Rainha De Copas
8 Capítulo oito
A caravana real rangeu e sacudiu sem descanso por um dia inteiro até o rei cansado avistar um belo rio e ordenar que parássemos em sua margem para acampar naquela noite.
A área era cercada por altos pinheiros de cor verde bem escura que farfalhavam com a brisa suave que vinha do oeste, o leito era uma mistura de areia e grama rala com algumas pequenas pedras pelo caminho. Mas a água era o que chamava atenção. Diferente do rio perto da vila de Prata, a água deste era escura como o breu da noite, o que aumentava a beleza do lugar.
Entretanto o cenário não parecia alcançar o Valete que nem um pouco contente com a decisão do rei, aproximou-se com o seu cavalo às pressas da carruagem.
Desmontou de forma ruidosa e com uma reverencia rápida falou ao rei pela janela.
—- Majestade aqui não é um bom local, é perigoso. Vamos andar mais um pouco e...
—- Não seja bobo, que belo lugar estamos, é fresco e amplo, que problema pode ter?—Tinha seu sorriso brilhante em seus lábios, enquanto lançava um olhar cético ao seu servo. Valete por outro lado franziu levemente as sobrancelhas.
—- Há piras nessa área, meu senhor. --- Disse calmamente, mas com uma feição preocupada.
—-- Piras? Poupe-me valete, quer me fazer andar mais, por causa dessas criaturinhas. Ora! Ficaremos aqui! Com o número que estamos, elas não virão. --- Seu tom era final e seu olhar era perfurante, o desafinado a contestar, valete abaixou a cabeça em submissão e se afastou com uma reverencia simples. Meus olhos acompanharam sua figura até onde pode, pois logo desapareceu entre os soldados dando ordens para a montagem do acampamento.
O rei saiu primeiro da carruagem esticou os braços para cima e pude ouvir o estalar de seus ossos, quando se virou para mim parecia mais aliviado.
—- Venha minha bela flor, vamos dar uma volta. --- O novo apelido me fez corar como rosas vermelhas, ele esticou a mão para mim com delicadeza e firmeza. Caminhamos pela margem do rio de águas escuras de braços dados.
Ficamos em silencio por um tempo. Sentia-me meu coração martelar em meu peito e minhas bochechas não davam sinal de descanso, continuavam tão quentes quanto na carruagem, o contato de nossas mãos e a proximidade não ajudava nem um pouco para me acalmar. Forcei minha mente a se distrair com outra coisa e as piras vieram a mente. Limpei a garganta de um jeito não muito educado e perguntei timidamente.
—-- O que são piras? --- Minha voz saiu mais como um sussurro, por isso tive que olhá-lo para ver se tinha me escutado. Seu olhar estava distante e calmo, parecia absorto em seus próprios pensamentos, tanto que tinha certeza que não tinha me escutado, levei um susto quando sem me olhar respondeu.
—-- Piras são peixes pequenos que atacam em cardume até fora da água. – Lancei um olhar para o breu.--- Não se preocupe senhorita, meus soldados sabem o que fazem. --- Dito isso, tocou meu rosto com carinho, suave e delicado eram suas mãos. Voltei meu olhar para ele e dessa vez nossos olhos se encontraram, profundos olhos azuis que remetiam tranqüilidade. Ele sorriu para mim de forma a me confortar de meus medos.Ele era como o sol,radiante, não dava para ficar indiferente ao seu lado, sem perceber estava sorrindo também.
Quando a noite caiu, o acampamento já estava pronto e tinha algumas fogueiras espalhadas ao redor das poucas barracas. Após o jantar alguns soldados foram escalados para a vigília enquanto os outros foram dormir a maioria ao relento da noite.
Quanto a mim, eu tinha minha própria tenda, fora posta uma cama de peles de animais que nunca conheci, mas que as peles eram tão macias que em pouco tempo já estava na terra dos sonhos.
Durante a noite nada se ouvia a não ser o uivar do vento, até que já em um sua metade, um grito de dor cortou a tranqüilidade. Em pouco tempo mais gritos se juntaram.
Da minha tenda podia ver a sombra do fogo se alastrar e a correria dos soldados pelo acampamento.
Levantei e da fresta da tenda vi o pandemônio que ocorria.
Homens caídos sendo devorados por vulto pequenos, vultos pretos que andavam juntos como uma matilha ou um cardume de peixes. Os que ainda estavam de pé agarravam tochas para espantar e desferiam golpes com o fogo nas criaturas, mas alguns quando se descuidaram eram pegos por trás e logo devorados. Uma mordida era seguida de milhares de outras, o ataque era mortal.
Na tenda do rei só se via fogo alto, o valete não segurava uma tocha, mas de suas mãos brotavam bolas de fogo que usava para incendiar as malditas piras. Meu coração que já estava aterrorizado pulou uma batida ao ver um feiticeiro tão de perto.
Um vulto passou pelo canto dos meus olhos chamando a atenção para meus pés. Em um pulo cai no chão de costas tentando me afastar da pira que tinha entrado em minha tenda. Era um ser esquisito e andava de forma desengonçado. Tinha o corpo com o formato de peixe, mas possuía quatro patas, tinha uma boca enorme para seu pequeno corpo que estava lotada de afiados dentes. Seus olhos desfocados pretos mandavam uma onda gelada pelo meu corpo.
Afastei-me mais para o fundo da barraca, e em um segundo depois, a pira pulou em mim, joguei uma das peles nela o que impediu de me morder e saí correndo da tenda.
Meu foco era a cabana do rei.
Passei pelas carcaças dos soldados, do fogo incontrolável e das piras enlouquecidas. Medo me definia naquele momento. Sentia gelar meu peito até a garganta de uma forma sufocante enquanto queimava minhas pernas na corrida.
Na correria tropecei e fui de cara ao chão. Atordoada só notei o vulto se aproximar de mim quando já era tarde para correr, em um movimento fluido deram o pulo, mas foram incinerados no ar.
Senti-me mover, alguém agarrou firmemente meu braço e me jogou dentro da tenda do rei.
O fogo devorava alguma das cabanas e ficando incontrolável, as piras começaram a recuar com medo. Os cavalos enchiam o ar com seus gritos de desespero, alguns tinham sidos devorados outros parcialmente, beirando entre a vida e a morte. Por nossa sorte os cavalos da carruagem estavam vivos e o valete escoltou o rei e eu até a carruagem mais rápido que pode.
Ela foi posta em movimento, parte dos soldados acompanhou, outra ficou tentando salvar os suprimentos. No fim deixamos aquele belo lugar crepitando em chamas e com a metade de nossa caravana naquele leito.
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