R&I - Wish You Were Here

26 Capítulo 25 - O Céu Está Caindo (Parte 1)


Notas iniciais
Desculpem a demora, meu fim de semana foi bem animadinho.

Esse capítulo ficou enorme (sim, maior do os outros "enormes" que já tive) e por isso tive que dividir em duas partes.

Mais um título em homenagem aos livros do meu querido Sidney Sheldon, e esse é porque a situação é meio... vocês verão.

Capítulo SUPER, HIPER fofo, inclusive não recomendo pra quem tem diabetes.

Capítulo dedicado, é claro, com todo amor e carinho para Bruna Cezario ♥

"Sim ou não.

Entrar ou sair.

Para cima ou para baixo.

Viver ou morrer.

Herói ou covarde.

Lutar ou desistir.

Eu direi de novo e tenha certeza de que você está ouvindo.

A vida dos homens é feita de escolhas.

Viver ou morrer.

Essa é a escolha importante.

E não está sempre nas nossas mãos."

Os delinquentes estavam eufóricos, celebrando o êxito de sua terceira operação e a preparação inicial da quarta, no negócio lucrativo do sequestro. Jason Smith, conhecedor de armamento e munição, assassino frio, o mais perigoso dentre os três, não via a hora de acabar com suas vítimas de forma cruel e cheia de requintes. Peter Collins, um quase gênio da informática e em técnicas de hacker, era o encarregado da logística das operações, especificamente era o homem que evitava o rastreio por satélite e a localização das ligações, usando técnicas evasivas para confundir os policiais. E por fim Edward Turner, homem sem nenhuma ocupação especial, mulherengo e ganancioso, era o encarregado de atender as vítimas do sequestro enquanto elas estavam no cativeiro, para que após duas semanas de terem cobrado o resgate Jason as despachava para outro mundo, ou direto para o inferno, como gostava de dizer.

O modo de operação era simples, uma vez definido o objetivo, Jason, que era o único dos três com antecedentes criminais, alugava mediante a apresentação de documentos falsos, uma casa que tivesse sótão e um banheiro nele. Uma vez alugada a casa, parafusavam fortemente um pino ao centro do quarto, o que transformaria o sótão numa longa cadeia, o qual na ponta se ataria um dos tornozelos da vítima utilizando correntes, dessa forma ela poderia andar pelo quarto e ir ao banheiro. Assim os sequestradores teriam o mínimo contato com elas. Do mesmo modo que instalaram uma grade na parte debaixo da porta para passar a comida por ela. Edward Turner era o encarregado dessa tarefa e era o único que tinha um eventual contato com a vítima, para estabelecer as condições de resgate, limpar o quarto... Edward costumava brincar com suas "damas do cativeiro" como gostava de chamar as vítimas, dizendo que não podiam se queixar muito porque estavam quase em um quarto de hotel, com direito a um banheiro privado e serviço de quarto, "tirando um pequeno detalhe quase sem importância", dizia com ironia, "tem uma corda amarrada ao seu tornozelo".

O alvo escolhido pelos sequestradores era sempre o mesmo: filhas de empresários ou industriais, com um patrimônio pessoal de pelo menos 100 milhões de dólares. De preferência a filha dos empresários não devia morar na mesma cidade que seus pais, a fim de obrigar a eles que viajassem até a cidade onde morava sua filha e onde obviamente teriam menos contatos do que em sua cidade local. Uma vez cobrado o resgate, Jason Smith se adiantava a cidade de seu próximo alvo para começar a negociação de aluguel e a preparação ténica da casa que serviria de base para a nova operação. Enquanto normalmente deixavam uma margem de espera de duas semanas para acabar com a vítima, o executor era sempre Jason.

[...]

Nenhuma delas saberia dizer em qual ponto se perderam. O que começou de uma forma tão incrível que parecia mágico estava tomando um rumo a um fim que com certeza não faria juz a todas aquelas sensações e momentos especiais, muito menos ao sentimento que as duas sentiam, e sabiam que sentiam, mas que por alguma razão não estava sendo suficiente.

Lauren e Alex voltaram a brigar. Mas não eram brigas normais, de implicância, de provocações, brigas que terminavam em sexo selvagem ou que as trazia para mais perto de si. Eram brigas que afastavam. As vezes "brigavam" sem darem nem um grito sequer, sem usarem um único palavrão, e ainda assim, as palavras que usavam podiam doer mais do que qualquer agressão verbal e até mesmo física. Jogavam na cara uma da outra o que sabiam que ia machucar.

O que levou as duas a chegarem aquele ponto? Quem sabe dizer? Se foi a falta de coragem em Alex em mais do que dizer "eu te amo", se jogar de verdade, afundo naquele sentimento, ou talvez tenha sido a imaturidade de Lauren em pressioná-la por causa disso, ao invés de entendê-la, de saber que por mais que Alex a amasse e quisesse imediatamente mostrar isso e dizer isso da forma mais clara e intensa, ela podia não conseguir, não porque a amasse pouco, mas porque tinha traumas, verdadeiros traumas mais do que psicológicos: na alma. Mas não foi culpa de uma. E nem de outra. Não foi só o erro de uma. Foram as duas. Foram aquelas duas coisas que talvez tenham levado-as aquele ponto do relacionamento.

E em mais um dia qualquer, no apartamento de Alex, elas estavam igual a todos os outros dias: tristes, frias, distantes e naquele silêncio incomodo, porque sabiam que algo deveria ser dito, que muito deveria ser tido e que só assim as coisas se resolveriam. Acabou que quando quebraram o silêncio não foi para salvar a relação, mas para afundá-la ainda mais. Começaram a discutir.

Em meio a discussão que nenhuma das duas mais lembrava sobre o que era, o assunto que machucava a ferida começou.

– Você não me ama, Alex — Por mais que o tom de Lauren fosse baixo e contido, ele era devastador, porque ela falava com tanta certeza, como se soubesse realmente o que a outra podia sentir — Você não ama. Porque você tem medo. E quem tem medo não consegue amar.

Alex não chorava, mas por de trás dos óculos a ruiva podia ver dor. Muita dor. E um distanciamento ainda maior. Como se quanto mais ela tentasse se aproximar, mais Alex se afastasse dela, mais ela se escondia dentro de um esconderijo de onde estava cada vez mais impossível tirá-la. Ela não chorava por fora, mas por dentro estava aos prantos.

– O seu problema é que você acha que sabe tudo — Disse calmamente e com um leve sorriso esboçado, só para disfarçar e combinar com seu humor de sempre, porque não havia vontade alguma em sorrir — Você é uma garota, Lauren. Uma criança, na verdade. Não passa de uma porra de uma criança mimada, que sempre teve tudo o que quis ao alcance das mãos, que não sabe ainda o que é viver de verdade, o que é sofrer e por isso acha que pode sair falando o que as pessoas sentem ou não sentem. Mas eu te digo que você não pode dizer o que eu sinto, porque você não sabe de nada! Absolutamente nada! Você não viveu o que eu vivi, você não perdeu o que eu perdi, você não... — Ela soltou um risinho de indignação, porque estava tão nervosa no momento que não podia descrever — Você não sabe nada. E mesmo você tendo dito aquele dia na festa, é você que não me ama. Porque crianças mimadas não sabem amar. Elas estão acostumadas a terem tudo o que elas querem. Você me quer, mas não me ama.

Ao contrário de Alex, Lauren não conseguia disfarçar tão bem seus sentimentos. Ficou ainda mais quebrada ao ouvir todas aquelas coisas. Doerem mais que tudo na sua vida. Não, ela não havia perdido os pais, ela não havia sido rejeitada por ninguém, não havia sido colocada numa clínica de doentes mentais, não havia passado anos sozinha e solitária, não havia lutado para conquistar nada, porque tudo sempre esteve ao alcance das suas mãos, sempre teve seus pais para lhe darem suporte, mas isso não significava que ela não sabia amar, ou que não amasse Alex. Ouvi-la dizer aquilo partiu seu coração em pedaços. Seus olhos estavam transbordando em lágrimas.

– Se é isso que você pensa... não vejo motivos para continuarmos.

Alex só ouviu o som da porta batendo com força. Aquele era o som do seu coração se partindo em mil pedaços, da sua felicidade indo embora.

[...]

20:15h.

A cena do crime era uma floresta na estrada. O corpo encontrado foi de uma mulher que não tinha mais que vinte e cinco anos. Seu corpo estava estendido no chão, de bruços, perto da beira da estrada e o tiro que havia matado-a estava localizado em sua cabeça, na parte de trás, o que indicava uma possível tentativa de fuga do seu assassino. A perícia havia interditado um bom pedaço da estrada para que pudessem averiguar a cena do crime de forma mais proveitosa, não deixando que nenhum detalhe se perdesse.

– Só eu detesto esses casos que começam no domingo? — Jane perguntava esfregando as mãos já com luvas, não porque estava nervosa, mas porque estava frio. Em novembro o clima em Boston começava a ficar frio, e dependendo do quão frio, logo começaria a nevar.

– Ela levou um tiro na cabeça na parte de trás, o que não é muito comum — Maura estava abaixada diante do cadáver, averiguando-o — Isso indica que o assassino estava atrás dela.

– Estamos num lugar pouco comum de se acontecer assassinatos — Comentou Alex, fazendo uma análise do cadáver e da cena do crime em si — E se ela levou um tiro por trás, é porque deveria estar tentando fugir.

– Ela sabia que seria assassinada — Foi a vez de Korsak comentar.

– A má notícia é que nós não temos nenhuma testemunha, como eu imaginava. Ela deve ter sido morta durante a madrugada.

– O corpo já começou a entrar em estado de decomposição. Ela foi morta há doze horas atrás.

– De madrugada — Jane murmurou passando os dedo indicador e o polegar no queixo, pensativa — E essas manchas de sangue ali? — Ela apontou para os tornozelos cobertos pela calça jeans.

Maura cuidadosamente ergueu às barras da calça do lado esquerdo, exibindo um tornozelo com graves feridas, e não precisava de uma autópsia para que a legista pudesse afirmar que definitivamente aquilo era sangue.

– Estou começando a achar que esse não foi um assassinato comum — Maura e Jane olharam para Alex. — Ela não está com carteira, documento, nada. Tomou um tiro na cabeça atrás, indicando que estava de costas para o atirador e o corpo caiu bem aqui perto da estrada, além de ter marcas nos tornozelos. Ela poderia estar fugindo do assassino.

– Podia estar sendo mantida presa por ele... — Jane disse, encorpando a ideia da amiga — E talvez ela poderia ter conseguido escapar, saiu correndo na intenção de chegar na estrada e sinalizar para algum carro, pedir ajuda...

– Mas ele foi mais rápido, conseguiu alcançá-la e a matou.

– Temos que descobrir quem ela é — Frost disse.

[...]

Noite de domingo e a Central estaria completamente vazia, se Jane, Korsak, Frost e Alex não estivessem no escritório, se entupindo de café instântaneo enquanto analisavam minunciosamente o quadro com as fotos da vítima assassinada e informações que pudessem ser úteis, enquanto Maura estava no necrotério, fazendo sua autópsia e esperando que os outros funcionários fizessem sua parte realizando os exames que ela tinha pedido.

Por conta de que todos os fatores indicavam que a vítima estava presa em cárcere privado e foi assassinada tentando fugir, Frost começou a fazer uma busca pela internet em relação aos últimos sequestros registrados em Boston onde alguma vítima havia sido morta também e tivesse indícios de ferimentos nos tornozelos. Não encontrou nada. Os cincos últimos sequestros registrados não possuíam mortes, e duas quadrilhas haviam sido presas.

– Eu vou fazer uma busca mais ampliada, quem sabe não encontre algo se procurar no Estado de Massachusetts inteiro...

Dito e feito.

– Achei! — Jane, Alex e Frost correram para trás do moreno sentado em frente ao computador — Há duas semanas atrás Sarah Walker foi encontrada assassinada com um tiro na cabeça e ferimentos nos tornozelos na cidade de Cambridge. Ela era estudante de Direito e não morava com os pais. Eles moram em outro estado, na Califórnia. Ela desapareceu cinco dias antes de ser morta, foi sequestrada. Os sequestradores entraram em contato com a família e fizeram que os pais viessem da Califórnia para Massachusetts, em Cambridge. Pediram 100 milhões de dólares de resgate. Mesmo acionando a polícia, não conseguiram localizar e nem identificar os sequestradores. No dia da entrega do dinheiro, William Walker foi sozinho até o lugar combinado, que o site não diz qual era, e deixou a maleta, não teve contato direto com os sequestradores. No dia seguinte, a filha dele apareceu morta.

– Que imbecil. Como ele entregou a maleta de dinheiro sem que entregassem a filha antes? — Alex parecia desacreditada da burrice de um homem rico, que devia ser inteligente.

– Parece que os sequestradores gravaram alguma mensagem de voz da garota e colocaram para tocar na linha do telefone. No estado de nervosismo que o pai se encontrava, ele nem deve ter imaginado que fosse uma gravação feita antes de matarem-na.

Todos ficaram em silêncio e com expressões de tensão no rosto.

– E tem mais... tem mais uma garota, universitária, que foi encontrada morta nas mesmas condições que Sarah e que também foi sequestrada. Ela estudava em Harvard, mas cursava História e os pais não moravam em Cambridge também. Aparentemente, não tinham nenhuma ligação.

– Hum... legal. Temos um grupo de sequestradores assassinos atuando no nosso Estado, e pelo visto o modo de operação deles é sempre o mesmo: Sequestram garotas novas, universitárias, filhas de homens empresários, pedem um resgate alto, conseguem o dinheiro e depois matam as vítimas — Jane caminhou até o quadro e ficou encarando as fotos da última vítima não identificada. Ela era bonita. E tão jovem. Provavelmente teria uma vida tão proveitosa pela frente.

– A grande questão é: Porque matá-las se a forma de operação do grupo é tão eficaz que eles sempre conseguiam o dinheiro do resgate sem correrem riscos, sem serem descobertos? — Alex perguntou e nenhum deles soube responder.

– Temos que descobrir....

– Tem mais — Frost disse, olhando para a tela do computador — Foram registrados duas mortes de jovens nessas mesmas características que Sarah no estado da Califórnia.

– Então esse grupo de sequestradores estão fazendo um tour pelos Estados Unidos, selecionando duas garotas ricas para roubarem dinheiro da família e matarem? — Alex tinha um sorriso irônico e totalmente sem humor nos lábios. — Filhos da...

[...]

Jane chegou na sala da autópsia e encontrou Maura usando sua roupa de médica toda preta, os cabelos presos num rabo de cavalo, as mãos ocupadas por luvas enquanto ela tocava o cadáver e o analisava com aquele jeito sério e concentrado. Era estranho observar Maura daquela maneira. Quando ela estava trabalhando, quando estava lhe dando com os mortos, quando ela era apenas a Dra. Isles, em nada se parecia com sua Maura. Ela era extremamente fria e calculista. Não tinha problema algum em lidar com a morte, tanto que optou por trabalhar com ela do que se tornar uma grande cirurgiã e salvar vidas. Para ela era muito mais fácil abrir um corpo de alguém já morto. Não queria nunca a responsabilidade de abrir uma pessoa com vida, um alguém que dependesse do conhecimento dela para sobreviver, mesmo seu conhecimento sendo muito grande.

– O que descobriu? — Jane perguntou, de braços cruzados, se aproximando um pouco.

– Já removi a bala e mandei para a balística assim como pedi uns exames toxicológicos para ver se o assassino não dava nenhuma droga para ela. E vocês? — Olhou-a por um instante, notando a inquietação da noiva.

– Frost descobriu que recentemente houve dois assassinatos de garotas na mesma faixetária que essa no estado de Massachusetts. Todas foram sequestradas e depois mortas. A polícia não descobriu quem são e nem o paradeiro dos sequestradores. E desconfiamos que esse grupo seja o mesmo que sequestrou e matou mais duas garotas também no estado da Califórnia.

Maura não disse nada. Não precisava. Sua expressão também carregada de tensão diziam tudo. Ela voltou a olhar para o cadáver em sua mesa, o mesmo agora completamente nu.

– Ela tem alguns hematomas pelo corpo. Foi agredida. Mas não tem fraturas. Seja lá onde ela tenha ficado, estava presa pelo tornozelo esquerdo possivelmente com alguma corrente de ferro — Jane olhava para o tornozelo em carne viva — Ela deve ter forçado tentando tirá-lo, por isso se machucou. Ela foi estuprada, também. Mas não encontrei nenhum sinal de sêmen.

– Isso é uma merda — Jane esfregou as mãos, suas cicatrizes e mexeu a cabeça, tombando-a para o lado esquerdo e depois direito — Precisamos descobrir quem ela é para avisarmos a família...

Maura tirou suas luvas e se afastou do cadáver, se aproximando de Jane.

– Você notou que Alex está estranha?

– Ela sempre foi — Disse com humor, fazendo Maura sorrir brevemente.

– Sim, eu sei, mas estou querendo dizer que ela está agindo de uma forma estranha ao seu habitual. Não está nem fazendo piadinhas sarcásticas essa semana.

– Ela não quis entrar em detalhes comigo, mas são problemas com Lauren.

– Será que elas brigaram? A última vez que falei com Lauren foi no telefone, sexta-feira. Ela parecia chateada também mas não disse nada.

– Eu não sei... essas duas são bem complicadas. Eu vou tentar falar com ela e ver se descubro alguma coisa. E quando descobrirmos quem é essa — Apontou para o cadáver — Eu te aviso.

– E eu te mando mensagem quando os resultados saírem.

Jane selou os lábios da loira rapidamente antes de sair.

[...]

Frost descobriu a identidade da jovem assassinada e entraram em contato com a família. Os pais, que não eram de Boston, estavam na cidade há mais ou menos duas semanas, desde a notícia do sequestro da família. Todos, especialmente Jane, que logo estaria construindo sua família e pretendia ter filhos, ficou muito abalada ao ver a reação dos pais, ambos chorando inconsolávelmente com a notícia trágica. Mesmo com toda angústia do sequestro, eles tinham esperança de que teriam sua filha de volta após a entrega do resgate, mas infelizmente ela estava morta.

Como era esperado por Maura, nenhum vestígio de sêmen encontrado. E os exames toxicológicos não apontaram nada. Zoey havia sido estuprada, espancada e mantida em cárcere privado, acorrentada por uma corrente, provavelmente, o que explicaria os ferimentos em seu tornozelo esquerdo.

Jane ficou notando o comportamento de Alex, e realmente ela estava estranha. Falava pouco, não demonstrava muitas reações, toda sua ironia e piadas mórbidas haviam cessado e seu falatório sem fim a respeito da Lauren para Jane também.

– Vamos lá — Jane disse para Alex, pondo a mão em seu ombro esquerdo — Vamos conversar sobre isso na sala de café.

Alex seguiu com Jane até lá, mas permanecia em silêncio e com a mesma expressão.

– Me conte o que está acontecendo, Alex. Você e Lauren brigaram, não foi?

– Não, nós não brigamos — Ela fitava o nada, e seu tom era baixo e calmo, mesmo sua expressão demonstrando certa angústia.

– Não? — Ela confirmou que não com a cabeça — Então porque Maura me disse que Lauren está agindo assim, igual a você?

– Assim como? — Alex ainda não olhava para Jane.

– Estranho! Qual é! Vocês duas são as pessoas mais hiperativas que conheço. E olhe pra você. Mal disse duas palavras hoje, e quando disse, eram todas voltadas para o caso. Nenhuma piada, nenhuma ironia. Eu te conheço, Alex. Que está te incomodando? Que houve entre vocês?

– Nós demos um tempo.

Jane não sabia o que dizer.

– Depois de brigarmos muito, de nos ferirmos muito, resolvemos dar um tempo. E tudo começou porque eu não consigo dizer o que eu sinto... e ela não soube esperar, não soube me ajudar a trabalhar isso...

– O que você sente? — Jane a olhou solidária, vendo que ela estava realmente mal.

– Eu amo a Lauren — Disse meio abobada — Eu simplesmente... não sei explicar, eu só... eu a amo!

– E por que não diz isso a ela, se é o que você sente, se ela sabe que você sente e quer ouvir?

– Porque... porque eu nunca amei e fui correspondida. Eu amava meus pais, mas eles não ligavam pra mim e morreram. Eu tive um cachorro, um único cachorro, e ele foi meu melhor amigo ao longo dos anos da minha vida que eu só soube ficar vadiando por aí. E ele morreu. Eu sempre fui sozinha. Tudo que eu amei foi tirado de mim, ou não me era correspondido. Eu amo a Lauren e eu sei que ela me ama também, e Deus, eu não podia me sentir mais feliz por saber disso, mas é esse o ponto: Amá-la e ser correspondida é assustador! Me sentir feliz assim é assustador porque eu tenho medo de que a qualquer momento aconteça alguma coisa e que ela seja tirada de mim! Se bem que agora já acho que estou perdendo ela, então...

Jane entendia ela. E como entendia! Qualquer pessoa que amava muito alguém poderia entender o medo de Alex, especialmente se fosse alguém tão traumatizada quanto ela. Jane colocou as duas mãos nos ombros da amiga e a encarou de perto.

– Você está com medo, porque nunca amou ninguém assim e nunca se sentiu tão feliz. É normal ter medo. Todo mundo tem medo. Eu também tenho os meus medos. Mesmo agora que estou prestes a me casar com a Maura, eu continuo com medo. A diferença é que mesmo com o medo, você não pode deixar de viver, de fazer e de dizer o que você quer. Alex, você sabe mais do que a Lauren e outras pessoas que nós não temos controle sobre nada. Nós somos detetives e quase todos os dias nós vemos pessoas de todas as idades, de todas as classes sociais, tendo sua vida interrompida de forma cruel pelas mãos de outra pessoa. Não é justo, mas acontece. E não são só os assassinatos... tudo na vida é meio injusto. E é tudo fora do nosso controle. Por mais que nós queiramos muito alguma coisa, por mais que nos esforcemos, não depende só de nós. Algumas coisas vão acontecer independente da nossa vontade e nunca, nunca sabemos quando vamos partir. E é por isso que você não pode deixar o seu medo ser maior do que sua felicidade. Você e Lauren estão assim, chateadas, dando um tempo, à toa, quando poderiam estar aproveitando essa felicidade que o sentimento de vocês causa...

Alex sentiu seus olhos marejarem. Nunca pensou que um dia ela ouviria aquele tipo de coisa vindo de Jane Rizzoli, mesmo com a amizade delas se tornando cada vez mais sólida e profunda.

– Não perde tempo, cara. Diz logo pra Lauren que você a ama.

– Hoje, assim que eu sair daqui, eu vou atrás dela.

– Isso! Isso! — Jane quase gritou de alegria, deu um tapinha no ombro direito dela — É assim que se fala!

[...]

Assim que saiu da Central, já era tarde, madrugada de segunda-feira. Pensou em ir direto ao apartamento de Lauren, mas não podia, pois ela não morava sozinha. Seria inconveniente chegar do nada num horário como aquele. Decidiu ligar de seu apartamento. Ligou várias vezes. O telefone tocava, mas ninguém atendia. Nas últimas vezes que tentou ligar, o telefone deu como desligado ou fora de aréa. Alex suspirou, tristemente. Com certeza Lauren estava evitando-a por causa da sua idiotice. Iria esperar e falar com ela no final do seu expediente, na segunda-feira. Ou melhor, daria um jeito de sair na hora do almoço para buscá-la na faculdade. Pediria desculpas, abriria seu coração e diria à ela que a amava imensamente e tudo ficaria bem.

[...]

Acordou tonta, fraca. Sentia uma dor atrás, na cabeça, que não a deixava nem se mover direito. Seu corpo todo estava dolorido, na verdade. Não teve muita dificuldade em abrir os olhos, porque não havia quase iluminação onde estava. Quando começou a se dar conta da realidade ao seu redor, viu que estava sentada num chão de madeira, suas costas encostadas na parede e havia algo prendendo seu tornozelo. Mexeu as duas pernas e ouviu o barulho do rangir da corrente no chão. Seu tornozelo esquerdo estava preso. Levou a mão direita para a cabeça, onde sentia estar vindo a dor e constatou o que já imaginava: um galo, e dos grandes. Da sua testa cortada, escorria sangue. Não o suficiente para matá-la de hemorragia, mas ainda assim, suficiente para sujar seu rosto e sua blusa. Piscou devagar, ainda tonta e com dificuldade se levantou do chão. Mesmo com o tornozelo acorrentado, o tamanho da corrente era suficiente para permitir que caminhasse livremente pelo lugar onde estava. E foi o que começou a fazer. Era escuro o lugar, só vinha uma luz fraca de uma fresta de madeira no chão e de uma única e pequena janela fechada. O lugar escuro tinha um ar sombrio. Era frio e úmido. Logo deduziu que estivesse num sótão de uma casa. Não haviam móveis, entulhos, ferramentas. Absolutamente nada que pudesse fazer qualquer diferença, que ela pudesse usar para escapar. Só havia uma pequena cama e um banheiro numa pequena porta em sua esquerda. Mas como havia ido parar ali?

De repente se lembrou. Ou pelo menos em parte. Estava na faculdade, como sempre. Teve suas aulas, se organizou em grupo por conta de um trabalho, passou o intervalo calada, em silêncio na roda das amigas, porque enquanto as mesmas compartilhavam assuntos dos mais variados, sua cabeça e seu coração estavam longes, distantes. Estava pensando em como as coisas podem se tornarem tão ruins de repente, como tudo muda tão rápido. E isso porque ela não imaginava que sua sorte estaria prestes a mudar, e que sim, as coisas iam mesmo tornar-se ruins num piscar de olhos.

Sua lembrança só ia até o momento em que sozinha ela se dirigiu até o estacionamento da Universidade. O estacionamento era enorme e a parte onde seu carro se encontrava era mais isolada, perto das árvores e da bela paisagem rural que cercava aquele lado do campus. Abriu o carro, mas não chegou a adentrar, sentiu uma pancada forte na nuca e na cabeça e de repente nada mais via. Estava desmaiada.

– Eu quero sair daqui! — Tentou gritar, mas sua voz estava rouca e falhada por conta da dor e de sua desidratação. Não sabia que horas eram e nem quanto tempo já estava ali, porém sentia sede.

Se assustou quando ouviu um barulho e de repente a pequena porta no chão foi erguida e o rosto de um homem estranho surgiu. Em instantes, ele estava em pé no sótão. Era alto, bem mais alto que ela, moreno de pele, bronzeado, os cabelos negros escorridos de tão liso e olhos maliciosos. Não parecia ter cara de serial killer, porque seu rosto não indicava traços de ser um homem inteligente suficiente para isso.

– O que você quer de mim? Porque me trouxe aqui? Onde eu estou? — Mesmo trêmula de medo, fraca pela pancada, seu tom era intimidador, firme, o que fez o homem soltar uma risada.

– Não vai fazer muita diferença se eu te disser, boneca — Ele deu um sorrisinho para ela e colocou um prato e um copo no chão, próximos de onde ela estava sentada novamente. Olhou para o prato e viu um sanduíche. — Beba e coma. Não queremos que você morra de desidratação.

"Queremos", então ele não estava sozinho? Haviam outros? Eram um grupo? Uma quadrilha? Ela havia sido sequestrada?

– Como vou saber que você não envenenou a comida ou bebida? — Ela o olhava com repugnância e medo evidente, embora seu olhar fosse duro — Não vou comer!

– Se nós quiséssemos você morta nesse momento, não tenha dúvidas que você já estaria e não seria uma morte tranquila por envenenamento de comida não, boneca. Vai por mim, é melhor você comer para aguentar o tranco — Ele se ajoelhou perto dela e passou sua mão esquerda, grande e áspera, no rosto da garota que congelou no mesmo momento — Você não sairá daqui tão cedo. É melhor se manter forme e hidratada.

Ele se afastou, se levantando, se encaminhou até a porta pequena no chão, deu uma última olhada em sua vítima, e disse sorrindo:

– Mais tarde eu volto para ver como você está. Se comporte, minha dama ruiva!

[...]

Alex estava desesperada. Se no domingo à noite havia achado "normal" Lauren não ter atendido seus telefonemas e nem retornado porque estava irritada, na segunda-feira começou a estranhar essa atitude dela. Ligou para a ruiva no horário em que ela saia da faculdade, na intenção de combinar de saírem para conversar. O celular tocou incansavelmente e não foi atendido. Na verdade ele foi, uma hora depois, mas não era pela Lauren e sim por uma de suas amigas, Karen. Ela disse para Alex que estava indo no estacionamento e estranhou ao encontrar o carro de Lauren lá, porque ela já havia se despedido e dito que iria embora há quase uma hora, e além de seu carro ainda estar lá, estava aberto e seu celular caído ao chão, assim como sua bolsa com suas coisas.

– A Lauren desapareceu! — Alex disse num único fôlego de desespero ao entrar no escritório. Ela já havia dito para Jane, Frost e Korsak que não encontrava sua namorada em lugar algum, mas agora, após passar o dia todo atrás dela com sua amiga Karen, podia afirmar aquilo com certeza — Ela estava na faculdade hoje de manhã, e desapareceu na hora de ir embora.

– Você tem certeza? — Jane perguntou receosa.

– Tenho. Karen disse que encontrou o carro dela no estacionamento, aberto, e o celular e a bolsa caídos no chão, Jane! Ela não sumiu porque quis, pra me dar um gelo, levaram-na! Não a assaltaram, mas sim a levaram!

Jane, Frost e Korsak se entreolharam. Se as coisas já estavam tensas com o novo caso difícil e desafiador, agora, estavam definitivamente num campo minado, onde tinham que manter a calma, raciocinar e tomar cuidado a cada novo passo que dariam para não pisar em uma mina.

– Nós temos que manter a calma, especialmente você — A amiga disse para Alex, vendo o quão nervosa ela já estava em seu rosto — Você é uma detetive, sabe como temos que agir nesse caso, então vamos fazê-lo.

– Sim, Jane tem razão — Concordou Frost — Você sabe exatamente que horas ela foi para o estacionamento?

– Ela saía da faculdade hoje 12:00, e segundo Karen, ela não passou em lugar nenhum, foi direto para o estacionamento. Do prédio e da sala onde elas ficam até lá, leva no máximo vinte minutos.

– Nesses vinte minutos ela não poderia ter esbarrado em alguém na Universidade? Têm câmeras de segurança no estacionamento?

– Eu não sei...

– Vamos descobrir. Se tiver, vamos checá-las e poderemos ver quem a levou.

Frost, Korsak, Jane e Alex começaram a correr atrás de informações a respeito de Lauren. Se ela havia desaparecido, levada por alguém, fosse pelo motivo que fosse, era caso de polícia e eles eram da polícia. Jane não quis dizer nada ainda, era cedo, mas seu faro de detetive e seu sexto sentido de coisas ruins estavam lhe dizendo que Lauren havia sido sequestrada pelo mesmo grupo que assassinou todas aquelas garotas na Califórnia e em Massachusetts. E se isso fosse mesmo verdade, elas estavam com um grande problema em mãos.

O combinado foi de que Karen ficasse no apartamento delas, pronta para atender qualquer telefone feito no telefone de lá, ou até mesmo no celular de Lauren. Eles não sabiam quem a havia levado, e nem o motivo, se entraria em contato ou não. Podiam esperar tudo, especialmente o pior.

Eles foram até a Universidade, explicaram o ocorrido e tiveram acesso às câmeras de segurança do estacionamento. Viram um homem todo de preto e encapuzado dar com um pedaço de pau na cabeça de Lauren e carregá-la até um carro todo preto estacionado próximo dali.

– Como vocês não viram isso? — Ela berrou com os dois homens que ficavam encarregados de monitorar as câmeras — Uma aluna é sequestrada dentro do campus da Universidade e ninguém vê? Ninguém faz nada?

Jane tratou de se colocar na frente de Alex e segurá-la, antes que ela fizesse alguma besteira que pudesse prejudicá-la. Os dois homens estavam assustados, com medo. Se alguma coisa acontecesse com Lauren além de se sentirem culpados, eles podiam ser acusados, já que eram os encarregados de monitorarem as câmeras, mas no entanto, não virão, porque um estava no banheiro e o outro tirava um cochilo naquele horário, que costumava ser o mais sossegado.

Frost pegou o vídeo que continha aquela cena e ele e Korsak conversaram com alguns alunos da sala de Lauren, inclusive com os professores que ela teve aula no dia. Tentaram encontrar alguma testemunha, mas não havia ninguém no estacionamento, especialmente naquela parte, quando Lauren foi pega. Jane tentava acalmar Alex o tempo todo, porque sabia exatamente o que ela devia estar sentindo. Era o mesmo que ela sentiria se fosse sua Maura.

Quando estavam voltando para a Central, Alex no carro com Jane, seu celular tocou. Era Karen avisando que havia acabado de receber uma ligação no apartamento dizendo que haviam sequestrado Lauren, e que entrariam em contato novamente.

Antes do dia terminar, todos na Central estavam sabendo do sequestro de Lauren, inclusive o Tenente Cavanaugh. Dois policiais e técnicos foram mandados até o apartamento que a ruiva divide com Karen para que eles fizessem o procedimento no telefone que pudesse permitir que rastreassem a próxima ligação dos sequestradores e também para darem proteção a Karen.

O pai de Lauren havia sido acionado em Wyoming pelos sequestradores e sem pensar duas vezes, desesperado, pegou sua esposa e sua outra filha, Kate, e com seu jatinho particular, chegaram em Boston ainda na segunda-feira, à noite.

20:30h e Alex, Jane, Maura, Frost e Korsak ainda estavam na Central, todos reunidos no escritório.

– Isso... isso não faz sentido — Alex estava relutante em admitir que Lauren havia sido sequestrada pelo mesmo possível grupo que havia assassinado à vítima na mesa de autópsias de Maura — O modo de operação deles mostrou que só sequestram filhas de homens ricos...

– O perfil de todas as vítimas batem com o de Lauren — Frost disse cuidadosamente — A mesma faixa de idade, universitárias que moram num Estado diferente que dos pais...

– Mas Lauren nunca me disse que seu pai era rico, que era empresário ou sei lá... Eu sabia que ela era de uma família boa mas... — Só de sequer pensar em admitir que talvez ela tenha sido mesmo sequestrada por aqueles desconhecidos, o coração de Alex era esmagado. Porque todas as vítimas haviam terminado em cima de uma mesa de autópsias e ela não podia deixar que isso acontecesse com Lauren.

Maura, mostrando-se amiga e solidária, num olhar terno de compreensão e pesar, se aproximou de Alex e passou o braço direito em suas costas, tocando seu ombro e fazendo um carinho.

– Vamos ter calma para raciocinarmos com coerência. Não podemos tirar conclusões precipitadas, mas também não podemos perder tempo, porque sabemos que quando alguém é sequestrado, cada minuto pode significar tudo — Jane disse, se posicionando na frente do quadro, ficando num ponto onde todos ali na sala pudessem vê-la.

– Ela vai ficar bem, nós vamos conseguir encontrá-la — Maura sussurrou perto do ouvido de Alex, que apenas a olhou com gratidão e carinho.

De súbito, Tenente Cavanaugh entrou no escritório.

– Lauren é filha de Thomas Grayson, ele é dono do maior escritório de advocacia de Wyoming, é o melhor advogado criminalista do país e ele e sua família acabaram de chegar em Boston num jato particular. O FBI já está sabendo do sequestro da Lauren e vão querer se meter no caso, porque eles estão atrás desses sequestradores desde que aconteceu o primeiro sequestro na Califórnia. A mídia já está divulgando o sequestro da filha do grande e imponente Grayson, o que fará com que o FBI se torne ainda mais arrogante sobre nós — Ele disse sério, num único fôlego, surpreendendo a todos, especialmente Alex. — Porque não me disse que Lauren é uma Grayson, Detetive Vause?

– Eu não sabia, senhor — E pela forma como ficou pálida, pela sua expressão, definitivamente ela não sabia mesmo.

– E o que nós faremos? — Korsak perguntou.

– Continuaremos trabalhando no caso, porque uma das vítimas está na mesa de autópsias da Dra. Isles. Eles não podem, ainda que queiram, nos tirar do caso. Teremos que trabalhar em equipe com o FBI. Amanhã podem esperar que agentes aparecerão aqui bem cedo. E um deles foi enviado para o apartamento de Lauren e Karen, também. Qualquer informação que obtivermos do caso, qualquer pista sobre os sequestradores, somos obrigados a compartilhar tudo com eles. E Alex, você está fora do caso.

– O que? — Todos se entreolharam surpresos e Alex ficou transtornada — Não, senhor! Eu não posso ficar fora do caso, eu sou detetive! Eu sou boa no que eu faço... e é a Lauren...

– Exatamente porque é a Lauren que você está fora do caso, detetive Vause. Não só nós, mas todos estão sabendo sobre o relacionamento de vocês. E por ela ser sua namorada, isso pode atrapalhar seu desempenho. E eu não posso assumir a responsabilidade caso alguma coisa aconteça. Estamos sendo pressionados pelo Estado e pelo FBI. Não vou arriscar minha carreira e nem vou deixar que arrisque a sua. Você acompanhará tudo, mas não participará de nada. É só! — Ele deu às costas e saiu do escritório, deixando todos ali ainda mais apreensivos e sem saberem o que fazer.

[...]

Lauren sabia que era noite, porque a fresta de luz que entrava pela pequena janela bem no topo não entrava mais, e também porque a temperatura havia caído. Naquele fim de novembro estava cada vez mais frio. E naquela noite de segunda-feira, o frio era de congelar almas.

A roupa que Lauren usava é a que havia ido para faculdade. Uma calça jeans simples, uma blusa branca e preta listrada de mangas compridas e um casaco não muito quente, cinza. O sangue do corte em sua testa havia secado e grudado em seu rosto e deixado manchas em sua roupa. Ela estava sentada sobre a pequena e estreita cama, encolhida, abraçando suas pernas dobradas, porque estava tremendo de frio, e também de medo. Não fazia a mínima ideia de onde estava e nem exatamente o que aquele homem, que com certeza estava acompanhado de mais gente, queria dela. Mas sabia que não era nada, nada bom.

Lauren nunca foi de se deixar intimidar com nada. Mesmo sendo de família rica e bem criada, na época da escola vivia se metendo em confusão. Já havia saido no tapa com várias garotas, até mesmo com rapazes. Mesmo sendo mimada, ela não era fresca. Mas sem dúvida alguma nada do que viveu até hoje se comparava com aquilo. Aquele sótão totalmente escuro e vazio, aquela corrente prendendo seu tornozelo, saber que estava em qualquer lugar que não sabia onde era e que não tinha como se comunicar com ninguém, que estava presa, isolada, e só Deus sabe o que aconteceria consigo, era a pior sensação do mundo e cada minuto que passava ali sozinha, sem resposta para suas dúvidas, Lauren sentia seu medo aumentar, estava quase entrando em pânico.

Estava com tanto medo, especialmente daquela escuridão silenciosa do lugar, que deitou na cama perto da beirada, porque a corrente que a prendia pelo tornozelo não lhe possibilitava tanta mobilidade e conforto como ela queria, e preferiu fechar os olhos do que encarar a escuridão. Pensar em coisas boas, e bonitas, sempre ajudam. Então quando fechou os olhos, forçou sua mente a pensar em coisas boas, e à primeira coisa que veio em sua cabeça foi uma cena que ocorreu na sua infância. Ela e sua irmã mais nova correndo pela praia enquanto riam e o pai filmava tudo. Elas corriam livremente enquanto o vento bagunçava seus cabelos e depois se jogavam na água como dois peixinhos. Depois, estranhamente, a segunda coisa que veio em sua mente não foi uma memória, mas uma imagem do que ela queria que acontecesse: Viu Alex e ela andando de mãos dadas em algum lugar que não sabia onde era, mas era lindo. E em cima dos ombros de Alex, havia uma criança que segurava com as pequenas mãozinhas em seus cabelos negros e ria sem parar de alguma coisa que elas estavam falando. Logo em seguida elas e o garotinho estavam amontoados em um sofá, em baixo de um cobertor, agarrados, assistindo televisão. O garoto dormiu de repente e as duas se olharam por cima da cabeça dele. Lauren viu no olhar de Alex, aquele olhar que ela tanto amava desde o primeiro instante que não importava o que acontecesse, quantas vezes elas brigassem, o quão estúpida elas pudessem ter sido uma com a outra, elas realmente se amavam. E então Lauren entendeu ali, naquele sótão escuro e assustador que Alex era a pessoa que desde pequena ela idealizava e esperava. Era quem daria sentido para sua vida, que até então não tinha emoção de verdade. Era a Alex. E ao chegar naquela conclusão, sentiu ainda mais medo, medo de não sobreviver e não poder dizer olhando nos olhos dela que sentia muito por ter sido uma estúpida, e que imatura ou não, ela a amava.

De repente começou a ouvir aquele barulho que ouviu da primeira vez que o homem alto surgiu para lhe trazer comida. Seu coração disparou. Não sabia se era bom ou ruim ele aparecer. Porque não aguentava mais ficar naquela escuridão silenciosa, sem ver um pingo de luz. Assim que ele entrou no sótão, fechou a pequena portinha e acendeu a luz. Só então que Lauren reparou que havia um botão para acender a lâmpada no teto. Franziu o cenho e serrou os olhos com a luz forte até se acostumar e ficou analisando o homem.

– Vejo que não comeu quase nada — Ele disse enquanto caminhava até onde ela havia deixado o prato e o copo — É uma pena. Agora só vai comer de novo amanhã, quando eu quiser — Olhou diretamente nos olhos dela e abriu um sorriso, e o sorriso dele era tão sádico e malicioso que causava arrepios profundos em Lauren.

Ele era tão alto e grande, às costas e os ombros largos, e com aquele olhar aterrorizador e o sorriso maléfico, ficava parecendo uma espécie de monstro. Com certeza ele devia ter feito algum esporte, algum tipo de luta em algum momento de sua vida. Só isso explicaria a desenvoltura excessiva de seu corpo e de seus músculos, que embora não fossem super definidos, eram grandes.

– Quando eu vou sair daqui? — Lauren perguntou num tom baixo — O que vocês querem de mim?

– Calma, docinho. Nós já falamos com o seu pai. Sabia que sua família já está em Boston? Vieram todos, inclusive sua irmã — Ele sorria agora querendo transparecer simpatia e foi se aproximando da cama, fazendo Lauren sentar e encolher-se, com medo. Ele sentou próximo à ela, e ela o encarava aterrorizada.

– Meus pais? Minha irmã? Estão em Boston? — Ele assentiu — O que você disse a eles?

– Eu não disse nada. Meu amigo disse. Disse que nós sequestramos você e que queremos um resgate de 150 milhões de dólares. Você vale tudo isso, não vale, ruivinha? — Ele tocou a perna dela, pouco a cima do tornozelo e Lauren gritou de tão assustada.

– Não encosta em mim! Se afaste de mim! Eu quero ir embora daqui! Meu pai tem esse dinheiro, ele... ele tem. Ele dará a vocês. E aí vocês me deixam ir... — Começou a chorar ainda que não quisesse, as lágrimas transbordando fazendo o homem sorrir ainda mais.

– Sh, sh — Ele se aproximou mais e ela não tinha mais para onde recuar. Tocou o rosto dela com a mão direita, era enorme, os dedos grossos — Se eu fosse você não teria tanta pressa em ir embora, minha dama. Esse é o primeiro dia ainda. E nós temos muito o que nos divertirmos ainda, não acha? — Ele deslizou as costas dos dedos pelo rosto dela. Sua voz grossa dizendo aquilo de forma maliciosa causou um embrulho em seu estômago.

Lauren não sabia de onde veio forças, porque ainda estava dolorida e mal havia mordido o sanduíche, mas conseguiu levantar da cama de forma bruta e correr em direção à portinha no chão, e correu tão rápido que caiu, ao sentir a corrente no tornozelo, como se a puxasse de volta.

– EU QUERO SAIR DAQUI! ME DEIXA SAIR DAQUI! — Gritava aos prantos, no chão.

Edward soltou uma risada quase diabólica que ecoou pelo lugar. Se levantou e andou devagar, despreocupado, até onde ela estava caída. Se abaixou, apoiando seu peso em um dos joelhos e com a mão direita agarrou nos cabelos ruivos ondulados de forma bruta, puxando e fazendo-a erguer a cabeça para perto dele.

– Pode gritar o quanto você quiser, isso não me intimida. Pelo contrário. Aumenta meu tesão.

Ele se levantou e ainda usando uma mão só, puxou-a com mais força pelos cabelos, erguendo Lauren do chão também, empurrou-a de forma bruta até fazê-la bater o corpo na parede e pressionou seu corpo enorme no dela, Lauren podia até sentir o volume do membro dele, que já estava ereto. Nada excitava mais Edward do que suas damas do cativeiro, ainda mais quando elas gritavam.

– Infelizmente, para sua sorte, hoje eu não vou poder dar o que você está precisando — Ele sussurrou com o rosto próximo ao dela, um hálito ruim, misturado com bebida e cheiro de podre veio na direção do rosto da ruiva, que estava coberto de lágrimas — Mas em breve nós voltaremos a esse assunto, e vai ser um prazer te fazer gritar sem parar.

Ela prendeu a respiração e ficou o encarando com os olhos arregalados. Mesmo morrendo de medo, tremendo, e com as lágrimas rolando pelo seu rosto, ela tentava manter uma feição séria, queria mostrar que era forte, durona. Mal sabia ela que Edward adorava as duronas.

[...]

Nunca um dia havia durado tanto quanto aquela segunda-feira infernal. A cabeça de Alex latejava de tanta dor. Pensava em um milhão de coisas ao mesmo tempo e não conseguia se concentrar em um pensamento específico. Ela só sabia que de um jeito ou de outro precisava encontrar Lauren o mais rápido possível. Não, ela não ficaria de braços cruzados apenas assistindo seus colegas e os metidos do FBI tentando decifrar o caso dos sequestros terminados em assinato. Ela não faria isso, porque se fizesse, esse sequestro, o sequestro de Lauren, também terminaria em assassinato. E ela não deixaria que isso acontecesse.

Saiu da Central e não quis ir nem no Dirty Robber beber uma cerveja. Jane e Maura ofereceram companhia, mostraram-se preocupadas, assim como Korsak e Frost, mas ela não queria ficar perto de ninguém. Ela precisava ir para casa, ficar sozinha e pensar. Recebeu ligações de Jonathan e não atendeu, só mandou uma mensagem pedindo desculpas.

Já era tarde quando chegou em seu apartamento. Ela mal entrou, fechou a porta, tirou o casaco e sentiu as lágrimas quentes rolarem pelo seu rosto. Finalmente, ali, na solidão do seu lar, estava permitindo-se chorar. Chorava pelas últimas brigas com Lauren, pelo término do namoro, por não ter dito que a amava quando teve chance, pelo sequestro, por raiva, por se sentir impotente. Chorava muito. Chorava alto. E então começou sua revolta. Pegou o primeiro vaso que encontrou na frente e tacou na parede. Derrubou suas coisas que estavam em cima do balcão, chutou a poltrona que caiu do outro lado, quebrou outro vazo e alguns enfeites até ficar cansada e cair no chão, aos prantos.

Parecia que o mundo estava desmoronando e era só o começo...

Notas finais
Que achou, Bruna? Espero que não tenha atacado sua diabete ;)