. Um garoto qualquer, possivelmente transferido, pois nunca o vi antes, apesar de nunca prestar atenção nos meus colegas de qualquer forma. O garoto caminhou vagarosamente até o treinador, cauteloso e ao mesmo tempo insondável.

— Você o quê? — Bach berrou, senti uma ferroada nas têmporas. — Junte-se ao resto, estamos nos aquecendo. Ahn? Não vai fazer as atividades? Bom, eu não me importo de já suspendê-lo por um mês! Quanta insolência!

E o garoto saiu dali, e a turma continuou aquele pandemônio aleatório, e passamos a correr novamente, feito moscas tontas. Me senti mais uma vez, absurdamente ridícula, e enquanto o treinador não olhava, tomei a liberdade de escapar da aula, e ler alguma coisa debaixo das arquibancadas do campo de futebol. Era um hábito desde o primeiro ano. E eis que o garoto estava lá, sentado, como quem perdeu as esperanças no que quer que seja. Esgueirei-me cautelosamente, tentando não ser vista (inutilmente), e tirando da mochila um livro, passei a lê-lo, esquecendo-me da presença do garoto.

Alguns minutos depois, minha leitura fora interrompida por uma voz baixinha, porém muito clara e musical.

— Você também gosta de Kafka?

— Sim. — E retomei a leitura.

— Você não acha que os livros do Kafka lembram os quadros de Escher? — Respirei profundamente antes de responder que nunca tinha parado para pensar nisso, mas quando o garoto percebeu que estava me perturbando, levantou-se de súbito, provavelmente prestes a sair dali.

Suspirei.

— Não quer sair da escola pra tomar um café? — Foi de repente, e saiu sem querer. O garoto simplesmente assentiu. Mas pra quem fala de Escher talvez a pergunta não tenha soado tão estranha ou repentina. E lá fomos nós, tomar um café.

— Minha mãe quer que eu faça Direito, mas sempre ameaço ela contando a história do Kafka. — O garoto riu. — Sua mãe é assim?

Sobressaltei-me com a pergunta. Eu não via minha mãe há tanto tempo...

Notas finais
Comentem, podem até dar sugestões de ideias caso queiram... É isso, não sei quando postarei o próximo, mas como são capítulos curtos, acredito que não demore mt pra atualizar. Enfim, até. :*
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.