Rainha De Copas
4 Capítulo quatro
Notas iniciais
Os anos se passaram de forma rotineira, pelo menos para mim. Quando Leif estava em serviço que exigia seu afastamento por dias da vila, eu acordava cedo e ia direto a casa do tio, passava praticamente o dia todo sendo ensinada por tutores contratados por ele, contas, etiqueta e costura tudo que uma mulher precisa saber para organizar a casa, diziam.
No meio da tarde, já liberada, voltava para casa, arrumava quando precisava ou passava até a noite brincando sozinha no jardim, já tinha me conformado que não teria companhia das outras crianças, não enquanto morasse com um de sangue. Mas, às vezes, quando o tédio tomava a alma eu desobedecia meu irmão e escondida ia até a clareira que ficava em meio à floresta, não muito longe da vila. Era um local especial para meu irmão e eu, ele costumava me levar parar ver seu treinamento e passarmos um tempo juntos longe dos olhos venenosos da vila.
Já quando Leif estava na vila ele brincava comigo, isso quando não se encontrava machucado, seus trabalhos eram extremamente perigosos e por algum motivo ele sempre pegava a parte mais violenta. Voltava normalmente ferido, mas graças à maldição, por mais engraçado que soe, ele sobreviviam a elas.
Tínhamos crescido, eu, tornei-me uma bela mulher, agora com os meus dezesseis, com meus longos cabelos anelados pratas que batiam na cintura, sempre soltos, pois gostava da sensação do vento mexendo neles, meu rosto levemente arredondado, nariz arrebitado e grandes olhos azuis (traço que ainda guardava da infância). E meu irmão tornou-se um belo homem, estatura mediana, com cabelos curtos vermelhos, seus olhos, da mesma cor, estavam sempre em guarda, se tornou musculoso, mas não muito, seu sorriso era raramente visto, de seus braços e da gola de sua camisa algumas cicatrizes das batalhas e outras do temperamento de nosso pai eram vistas.
Falando de Leif lembro-me de quando um dia chegou em casa batendo a porta irado, resmungando palavrões a torto e a direito.
Ele tinha fechado um trabalho com um grupo de mercenários, algo muito raro, pois quando atingiu quatorze anos passou a trabalhar sozinho por estar cansado de ser tapeado, recebendo a parte menor quando fazia a parte mais perigosa ou não proporcional ao que fazia realmente. Então ele aprendeu a trabalhar sozinho era melhor desse jeito. E assim não corri o risco de “ah! Esqueci de cobri as suas costas”, mas nesse dia ele tinha aceitado fazer um trabalho com esse grupo. E na hora de ser pago ele recebeu a parte menor, não me lembro mais o porquê, só sei que meu irmão aceitou sem brigar, mas ao chegar em casa ele mostrava seus verdadeiros sentimentos.
Eu tinha dificuldade de entender o porquê dele não bater o pé e dizer “Ei! Não é justo” ou “me de a parte certa”. Revoltada, nesse dia por sua situação o confrontei.
—-- Por que não brigou? Não falou que não era justo?--- Ele olhou para mim, cruzou os braços e riu de desdém.
—-- Justo? A vida não é justa! Vou brigar e aí? Vão me odiar mais ainda. Você pode espernear. Você tem a proteção do tio, você tem cabelos pratas, e eu? Eu não, eu tenho esse cabelos nojentos de sangue, eu sou asqueroso... Minha própria existência é como uma doença, uma praga. Vou criar mais ódio. As pessoas podem me aturar por causa de uma lenda, mas por quanto tempo? E se o nojo e raiva forem maiores? Teoricamente não podem me ferir diretamente, mas há você, ou se esqueceu. A vida não te protege. Sabia? Já pensou? --- Isso me calou completamente, as lagrimas enchiam meus olhos. Implorei perdão, ele estava me protegendo e eu o atacando.
Ele suspirou. Lembro do seu olhar pesaroso e suas palavras:
—-- Não será por muito tempo minha irmã. Eu irei consegui, mesmo que lentamente por causa desses trapaceiros sabotadores, eu irei conseguir juntar dinheiro suficiente para que nos dois possamos sair desse lugar, possamos ir para capital onde fica o reino, eles não se importam com essa coisa de “de sangue” apenas essa maldita vila se importa, e talvez nem precise trabalhar como mercenário, com minhas habilidades poderei ser um soldado do reino, viver naquela área.--- Complementou rindo --- E quem sabe, um dia você encontre o rei.
—-- Minha irmã, nos dois teremos uma vida muito melhor, melhor que nesse chiqueiro com essas pessoas, viveremos uma vida melhor, eu te prometo isso.
Depois de nossa conversa, dei a desculpa que tinha lições e compras para casa e retirei-me às pressas, queria um tempo a só, meus pés me levaram até a clareira. E lá eu fiquei, sentada nas pedras, remoendo nossa conversa de novo e de novo até um barulho de galhos quebrando chamar minha atenção.
Era pequeno e estava vestido de terno e cartola ambos roxas com estilo da capital de Wonderland,cheia de frufru nas pontas,lenço no chapéu e no bolso de cima do palito, mas desgastado, como se fosse os únicos a serem usados. Seu rosto revelava certa idade que era contrastada pelo sorriso infantil que levava. Seu jeito de andar meio afetado e jocoso era chamativo, parecia não ter equilíbrio, usava uma bengala para se manter em pé. Entretanto seus olhos desfocados revelando seu pensamento longe do presente.
“Que cara estranho” pensei ao ver se aproximar calmamente da clareira. Parando a uns dois metros, finalmente olhou diretamente para mim.
—-- Erva daninha ou arbusto?
—-- O quê?
—-- Erva daninha ou arbusto?--- Repetiu em um suspiro.
—-- Eu não entendo.
—-- Você é uma erva daninha ou um arbusto? Pois árvore com certeza não é! Nanica assim! Erva daninha é bem provável, estranha como é!--- Falou pensativo.
—-- Ei! Não sou estranha!!--- Em um pulo estava de pé.
—-- Mas nanica você concorda.
—-- Também não!! --- Seu sorriso revelava sua intenção, queria me provocar. “Não vou cair nisso!” Pensei. Dei a meia volta e comecei a me afastar, até ouvir.
—-- Espere senhorita, não quis te aborrecer! Volte! Deixarei que seja uma árvore!--- Virei para o homem novamente, “que cara estranho!” esse pensamente repetia. Mas a curiosidade tomou conta de mim e permaneci onde estava sem me aproximar.
---O quê? --- Perguntei irritada.
—-- Só queria conversar, mas acho que meu tópico não foi o melhor.--- A última parte murmurou para si.--- Mas funcionou! É o que importa!----Exclamou com um sorriso maior ainda, não sabia que era possível sorri tanto assim.
—-- E por que você quer falar comigo?
—-- Por nada em especial, só queria conversar com alguém, ultimamente não tenho recebido muita visita, sabe?
—-- Não.
—-- E gostaria de alguma companhia para o chá da tarde, e o que não é uma bela companhia, que uma senhoria como você? --- continuou, ignorando minha resposta. --- Por que não vem tomar chá comigo em minha casa? É só descendo aquela trilha ali, perto da cachoeira.
Olhei para o cara, incrédula. Ele me achava uma idiota, era isso!
—-- Não! Seu pervertido!--- Me preparei para correr em qualquer sinal de movimento dele.
—-- Pervertido? Eu? Talvez.... --- Fez ma cara pensativa --- Sou um pervertido pelo chá! Melhor invenção da humanidade! Tem certeza que não quer me acompanhar?
—-- Não! Vá embora! --- Ele sorriu, mas dessa vez parecia aliviado. Como se fosse essa a resposta que realmente queria ouvir.
—-- Que bom, tem auto-preservação, fiquei preocupado sendo que você vem freqüentemente nesse mesmo local afastado, sozinha e com a aparência de não ser capaz de se proteger.
—-- O quê?
—-- Não deveria andar sozinha em lugares como esse, mesmo acompanhada não é uma boa escolha senhorita, a monstros escondidos nas sombras das árvores preparando o bote. --- Dito isso ele deu meia volta e foi embora. Esse pervertido queria algo comigo, mas não tinha entendido o que era.
E com aquela conversa sem sentido acabei demorando para as minhas tarefas, então corri pela vila indo até as quitandas em busca das compras, infelizmente não achava, minha ultima chance era uma quitanda mais no final da vila, não era meu lugar favorito de ir, principalmente a noite, pois raramente os soldados andam por lá ou quando andam é para se engraçar com alguma mulher da vida.
Entretanto ser pega na mentira era pior, não queria chatear meu irmão mais do que eu tinha essa manhã, então contra o bom senso eu fui.
As ruas eram mais estreitas, de terra batida e mal iluminada com tochas, acelerava em cada beco, algumas homens passavam e lançavam olhares para mim, quando acompanhados as mulheres faziam cara feia.
Cheguei na quitanda e dei de cara com uma velha, ela já estava guardando as coisas, mas me vendeu o que precisava, sai carregando com as compras em uma sacola velha, assustada com o passo acelerado para casa, não via mais ninguém na rua.
Além do barulho dos meus passos ecoando havia o crepitar do fogo das tochas que mal iluminavam as ruas e nada praticamente iluminava os becos.
Na esquina, encostado no muro um soldado jovem sozinho com os braços cruzados, um soldado de hierarquia baixa, provavelmente tinha minha idade, tava simplesmente matando o tempo. Olhou para mim, e deu um sorriso ousado. Acelerei o passo e olhando para frente, passei do seu lado.
Quando cruzamos, ele agarrou meu braço me fazendo girar em sua direção bruscamente.
—-- Ue? Não sabe que ignorar as pessoas é falta de educação menina?--- ele era mais alto que eu, seu aperto machucava meu braço.
—-- Me solta! Preciso ir para casa!
—-- Verdade uma mulher andando sozinha a noite no meio da rua não é seguro. Não se preocupe eu levo você, afinal eu sou um soldado. --- Não gostei do olhar que ele me lançava, nem do seu tom de voz. Seu aperto em nada afrouxou. Espremendo as compras contra meu peito, eu disse.
—-- Não precisa eu sei o caminho. Não quero atrapalhar sua ronda, obrigada. --- Dei um passo para trás puxando meu braço, consegui me livrar de seu agarro, apenas para ser novamente agarrada.
—-- Ei! Espera, que isso! Eu insisto!--- Irritada e assustada, falei alto.
—-- Não, eu não quero!--- Recebi um tapa no rosto, forte.
—-- Não aumente o tom comigo mulher.--- Com o tapa ele não estava mais me segurando, aproveitei e corri,ele se encontrava em meu encalço. Gritei alto por socorro e em um segundo ele tampou minha boca com uma das mãos e com a outra agarrou meu braço.
—-- Cala a boca!--- Eu mordi sua mão com força. Tentando me livrar. Agora ele estava com mais raiva, arrastou-me para o beco mais próximo enquanto eu lutava desesperadamente para me soltar. Empurrou-me contra a parede do beco e atingiu-me no rosto fiquei desequilibrada, tentei agarrar algumas das lixeiras para me manter em pé, mas o garoto agarrou meu pescoço jogando-me no chão. Minha cabeça bateu na terra deixando minha visão turva. Mais uma vez tentei levantar.
Fui impedida, o maldito se encontrava em cima de mim, agarrou meus pulsos prendendo acima de minha cabeça e com um sorriso pervertido forçou um beijo. Lutei com todas as minhas forças para soltar-me, mas ele era muito forte. Com umas das mãos segurou ambos os meus punhos e a outra, agora livre, se atrevia a percorrer meu corpo.
Lagrimas começaram a escorrer de meu rosto, gritei por socorro novamente apenas para ser atingida no rosto por um soco de raspão, o quê fez abrir uma brecha, me dando a oportunidade de chutá-lo entre as pernas.
Ele uivou de dor. Afrouxando seu agarre em mim, consegui me soltar e aproveitei para agarrar a primeira coisa no chão e atacá-lo. O primeiro golpe o deixou atordoado sujando a pedra em minhas mãos de sangue, enquanto ele se recompunha levantei e corri, corri com o coração batendo tão forte que parecia que ia explodir, corri sem rumo até ouvir passos apressados atrás de mim. Minhas pernas queimavam, chorava com mais força, não conseguia ir mais rápido, em poucos segundos fui agarrada novamente, gritei por socorro pela segunda vez.
—-- Qual é o seu problema, pequena?--- A voz profunda e o apelido antigo me fez abrir um sorriso acompanhado de muitas lagrimas.
—-- Tio! --- abracei com o máximo de força que eu possuía, ele não me abandonaria, não é? Não nesse momento?
—-- O que houve com seu rosto?--- Gentilmente, mas firme, segurava meu rosto de forma que a tocha em sua mão iluminasse.
—-- Fui atacada, ele queria... ---Abaixei o rosto com vergonha, soluços incontroláveis impediram de terminar, mas o recado foi entendido. Ele me abraçou com firmeza de forma a consolar.
—-- E conseguiu?--- Perguntou em um tom baixo. Balanceia a cabeça como resposta, ouvi seu suspiro de alivio. --- Venha, eu vou resolver isso.
Suas palavras foram verdadeiras, ele resolveu. Meu agressor foi morto em um “acidente”, que todos sabiam a verdadeira natureza, e eu passei a ficar na casa dele enquanto Leif estava de viajem, só por segurança. Isso deu a idéia correta a todos, não mexa comigo, tenho um conselheiro me protegendo.
Entretanto mesmo com essa atitude eu raramente via o tio. Eu sabia muito bem que a proteção dele era diferente motivada que a da tia. Ainda me lembro de sua chegada em casa querendo a carta confiada à Leif.
A porta abriu com um baque surdo e dela passou um homem alto com ombros largos e de capa longa, não se via seu rosto, mas já sabíamos quem era. Ele empurrou o capuz para trás revelando um cabelo curto prata, um rosto quadrado emoldurado com uma barba rala e olhos azuis frios.
Suas mãos tremiam enquanto segurava a carta, relia varias vezes, a realidade era muito difícil de aceitar. Quando finalmente aceitou derrota, abaixou a carta suspirando. Ele tinha perdido a “linda dama”, apelido carinhoso que chamava sua esposa, minha tia. Quando casou com ela sabia que era uma mulher inteligente e estratégica, não era do tipo de mulher decorativa que ficava atrás do marido com um sorriso, calada e neutra usando seu melhor vestido. Era do tipo que falava o que pensava, sem agredir, mas sem se submeter. É claro que a posição de seu marido no conselho ajudava, forçava aos homens engolir sua opinião e presença, a tia sabia e usava isso.
Dobrando calmamente a carta, sentou-se na cadeira mais próxima e com o olhar severo voltou-se para nós.
—- Garoto! Você estará por conta própria aos 16, até lá, como único familiar vivo de vocês, serei o guardião de ambos. Mas não se engane não te quero em minha casa, você ficará na casa de teu pai que agora lhe pertence.
—-- E a Ive?
—-- Silencio! Não me interrompa!— Leif me abraçou fortemente. – Ive, pequena, ofereço lhe abrigo em minha cas...
—--Quero ficar com meu irmão!
—--Cale-se! Já falei para não me interromper!—Seus olhos apertaram em irritação. —Se quer morar com ele, não me oponho, mas vira para aqui para lições, não posso ter em minha guarda uma menina- macho!—Suas palavras eram duras e raivosas, mas não me abalou.
Estava contente, não seria separada de Leif.
—-- Mais uma coisa! Garoto, nossas lições acabaram, arranjarei um espaço nos mercenários, se vire daí. Você está sozinho de sangue.
Depois da conversa fomos caminhamos devagar para a casa do pai, nenhum de nos querendo realmente chegar lá. Leif ainda mancava, mas seus ferimentos tinham significativamente melhorado, o que era ma boa notícia.
O silêncio entre nós era pesado, eu me lembro de ter apertado a sua mão como forma de chamar a atenção e dizer:
—-- “Cê” não ta sozinho, eu “tô” aqui, ta?—Com um pequeno sorriso sussurrou.
—--Obrigado.
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