Notas iniciais
Olá a você que decidiu vir por aqui!
Espero que aproveite a leitura!

Essa é uma história de amor, e como ele nem sempre se apresenta na forma que a gente espera. Eu recomendo a leitura junto a "bad together" "genesis" "thinking bout you" "new love" e, claro, "me beija com raiva".

Nothing can stop us, we got it all: the love, the passion... We make a great team, with you, I'm better than I've ever been

Nós estávamos fazendo as coisas à moda antiga. De pernas cruzadas, em forma de índio, eu observara os papéis impressos, recortes de jornal, classificados e o mapa todo rabiscado a nossa frente. Meu joelho nu encostava no dela e o contato mantinha um constante formigamento na minha pele, que combinado com a ansiedade do momento, me deixara elétrica. Querendo me jogar sobre ela.

― Então.... esse é o bairro escolhido?

Ela perguntou e eu confirmei, olhando para todas as anotações em meu caderninho, conferindo cada informação.

― Sim. Cabe no nosso orçamento, perto o bastante do centro para nós divertimos, fácil de pegar metrô para os nossos novos trabalhos e tranquilo o bastante para se ter uma família. E o corretor encontrou uma casa que parece ser tudo que precisamos.

Respondi, colocando tantos sonhos em uma só frase. Ela sorriu para mim, acariciando minha coxa, dando um beijo em minha bochecha.

― Então é isso. Vamos nos mudar.

― Vamos nos mudar

Repiti, sorrindo de volta e apontando para a casa que decidimos alugar. O objetivo era ir para a cidade dos nossos sonhos e enfim construir uma vida só nossa. Era um risco, uma loucura enorme. Estávamos indo agarradas a sonhos e só. Sonhos, passagens e malas. Mas nós estávamos juntas. Então era perfeito. E em um lugar onde poderíamos construir o que quiséssemos e ser o que quiséssemos, as possibilidades eram infinitas.

xxx

I need your love and I'm dying for the rush ‘cause my heart ain't got enough… Tell me that it's not the end of us. How can we go back to the beginning?

A única possibilidade que eu não havia considerado, era a do fim.

Eu não sabia exatamente como tínhamos chegado ali, mas ela estava no andar de cima, enchendo suas malas, no meio da noite, fazendo ligações, se arrumando para ir embora.

Também não sabia onde estavam aquelas duas garotas de dois anos atrás, que se amavam tão loucamente e que achavam que tudo daria certo. Que seria para sempre. Talvez o erro tenha sido esse. Amar demais. Era possível estar tão preenchida de alguém, tão cega e apaixonada que, tudo se torna errado? Intenso demais. Volátil demais. Os momentos bons e ruins.

Quando nos amávamos, era tudo. E quando brigávamos, parecia que o mundo ia acabar. Sugadas dentro de um buraco negro, gritando e chorando e sofrendo até transformar tudo em pó.

Quando ela passou por mim, eu não ergui o rosto. No fundo eu tinha surtando. Para onde ela iria? Onde iria dormir? Só tínhamos uma a outra nessa cidade, então imaginei que fosse ficar com algum amigo por um tempo. Talvez todos os nossos amigos já soubessem àquela hora.

Eu havia me tornado amarga, percebi, repassando essa última briga em minha cabeça. O modo como nos acusamos. O jeito que ela falou cada palavra sabendo que iria me magoar, e como eu rebatia com cada insegurança dela.

Nós nos conhecíamos demais para o nosso próprio bem. Da mesma forma que ela era a pessoa capaz de me manter firme, era também a única a me destruir com uma só frase.

Não temos jeito, ela disse. E eu concordei.

E mesmo assim, quando entrei no quarto e o vi vazio, revirado, eu soube que tínhamos cometido um erro. Ao ver nossas fotos jogadas no chão, o anel que comprei sobre a cama, nossos últimos cigarros ainda no cinzeiro, eu sabia que não podia chorar. Não ainda. Não podia ficar parada.

Corri. Corri antes de ser tarde demais, o mais rápido que conseguia, procurando-a pela rua. Gritando por seu nome, puxando o ar de uma vez, ofegante. Meu coração batia acelerado no meu peito, rezando para que ela olhasse para trás, e eu sentia que poderia desmaiar.

Entretanto, ela parou e eu dei os longos 3 passos que nos separavam, puxando sua mão, esperando que de alguma forma fosse o bastante. Como se segurá-la fosse uma garantia que não iria acabar ali. O mesmo formigamento permanecia, mas dessa vez eu não estava elétrica. Estava tensa. Tensa e com medo.

― Espera. Espera. Vamos conversar. Por favor.

― Conversar o que? O que temos a conversar que ainda não foi dito? Estou cansada das mesmas brigas.

Observei seu rosto, suspirando. Podia ver seus olhos vermelhos, seus lábios trêmulos e sabia que meus olhos deveriam ter o mesmo olhar quebrado e exausto que ela me dava naquela hora. Exausta era mesmo a palavra certa. Eu sentia seu cansaço em cada suspirar. Até quando isso iria durar? Não sabia se estava exatamente pensando quando começo a falar.

― E você vai simplesmente embora? Vai me deixar assim…? Você sabe muito bem que esse sonho não era só meu.

― Nem tudo é sobre você, acredite ou não.

― Não distorça minhas palavras. Você sempre faz isso... Eu só… você vai simplesmente ir embora? Tudo que vivemos não importa, de uma hora para outra? Não posso acreditar que não me ame mais.

Ela soltou sua mão da minha com um puxão, como se meu toque a queimasse, segurando sua mala na outra mão com mais firmeza, erguendo o rosto. Seus olhos tinham uma determinação tão grande, que me encolhi, que meu peito apertava e não sabia se estava pronta para ouvir o que ela tinha a dizer. Mas eu havia ido até aqui, eu quem decidi prolongar. Porque eu era aquela que não podia viver sem ela, no fim do dia.

― Nem tudo é sobre amor, você deveria saber. Eu não posso ficar repetindo os mesmos erros, nesse maldito ciclo vicioso. E será se sabemos mesmo o que é amor? Tudo que sempre soubemos é o que temos. E se… se não for amor? Talvez eu nem ame mais você.

Aquilo doeu mais que um soco. Como ela pôde, por um segundo que seja, duvidar disso? E todo o caminho para chegar ali? Mesmo que tivesse acabado naquele instante, eu não conseguia aceitar que tudo se destruísse, que nossa história virasse algo sobre o qual não se fala.

― Como poderia não ser? Como você pode duvidar do que que temos? Olha para mim. Olha para mim e me diz… que não sente como sua pele se arrepia com meu toque. Que não sente a conexão que compartilhamos. Que não me conhece por inteiro. Que não se sente segura comigo. Que não tem seu coração aquecido e sua alma preenchida com cada momento que compartilhamos. Que não sonha com um futuro. Que não deseja ter uma família comigo. Porque eu quero. Quero tudo isso mesmo quando eu estou puta com você. Porque mesmo quando me magoa, eu sei que tudo que quero no fim é voltar para você. Voltar para casa. Isso não é amor? Se sentir em casa?

Ela não me respondeu e eu não aguentava mais olhar em seus olhos ou segurar toda aquela mágoa, todo aquele choro. Não tinha força de esperar uma resposta. Olhando para baixo, deixando as lágrimas fluírem, me sentindo mais livre. E era como uma válvula que, quando aberta, não se fecha até tudo ir.

― Eu… eu não sei. Eu não sei o que fazer. Não aguento mais brigar. Não aguento mais sentir tudo se destroçar, não vejo o sentido de reconstruir só para ver cair tudo de novo. E de novo. E se um dia não restar mais nada para ser posto de pé?

― Bem, não foi você quem prometeu não desistir? ― eu perguntei, me segurando para me manter o mais firme que posso ― Que ficaríamos juntas acima de tudo? Pensar que acreditei em você. Que enfrentaríamos juntas o mundo todo. Pelo visto, eu fui uma idiota de me apegar em palavras, para você elas não são nada. Só mentiras e promessas quebradas.

É claro que me arrependi no momento que terminei de fechar a boca. Seu olhar me feria, e via sua mágoa de maneira crua. Eu não devia ter falado daquele modo, mas ela não devia ter jogado o anel na cama.

Eu me sentia enganada, após ficar anos sonhando com uma vida ao seu lado. Eu acreditei realmente em tudo que planejamos, então como não ficar com esse gosto amargo na boca? Descontente com o rumo. Desacreditada de tudo. Ela não podia se magoar por isso, para mim, ela havia sido a primeira a abandonar tudo e não havia outro modo de ver, tudo tinha sido uma ilusão.

― Pela última vez…. eu não menti. Acreditei em cada palavra que disse, no momento que disse. Mas você não pode esperar que eu me mantenha aqui, só porque há alguns meses funcionava. Temos que pensar na gente. A gente tá se destruindo, porra! Chega o fim do dia e não vemos mais paz uma na outra. Você era sim, meu porto seguro. E eu não aguento e nem quero mais ver nada ficar pior. Então por que não terminar? Preservar ao menos a chance de ainda sermos amigas.

― Você devia me conhecer melhor. Você sabe que… se eu começar a te tirar da minha vida, eu nunca mais voltarei. Eu vou precisar te apagar de mim. Tirar todas as marcas. Eu não sou capaz de lembrar de um momento onde você não esteve ao meu lado. Nós conhecemos desde sempre, tudo que eu me tornei, você estava ao lado. Você acompanhou minhas mudanças e… honestamente, eu não sei o que teria acontecido sem sua presença. Definitivamente outros rumos. Mas não me arrependo disso. Sei que grande parte quem sou foi fruto da minha relação com você, afinal… Sua presença sempre esteve nos meus momentos de descoberta. E mesmo assim sempre tivemos nossas próprias opiniões. Fomos pessoas diferentes.

Ofeguei, falando de uma vez, precisando puxar o ar e pausar, pois, as informações já não vinham tão fácil e a boca estava seca.

― Então se você me deixar, eu vou me reconstruir. E não saberei dar espaço para você na minha vida. E eu não quero isso. Não quero perder minha melhor amiga, minha companheira de alma. Se você me deixar, eu nunca mais irei voltar. Eu não sei quem serei, mas definitivamente jamais a mesma e jamais disponível para você outra vez. Você vai cortar o laço? Vai me dar um adeus?

O silêncio se faz presente e eu aguardei. Era como um jogo, quem piscaria primeiro? Aguardei enquanto podia, aguardando até existirem tantas lágrimas, que não enxergava mais. Então era isso. Aquilo era “O adeus”. Ela foi quem baixou o olhar e fui eu quem deu um breve aceno, me virando, desejando que tudo pudesse ser diferente.

Se era para ter um adeus, eu sempre imaginei algo mais bonito. Algo da vida teria nós forçado a seguir caminhos diferentes, mas que poderia existir uma ponte para voltar. Talvez não tenha sido justo dar um ultimato daqueles, mas eu nunca havia sido mais sincera. E ela não poderia dizer que não avisei.

― Eu errei. E eu sei disso.

Disse por fim, sem a olhar, erguendo o rosto, suspirando antes de continuar a caminhada de volta para casa. Parada no meio do caminho. Aquilo nunca seria um lar sem ela.

― Errei muito. Eu nunca escondi isso, você pode até por toda a culpa em mim. Mas eu sei que eu tentei, tentei melhorar e lutei cada segundo para ser melhor. Mas nunca imaginei que seríamos o tipo que não se resolveria. Que deixaria a vida ser maior do que o que sentimos. Que deixaria o mundo nos deixar amargas e distantes.

Eu não olhei para trás, não sairia inteira daquela rua se o fizesse. O único conforto que eu precisava era o de seus braços, e eu jamais os teria agora, ao menos achei não poder tê-los mais. E mesmo assim, eu não conseguia ficar calada, resmungando ao voltar a caminhar para a casa vazia.

― Como conseguimos chegar ao ponto de acabar, e você sequer ser capaz de me olhar e, no mínimo, falar um adeus?

― Desculpe… é disso que precisa?

― Sim. Me faça… me faça acreditar, pois eu preciso conseguir seguir em frente. Olha para mim e me diz adeus, me diz que nunca mais nós veremos. E vá.

Suspirei, me virando, me surpreendendo ao tê-la já atrás de mim. Subi o olhar e ela o sustentou. Assentindo de leve e abrindo a boca. Fechando. Suspirando.

― Sinto muito, mas preciso ir. Sinto muito, mas é um adeus.

Sua voz foi firme, baixa contra meu ouvido, e rasgou tudo por dentro. Seus braços estavam em minha volta enquanto ela se despedia e era a primeira vez que seu toque realmente me destruía. O abraço provavelmente durou mais do que devia, e enquanto ela se afastava, seus olhos não deixavam os meus. E eu fiz, possivelmente, a coisa mais patética. Envolvi os braços em sua cintura e a puxei para perto, beijando seus lábios.

Foi salgado e urgente, não houve sutileza ou carinho. Não tínhamos tempo. Era um beijo agitado, com seus dedos envolvendo meus fios e os puxando com força demais. Seus lábios eram firmes e pesados nos meus, pressionando com força, mas nunca os deixando.

Eu a puxei quando vejo que não há mais plano algum de sair, e cambaleei para trás, para dentro de casa. Não pensava muito quando a punha contra a porta, jogando meu peso contra ela, pressionando-a contra a madeira, descendo os beijos por seu pescoço, chupando e beijando cada pedaço de sua pele que encontrava.

Seus gemidos encheram o cômodo e eu puxei sua blusa sem cerimônias, descendo e pressionando os dedos em seus seios. Minha boca voltava a se chocar com a dela, e ela assumiu o controle. E bem ali, eu era dela, como sempre fui, mais uma vez.

Perdi a noção do espaço com seu corpo sobre o meu, perdendo a noção de realidade com sua boca em mim, fazendo-me tão dela, que sabia que menti quando disse que iria esquecê-la por completo se ela se fosse.

Por fim, perdi a noção enquanto fodemos pela casa toda, com nenhum som além dos gemidos e suspiros, e nenhum sentimento senão o paraíso quando seu corpo chocava com o meu e nos deixamos levar na cama até não haver forças para ir a nenhum outro lugar.

Mas, é claro, que ela se vai.

Quando o dia seguinte veio, eu me espreguicei lentamente, gemendo baixinho, meu corpo cansado e marcado pela noite anterior. Piscando, a luz me incomodava e, ao olhar pelo quarto, não via nada além de um bilhete na escrivaninha.

Não podia acreditar naquilo.

Revirei a casa toda, em uma esperança tosca, sentindo toda aquela raiva subir dentro de mim enquanto gritava, jogando tudo que tocava contra o chão, ou contra a parede. Já trêmula, entrei de novo no quarto, olhando para o bilhete. Segurando-o em minhas mãos, suspirando.

Sinto muito.

É covardia minha, mas se me olhasse outra vez, eu sei que não iria embora. E isso me destruirá de uma forma ou de outra. Mas você sabe tanto quanto eu de como precisamos disso. Você é cabeça dura e com toda a certeza vai demorar a notar isso. Mas eu prometo que irá me entender, um dia.

Eu fui apaixonada por você, loucamente. Mas a cada briga eu fui me desapaixonando aos pouquinhos. E eu não soube disso até a noite passada. Passei os últimos meses distantes, sei que sentiu isso, amortecida demais para me dar conta de mim mesma. Porque eu não queria me dar conta. Porque eu ainda te amo, só que não como você queria que fosse.

E eu soube que não era justo conosco. Eu não podia aceitar seu pedido.

Eu apostei tudo, assim como você. Eu queria que desse certo também. Só que eu enxerguei, antes de você, como tudo isso estava nos fazendo mal. Não funcionávamos mais, porém insistimos por conta de um monte de sonhos e desejos que não conseguimos abrir mão. Eu insisti porque, de uma maneira louca, eu nunca quis perder você.

Eu sei, eu realmente sei o quanto deve ser difícil para você, mas é para mim também. Mas tenho fé que tudo isso será para o melhor. Que nos tornará melhores. Eu fui sua melhor amiga por todos esses anos e tudo que sempre quis, foi você feliz. E você será. Mas não se continuarmos presas uma a outra, afundando uma a outra.

Você me disse uma vez que sentia que o amor devia nos fazer sentir como pipas. Flutuantes e livres, mesmo que unidas a algo. Você acha mesmo que ainda somos assim?

Espero que um dia me perdoe por ir assim, e que de alguma forma me perdoe o bastante para ainda sermos amigas. Como antes, você lembra? Era tudo tão fácil...

Mas se precisar mesmo me apagar, me apague. Siga em frente. Por favor… seja feliz. Se descubra sem mim. E eu irei fazer o mesmo.

Adeus. (ou até logo)

Meus dedos tremiam, e sentia as lágrimas escorrendo à medida que lia. Eu não conseguia pensar em nada concreto, tentando absorver tudo aquilo. Ela sempre via tudo tão a frente… Sempre se entendeu mais rápido do que eu. Sempre soube com tanta firmeza o que sentia, quando eu mal desvendava um pensamento.

Eu estava tão confusa… perdida.

Eu a queria tanto, tanto. A única certeza que sempre tive. Eu nunca tinha parado de me apaixonar. A cada dia, mesmo com cada briga. Eu sempre a quis mais perto, e a cada segundo, ela ia para longe até que não fui capaz de alcançá-la. Como uma pipa, de fato, mas escapando de minhas mãos, não sem antes feri-las. Despedaçá-las.

E, assim, ao fim daquelas palavras, o dia passou como um borrão. Permaneci estática na cama, que ainda tinha seu cheiro, chorando, gritando. Revirando minha mente por respostas que não existiam. Deixando a dor me consumir até estar cansada demais para pensar, e só dormir. Dormir até que tudo passasse.

xxx

I've been working later, I've been drinking stronger, I've been smoking deeper but the memories won't stop... I can't stop thinking 'bout you.

A vida não parava por um coração partido.

Eu não estava pronta para encarar amigos na empresa, mexer no celular que vibrava o fim de semana inteiro ou simplesmente sair de casa. Então, mesmo que a vida não parasse, eu me dei uma folga. Liguei para o trabalho alegando estar doente e teria uma semana para ajeitar o que eu via no espelho.

Olhos inchados, cabelos bagunçados e um pijama desalinhado. Eu não podia estar mais imersa em um clichê que aquilo. Exceto se estivesse com um grande pote de sorvete. Ri um pouco com a ideia, mas coloquei em prática a limpeza que precisava executar.

Comecei pela casa, pegando cada pequeno vestígio dela que encontrei. Meu real desejo era o de passar horas revivendo lembranças, mas eu não podia. Do mesmo jeito que ainda era incapaz de queimar ou jogar fora. Acabei separando em três pilhas: coisas a devolver, coisas a doar e coisas a guardar sob 7 chaves.

Depois, olhei para mim mesma. Cuidei de mim como pude, entre cremes de rosto e água oxigenada. Precisava ver algo em mim que não fosse o passado e me vi mudando a cor do cabelo, o corte. Era ridículo, mas me passou um pouco de confiança. Como se eu buscasse uma nova pele, um novo rosto. Procurando uma pessoa nova que pudesse lidar com as coisas melhor que eu mesma.

Até quando até eu não querer seu toque em minha pele?

Até quando até eu me habituar ao novo rosto do espelho e aprender a viver sozinha?

E então, a casa. A casa era uma memória viva de tudo, e passei o resto da semana redecorando. Depois de limpar tudo que destruí, claro. O trabalho preenchia minha cabeça e evitava pensamentos que precisavam de fato ser evitados.

O último passo era o mundo real. Respondi calmamente cada mensagem, avisando que estava bem. Forcei risos e conversas durante horas, enquanto apagava fotos e arquivava outras, bloqueando e excluindo ela de todas minhas redes sociais. Infantil e mesmo assim necessário.

Obviamente, cada passo foi regado a choro novamente. Frustação. Mágoas. Textos que escrevi e reescrevi. Que apaguei e escrevi de novo. Eu não devia satisfação alguma e ainda assim sentia que havia algo mais a dizer. Encarei a tela várias vezes antes de optar pelo nada.

E então, era hora de fazer planos. Eu não sabia se queria interagir com nossos amigos em comum ou caminhar por lugares que me fariam vê-la em cada esquina. E eu nunca havia considerado opções em que eu fosse a única peça em questão. E havia uma faísca de animação ao me debruçar em pesquisas, em considerar de fato começar tudo do zero.

A verdade era que eu estava fugindo, e sabia que isso era covardia, mas de fato, não me importava. Eu precisava de distância e me conhecer de novo. Eu não lembrava de quem eu era antes dela. E tão pouco sabia como era estar sozinha outra vez.

E ainda assim me controlei a cada dia para não ligar. Não ir atrás onde quer que estivesse. Não confiava em mim mesma toda vez que seu nome passava em minha cabeça. Se eu fingisse que ela não existisse, talvez, eventualmente, não existisse mesmo.

E falando essas brilhantes palavras de encorajamento, voltei a cair no choro, impotente.

xxx

Maybe one day I can see you, we can smile and wave and it’ll be okay. Maybe one day it’ll be cool, we could just be friends without the complications that it brings, when we start saying things...

A vida não pararia pelo meu coração partido, mas eu não tinha mais nada a perder, quando, três meses depois, abandonei tudo e parti em mais uma aventura, dessa vez sozinha.

Oi…

Você se foi e é minha vez de ir também. Você sempre foi minha melhor amiga e me conheceu melhor que ninguém. Provavelmente me conhece mais do que algum outro alguém será capaz. Eu adoraria te falar que vou, para voltar.

Mas a verdade que sabemos é que não sou assim.

Eu preciso, infelizmente, me virar sem você. E eu não sei como fazer isso aqui. Morre um pedacinho de mim cada vez que olho para casa que arrumei, que está diferente do que um dia já foi e mesmo assim me faz lembrar de você. Machuca cada vez que respondo aos nossos amigos, sabendo que não consigo mencionar você.

Estou fugindo, e sei disso, mas preciso ir para longe. Preciso resistir à tentação de te ligar 100 vezes por dia. Resistir a vontade de bater a sua porta, seja onde diabos estiver.

Essas são as coisas que não sou capaz de manter, mas jamais jogaria fora. Não sei o que fará com elas, mas são suas. Pode ser tolo, mas tente não esquecer que eu amei você.

Porque eu preciso esquecer que o fiz.

Adeus.

xxx

Era engraçado como uma nova perspectiva era capaz de mudar até mesmo o passado. Segurando aquele convite pesado em minhas mãos, eu ri. Ri de gargalhar, olhando para trás. Há 5 anos atrás, eu jamais seria capaz de sequer estar segurando aquele papel.

Ela sempre esteve certa, é claro. E por mais orgulhosa que eu fosse para falar essas palavras, ela sabia e eu também.

Eu era mesmo cabeça dura, mas estava certa quando me afastei. Mas errei ao achar que a única solução era fingir que ela não existia. Foi o erro que mais me custou tempo. Passei tantos e tantos meses determinada em fingir que algo não existia, que acabava me afundando no término o tempo inteiro.

No fim, eu olhava para trás com carinho e lembrava da nossa história com orgulho. Havia aprendido demais com ela, junto e longe. Tanto sobre mim mesma como sobre a vida. E havia aprendido também que o tempo cura tudo.

Uma vez que eu havia deixado minha raiva de lado, eu vi cada coisa que ela disse. Sobre estar me afundando. E a trazendo comigo. Demorei muito até superar a coisa toda, um dia de cada vez. Conhecendo novas pessoas, me permitindo desfrutar de novas experiências. Ocupando minha cabeça em viver e, ocasionalmente, o que era dor se transformou em carinho.

Eu não era apaixonada mais por ela, mas descobri que existem amores que não acabavam nunca. E uma amizade como a nossa era difícil de arranjar e ridiculamente fácil de se reconstruir. Quando a procurei, há 3 anos, foi estranho. Eu estava tensa, mesmo que fosse uma simples troca de palavras, eu não sabia o que esperar, mas no fim, não precisava esperar nada.

Era apenas eu e ela, como sempre havia sido. Em teoria. E para resumir bastante. Fiquei um pouco enferrujada de início, com várias incertezas que só esconderam de início que ela continuava sendo irritante, impaciente. E eu continuava sendo dramática e igualmente irritante. Apenas as necessidades mudaram, mas ainda éramos quase as mesmas. A velha cumplicidade sempre esteve lá e embora nossas agendas nem sempre bastassem, eu sempre poderia contar com ela. E tínhamos tanto a compartilhar outra vez. Sobre o tempo que havia passado e tudo que estava por vir.

A vida de cada uma seguira rumos incríveis e eu notei que assim como eu, as coisas faziam bem mais sentido quando foram compartilhadas. Quando uma tinha a outra para torcer junto e ou para oferecer o ombro nas horas ruins.

Era bom saber que eu sempre teria alguém para rir de piadas bobas e que me conhecesse mais que eu mesma. Sempre teria minha amiga. Depois de tantos desencontros, eu ainda a amava mais que tudo, do melhor jeito possível. Na minha melhor versão.

A amava de modo que aprendi a lidar com todas as dores do passado e só enxergava um futuro onde ainda estaríamos velhinhas uma do lado da outra, mas sem precisar me machucar no processo. Ainda seríamos cúmplices, mas de um jeito bem menos nocivo e bem menos complicado.

Eu pensava e falava isso para mim mesma, mesmo que sempre me perguntasse se não era algum tipo de pena que ela sentia, e havia paranoias que não iam embora. Eu perdi a conta de quantas brigas eu comprei por achar que ela não queria ser minha amiga. Muitas vezes, eu me sentia inútil, vivendo longe, resumida a troca de mensagens e visitas raras. Eu tentava não pensar nisso e não entrar em uma espiral de auto depreciação, questionando os motivos que ela tem ou não para me querer perto.

Eu nunca me senti à vontade perto de seus novos amigos, que parecem olhar para mim como se eu não devesse mais estar por ali, e sempre me esforçava para não parecer tão mal-humorada. Talvez se eu fosse menos mal-humorada eles gostassem de mim. A verdade é que eu tinha ciúmes e inveja quando ela passava tanto tempo longe, tão entretida com as pessoas que estavam ao seu lado, que não lembrava de mandar uma mensagem. Ir por esse tipo de pensamento voltava a questão da auto depreciação.

A distância fodia demais com minha cabeça, eu sempre fui tão próxima que as vezes esqueço que a dinâmica não podia ser a mesma. E mesmo que pudesse voltar a viver na mesma cidade, mas no fundo eu sabia que não fazia sentido. Eu também tinha minha própria vida por aqui, eu só queria me sentir mais presente. Eu não era nada boa nisso de ter as coisas longe do meu controle. Tem coisas que não mudam mesmo. Resmungo ao lembrar, balançando a cabeça.

Eu amaria para sempre minha alma gêmea. Só comecei a amando errado. Mas eu só era capaz de ver isso agora.

E é voltando a rir, que eu mando uma mensagem, respondendo sobre a pergunta junto ao convite.

“É claro que estarei lá. Eu não seria uma boa amiga se não fosse”

“Bem, é bom mesmo. Caso contrário eu iria te encher para sempre”

“Estou ciente disso. Algo mais?”

“Bem, quando você pode estar aqui? Que tal… uns 90 dias antes?”

“Nossa, só isso? Você não quer logo a festa inteira de presente? No mínimo me dê um assento extra”

“Besta. Eu até aceitaria, mas tenho um pedido diferente.

“Espera, assento extra???? Você vai trazer alguém? Mal posso esperar para ver. Eu já conheço?”

“Talvez… você não vai arrancar essa informação tão fácil. E então? Qual o pedido? Por favor não diga que o presente que quer é a casa nova”

“Ah não, embora, novamente, seja uma excelente ideia. Talvez eu troque de pedido, mas esse é mais simples que isso. Que tal ser minha madrinha?”

“Eu ficaria honrada.”

Notas finais
Se chegou até aqui, me deixa um oizinho!
Adoraria ouvir opiniões e um feedback!
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!