R&I - Wish You Were Here

10 Capítulo 9 - Nada Dura Para Sempre


Notas iniciais
Foi um pouco complicadinho escrever esse capítulo, mas saiu. Acho que isso vai tirar a dúvida de vocês e tal e limpar a barra da Maura, que nunca teve culpa de ter ido embora. É isso aí. Boa leitura meninas.

As vezes não nos damos conta, mas o tempo é uma das, senão a maior força que existe no Universo. O tempo está presente na vida de todos nós, e ele as rege. Tanto isso é verdade que temos horário para acordar, para nos alimentarmos, para estudarmos, trabalharmos e todas as outras coisas. Ninguém faz nada sem o tempo. O tempo faz tudo acontecer, as estações mudarem, os dias, as semanas, os meses passarem, os aniversários virem, as pessoas envelhecerem. E o tempo sempre modifica tudo. Não existe nada que seja imutável. Absolutamente. Porque tudo nesse mundo passa pelo fenômeno do tempo, e o tempo muda tudo. Isso não significa que não existam coisas eternas, mas...

O fim do ano já havia chegado. Passou tão rápido que elas nem haviam se dado conta. Como o tempo voava. Mas elas aproveitaram muito bem. Estudaram, se divertiram, passearam juntas, namoraram, brigaram. Fizeram tudo que um casal tinha direito. Angela e o resto da família Rizzoli sabia sobre o namoro de Jane e Maura desde agosto, dias antes do aniversário de Jane, quando elas resolveram contar. E eles não viam problema algum nisso, embora fosse uma notícia inesperada que surpreendeu a todos. Maura era muito bem vinda na família Rizzoli. Pena que Jane não era bem vinda na família Isles...

Constance "conheceu" Jane no dia seguinte a briga que a morena teve com a garota que empurrou Maura na aula de Educação Física. O diretor chamou a mãe das três garotas para uma conversa e de imediato Constance detestou Jane. A olhou como se ela fosse um inseto e um inseto perigoso. Ela já imaginava pela quantidade de vezes que Maura mencionava a garota e ia na casa dela que as duas tinham uma relação forte e íntima, mas naquele dia, ao ouvir a professora contando da briga e dizendo que Jane partiu para cima de Karine só porque ela havia machucado Maura o alerta da mulher começou a piscar. Havia algo de errado ali...

Com o passar dos meses, Constance deixou de fazer muitas viagens, porque além de estar focada em seu trabalho em Boston, ela estava focada em Maura. Era a primeira vez que dava tanta atenção assim a filha, pois estava preocupada com o que poderia acontecer se ela não pudesse resolver o mais breve possível aquele "problema" que se resumia o relacionamento das duas. Constance ficou mais próxima de Maura, sempre lhe fazendo perguntas, querendo se mostrar presente na única intenção de descobrir o que de fato ocorria entre Maura e Jane, mas à loira não era tão burra assim e conseguia se esquivar do questionamento da mãe.

Era Outubro e Constance estava cansada de fazer o papel da mãe presente e liberal e não conseguir arrancar uma confissão de Maura para ter certeza e poder agir. Deixava a garota ir na casa de Jane sempre, sair com ela e até mesmo levá-la para sua casa, e estranhamente Maura nunca levava Jane. Naquele dia, ela resolveu testar Maura.

- Maura, querida, tenho que te dizer uma coisa — Começou ela, ao entrar no quarto da loira, com um sorriso cínico — Nós teremos que nos mudar.

- O quê? — Maura largou na hora o livro que segurava em mãos, olhando assustada para a mãe — Como assim nós teremos que nos mudar? E o seu trabalho aqui em Boston? Quando?

- Algumas coisas deram erradas e teremos que voltar à Inglaterra. Acredito que no máximo duas semanas para termos tempo de arrumarmos nossas coisas.

- Duas semanas? — Quase gritou com a voz já embargando.

- Eu sinto muito, querida. Sei que estava gostando de morar aqui, do colégio, que até cogitou a hipótese de fazer uma faculdade aqui, mas não há outra alternativa. Teremos que voltar.

- Não, eu não vou embora daqui! — Agora parecia revoltada. Levantou da cama e ficou parada, encarando a mãe. — Nós não podemos ir embora, ainda mais em duas semanas! Eu não terminei o colégio ainda, é o ano da formatura.

- Querida, você é a melhor aluna do colégio. Sabe que já passou de ano, ainda que perca dois meses de aula. E você pode realizar sua formatura no seu antigo colégio lá em Londres. É só eu conversar com a Madre Superiora e tenho certeza que ela ficaria honrada de ver você de volta para a formatura.

Constance falava tudo com tanta naturalidade e de uma forma que ela própria acreditava no que dizia. Tudo na intenção de ludibriar a pequena Maura, que já estava ficando em pânico, os olhos marejados. Ela não podia ir embora de Boston, muito menos dos Estados Unidos. Aquilo era um pesadelo, um absurdo sem fim!

- Não, não, não... eu não quero voltar pra Londres, eu não quero me formar em outro colégio... eu... — Ela só pensava em Jane. Era o seu motivo para ficar ali. — Eu não posso sair daqui, mãe!

Ela via o pânico nos olhos verdes cheios de lágrima da filha, e isso não parecia comovê-la. Ela insistiria naquela mentira até que arrancasse de Maura a informação que queria.

- Claro que pode, Maura. Você só tem dezessete anos. Está começando a vida e terminando o colégio. A faculdade te aguarda e você conhecerá pessoas muito melhores do que as daqui em Oxford.

Maura explodiu num excesso de fúria.

- Eu não quero conhecer ninguém! Não existe pessoa no mundo melhor do que a Jane! Eu vou ficar aqui com ela!

Uma sobrancelha de Constance se arqueou. Estava começando a tomar o rumo que ela queria, a discussão.

- Maura, minha querida, eu sei que vocês são muito amigas, mas...

A loira soltou uma risada de indignação enquanto as lágrimas rolavam por seu rosto.

- Nós somos bem mais do que muito amigas, mãe! Eu amo a Jane! — Gritou e um silêncio assustador se fez por longos instantes.

Maura não acreditava que havia acabado de confessar aquilo, mas não se importava. Era a verdade.

- Ama a Jane? — Perguntou num tom baixo, os olhos estreitos, atentos — Em que sentido, Maura?

- Eu... não... não deveria ter dito isso...

A loira sentou na beirada da cama, atordoada, passando as mãos pelo rosto e secando as lágrimas. Constance soltou um suspiro de impaciência, mas não podia ser severa com Maura. Precisava manter a aparência de mãe amiga e compreensiva.

- Maura... vamos, me diga. Eu sou sua mãe e estou aqui para ajudá-la. Eu sei da amizade, do quanto se gostam, mas se nós precisamos nos mudar não vejo outra solução... — Disse tranquilamente, sentando-se ao lado da loira na cama, que ergueu o rosto e virou, encarando a mãe.

- Mãe, eu não posso ir embora! — Desespero, novamente havia desespero nos olhos e na voz da futura legista — Eu não posso ficar sem a Jane. Nós... nós somos namoradas...

Constance fingiu espanto ao ouvi-la, mesmo desconfiando disso desde o início. Pronto. Havia conseguido o que queria: a confissão de Maura.

- Namoradas?

- Eu... eu fiquei com medo de contar a você o ao papai, não sabia como vocês iriam reagir... porque além de ser uma menina, Jane é... Jane não é como nós e... — Ela estava completamente embaralhada.

- Querida, eu sou sua mãe, deveria ter confiado em mim para me contar isso! — Deu um sorrisinho e tomou as mãos de Maura, trêmulas e gélidas, nas suas. — Estou aqui apenas para ajudá-la. Mas me explique isso. Namoradas?! Desde quando?

- Desde aquela viagem no verão...

- Todo esse tempo e não me contou — Se fingiu de chateada.

- Eu sinto muito, mas eu fiquei com medo, não sabia como seria a reação de vocês. Eu não podia simplesmente esperar que reagissem como a família da Jane.

Agora Constance realmente estava surpresa.

- A família da Jane sabe?

Maura assentiu com a cabeça e abaixou os olhos ao ver novamente a decepção na expressão da mãe.

- Até os Rizzoli sabem e eu, sua mãe, não.

Isso complicava um pouco as coisas para Constance, o fato da família de Jane saber do relacionamento e apoiá-las. Mesmo assim ela jamais aceitaria sua filha apaixonada e namorando uma suburbana masculinizada que com certeza jamais pisaria numa Universidade. Ela queria Maura com pessoas de sua classe, fossem homens ou mulheres. Pessoas ricas e intelectuais. Queria uma filha médica formada em Oxford e assim seria.

Maura soltou as mãos da mãe e se encolheu. Não sabia qual seria a reação da mãe agora que sabia sobre elas. E o pior de tudo era essa história de se mudarem. Não importa o que tivesse que fazer, Maura estava decidida a não ir. Ela não deixaria Jane nunca.

No dia seguinte Constance já desfez "a mentira", sem, é claro, dizer que estava mentindo. Falou para Maura que havia resolvido o problema e que eles poderiam permanecer ali, o que a deixo vibrando de felicidade. Constance após confirmar o que já sabia, passou à noite pensando e então encontrou uma solução para seu problema.

[...]

- Quanto acha que tudo isso vai durar? — Jane perguntou, olhando para o céu estrelado.

Era início de dezembro. O inverno havia chegado e fazia muito frio em Boston, um frio que não fazia há quase uma década. Na última semana havia nevado muito. As ruas estavam cobertas de gelo. Nevou tanto que houve uma paralisação e não houve aula.

Naquele sábado à noite, Maura e Jane estavam no jardim da casa da morena, o mesmo também coberto de gelo. Estavam deitadas, ambas parecendo algum tipo de empacotamento de tantas roupas que vestiam, aqueles casacões, luvas, tocas e botas.

Maura virou a cabeça e olhou para Jane, que logo virou e a olhou também.

- Acredito que vá durar até o inverno passar e fizerem a limpeza da cidade, tirando toda essa neve das ruas e...

Jane soltou um risinho.

- Não, Maura. Não falo sobre esses momentos na neve.

- Oh sim. Fala sobre o quê?

- Sobre nós. Sobre essa felicidade que nós possuímos...

Elas se olharam e sorriram. A felicidade reinava na vida de ambas há tanto tempo que elas não conseguiam se lembrar da vida que tinham antes de se conhecerem. Claro que nada era perfeito, que haviam momentos de irritação, de brigas, de desentendimentos, mas mesmo assim, elas eram felizes.

- Essa felicidade durará enquanto a endorfina agir em nossos cérebros... — Maura piscou para Jane, havia falado aquilo com um tom de brincadeira.

- Você é mesmo uma sabichona idiota, não é? — As duas riram.

- Sabichona até posso ser... mas o idiota... eu deixo pra você!

- O quê? — Jane se indignou e Maura levantou rapidamente do chão, saindo correndo — Volte aqui que eu vou te mostrar quem é idiota!

Levantou e saiu correndo atrás dela. Quando a alcançou, a abraçou forte e a encostou na parede da casa, na parede do fundo. Maura puxo a toca de Jane cobrindo seus olhos.

- Que isso? Quer me deixar sem visão?

- Uhum... Não precisamos enxergar para sentir.

- Sentir o que exatamente?

- A felicidade... — Sussurrou, roçando os lábios nos dela — O amor... — Selou-os e Jane sorria. — Eu te amo — Ergueu a toca dela novamente a morena pôde encarar os olhos verdes que tanto amava.

- Eu também te amo e não quero perder você nunca... — Disse de forma sincera, como se de alguma forma pudesse prever que acabaria perdendo Maura, mesmo nenhuma das duas sequer imaginando essa hipótese.

- Você não vai me perder, Jane. Eu aprendi desde criança que nada dura para sempre, mas o meu amor por você é eterno. E por saber disso, eu tenho certeza que não importa o que aconteça nesse mundo, não importa nenhuma mudança que o tempo traga, esse amor eterno que eu sinto por você e você por mim vai nos unir para sempre.

Aquela resposta encheu o coração da detetive de alegria e espantou aqueles pensamentos de perdê-la. Sem dúvida alguma Maura era um anjo que haviam mandado para sua vida.

[...]

Constance sabia que quanto mais o tempo passava, mais seria difícil para Maura desapegar de Jane. Se bem que pela forma como falava dela, de qualquer jeito seria difícil. E Constance não poderia fazer nada.

Esperou a formatura de Maura acontecer, e durante todo o tempo desde que descobriu o namoro das duas fingiu apoiá-las, até mesmo convidando Jane para um jantar em sua casa e convencendo o marido de que era melhor fingir aceitá-la do que impor sua posição contra ela e complicar a situação com Maura.

Uma semana depois da formatura e antes do natal, Constance decidiu que era hora de agir. Ela e Richard que já estavam de combinação chamaram Maura para uma conversa e contaram a ela que seu pai biológico, Paddy Doyle era um mafioso assassino, conhecido e respeitado, e que tinha muitos homens trabalhando para ele. É claro que os dois na hora de contarem isso, fizeram de uma forma que Doyle parecesse ainda mais aterrorizante e ruim do que de fato era. Maura ficou horrorizada ao saber que seu pai era assim, pois sempre teve o desejo de conhecer os pais biológicos e sempre os idealizou de uma maneira diferente do aquilo.

- Só não estou entendendo uma coisa... porque estão me contando isso só agora e porque vocês dois me parecem tão preocupados? Eu não quero aproximação com um homem que faz o que ele faz. Meu pai é você — Olhou para Richard, que sorrio para a filha e depois ela voltou a alternar o olhar entre os dois, confusa.

Richard e Constance trocaram um olhar de assentimento para o que estavam prestes a fazer.

- Paddy sabe da sua existência, obviamente e sabe que você está conosco. E também sabe que estamos em Boston e ele também está por aqui.

- E vocês acham que ele me procuraria? Até agora não o fez...

- Ele me procurou esses dias — Constance mentiu, fazendo uma expressão tensa, deixando Maura preocupada.

- Ele te procurou? Por quê? O que ele queria?

- Queria falar sobre a filha dele, você. Ele me fez vários questionamentos e exigências.

- Exigências?

- Que era para eu e seu pai Richard cuidarmos direito de você, para não deixá-la cair em caminhos errados ou desperdiçar sua vida.

Maura estava cada vez mais confusa e com medo, mesmo não sabendo ainda no que aquela conversa resultaria.

- Meu pai biológico procurou você pra te fazer exigências? Pra dar palpite na criação que vocês me dão? — Soltou uma risada — Ele não tem bom senso? Quem é ele para exigir algo de vocês dois?

O casal se entreolhou e deu de ombros.

- Ele é o maior mafioso que essa cidade já viu.

- E ele fez ameaças — Constance acrescentou.

- Ameaças? Que tipo de ameaças?

- Primeiro ameaçou a mim e ao seu pai, caso não cuidássemos de você da maneira que ele acha apropriado e depois... — Se fez de hesitante, instigando a curiosidade de Maura.

- E depois?

- Ele disse que têm homens dele que te vigiam o tempo todo desde que chegamos aqui. Ele sabe cada passo que você dá, Maura. Ele sabe da Jane.

Maura estreitou os olhos e sentiu um arrepio na espinha, se encolheu toda ali sentada no sofá.

- Sabe da Jane... como... assim?

- Sabe que vocês são namoradas e deixou claro que não aprova isso.

[...]

Maura ficou bem tensa depois daquela conversa. Estava preocupada com Jane. Mas não sabia o que fazer. Inicialmente disse aos pais que o fato de Paddy Doyle não aceitar suas escolhas não significava que ele iria fazer mal a Jane e tentou seguir a vida normalmente, não contando nada para Jane e não deixando transparecer, pelo menos não muito que algo a incomodava.

Constance e Richard sabiam que não era só aquela conversa falando sobre Paddy que seria suficiente para convencer Maura a embarcar num avião para Londres e esquecer Jane. Eles precisavam fazer mais, e fizeram. Contrataram dois homens para atacarem Jane.

Jane saiu de casa sozinha. Ela ia até o mercado comprar umas coisas que Angela pediu para preparar o almoço do próximo domingo. Ela não podia ir porque estava ocupada fazendo um bolo e então a morena foi andando tranquilamente. O mercado ficava há duas quadras dali. Era fim de tarde.

De súbito dois homens vestidos de preto e com o rosto coberto surgiram quando ela estava próxima a uma rua sem muito movimento. Esse era o problema de se morar num bairro que não era nobre. Os dois homens gritaram com ela, tentando intimidá-la, mas Jane era durona demais. Eles a derrubaram no chão e deram alguns pontapés não muito fortes, só o suficiente para deixá-la com vários hematomas. Jane nem chegou a ir ao mercado. Voltou para casa com a roupa toda suja, os braços e cotovelos ralados, o corpo todo dolorido e cheio de hematomas, o canto da boca com sangue. Angela ficou desesperada ao ver a filha naquele estado e não pensou duas vezes em telefonar para Maura.

[...]

Maura ficou muito assustada e com o coração na mão ao ver Jane com aqueles machucados, mesmo que não fossem lá grande coisa perto do que poderia ter sido. Levou aquilo como um sinal, como um aviso. Com certeza era coisa de seu pai biológico. Tal pensamento deixava Maura ainda mais desesperada. Ela praticamente se enfiou na casa de Angela, dormindo lá aquela semana inteira para "cuidar" de Jane, com o total consentimento dos pais, que já haviam percebido que ela estava caindo na história toda.

- Eu pensei muito no que nós conversamos esses dias e depois disso que aconteceu com a Jane... eu tomei minha decisão — Embora falasse de forma séria, querendo parecer firme, Maura estava quebrada por dentro, completamente. E sua voz era carregada da sua dor. — Eu vou embora com vocês sexta-feira para Londres.

Os dois não esboçaram reação de felicidade, porque não podiam e também porque sentiam pena da tristeza evidente nos olhos da filha.

- Eu sei o quanto isso deve estar te machucando, minha filha, mas pense que assim será melhor para você e para Jane. Você está salvando a vida dela.

Maura não respondeu nada. Constance tentou abraçá-la mas ela se afastou.

- Não... — Subiu para seu quarto e só depois de se trancar no mesmo é que se permitiu chorar.

[...]

Na quinta-feira Maura levou Jane em sua casa, que estranhou, pois o ano inteiro foi poucas vezes até lá. Seus pais não estavam e nem chegariam para interrompê-las. Já haviam combinado isso com Maura. Seria o dia que ela teria para se "despedir" sem se despedir de Jane.

A morena notou que Maura ficou ainda mais estranha, preocupada e mais emotiva desde que ela havia apanhado daqueles homens estranhos, mas achava que aquilo era normal.

- Finalmente venho na sua casa e não encontro seus agradáveis pais — Jane disse com ironia enquanto elas subiam de mãos dadas às escadas.

- Fique feliz por isso. Sabe como ultimamente está sendo difícil eles "desaparecem" assim.

- Temos que aproveitar isso, então.

Assim que entraram no quarto, Jane segurou Maura pela cintura e a apertou contra si, beijando-a com volúpia. Maura sentiria tanta saudade disso. Daquele beijo cheio de desejo e sentimento. Daquela pegada forte, que indicava o quanto a morena a queria. Afastou suas bocas e encarou os olhos dela, tinha vontade de chorar, mas não o fez. Sentiria tanto a falta daqueles olhos, daquele olhar, do sorriso, do cheiro, do abraço... Não podia pensar nisso, não agora, não no último momento que tinham juntas.

Maura segurou no rosto de Jane e a beijou novamente. Seus beijos eram intensos e duravam incontáveis minutos. Queria beijá-la até não poder mais. Até o fôlego todo fugir e então morrer. Era preferível morrer do que ter que deixar Jane para trás.

Conforme se beijavam e se apertavam uma contra o corpo da outra, o desejo foi surgindo, sempre intenso. As roupas começaram a ser arrancadas e se espalharam pelo chão. Elas deitaram na cama e Maura subiu sobre Jane, segurou as mãos dela, colocando-as na cama, ao lado de seu rosto e entrelaçando seus dedos. Maura observou bem o rosto de Jane, cada detalhe. Seus traços eram tão bonitos e expressivos. Ela tinha certeza que por mais que Jane mudasse ao longo dos anos, ela a reconheceria assim que visse aquele rosto, aqueles traços e principalmente aquele olhar.

Maura a beijou de forma apaixonada. Segurou Jane em seus braços e apertava com muita força, com uma firmeza que Jane desconhecia. Era porque ela sabia que a hora que soltasse Jane, a perderia para sempre. E não queria pensar nisso naquele momento, mas era inevitável.

Seus lábios e suas mãos vasculhavam lentamente todo o corpo da morena, sem pressa, como se tivesse todo o tempo do mundo e como se quisesse decorar cada parte. Beijou-a na mandíbula, mordeu o queixo, desceu no pescoço dando várias mordidinhas que faziam a morena sorrir e se arrepiar. Beijou o toráx, o vão dos seios, deslizou a ponta da língua até o umbigo e subiu novamente, seu rosto nos seios de Jane. Passou a língua pelo mamilo esquerdo até o direito e então passou a sugá-lo lentamente. Sugou o outro mamilo e desceu até o meio das pernas da morena. Mordeu com força a coxa direita e deu chupadinhas provocativas na virilha. Jane respirava fundo e deixava escapar gemidinhos, enquanto olhava Maura. Assim que a língua da loira alcançou seu interior, Jane deixou escapar um gemido alto, arqueou o corpo e logo relaxou. Passou a acompanhar os movimentos da namorada com o quadril, rebolando na boca dela lentamente, pois era esse o ritmo de Maura... lento. Como se sua lentidão pudesse prolongar aquele momento.

Antes que Jane gozasse, Maura parou de chupá-la e afundou dois dedos em seu interior, enquanto subia rápida e já calava a morena barulhenta com um beijo. Ficou assim, beijando-a enquanto seus dedos se moviam agora de forma mais rápida e gradativamente isso ia aumentando e logo parou, novamente. Virou a morena de lado, de costas para si, deslizou a mão ao longo daquele corpo atlético até alcançar o meio de suas pernas novamente e começou a estimular seu clitóris, arrancando mais e mais gemidos da morena. Maura beijava o ombro, o pescoço e o rosto dela enquanto fazia aquilo. O bom de estar ali, atrás de Jane, é que a morena não podia ver bem o seu rosto e nem duas lágrimas teimosas que insistiram em cair antes da hora. Maura voltou a afundar os dedos dentro de Jane e não demorou muito até que ela gozasse.

[...]

Estavam deitadas e grudadas. Jane por cima de Maura, com os dois braços por baixo de seu corpo, abraçando-a e a cabeça em seu colo, aqueles cabelos rebeldes espalhados pelo peito de Maura, que a envolvia pelos ombros e acariciava os cachos negros.

Naquele momento Maura sentia o coração tão apertado, ela estava tão sufocada. Como ela conseguiria ir embora e deixar aquilo tudo para trás? Aquele amor? Aquela felicidade? Ter Jane nos braços era a coisa mais incrível do Universo e ela abriria mão de qualquer coisa por isso. Mas Maura entendia que não havia alternativa, que teria que ir embora. E que não podia de maneira alguma contar para Jane nada do que estava acontecendo, nem se despedir.

Para Jane aquele estava sendo só mais um dia lindo e especial ao lado de sua amada. Ela não imaginava que aquilo era uma despedida.

- Me sinto tão bem assim no calor do seus braços... — Sussurrou baixinho, roçando o rosto no peito de Maura, que abriu um pequeno sorriso ao ouvi-la e beijou sua cabeça.

- Eu também, meu amor... eu também.

[...]

Jane foi embora para casa e ficou pensativa por conta do jeito estranho de Maura. Ficou um pouco preocupada. Será que a loira estava com algum problema? Será que o problema era relacionado as duas? Mas não poderia ser, porque se fosse, Maura reclamaria, demonstraria, falaria e não ficaria ainda mais colada com ela como estava. Algo estranho estava acontecendo e Jane não sabia o que era, mas pressentia que fosse uma coisa ruim.

À noite, perto da hora de ir dormir, já estava em seu quarto, deitada em sua cama, pensativa, quando Maura telefonou. Jane tinha um telefone no quarto.

- Ei Maur — Ela disse, alegre ao receber o telefonema. — Que aconteceu?

- Por quê? — Perguntou preocupada.

- Ué, pra estar me ligando essa hora. Já está um pouquinho tarde.

- Eu te acordei? Estava dormindo?

- Não, não. Na verdade estou sem sono...

Maura se segurou do outro lado da linha, deu um longo suspiro, os olhos marejando.

- Eu também estou, por isso te liguei.

- Maura? — Jane ouviu um som estranho do outro lado, era a loira chorando — Maura? Tudo bem?

- Tudo bem, desculpa.

- Você está estranha, amor. Que aconteceu? Tá tudo bem mesmo?

- Eu acho que estou assim por causa da TPM.

Jane então ficou mais tranquila. Normalmente Maura ficava mais "difícil" na TPM mesmo.

- Jane, eu quero que você saiba que eu te amo — Disse com a voz embargada.

- Eu sei disso, Maura! Não precisa...

- Por favor... — Insistiu e Jane ficou em silêncio — Você foi a melhor coisa que aconteceu em toda minha vida. Eu nunca pensei que um dia eu fosse sentir metade do que eu sinto por você. Eu te amo mais do que a mim mesma. Nunca duvide disso. Não importa o que aconteça. Eu te amo e como já te disse uma vez, esse amor é eterno. Eu sei que ele nunca vai morrer dentro de mim, mesmo com o passar do tempo, mesmo... — Respirou fundo e Jane estava com os olhos marejados — Não importa o que aconteça, eu sempre vou amar você. Jane, você foi a primeira pessoa que eu beijei, foi a primeira pessoa a qual eu me entreguei, a primeira pessoa que eu amei... e será a última. Eu nunca vou amar ninguém como eu te amo — E Maura mal sabia que aquilo realmente era uma verdade absoluta. — Eu sei que nenhum ser humano de fato depende do outro para viver, que respiramos sozinho, que nascemos e morremos sozinhos e tudo, e que eu posso viver sem você, mas... Jane... — A morena ouviu outro soluçar — Viver sem você não é viver. É apenas existir. Você é minha vida. Eu te amo.

- Oh Maur, não chora, meu amor... você está me fazendo chorar também... — Soltou uma risadinha e fez Maura rir também. Como Jane queria abraçá-la naquele momento. A primeira coisa que faria na sexta-feira era ir até a casa da loira abraçá-la. Ela ficava ainda mais linda sensível daquele jeito. — Eu também te amo, Maura e você também é tudo pra mim. Tudo. Não sei definir de outra forma. Você é o ar que eu respiro... e eu não acho que posso sobreviver sem você...

Jane não fazia ideia do quão doloroso foi para Maura ouvir aquelas palavras. "E Eu não acho que posso sobreviver sem você". Aquilo doeu. Doeu lá no fundo. Maura podia sentir algo atravessando sua carne, dilacerando seu coração. Sabia que isso não era possível, já que de fato nada atravessou sua pele, mas a dor era tão real.

- Eu preciso desligar, Jane, senão minha mãe vai me dar uma bronca. Boa noite. Eu te amo!

- Boa noite, Maur. Eu te amo muito.

Maura respirou fundo, fechando os olhos ao ouvir aquela frase. Seria a última vez que ouviria aquela voz... Desligou o telefone e escorregou, até sair da cama, ficando de joelhos, com a cabeça e os braços debruçados na cama, começou a chorar com toda vontade que sentia, colocando toda sua dor e tristeza para fora.

"Se eu morrer antes de acordar

Isso foi porque você tirou a minha respiração

Perder você é como viver em um mundo sem ar

Eu estou aqui sozinha

Não queria partir

Meu coração não se moverá, está incompleto

Queria que houvesse um jeito que eu pudesse fazer você entender."

Sexta-feira a família Isles acordou bem cedo, quase madrugando. Pegaram as malas prontas e seguiram até o aeroporto sem olhar para trás. Pelo menos Constance e Richard. Maura não dizia uma palavra o caminho inteiro dentro do carro. Só observava a paisagem de Boston pelo vidro enquanto as lágrimas quentes rolavam seu rosto. Ela ainda não estava acreditando no que estava prestes a fazer. Estava indo embora do único lugar onde se sentiu em casa, estava dando adeus ao ano mais feliz de sua vida, estava dando adeus a Jane, a sua namorada, o amor da sua vida, a tudo que construíram juntas, a tudo que aprenderam. Estava dando adeus ao carinho especial que tinha pela família da morena, especialmente por Angela. Estava dando adeus a tudo que tinha. A única coisa que poderia amenizar essa dor era saber que o fato de estar indo embora assim seria só para salvar a vida da sua amada e mantê-la em segurança, mas mesmo assim isso não amenizava nada. Doía da mesma forma...

Jane levantou 10:00 e 10:30h já estava vestida e pronta para ir ver a namorada. Depois da conversa que tiveram no telefone na noite anterior, Jane estava louca para abraçá-la e queria animá-la com notícias a respeito do natal. Queria convidar Maura e até mesmo seus pais para cearem na casa dos Rizzoli.

Jane praticamente correu até a casa da loira, que ficava há vinte minutos da sua e quando chegou, não encontrou ninguém. Bateu na porta uma vez, e nada. Duas, nada. Três, nada. Jane nem podia imaginar que eles haviam ido embora de vez, porque não tinha placa de "aluga-se" ou "vende-se". Não havia porque os Isles já tinham vendido a casa. Jane insistiu em bater na porta e tocar a campainha até cansar mas logo voltou para casa, achando apenas que aquilo foi um desencontro e que logo a namorada voltaria para casa e lhe telefonaria.

Quase 12:00 e nada de Maura telefonar. Jane estava inquieta, preocupada. E se tivesse acontecido alguma coisa? Pegou o telefone e discou para a casa dela duas vezes e nada, novamente.

Maura já estava no aeroporto com os pais prestes a embarcar. O avião decolava 12:30. Ela não conseguia parar de chorar um instante sequer e as pessoas reparavam. Constance e Richard não ousaram dizer nada de repreensivo a ela por isso.

"Mas como você espera que eu

Viva sozinha, logo eu?

Porque meu mundo gira ao seu redor

É tão difícil para eu respirar."

Quando entraram no avião e Maura sentou na poltrona ao lado da janela, fechou os olhos enquanto o mesmo decolava e um filme inteiro passou em sua cabeça, desde a sua animação ao ouvir Constance ainda em Londres dizendo que eles iriam para os Estados Unidos até a última ligação que fez para Jane na noite anterior. O avião decolava e Maura não conseguia respirar...

Depois do almoço, Jane foi de novo na casa de Maura, mesmo Angela insistindo que tudo estava bem, que algum imprevisto deveria ter acontecido e que a loira devia ter saído com os pais. Jane precisava ter notícias da namorada. Não era normal Maura não dar nem um telefonema até aquela hora do dia e era menos normal ainda não ter nem a empregada na casa dos Isles para atender a porta. Quando Jane chegou novamente na entrada da casa, avistou um homem desconhecido e bem vestido na porta.

- Com licença, eu estou procurando pela Maura...

- Maura? — O homem olhou meio confuso — Ah, você deve estar falando de um dos Isles? — Jane assentiu — Eles se mudaram.

Jane fez uma expressão de espanto, franzindo o cenho. Maura não mudaria de casa assim, de súbito, sem lhe avisar.

- Se mudaram? Para onde?

- Para Londres.

Tudo de repente rodou, Jane sentiu o ar fugir e caiu, literalmente, de bunda no chão, tomando um tombo que nem sequer sentiu. O homem estendeu a mão para ela, preocupado.

- Você está bem? Oi?

Ela não segurou na mão dele, nem o olhou e nem ao menos ouviu o que ele disse. Estava desnorteada demais para isso. Sua boca aberta e os olhos arregalados fitando o nada e tentando processar aquilo. "Eles se mudaram para Londres." Então era por isso que Maura estava estranha? Era por isso que Maura telefonou ligando? Porque ela iria embora? Mas porque ela se mudaria para Londres e não avisaria Jane antes? Não se despediria? Que diabos estava acontecendo? Jane não fazia ideia. Começou a ser tomada por um pânico e desespero que a deixou simplesmente sem ar.

"Me diga como eu vou respirar sem ar

Não posso viver, não posso respirar sem ar

É assim como eu me sinto quando você não está lá

Não tem ar, sem ar

Me tire desta água tão profunda

Me diga, como você vai ficar sem mim?

Se você não está aqui, eu não posso respirar

Não tem ar, sem ar..."

Notas finais
Sem ar... ;)