Racers of Life
26 Uma lembrancinha
Notas iniciais
Naruto é um desocupado – definição da própria mãe – e o seu passatempo favorito, durante o dia, é dormir. Mas naquela tarde, Hinata invadiu os sonhos dele.
“Ela sorriu, como um anjo que vem para te colocar em seus braços e levar para o paraíso. Ela beijou e transbordou o mais doce dos néctares em sua boca. Em seus braços era o lugar certo para ela estar.
O mundo se dissolveu em nada e em tudo ao mesmo tempo. Toda matéria parecia éter e todas as negatividades se convertiam no prazer...
Ela o olhou e em seus olhos toda a paz e felicidade estavam contidas no mar claro, tudo era certo, tudo era perfeito, até a lua nascer de algum lugar...
O sorriso bonito se transformou em um frio mostrar de dentes, os olhos se coloriram de vermelho sangue e dentes pontiagudos precipitaram para fora da boca.
Ele ficou em choque sendo segurado por um dos braços pelo seu anjo vendo-o se transformar e, com maior choque, viu a cabeça decepada de Neji na outra mão.
Ela gargalhou jogando a cabeça para o alto...”
– Puta merda! – Naruto se senta na cama secando o suor que escorria pela testa.
Grunhe sentindo as costas latejarem pela “brincadeirinha” com Sasuke na noite anterior no hospital. Mas isso era o que menos o importava agora. A cena da sempre delicada e tímida Hinata atacando Neji foi alucinante o bastante para não sair da cabeça dele.
Balança a cabeça para espairecer e vai ao banheiro lavar o rosto.
Suspira. Não queria ter que parar de ver Hinata, mas agora que Neji sabia... poderia até perder o amigo.
Após lavar o rosto ergue a cabeça lentamente e ao invés de encontrar os olhos azuis encontra uma coisa vermelha...
– Kyaaaahhhh!!! — o pulo que ele dá atingiu um pico recorde – Mãe? O que tá fazendo aqui?
Kushina está parada à tempo observando o filho falar sozinho num grunhido.
– Quem muito teme... – ela começa recolhendo as roupas sujas do banheiro e colocando num cesto maior sem tirar os olhos desconfiados do filho. – O que andou aprontando, hein?
Ela se levanta sem esforço segurando o grande cesto. Naruto sempre congela com aquele olhar da mãe. Os olhos que tudo vê, como o pai e ele sempre dizem.
– Oxi, nada mãe. Tava só pensando numas coisas.... – diz coçando a nuca e se prontificando a pegar o cesto por ela.
– Obrigada. No que tanto pensava?
Naruto, sinceramente estranha a forma doce com que sua mãe se dirigiu a ele. Isso o deixava um pouco nervoso.
– Er... bom...
– MINATO! OU VOCÊ JOGA ESSA PORCARIA NO LIXO, OU VAI JUNTO COM ELE QUANDO EU COLOCAR AS MÃOS! – Kushina grita no corredor vendo o marido sair de fininho com um casaco horrível que tinha desde a adolescência e que adorava.
Naruto respira aliviado, pelo jeito Kushina só tinha acordado de bom humor.
– Ah, mãe eu to saindo com uma menina aí, mas ela é irmã do meu amigo, e ele não queria que a gente saísse com a irmã dele e ela bateu nele ontem... – Naruto falava tudo de uma vez e Kushina escutava atentamente descendo as escadas.
– Ela bateu nele? – Kushina pergunta fingidamente desinteressada pegando o cesto e colocando na lavanderia. Os dois se dirigem para a cozinha e Naruto ataca a geladeira.
– É, pulou nele e deu uns tapas. Hahahahaa foi muito legal! – Naruto fala de boca cheia levando um olhar severo da mãe e engolindo tudo de uma vez.
– Gostei dela, traz pra eu conhecer. – Kushina diz naturalmente se servindo de uma xícara de café.
– Conhecer pra quê? – Naruto paralisa olhando confuso para a mãe.
– Pelo pouco que falou, já gostei da garota – ela sorri distante. Um sorriso que faz os pelos nos braços de Naruto arrepiarem.
– Ah, mas agora já era... o Neji não vai deixar... – Naruto resmunga tristonho.
– Neji? Você tá saindo com a Hinata Hyuuga? – Kushina se surpreende tirando um olhar culpado de Naruto. Ele assente e Kushina fica confusa mexendo em seu café.
– Ela bateu no irmão? – pergunta para si mesma e Naruto solta uma risada anasalada se lembrando da cena. – E você vai desistir da garota por causa do irmão dela? É isso mesmo? Honra as calças que você veste, moleque!
Naruto olha para a mãe esquecendo-se de comer. Kushina balança a cabeça indignada e volta olhando firme para o filho.
– Você gosta dela? – pergunta séria e Naruto dá de ombros não sabendo a intensidade daquilo – Se não a quer, então esquece ela, oras. Se bem que acho vergonhoso um filho meu arregando desse jeito...
Kushina conhece o filho que tem. Nunca conversou sobre garotas com ele e viu como a Hyuuga afeta o seu menino. E sabia como mexer com o orgulho dele para que tomasse uma atitude. Por cima da xícara de café, ela assistiu satisfeita os olhos de Naruto brilharem de determinação e seu peito estufar de coragem.
– Eu vou na casa dela falar umas coisas pro Neji. – Naruto se levanta destemido olhando para o alto em pose heroica.
Kushina revira os olhos fazendo sinal pra que ele saia logo da sua frente.
– Ai esses homens... – suspira pegando o celular – Mikoto, querida?... Como está?... Ótimo! Vou passar aí pra fofocar!
***
Sakura passa o dia tentando disfarçar seu desconforto. Não conseguia se focar no trabalho e sua distração a entregava a toda hora.
– Sakura? Você tá bem? – Sasori perguntou pela quinta vez vendo a irmã xingar alto depois de acertar o dedo com uma chave.
– Acho... eu to com cólica. – ela diz apertando os lábios.
Sasori faz uma careta engraçada e vira as costas.
– Vai pro quarto, eu cuido aqui.
Sakura agradece pelo irmão ficar constrangido com conversas femininas e corre para o banheiro. A tarefa de tirar graxa das unhas e da pele vira uma terapia para reflexão. Sua falta de atenção no trabalho custou suas unhas, mas naquele momento, isso era a menor das suas preocupações.
Iria encontrar sua mãe. Depois de mais de 10 anos na ignorância, sem saber o que aconteceu.
Ela encara as próprias mãos, já enrugadas, fazendo as mesmas perguntas que sempre fez quando se lembrava de Mebuki Haruno.
“O que aconteceu?”; “Por que aconteceu?”; “Por que não nos levou junto?”; “Ela pensa em nós...?”
A última pergunta foi imediatamente respondida. Se não pensasse não estaria tentando uma reaproximação. Mas seria o certo esconder isso de Sasori? Ele foi tão afetado — ou senão mais – quanto ela com tudo isso. Mas, conhecia seu irmão, sabia como era orgulhoso, como teve que fortalecer a armadura para não deixar que as coisas ruíssem. Sabia que se contasse para ele não teria as resposta que precisava. Porque ela não estaria satisfeita em viver sem saber, não conseguia ignorar e seguir em frente como o irmão. Não tinha essa força.
Precisava falar com alguém, não conseguia mais manter aquilo só pra si.
Sakura se veste rapidamente e liga pra única pessoa que consegue pensar no momento.
– Sakura! Como tá?
– Oi Temari, pode falar?
– Opa, me chamou de Temari. O que aconteceu?
Sakura respira fundo e quando abre a boca para falar escuta um barulho estridente de algo se quebrando do outro lado da linha.
– SHIKAMARU, SUA ANTA! Só um minutinho Saky. VOCÊ VAI LIMPAR ISSO AGORA MESMO! (larga de ser problemática, mulher. Tô saindo) NEM PENSAR, SEU PREGUIÇOSO! AAAHHHHHH! ME LARGA!! (sua maluca, porque fez isso?) BEM FEITO, AGORA VAI ARRUMAR ISSO. Desculpa Saky, derrubei um pouco de azeite de Dendê no Shika (um pouco? Foi o vidro inteiro! Mulher maluca!) CALA A BOCA SHIKAMARU! Mas diga, Sakura... o que aconteceu?
Sakura escuta tudo com os olhos arregalados, talvez Temari não estivesse no melhor momento para dar um conselho.
– Na verdade, não é nada. Só queria bater papo, mas depois eu ligo – dá um risadinha escutando um resmungo de Shikamaru – passa em casa amanhã?
– Tem certeza? Se quiser conversar...
– Não, tá tudo bem – Sakura garante se sentando na cama – Amanhã?
– Tudo bem. Vou levar umas gordices. – Temari termina dando uma risadinha e xingando Shikamaru por algum comentário que ele fez.
– Ok, até Tema!
– Até!
Ela solta todo o peso do corpo se jogando para trás e cobre a cabeça com o travesseiro. Um grito abafado mostra toda a sua confusão, fragilidade e indecisão.
Com quem iria poder contar agora?
Queria conversar com Mikoto, mas sabia que ela tinha acabado de receber alta, não queria enchê-la com seus problemas.
Lágrimas ameaçam cair, mas ela as enxuga antes disso. Seu peito fica apertado e a ansiedade do reencontro a dilacera. Não sabia se seria algo bom para si.
As horas passam e nem para jantar ela sai do quarto.
– Sakura? Quer alguma coisa? – a voz vacilante e preocupada de Sasori rompe do outro lado da porta.
– Não tato, tá tudo bem. – ela responde sentindo a voz falhar.
– Hum... o seu amigo tá lá embaixo, quer que eu diga...
– Sasuke! – Sakura se levanta colocando a cabeça pra fora da porta. – Diz que eu já vou descer.
Sasori faz uma careta de desagrado e desce as escadas. Sakura troca de roupa em tempo recorde e encontra Sasuke e Sasori num clima desconfortável na sala.
– ... Você é contador? – escuta a voz de Sasori perguntando sem interesse algum.
– Sou. – Sasuke responde no mesmo tom.
– Hum.
– Tô pronta, vem Sasuke. – Sakura diz rapidamente tirando um suspiro de alívio dos dois homens.
– Não chega tarde, hein! – Sasori a lembra antes que saíssem pela porta.
Sasuke estranha a pressa de Sakura, mas a segue até o Mustang a beijando assim que entram no carro.
– Oi – ele diz bem humorado dando partida.
Sakura dá um sorriso fraco prendendo o cinto.
– Oi, foi mal pela pressa. – ela suspira e Sasuke a olha esperando uma explicação. – Queria esfriar a cabeça.
Ele assente sem perguntas e coloca uma música pra tocar. Em silêncio, Sakura vai balançando a cabeça no ritmo da música até a pergunta de Sasuke a surpreender.
– Descobriu quem te deu o colar?
Sakura o olha por um momento estranhando o tom que ele usou.
– Não. O entregador só disse que era pra mim. Não tinha nome, nem nada. – ela responde indiferente. – Não faço a mínima ideia de quem seja.
– Hum. – Sasuke dirige sem rumo — Quer ir em algum lugar? Já jantou?
Sakura repara na camisa social desabotoada e no terno preto pendurado nas costas do banco do motorista. Ele veio direto do trabalho.
– Vamos comer alguma coisa. – ela diz recebendo um aceno positivo. – E a sua mãe? Ela tá bem?
Sasuke arregala os olhos, rapidamente voltando ao normal. Tinha até esquecido da mãe!
– Hã... tá sim. – responde virando a esquina e parando num restaurante de fastfood – Tudo bem um hambúrguer?
– Opa! – Sakura sorri saindo do carro.
Depois de feito os pedidos, os dois se olham. Cada um pesa algo diferente naquela troca de olhares. Sakura suspira e a expressão cabisbaixa chama a atenção de Sasuke.
– A minha mãe me ligou hoje – ela diz olhando para o canudinho que ela torce por cima da mesa. – Ela quer me encontrar pra conversar... falar o que aconteceu.
Sasuke escuta com atenção e quando ela acaba não sabe o que dizer.
– Ela me abandonou quando eu era pequena – Sakura continua depois que o lanche é servido e Sasuke assente pra que ela continue – Agora me liga querendo conversar.
– Você vai? – ele pergunta incerto do que falar.
– Eu quero saber o que aconteceu, mas tenho medo... de me arrepender.
– O que o Sasori acha disso? – Sasuke pergunta tirando um suspiro da garota.
– Ele não sabe – confessa num sussurro – ele não quer vê-la, sabe?
Os dois comem em silêncio digerindo suas próprias reflexões.
– Que que eu vá com você? – Sasuke pergunta de repente erguendo somente os olhos para ela.
Sakura sorri sentindo um alívio grande dentro de si.
– Obrigada – sorri mais abertamente e Sasuke a imita, só que mais contido. – Não precisa, acho que vou ter que encarar isso sozinha. – termina com um sorriso triste.
Sasuke concorda com a cabeça. Não havia mais o que falar, não sabia mais o que dizer. Era péssimo com esse tipo de coisa, mas queria vê-la bem.
– Bom... – ele limpa a garganta tirando uma pequenina caixa do bolso da calça. Sakura olha sem entender vendo-o estender a caixinha para ela sem olhar para cima. – Tava passando por aí... e... vê o que acha.
Sakura sorri surpresa em vê-lo sem jeito e pega a caixinha. Dentro há uma pulseira prateada com vários pingentinhos em formas circulares.
– Achei parecidos com pneus – Sasuke se pronuncia sem graça olhando-a analisar o presente.
– Adorei, é lindo. – ela diz colocando no pulso e estendendo para que Sasuke feche-o em torno do pulso. – Mas, por que isso?
Sasuke dá de ombros voltando a comer. Por dentro sorri satisfeito.
– Agora toda vez que eu estiver dirigindo, eu vou lembrar de você. – Sakura diz olhando para a pulseira e Sasuke a olha com um sorriso.
– Falando em dirigir – ele diz se incomodando com o sorriso bobo que apareceu na cara – Sábado vai correr com o...
– Bucky? Sim. Tô a fim de quebrar o Naruto. – se empolga.
– Vou apostar, hein. – ele diz bem humorado aliviando o clima.
(...)
– Foi divertido, obrigada por me ouvir. – Sakura fala quando chegam em sua casa.
– Sem problemas.
– Diz pra sua mãe que vou lá amanhã.
A mão que acariciava o pescoço de Sakura a puxa para o beijo de despedida. Mais “experiente” no assunto, Sakura se aventura dando umas mordidinhas no lábio inferior dele.
– Não faz isso se quer dormir na sua casa... – Sasuke sussurra em meio ao beijo fazendo Sakura suspirar e estremecer.
Ela aparta o beijo antes que caia na tentação e Sasuke a lança um sorriso safado.
– Eu... já vou. – diz sem jeito arrumando a blusa nervosamente.
Sasuke ri a puxando pra mais um selinho.
A vê entrando em casa com aquele sorriso maldito que só aparecia por causa dela.
“Você tá ferrado, Sasuke...” pensa balançando a cabeça e dando partida.
Ele sai sem perceber um carro escondido nas sombras e o motorista observando tudo.
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