R&I - Wish You Were Here
7 Capítulo 6 - Fique
Notas iniciais
Otima leitura, meninas.
A música é da Rihanna, que por um acaso é o título do capítulo. Recomendo ouvirem enquanto leem o final.
A última coisa que Jane precisava no fim daquele dia, que mais parecia um pesadelo, é dar de cara com Lauren em sua porta, notoriamente furiosa e exigindo explicações. Mas elas nem eram namoradas. Porque as pessoas gostavam tanto de fazer perguntas? Só para ouvirem coisas que as deixariam chateadas?
A última coisa que Jane precisava no fim daquele dia, que mais parecia um pesadelo, é dar de cara com Lauren em sua porta, notoriamente furiosa e exigindo explicações. Mas elas nem eram namoradas.
Porque as pessoas gostavam tanto de fazer perguntas? Só para ouvirem coisas que as deixariam chateadas?
– Lauren, acho melhor deixarmos essa conversa para outra hora — Disse num tom tranquilo e com um leve sorriso, só para tentar amenizar a situação.
– Não, não vamos conversar outra hora. Nós vamos conversar agora, porque eu estou aqui te esperando há duas horas.
Jane a olhou surpresa. Duas horas? Ela não tinha mais nada a fazer além de ficar como um cão de guarda na porta dela? Por Deus, Jane gostaria de entender qual era o problema dessa juventude.
– Tudo bem, então vamos entrar porque já está um pouco tarde e frio aqui fora...
Já dentro do apartamento, Lauren permanecia séria, com os braços cruzados. Ficou parada no centro da sala olhando para Jane, que tirava o revólver e o distintivo da cintura.
– Pode começar, eu estou esperando.
– Começar o quê? — Jane realmente não sabia do que ela falava. Sua cabeça estava latejando.
– A me explicar o que está acontecendo.
– O que está acontecendo?
– É, Jane! — Falou um pouco alto demais, surpreendendo a si mesma e a morena. Nem Lauren sabia porque ficava tão alterada com as "mancadas" que Jane dava. Aquela não seria a primeira. — Você disse que iria ao banheiro e foi embora ontem sem me avisar, me deixou lá sozinha, como uma completa idiota... e eu estou te ligando desde ontem e você não retornou minha ligação.
Jane mordeu o lábio inferior e ficou em silêncio. Ainda que elas não fossem namoradas, o que havia feito com Lauren não foi nem um pouco legal. Ir embora sem dar uma explicação, sem nem ao menos avisar e não atender nenhuma ligação ou retornar apenas para dizer que estava viva era um completo descaso. Mas o problema é que ela não estava com cabeça para falar com ninguém
– Desculpa — Disse, simplesmente, numa expressão tranquila.
– Só isso? Só isso que tem a me dizer? — Ela parecia ainda mais irritada.
– E o que você quer que eu te diga, Lauren? Se eu fiz algo de errado, que te desagradou, tenho que pedir desculpas, não tenho?
– Suas desculpas nem parecem sinceras. Pela sua cara você não está nem aí, não é, Rizzoli? — Lauren estava mais do que irritada, ela estava realmente decepcionada.
Nos últimos tempos, apesar da situação delas nunca ir para frente e engatar em um namoro por Jane ser misteriosa e não deixar ninguém saber muito sobre o seu interior, elas estavam até que indo muito bem, estavam cada vez mais próximas e Jane era carinhosa com ela, presente, parecia se importar. Agora, aquela Jane em sua frente era totalmente diferente. Era nítido que só estava se desculpando para encerrar logo aquela discussão, e não porque se importava com ela.
– Olha, Lauren, não foi bacana o que eu fiz ontem, eu sei. É que... — Não sabia nem que mentira inventar — Eu estava com dor de cabeça, e eu nem gosto muito daquele tipo de lugar, você sabe e...
Lauren cruzou os braços e tombou a cabeça um pouquinho para o lado esquerdo, um sorriso irônico surgindo em seus lábios. Sabia que Jane estava mentindo, porque além de ficar atrapalhada com as palavras, não havia cabimento naquela justificativa que estava inventando.
– Eu não te atendi porque ontem estava exausta e vim direto dormir e hoje não atendi porque surgiu um novo caso, um pouco complicado e fiquei atolada de trabalho.
– Sei. E não poderia ter me retornado... sei lá, em cinco minutos de café?
– Poderia. Eu deveria ter ligado, mas não liguei. Me desculpa, mesmo — Fez aquela carinha de cão que implora por carinho, aquela carinha que sempre usava com as mulheres para conseguir as coisas.
Lauren fechou os olhos por um instante. Ela também não resistia aquela carinha, mas não estava certo ceder. O que Jane fez com ela não foi nada agradável, além do que mais estava óbvio que ela mentia.
– Porque não me diz a verdade? — Perguntou, num tom mais baixo e calmo que o anterior, abrindo os olhos e a fitando.
E agora?
Jane deu um sorrisinho, esfregou suas cicatrizes e foi andando até a cozinha.
– Que verdade? Não acabei de te dizer?
– Acha mesmo que eu acredito que você foi embora sem nem ao menos me avisar porque te deu uma dor de cabeça súbita? — O tom de voz mais grave fez Jane parar de caminhar, em alerta. A situação poderia ficar ainda mais complicada se ela não dissesse algo mais convincente. — E engraçado né? Na pista de dança quando estávamos nos esfregando e nos beijando ao som da Alicia Keys você não parecia estar nem um pouco com dor de cabeça.
Jane virou lentamente, pois estava parada de costas para ela. Olhou-a e Lauren se surpreendeu ao ver a cara da morena que agora era de poucos amigos, sem sorriso, sem tentar fazer teatros.
– Eu já te pedi desculpas, Lauren. Não sei mais o que você quer. Se você está querendo discutir, bom, eu não quero. Acabei de chegar do trabalho e eu tive um dia de merda, estou cansada, com dor de cabeça, quero só tomar um banho e dormir porque amanhã eu acordo cedo e ainda preciso descobrir um assassino.
– Só queria que você fosse sincera comigo como eu sempre fui sincera com você, Jane! Só isso. Mas como eu sei que não vai ser, estou indo embora. Vou te deixar descansar.
Se virou e foi indo em direção à porta.
– Ei, espera... não vai embora, vai, Lauren. Fica aqui comigo.
– Não vou ficar aqui para ouvir mentiras — Os olhos azuis da garota já estavam marejados, mas Jane não viu. Ela abriu a porta e então saiu, batendo com força em seguida.
Jane jogou a cabeça para trás, olhando para o teto, soltou um gritinho que fez com que Jo Friday latisse, olhando-a com a cabecinha inclinada.
– Eu não mereço isso! Não mesmo! — Resmungou.
[...]
Aquela noite foi ainda mais complicada que a anterior, tanto para Jane quanto para Maura. Elas tentavam a todo custo dormirem, pois precisavam, afinal, estavam realmente cansadas. Era mais um cansaço psicológico do que físico. Muitos acontecimentos num mesmo dia e nenhuma delas esperava que fossem se reencontrar novamente, ainda mais naquela situação. Mais do que um simples reencontro por acaso como na noite anterior, onde elas podiam simplesmente se ignorarem e irem embora, o reencontro de hoje foi algo obrigatório e que ocorreria todos os dias. Querendo ou não elas teriam que conviver de agora em diante porque trabalhavam no mesmo lugar, juntas, em equipe.
Maura estava bebendo seu vinho favorito enquanto mexia no notebook, já deitada em sua cama e relembrava os acontecimentos do dia. Havia ficado feliz ao reencontrar Angela, abraçá-la. Sempre gostou muito da ex sogra. Era a mãe que Maura queria ter tido. Mãe. Nem podia ouvir aquela palavra que uma raiva absurda tomava conta de si e perdia completamente a classe e compostura. Maura se sentia órfã pela segunda vez, mesmo não estando.
Não eram nem 5:00h ainda quando os celulares tocaram.
Jane deu um pulo e quase caiu da cama, pois seu celular estava na sala. Saiu correndo para atendê-lo.
– Rizzoli? — Fez uma careta, passando a mão pelos cabelos e bocejando ao mesmo tempo — Estou indo.
Maura só precisou esticar o braço até o criado mudo e alcançou seu celular, atendendo-o ainda com os olhos fechados, dizendo sonolenta:
– Dra. Isles? — Demorou alguns instantes para reconhecer a voz do novo colega de trabalho — Está bem. Estou a caminho.
Automaticamente Jane se movia, pois ainda sentia-se como se estivesse dormindo. Abriu o guarda-roupas e pegou a primeira roupa que encontrou, sem nem pensar duas vezes. Era madrugada ainda. Não era para seu sono ser interrompido, então ninguém podia reclamar se ela chegasse parecendo um completo zumbi.
Mesmo ainda sonolenta e precisando chegar a cena do crime em pouco tempo, Maura conseguia ficar impecável. Tomou uma rápida ducha, colocou uma calça vermelha, uma camisa de seda e um casaco claro de couro por cima. Passou uma leve maquiagem e então podia sair sem ter a sensação de não estar arrumada suficiente.
A cena do crime era em um beco. Havia o corpo de um homem de aproximadamente a mesma idade que a vítima do dia anterior, e ele estava com as duas pernas decepadas e com dois tiros, um no peito e um no meio do abdômen. Estava com a carteira, os documentos, já sendo identificado, e não havia sido assaltado.
– Isso... isso é estranho. Ontem encontramos uma mulher sem os braços, mas que foi morta asfixiada e agora temos um homem morto, com tiros e arrancaram as pernas dele — Jane dizia intrigada e ao mesmo tempo enojada, porque o cheiro e a visão do cadáver eram bem horríveis.
– Enforcada — Maura corrigiu, surgindo de repente, por de trás de Jane e Korsak, assustando a morena.
– Você não poderia avisar quando chega? Tipo "Oi, cheguei"? — Disse ironicamente para Maura.
– Não vejo necessidade — Deu um sorrisinho para Jane que retribuiu e fez careta em seguida. Colocou suas luvas e começou o seu trabalho, analisando o cadáver. — Dois tiros, um direto no coração.
– Agora nos diga uma novidade.
Maura revirou os olhos.
– Encontraram a bala? — Jane se virou para Korsak.
– A Perícia achou e já enviou para a Balística. Parecia uma 38.
– Precisamos achar o revólver...
Korsak se afastou e Jane ia fazer o mesmo mas Maura levantou e se dirigiu a ela.
– Não acho que devemos agir assim — Disse num tom baixo e quando Jane virou e a encarou, Maura recuou alguns passos para trás, pois estavam muito próximas e ela definitivamente não conseguia manter aquela aproximação com Jane sem ficar atordoada.
– Assim como? — A morena perguntou parecendo indiferente.
– Agora nós trabalhamos juntas e precisamos ser profissionais. Ainda que você esteja com raiva de mim e...
Jane soltou uma gargalhada, colocou as mãos na cintura.
– Você deve se achar muito importante, não é, Dra. Isles? — Deu ênfase ao "Doutora" e então Maura a encarou, curiosamente.
– Como assim? O que está querendo dizer?
– "Ainda que esteja com raiva de mim" — Imitou.
– E não está? A forma como você reagiu deixou bem claro a sua raiva.
– Você acha que o mundo gira em torno do seu umbigo, só porque é uma Isles. Agora então que tem o Dra. no nome...
– Está querendo insinuar o que com essa sua afirmação mais descabida, Detetive Jane? — Maura ficou indignada. A morena estava mesmo querendo insinuar que ela era metida ou algo do gênero? — Você me conhece e sabe muito bem que nunca fui metida, mesmo possuindo mais conhecimento que a maioria das pessoas ao meu redor.
– Nossa, quanta modestia! — Ela gargalhou — E não vem com esse papo, porque eu não te conheço — Agora ela ficou séria novamente e ríspida, não queria proximidade com Maura nem mesmo para brigar — Eu achava que te conhecia, mas eu não conheço. E não se preocupa que você não é o único motivo que me causa raiva ou estresse. O mundo não gira ao seu redor, muito menos eu, Dra. Isles.
Jane deu às costas e foi embora, deixando Maura ali desolada, com aquela carinha que partia o coração de qualquer um, especialmente o de Jane. Talvez por isso mesmo ela foi embora depressa após dizer aquelas palavras. Conhecia Maura o suficiente para saber o que iria ou não machucá-la, e como ela reagiria. Mas que inferno! Ela conhecia Maura até demais e isso era terrível.
[...]
Maura foi mais cedo para central do que Jane e a maioria dos funcionários. Era nova na homicídios e queria mostrar o seu trabalho, que era excelente, além de em tempo record já estar com dois corpos em sua sala de autópsias. Passou quase a manhã toda, desde às 6:00 no necrotério, fazendo as autópsias nos dois corpos e embora a segunda vítima tendo morrido por causa do tiro no peito, notou uma familiaridade: Os cortes feitos para cortarem tanto os braços da mulher quanto as pernas dos homens eram idênticos e com certeza haviam sido feitos pela mesma arma que ela ainda não sabia qual era.
Finalmente Maura resolveu dar uma pausa e desceu para tomar um café. Jane estava no balcão, conversando com a mãe e tomando um café descontraída, até ria antes de Maura chegar. Angela olhou na direção da loira e Jane fez o mesmo, seu sorriso desaparecendo ao vê-la. Maura foi se aproximando, porque independente de estar "brigada" com Jane, ela gostava de Angela e queria seu café da manhã.
– Bom dia — Maura disse de forma meio animada e coletiva, como se o bom dia se estendesse a Jane também.
– Bom dia Maura! — Angela respondeu ainda mais animada.
– Com licença... — A morena, de cara fechada, sem olhar para Maura, virou e saiu dali.
– Jane! — Angela chamou mas ela nem olhou para trás. — Eu não sei o que acontece com a minha filha, é uma cabeça dura.
– Tudo bem, deixa ela. Jane tem razão de estar me tratando assim, eu mereço — Disse com um sorrisinho totalmente triste, que comoveu Angela.
– Até hoje eu não entendo porque você foi embora, Maura. O que aconteceu? Eu me lembro muito bem do relacionamento de vocês duas. Vocês se amavam tanto. Antes mesmo do dia que vocês vieram, preocupadas e tensas contar para mim que estavam namorando, eu já sabia. Até comentei com o Frankie logo no início da amizade de vocês que os seus olhos brilhavam quando olhava para Jane e vice versa...
A legista sentiu os olhos marejarem sem que ela pudesse fazer nada e sentiu raiva de si mesma, como sempre acontecia. Logo as lágrimas caírão e então Angela deu a volta para abraçá-la mas Maura recuou.
– Não, por favor. Eu estou bem — Respirou fundo e limpou as duas lágrimas que cairão.
– Maura...
– Eu estou bem. Preciso voltar ao trabalho.
[...]
E o resto da semana foi assim. Exatamente assim. Jane e Maura estranhas. A morena mal humorada, irritada e cada vez mais distante de todos. Maura ainda mais inacessível e anti social do que já era, por ter sido acostumada após se separar de Jane a não ter amigos novamente, e isso só veio mudar na presença de Jonathan, mas mesmo assim, além dele, ela não se via amiga realmente de ninguém ao ponto de se abrir.
Mais dois corpos apareceram, e cada morte era diferente da outra, mas sempre com um detalhe em comum: decapitação. Só no sábado, após ajuntarem infinitas pistas e perderem ao longo da semana horas de sono é que foram conseguir capturar o psicopata.
Para "comemorar" e relaxar, Frost, Korsak e Jane foram ao Dirty Robber, mas os rapazes convidaram Maura também, sem que Jane soubesse e a morena se surpreendeu ao vê-la no local.
– Aposto que isso é coisa de vocês — Olhou para eles enquanto andavam na direção da mesa onde ela estava.
Eles se entreolharam e fizeram cara de inocente.
– Coincidência.
– Não acredito nelas.
– Vocês devem parar com isso... Maura, apesar de estranha é uma pessoa muito boa e se mostrou ótima legista essa semana, já pegando de cara um caso complicado feito o nosso — Frost disse antes deles chegarem na mesa.
Jane o olhou com uma cara de nojo e se inclinou para perto dele, falando baixo.
– Está fazendo parte do fã clube da Dra. Isles?
Korsak, que podia ouvi-los, soltou uma risada.
– Podemos sentar, Dra. Isles? — Korsak perguntou e Maura sorrio para ele, e ao notar que Jane a olhava, ficou um pouco tensa.
– Podem sim, Korsak. E pode me chamar de Maura, não estamos no trabalho.
Korsak sentou do lado de Maura e Jane e Frost de frente. Pediram cervejas e Maura vinho. Começaram a beber e conversar. Jane praticamente não falava nada, e quando falava, não se dirigia a qualquer assunto que relacionasse Maura. O clima era visivelmente tenso entre elas aos rapazes, e Maura estava cada vez mais incomodada. Nunca pensou que fosse ser tão ruim assim encarar Jane depois de todo aquele tempo. Quer dizer, ruim não era encará-la, ruim era ter que lidar com aquelas reações que a morena estava tendo na sua presença. A dureza em suas palavras, a frieza. Se no primeiro dia Jane havia demonstrado raiva a ela, agora ela mostrava uma indiferença que doía no coração da loira.
Os homens decidiram agir.
– Já está um pouco tarde, nós já vamos ir, bom descanso para vocês, Maura, Jane — Frost disse se levantando da mesa.
– Sim, aproveitem e conversem um pouco. Essa semana foi muito agitada, não tivemos tempo nem de respirar... Boa noite meninas! — Korsak deu um sorriso carinhoso antes dos dois se afastarem da mesa.
Maura e Jane se entreolharam, estavam um pouco mais soltas pelo efeito da bebida, especialmente Jane que já tinha perdido a conta das garrafas que havia bebido. Soltou uma gargalhada alta que surpreendeu Maura que acabou rindo também.
– Esses dois não sabem disfarçar nada... — Começou a dizer, enquanto levava a garrafa até a boca, bebendo mais um gole. — Estão querendo que nós duas façamos as pazes.
– Acho que consegui perceber isso.
Maura deu um sorrisinho e desviou o olhar, tomou mais um gole do seu vinho. Estava se sentindo nervosa só na presença de Jane, e estranhando bastante vê-la daquela forma mais descontraída, e sorrindo. Era a primeira vez que a via assim depois de retornar para a vida dela.
– Mas nós não estamos brigadas.
– Não? — Maura a olhou meio de lado.
– Bom, nós discutimos, mas acho que não é pra tanto... e pra falar a verdade esse nosso clima no trabalho tá uma merda! — Soltou outra risadinha e então fixou os olhos de Maura, era o mesmo olhar de anos atrás. — Nós podemos dar uma trégua, em nome do trabalho, que me diz?
Era a primeira vez que Maura estava surpreendida de forma positiva com Jane. Não esperava ouvir isso dela.
– Trégua em nome do trabalho? Será que Jane Rizzoli, "A Impulsiva" conseguiria? — Disse num tom brincalhão, soltando aquele risinho baixo que tinha o som mais adorável do mundo para Jane.
– Claro que sim, tá duvidando da minha capacidade, Maura? Tá certo que é quase impossível não discutir com você todo dia... — O tom dela também era brincalhão e elas acabaram rindo novamente.
Era um pouco estranho o que estava acontecendo naquele momento. Elas estavam conversando normalmente, de forma amigável, até mesmo dando risada. E os olhares que trocavam eram carregados do que ainda sentiam, mesmo que não admitissem.
– Você diz isso porque não faz ideia do quão difícil pode ser lidar com uma pessoa igual a você, Jane. Tem uma personalidade forte...
– Mas você sempre gostou...
Maura ficou sem reação com o olhar que recebeu.
Jane percebeu e fugiu o olhar, deu o último gole da cerveja e ficou olhando pelo vidro do bar a rua lá fora, as pessoas caminhando, seus pensamentos se perdendo. Maura olhou lá para fora também e depois para dentro do bar e começou a ficar nervosa. Não sabia como Jane reagiria no dia seguinte, porque ela era imprevisível e cada hora estava agindo de uma forma diferente, então ela precisava aproveitar aquela oportunidade. Talvez fosse a única.
– Jane, será que nós podemos conversar? Mas conversar mesmo, sem esse barulho, as pessoas ao redor?
Lentamente a morena virou o rosto, uma das mexas do cabelo rebelde caindo ali na frente de uma forma atraente. Ela ergueu o rosto, aquele queixo, aqueles traços firmes. Colocou a mexa do cabelo para trás e esboçou um sorrisinho para Maura.
– Podemos. Vamos pro meu apartamento.
Jane viu no olhar de Maura uma surpresa até um pouco espantosa.
– Não se preocupe, é um apartamento pequeno e bagunçado, nada parecido com o que a senhorita está acostumada, mas garanto que você sobrevive há alguns minutos por lá — Disse ainda com aquele sorriso que derretia Maura.
– Por mim tudo bem.
[...]
Quando Jane abriu a porta para que Maura entrasse, ela olhou ao redor e mesmo detestando bagunça e sujeira, um sorriso até mesmo infantil surgiu em seu rosto. O apartamento era a cara de Jane. Não poderia imaginar um lugar mais perfeito do que aquele para a morena morar. E de repente se lembrou de uma conversa delas de anos atrás falando sobre sairem logo da casa dos pais e alugarem um apartamento. Se Maura tivesse ficado... se ela tivesse ido morar com Jane... Como teria sido? Nunca deixaria de se questionar sobre isso.
– Não tenha medo das bactérias, elas não vão pegar você.
Maura soltou uma risadinha e foi adentrando mais o apartamento, enquanto Jane trancava a porta. Logo uma cadelinha simpática veio pular em sua perna.
– Oi gracinha... Como você chama? — Maura abaixou cuidadosamente por causa da saia e passou a mão nos pêlos da cadela, que abanava o rabo.
– Jo Friday, essa é Maura, Maura essa é a Jo Friday.
– Prazer Jo. Você é uma menina muito linda!
Jane ficou sorrindo enquanto via as duas ali. Tirou o casaco que usava e então sentou no sofá. Quando Maura se ergueu no chão, notou que Jane a fitava sem parar e ficou um pouco mais nervosa do que já estava.
– Senta.
Ela sentou, nem tão perto e nem tão longe de Jane.
"Oh, o motivo pelo qual me mantenho firme
Oh, porque preciso fazer este buraco desaparecer
É engraçado, você é quem está em ruínas mas eu era a única que precisava ser salva
Porque quando você nunca vê as luzes é difícil saber quem de nós está desabando."
– Jane, eu... — Maura se virou para encará-la e percebeu que seria mais difícil do que imaginava. Seria uma conversa longa, onde ela teria que assumir seus erros do passado. — Eu nunca quis te machucar. Eu não sei o que você pensou quando eu fui embora... Eu no seu lugar teria pensado mil coisas, teria...
– Enlouquecido — Jane acrescentou com um sorrisinho sofrido e então Maura assentiu.
– Exatamente.
– E teria se perguntado "O que eu fiz de errado?", "Porque ela fez isso comigo?", "Ela não me amava mais?", "Ela está viva?". E teria chorado descontroladamente por dias, noites... Teria ido até a casa dela e se desesperado ainda mais quando te contassem que a família se mudou para Londres e não haviam deixado o endereço novo. Então o mundo se abriria diante os seus pés, porque ela não estava morta, não havia sido sequestrada, estava bem, mas havia ido embora e você não fazia ideia do porquê.
Jane fitava o nada e podia se lembrar de cada uma daquelas cenas que estava descrevendo. Conseguia até mesmo sentir a mesma falta de ar que sentiu naqueles dias.
– E daí o tempo iria passando, e ao mesmo tempo que ele ia amenizando as reações mais calorosas do início, ele não conseguiria arrancar a dor do seu coração. E você nunca iria saber qual dor era a maior: a da ausência ou a de não saber o porquê.
Maura, que já estava chorando, levantou de súbito do sofá e foi até a janela, colocou uma das mãos no rosto.
Jane levantou do sofá, deu alguns passos e ficou observando Maura na janela. Fechou os olhos e de repente pôde ver Maura com dezessete anos, vestidos mais delicados, sapatilhas, os cabelos maiores e mais ondulados. Ela chorava por tudo. Sensível que só ela. E fugia do consolo e da presença de todos quando estava triste, mas era só ver Jane que corria para seus braços, era o seu maior refúgio.
– E você passaria um ano... dois... três... quatro... passaria vários anos tentando aceitar o fato de que a pessoa que você mais amou na sua vida, a pessoa que você achava que estaria com você para sempre, não faz mais parte do seu mundo.
Então ela ouviu o soluçar de Maura.
– Você acha que eu queria ter ido embora? Você acha mesmo que se eu tivesse escolha eu teria ido embora? — Disse ainda de costas e então se virou e encarou Jane — Eu amava você, eu jamais te deixaria se não tivesse sido obrigada. Havíamos acabado de nos formar, estava tudo incrível, estávamos felizes... Eu estava procurando Universidades por aqui, para ficarmos perto uma da outra, você já sabia que queria ser policial... íamos começar uma nova fase pra quando completássemos 24 anos pudéssemos ir morarmos juntas como havíamos combinado. Acha que eu quebraria todas as promessas, que eu deixaria o grande amor da minha vida por vontade própria, Jane? Como você pode pensar isso?
"Não é uma vida e tanto a que você está vivendo
Não é apenas algo que você toma, é algo dado
Por aí, por aí, por aí nós vamos
Oh, diga-me agora, diga-me agora, diga-me agora, você sabe."
A morena então ficou meio tonta com todas aquelas palavras. Havia se questionado sobre tudo mas nunca parou para pensar que Maura era menor de idade, e iria onde seus pais mandassem, e que talvez ela só tenha sumido porque não havia escolha. Claro que era isso. Só podia ser isso.
– Você ficou morrendo de raiva de mim por todo esse tempo porque eu fui embora, mas eu estou com raiva de você agora por ter acreditado que fui embora por não te amar mais! — Gritou, exaltada, olhando de forma séria para Jane.
Jane não conseguia pensar direito. Era tanta coisa. O passado e o presente se misturando e sua cabeça já estava sob efeito de álcool. Vendo Maura ali em sua frente, ainda mais naquele estado, só lhe dava vontade de fazer uma coisa: Beijá-la e foi o que fez.
Invadiu o espaço pessoal da loira, agarrou-a pela nuca e a beijou de forma desesperada, assim como na terça-feira.
Depois de alguns minutos Maura interrompeu o beijo, ofegante e meio sem rumo, se soltou de Jane e caminhou até a porta.
– Eu vou embora.
Jane segurou na mão dela.
– Fica.
O coração de Maura disparo. Ela virou para encarar Jane.
– Eu quero que você fique.
Algo no seu jeito de se mexer
Faz com que eu acredite não ser possível viver sem você
Isso me leva do começo ao fim
Quero que você fique."
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