R&I - Wish You Were Here
21 Capítulo 20 - Meu Verdadeiro Eu
Notas iniciais
Como eu disse, Lauren é personagem fixa e o shipp existe, Laulex ♥
Dedico esse capítulo a todas as leitoras que amam a amizade de Jane, Maura, Alex e Jonathan, o "quarteto fantástico" e as leitoras que shippam Laulex.
Ótima leitura!
Depois de passar horas "interagindo" com Alex pelos cantos da casa e depois, finalmente, em sua cama, Lauren havia adormecido e perdido a noção de tempo e espaço. Quando abriu os olhos lentamente e se viu completamente nua, e Alex ao seu lado, no mesmo estado, dormindo, completamente apagada, ela teve duas reações estranhas. Primeiro se sentiu estranhamente alegre. Uma alegria que não era convencional para quem acabava de conhecer alguém sob a circunstância que fosse e simplesmente transava com ela. Isso geralmente causava apenas prazer, no ato, se o mesmo fosse bom, mas a alegria após a consumação dele era algo realmente novo e estranho para Lauren, e isso fez com que sua segunda reação fosse: medo.
Todos nós temos medo. É um sentimento que não podemos evitar, embora ninguém realmente goste de senti-lo. Sempre temos medo daquilo que desconhecemos, que não sabemos o que é, que não sabemos onde pode nos levar. Temos medo de fazer certas coisas por não sabermos a consequência que aquilo poderá ter, do que se sucederá após fazermos aquilo. O medo é um sentimento normal e comum, presente na vida de todos e mesmo não sendo um dos sentimentos prediletos, sentir medo é bom. O medo também funciona como uma espécie de aviso. Como se fosse uma placa dizendo: "Pare!" Não que qualquer coisa que cruze seu caminho e te traga medo seja algo que você deva fugir, pelo contrário. Mas é sempre bom parar e pensar antes de fazer qualquer coisa e o medo era um alerta para isso: Pensar antes de agir.
No auge dos seus vinte e dois anos, Lauren poderia ser considerada uma criança, mesmo sendo uma mulher feita de corpo e tendo uma personalidade forte e ideias maduras. Ela havia tornado-se maior de idade há pouquíssimo tempo, estava sentada em bancos de uma Universidade ainda enquanto Alex corria atrás de assassinos, pegava em arma e trabalhava na polícia da cidade. Uma grande diferença. Lauren não havia vivido metade do que Alex viveu. Não tinha toda sua experência não só pelo fato de Alex ser policial, mas num geral. No pouco que conversaram e no jeito da detetive, Lauren podia ver que ela era esperta, tinha aquela coisa malandra de gente que sabia o que queria e como conseguir isso. E isso era mais um ítem que lhe trazia medo.
- Está aí parada me olhando há quanto tempo? — Alex perguntou, ainda de olhos fechados. Estava deitada de bruços, agarrada em seu travesseiro, suas pernas assim como todo seu corpo se mexendo.
- Como sabe que estou acordada e te olhando? — Lauren a observava e não se dava conta de que inevitavelmente sorria.
A morena abriu os olhos e se espreguiçou, sentando na cama em seguida. Lauren estava sentada também, com o lençol enrolado na altura dos seios e os cabelos ruivos levemente desajeitados, dando um charme especial.
- Porque eu tenho visão telepática, não te contei isso? — Lauren riu com a resposta. Já esparava algo do tipo. — Que horas são?
- Ainda não amanheceu — As duas olharam ao mesmo tempo pelo vidro da janela que mostrava o céu escuro e estrelado — Mas não vai demorar muito mais que uma hora pra isso acontecer e como eu tenho que ir pra faculdade, nem posso voltar a dormir.
- É mesmo, você tá na faculdade ainda, baby — Disse para implicá-la — Cursando o que?
- Publicidade e Propaganda — Disse com orgulho e ficou com uma das mãos segurando o lençol ao seu redor e a outra ajeitou uma mexa de seu cabelo atrás da orelha. — Estou procurando estágio.
- Tá certo. Quanto mais cedo a gente começa a trabalhar, sempre melhor. Também não vou voltar a dormir porque tenho que ir trabalhar logo menos — Fez uma careta enorme e então se inclinou para frente, ficando quase de quatro, apoiando as mãos na cama e erguendo o rosto na direção de Lauren, selando seus lábios lentamente — Toma banho comigo?
- Achei que você já tivesse se aproveitado do meu corpinho o suficiente essa noite — Lauren disse daquele seu jeito dengoso e ao mesmo tempo metido.
- Hum... sabe que um corpo como esse... — Ela começou a puxar o lençol de Lauren, que o soltou — É tão bom que eu acho que nem todo o tempo todo do mundo seria suficiente para aproveitá-lo...
- Ainda temos um tempinho, se isso te serve de consolo!
Alex ajoelhou na cama e Lauren também, a morena puxou o corpo dela contra o seu.
- Serve, serve muito.
[...]
Depois da noite anterior, elas estavam mais felizes do que o habitual, o que chegava a ser até um pouco estranho, pois recentemente Maura havia tomado um tiro do seu pai biológico que na verdade era um serial killer com problemas psicológicos. E a felicidade delas era tão grande que tudo isso parecia estar num passado bem recente.
Jane e Maura chegaram na central juntas, quase que de mãos dadas, e foram até a cantina. Chegaram também mais tarde do que o habitual, o que indicava que à noite realmente havia sido muito proveitosa.
Angela correu até a mesa ao vê-las sentarem, com toda sua animação.
- Minhas queridas, bom dia! Vocês estão bem? — Ela tinha aquele olhar desconfiado — Estão com umas carinhas ótimas, parecem felizes. Algum motivo em especial? — A verdade é que Angela estava louca para que elas dissessem logo se iam mesmo se casar.
- Bom dia, Angela. Estamos ótimas, e muito felizes, também.
- Ma, nós sabemos que você tá morrendo de curiosidade pra saber se Maura aceitou casar comigo!
- Jane — Maura olhou repreensiva para a noiva e deixou escapar um risinho ao ver a expressão de Angela.
- Estou falando alguma mentira?
- Não está — Angela deu de ombros — Eu estou sim morrendo de curiosidade, porque já fazem dias e nada de vocês me contarem! Mas ao ver pela carinha de vocês... — Ela abriu um largo sorriso — Digam logo que vocês vão se casar e me dar netos, por favor!
- Nós vamos — Maura respondeu com um sorrisinho — olhando para Jane -, que embora fosse pequeno, já era capaz de irradiar todo aquele prédio. Jane sorrio de volta para a namorada. — Vamos nos casar e com certeza vamos te dar vários netos.
- Não acredito! Vocês vão se casar! — Angela gritou, chamando atenção de todos os detetives e outros funcionários ali em baixo que ficaram olhando para elas.
Maura ficou um pouco constrangida, assim como Jane, que fez uma careta enorme e revirou os olhos, querendo forçar o seu mau humor de sempre, mas estava difícil, pois realmente sentia-se feliz.
- Acho que você não precisa divulgar isso pra Boston toda, ma.
- Essa é a melhor notícia do mundo! Deixe-me dar os parabéns, levantem! — A loira prontamente levantou ao ver o entusiasmo da sogra e foi abraçada de forma calorosa, correspondendo, enquanto Jane revirava os olhos mais uma vez — Eu sabia que vocês me dariam essa alegria de vê-las juntas e me dando netos. Desde que soube que vocês namoravam ainda na adolescência eu sabia disso.
Quando o abraço das duas foi desfeito, Angela segurou nas mãos de Maura.
- Estou muito feliz porque minha filha não poderia estar em mãos melhores. Eu sei que você a ama e a fará muito feliz, Maura!
- Obrigada, Angela, de verdade. Vou dar o meu melhor pra fazer Jane sempre feliz!
- Levanta, Jane Rizzoli, e dá um abraço na sua mãe! — Ela olhou séria para a filha que a olhava com desespero, negando com a cabeça — Maura, dê um jeito na sua noiva, por favor.
- Jane — Ela disse naquele tom que não era rude, mas tinha uma autoridade absoluta sobre a morena e imediatamente ela levantou, mesmo a contra gosto.
- Obrigada, querida! — Ela sorrio para Maura e então abraçou Jane fortemente e não resistindo, Maura entrou no meio, se unindo ao abraço delicioso de sua sogra/quase mãe e sua futura esposa. Definitivamente ela estava entrando para a melhor família do mundo.
Depois daquela confraternização em família, Angela foi preparar um café da manhã especial para suas meninas, que após o mesmo, subiram juntas até o escritório e anunciaram finalmente que iriam se casar, o que fez Frost, Korsak, Cavanaugh e todos os outros vibrarem e cumprimentarem-nas. Elas só estranharam não ver Alex ali. A morena não havia chegado na central e seu celular estava desligado.
- O que será que aconteceu com ela? — Jane perguntou para Maura, agora elas estavam lá em baixo, no necrotério, da sala da loira. — Alex não é de chegar atrasada, mesmo quando passa à noite na farra e nossa! Como eu me esqueci disso!
- O que foi, Jane?
- Ela saiu com a Lauren ontem.
- Sairam? — Maura franziu o cenho, surpresa — Quando ela me disse que tiraria Alex da frente do caminho pra eu ir falar com você, não pensei que isso incluísse um passeio.
- Agora fiquei preocupada — Ela coçou o queixo, pensativa. — Se bem que... pelo clima que rolou entre elas, não duvido nada onde o "passeio" tenha terminado.
- Será? — Maura estava novamente surpresa — Acredita mesmo que as duas possam...
- E porque não? São adultas e você conhece bem a Alex. E do que eu conheço da Lauren...
Maura fez uma expressão de desdém, que demonstrava o ciúme que sentiu com aquela afirmação. Jane percebeu e rapidamente puxou-a para que ela se sentasse em seu colo ali no sofá.
- Mas eu não conheço mulher nenhuma tão bem quanto conheço você, Dra. Isles.
- Eu acho bom, eu acho muito bom, para o seu próprio bem, detetive Rizzoli! — Disse num tom falso de ameaça, envolvendo-a pelo pescoço e selando seus lábios lentamente. Logo ela parou e arregalou os olhos.
- Que foi?
- Jonathan!!! Ele vai pirar quando souber que vamos nos casar. Nossa, à noite de ontem foi tão... — Ela ficou corada de súbito, o que fez Jane rir baixinho — Que eu acabei me esquecendo. Temos que contar ao Jonathan em grande estilo.
- Poderíamos ir no Dirty Robber para comemorar depois do trabalho. Que você acha?
- Acho ótimo. Chamamos ele, Alex, Frankie, Korsak e Frost.
- E não esqueça que domingo teremos um almoço de família exclusivo na casa da dona Angela só para comemorarmos nosso noivado.
- Sim! Será ótimo. Estou com saudades do TJ.
- Eu também.
[...]
Ao contrário do planejado, Alex e Lauren perderam muito tempo no chuveiro e depois, novamente, na cama. Quando já estavam finalmente prontas, as horas já haviam passado e se encontravam atrasadas. Mesmo assim, Alex fez questão de dar uma carona para à ruiva, levando-a até seu apartamento para pegar suas coisas e depois até a Universidade.
- Obrigada por me trazer até a Universidade, mesmo depois de eu dizer que não era necessário e que você se atrasaria ainda mais por causa disso — Ela sorrio, olhando para Alex, enquanto tirava o cinto.
- Eu sou uma cavalheira, esqueceu? Era o mínimo que eu poderia fazer, já que não tivemos tempo de tomar um café da manhã depois da noite que tivemos. Seria muita grosseiria simplesmente te dizer "tchau" e te deixar se virar para vir pra cá, sendo que se atrasou por minha causa.
- Mas eu te disse que sou adulta o suficiente para responder pelos meus atos! — Alex tirou as mãos do volante e virou mais para o lado, encarando-a com um sorriso levado — Se eu me atrasei pra aula, foi porque eu quis passar à noite com uma detetive desconhecida e metida a besta.
- Eu não sou metida a besta! — Se sentiu um pouco ofendida e falou com indignação, mas ao ver o olhar de insistência na afirmação, ela pensou melhor — Eu posso ser um pouco, mas nem é tanto assim.
- Que seja. Foi escolha minha, você não é responsável. Pelo menos não 100%.
- É. Mas também foi escolha minha te trazer.
- Porque você é metida a besta e quer se mostrar pra mim!
- Ser gentil em te trazer até a Universidade é querer me mostrar?
Lauren tombou a cabeça para o lado, com aquele sorrisinho que em poucas horas já havia ficado bem memorizado na mente de Alex. Ela pegou o fichário rosa de seu colo, erguendo-o e se apertando contra ele.
- Claro que é. Mas eu não sou essas garotas que se deixam impressionar por heróis, príncipes encantados, ou detetives que tem carro e sabem dançar — Seu tom era de brincadeira pura. Brincadeira maliciosa. — Não mesmo!
Alex soltou uma risadinha e se virou para frente, se remexeu no banco e encostou a cabeça no acento do mesmo, deitando-a e tomando-a para o lado, tornando a fixar aqueles olhos azuis.
- Você é difícil, isso sim. Me passa seu número.
- Pra quê? — Ela parecia meio assustada, como se sua ficha não tivesse caído ainda dos últimos acontecimentos. Conheceu Alex, entrou no carro dela, foi parar em seu apartamento, transaram, dormiram juntas praticamente e agora a morena lhe dera carona até a Universidade, coisa que nem mesmo Jane fez quando namoraram. Era algo estranho. — Quer dizer... aqui — Se corrigiu, timidamente, ao notar a interrogação triste no rosto de Alex. Ela abriu o fichário, pegou uma caneta dentro do mesmo, anotou o número de seu celular num pedacinho de folha rasgado e entregou para Alex, que propositalmente segurou em sua mão.
- Eu posso te ligar? — O tom de voz dela fez Lauren quase derretar no acento. Também estava impressionada ainda com as sensações que a morena lhe causava facilmente, tocando-a ou não.
- Você não vai me ligar — Disse séria e com um pesar nítido, como se aquilo fosse verdade, e ela devia mesmo achar que fosse. Alex era "demais" para seu caminhãozinho. E pelo estilo dela, pela sua experiência, jamais que iria resolver se arramar a alguém, ainda mais uma "criança". — Mas obrigada por ter sido gentil, pelos elogios e tudo mais que estiver incluso no seu pacote de paquera.
Mais do que surpresa com aquelas palavras e jeito estranho da ruiva agir, Alex estava ficando ofendida. De certo que em toda sua vida ela foi um alguém solitária no campo amoroso, mas com uma vida sexual agitada e até mesmo promíscua, mas isso não significava que ela seria assim para sempre, e muito menos que gostava de ser assim.
Lauren destrancou a porta e a abriu, chegou a colocar o pé direito para fora, encostando-o ao chão quando sentiu a mão de Alex em seu braço, o que a fez parar e virar.
- Eu sei que você pensa que eu sou uma pegadora sem vergonha, e que provavelmente essa foi só mais uma transa da minha lista, mas... — Ela vacilou ao ver os olhos azuis tão claros encarando os seus, deixou escapar um sorriso tímido, sentindo-se uma adolescente. — Isso foi especial. Você é uma garota diferente, realmente. Não estou dizendo isso pra te agradar, até porque eu não tenho essa necessidade agora que já passamos pela parte que você deve achar que seja a única que me interessa — Lauren estava surpresa com tudo aquilo, atônita, na verdade, apenas assentiu com a cabeça — Eu pedi seu número porque vou te ligar. E espero que você me atenda. — A última frase foi dita de forma descontraída, roubando um sorrisinho da ruiva.
- Eu atenderei. Agora tenho que ir.
- Até mais, ruivinha.
- Tchau, Alex.
[...]
Quando Alex finalmente chegou na central, despreocupada, foi até a cantina pegar um café. Foi recepcionada com um abraço e um beijo carinhoso de dona Angela, que tratava Alex também como se fosse mais uma filha. A verdade é que a mulher era tão doce, meiga e atenciosa, que não havia quem não quisesse ser "adotada" por ela. E Alex, em especial, por ser tão sozinha, amava aquele tipo de carinho.
Ela subiu com seu café até o escritório, como se nada tivesse acontecido, como se tivesse chegado no horário de sempre.
- Bom dia pessoal — Disse com um leve sorriso e se encaminhou até sua mesa. Despejou todo o café do pote em que vinha na sua caneca do batman.
Jane, Korsak e Frost ficaram se entreolhando, alternando os olhares. Jane havia comentado com os dois que Alex saiu com sua ex namorada.
- Ei, Alex, está tudo bem? — Frost perguntou, tentando conter sua curiosidade e ela nem desconfiava que Jane houvesse comentado algo com eles. Ela o olhou, confusa.
- Está. Porque não estaria, Frost? — Ela fixou o olhar dele, que olhou para Jane e depois Korsak, fazendo ela também desviar seus olhos para os outros dois colegas — Que vocês tão me olhando assim? Estou fedendo? Minha roupa tá suja e eu não vi?
- Nada disso, palhaça — Jane disse — Só não é comum você se atrasar para o trabalho. Só isso.
- Fiquei muito ocupada essa noite — Disse, dando de ombros e voltando sua atenção para seu computador, deixando mais uma vez os colegas se entreolharem, desconfiados.
- Ocupada? — Foi a vez de Korsak perguntar.
- Tava tentando zerar God of War 3 — Ela olhava para a tela do computador, enquanto abria um site de pesquisa — Vocês sabem em que site vende bonecos, esses colecionáveis? Eu estou atrás do Kratos faz tempo!
- Eu sei de um site ótimo, onde você encontra o Kratos e outros tantos personagens, inclusive colecionáveis do Star Wars — Disse Frost empolgado, fazendo Alex olhar em sua direção, surpresa.
Jane olhou para Korsak, sentindo-se velha demais e deixou escapar uma gargalhada, balançando a cabeça negativamente. Sabia que por mais nerd viciada que Alex fosse em vídeo game, definitivamente esse não era o motivo do seu atraso.
- Kratos? Star Wars? Quantos anos vocês tem? — Jane perguntou em tom de brincadeira, mas os olhares em resposta que receberam foram totalmente de censura. — Ok, não falo mais nada, mas ein, senhorita que quer o boneco do Kratos, precisamos ter uma conversinha — Se levantou de sua cadeira e viu Alex fazer uma expressão de hesitação — Agora!
Ela bem sabia qual era a conversa que Jane estava querendo ter, e realmente não sabia no que ela resultaria. Jane era apaixonada por Maura, não tinha mais nada com Lauren, mas mesmo assim seria estranho dizer que havia transado com à ruiva. E mais estranho ainda dizer o quão diferente esse "encontro" com ela havia sido.
Elas foram até a sala do café, que estava vazia.
- Passou à noite zerando jogo? Really? — Jane cruzou os braços e se encostou na pia — Conta outra! Você saiu da porta do meu prédio com a Lauren no início da noite e chegou atrasada demais hoje. Pode ir me dizendo o que foi que aconteceu... Vocês foram onde?
- Para minha casa — Jane arregalou os olhos em espanto — Não era a intenção. E iria levá-la em alguma baladinha, dançar, conversar. Mas estava um trânsito horrível rumo ao centro e perderíamos horas. Eu sugeri que fossêmos para minha casa e ela aceitou — Ao ver o olhar de Jane, ela tratou de explicar — Eu não tinha intenção de fazer nada! Só sugeri que fossêmos para minha casa porque não havia outro lugar. Nós queríamos conversar reservadamente.
- Conversar reservadamente? — Balançou a cabeça em negação e levou uma mão a testa — Vocês transaram, Alex? — A outra mordeu o lábio inferior e fugiu o olhar — Sim ou não? — Acabou assentindo levemente com a cabeça — Meu Deus! Você! Vocês transaram! — Ela estava sim irritada mas não pelos motivos que Alex achava. Se encaminhou até a porta, fechando-a para que ninguém chegasse de surpresa e ouvisse a conversa. Abaixou o tom de voz, embora seu tom fosse de autoridade: — Você enlouqueceu? Você nem conhecia a Lauren, pegou, levou ela pra sua casa e transou como se ela fosse uma qualquer? Eu nunca gostei dela como mulher porque sou apaixonada pela Maura, mas ela é uma pessoa incrível e você não pode...
- Cara, foi sem querer! Não foi intencional. Eu não olhei pra ela e pensei: "Ah, eu vou te levar pra casa e te comer porque você é jovem e bonita". Claro que isso passou pela minha cabeça — Sorrio de forma maliciosa só para provocar Jane que fez cara de nojo — Mas não foi intencional. E eu sei que ela é uma pessoa boa. Já consegui perceber no pouco que conversamos. Na verdade eu estou um pouco tensa por causa disso que aconteceu.
- Tensa? Por quê? O que aconteceu demais além de vocês transarem?
- A tensão está justamente nisso. Eu acho que não deveria ter transado com ela.
- Finalmente algo sensato vindo de você, estou surpresa!
- Babaca. É sério! Não seja irônica. Não estou querendo dizer que eu me arrependo, porque não me arrependo. Não fiz nada errado. Não usei a Lauren como você está pensando. Nós estávamos conversando, estava rolando um clima e ela correspondeu a todas as minhas cantadas e teve tanta inciativa quanto eu para o que rolou, se quer saber!
- Eu não quero saber dos detalhes, por favor, me poupe — Revirou os olhos. — Mas se as duas quiseram, e se foi bom, porque você está tensa?
- Porque não foi só uma noite. Quer dizer... ai merda! — Passou a mão pelos cabelos negros escorridos e começou a caminhar pela sala pequena, inquieta — O que eu quero dizer é que não planejei isso. Lauren não era uma garota que eu conhecia de vista, tinha interesse e fui à caça e que depois que consegui pegar, acabou. Tudo que aconteceu ontem foi espontâneo e eu gostei dela. Gostei da conversa, do seu jeito... essas coisas que você sabe...
- Eu não sei de nada — Disse para implicar, soltando uma risadinha ao ver o embaraço e nervosismo de Alex. Ela era uma mulher tão bem resolvida na hora de ser cafajeste que chegava a ser cômico vê-la tão embaralhada ao falar de um suposto "encanto" que estava sentindo à primeira vista. — Então você pretende sair com ela mais vezes? — Alex assentiu de imediato — Ainda não entendo qual é o motivo de tensão, a menos que você tenha medo que as mulheres descubram no segundo encontro que o seu charme não é tão irresistível quanto parece.
- Não brinca com coisa séria! É que... bom, ela percebeu pelo meu jeito, e conversamos também. Lauren acha que eu sou uma cafajeste que só pensa em sexo e não consigo me prender emocionalmente a ninguém, e levando em conta que a última pessoa que ela gostou foi você, e agora você está quase casando com outra mulher mais velha, madura e experiente, ela deve estar em pânico ao pensar em se envolver comigo! Eu pedi o número dela hoje e você precisava ver a cara que ela fez... — Soltou um suspiro alto, pesado.
- É, Alex. Não é preconceito e nem nada, mas não tem como não esperar outra coisa de você, sabendo que você sempre levou esse "padrão" de vida. E fora que Lauren mal te conhece. Mesmo sabendo das suas safadezas, eu te conheço e estou vendo que você tá sendo sincera nas suas palavras, mas não tem como ela ver essa sinceridade, se ela não te conhece. É pedir demais que uma garota tão jovem, e traumatizada por minha causa — Fez uma careta — acredite que uma mulher bonita, interessante, mais velha e bem resolvida como você, que até então era uma "pegadora" — Fez aspas com os dois dedos — vai do dia para noite se interessar por ela e largar tudo. Não é todo mundo que acredita em filmes açúcarados como Um Amor para Recordar.
- Esse filme é uma merda! — Foi a vez de Alex se encostar na pia, olhou para o teto, pensativa, soltou outro suspiro. — Isso é uma merda. Eu não quero que ela fique pensando essas coisas de mim. Eu senti um certo receio da parte dela em alguns momentos, sabe? E ela quis parecer como se fosse normal para ela transar com uma "desconhecida", porque ela sabe que pra mim isso é normal. Mas ela não tem jeito de quem faz isso.
- Ela é jovem e moderna, mas não é nenhuma piriguete ousada, mesmo ela querendo fazer essa linha. Por isso que mesmo sem ser apaixonada, eu consegui ficar com ela por tanto tempo. Fora que ela é doce, sensível. Essa linha de garota ácida é só pra se defender. Só que ela é não é fácil de lidar, Alex. Acho que você vai penar um pouquinho se quiser mesmo "conhecê-la melhor" e mostrar que você não é nenhuma Don Juan.
[...]
Depois do expediente, estavam todos reunidos no Dirty Robber bebendo suas cervejas, enquanto Maura e Jane bebiam vinho.
- Desde quando você bebe vinho? — Frost perguntou.
- Desde que eu aprendi que faz bem à saúde com a mulher mais intelectual que conheço — Ela deu uma piscadela para Maura, que sorrio.
- Vamos fazer um brinde! — Jonathan disse animado — Porque não é todo dia que minha Rainha resolve se casar com a primeira detetive do Estado de Massachussets.
- E não é todo dia que a segunda detetive do Estado de Massachussets deixa de ir se divertir para ficar segurando vela — Alex disse em tom de brincadeira. — Vamos brindar.
Todos ergueram suas garrafas e elas ergueram suas taças.
- Um brinde a felicidade de Jane e Maura — Propôs Korsak.
- Porque minha irmãzinha e a Doutora merecem ser muito felizes... — Frankie disse.
- A felicidade das duas! — Todos disseram em coro e Jane e Maura se entreolharam.
- À nossa felicidade — Jane disse baixinho para ela.
- À nossa.
Eles ficaram um tempo no bar bebendo e conversando. Todos pareciam estar felizes e se divertirem, até que com o ponteiro do relógio girando, começaram a ir embora, até sobrar apenas o casal feliz e seus amigos inseparáveis.
As três contaram para Jonathan os últimos eventos daquelas 24 horas.
- Gente! Mas eu tô chocado com você, menina — Ele olhou para Alex abismado — Você chegou do nada, tipo caindo do céu na hora que Lauren tava na porta da Jane e Maura escondida com ciúmes observando e aí você, cheia das ousadias, foi até lá se meter e começou a paquerar a garota? Para! Não posso com isso. Tô bege.
- Não, você precisava ver! — Jane falava alto e gesticulando — Eu tava ali conversando de boa com a garota e do nada esse ser me surge, com um sorriso cafajeste que ela usa pra conquistar as negas dela e começou a rolar um climão entre elas... e eu nem sabia que a Mara tava lá olhando tudo. Eu fiquei me sentindo uma idiota.
- Eu só estava tentando ajudar uma amiga...
As três olharam para Alex ao mesmo tempo.
- E não estava, Maura? Você disse que não iria falar com Jane se a Lauren tivesse lá. Eu fiz um FAVOR de intervir na situação!
- Também não exagere, Alex. Quem vê pensa que foi grande sacrifício esse "favor". Aliás, Jane me disse antes de virmos para cá o quão acolhedora você foi deixando Lauren passar à noite em sua casa — Maura disse com um sarcasmo que não era dela, que Alex desconhecia e que com certeza havia aprendido com Jane, que riu da cena.
Jonathan se mostrava cada vez mais espantado.
- Ela dormiu na sua casa? Não me diga que você traçou-a? — Ao ver a expressão de Alex e olhar para Jane e Maura, ele viu uma confirmação em seus rostos — Meu Deus do céu, o que é isso?! Já não chega Jane ter machucado o coração da moça pra ficar com a Rainha, agora você também, Alex?
- Eu não estou querendo machucar o coração de ninguém! — Respondeu tão ríspida que as risadas anteriores cessaram e o clima ficou subitamente tenso. — Que droga. Nós transamos sim. E daí? Hoje em dia ninguém espera se casar pra transar. Mas isso não significa que eu só pense em sexo ou que eu só queira sexo com ela. E eu nem sei porque vocês tiraram o dia pra me falarem essas coisas! Eu mal a conheço!
- Se acalme, Alex — Jane interveio e tocou o ombro dela — Jonathan só estava brincando, eu tenho certeza.
- Não são brincadeiras, ainda que pareçam. Vocês acham que eu não presto, pelo menos nesse sentido. E porra, eu fui uma estragada do caralho a vida inteira. Eu sei disso. Não sei amar. Nunca recebi afeto e tampouco dei afeto nessa minha vida, mas eu tenho um coração e eu não costumo brincar com os outros. Eu sempre fui bem sincera: Você quer foder? Então vamos foder, mas não passaremos disso. Eu não disse isso a Lauren ontem, porque eu nem ao menos tinha intenção de dormir com ela. Mas as coisas aconteceram. E como eu te disse, eu realmente gostei dela e quero conhecê-la melhor, quero que ela veja que eu posso ser mais do que uma mulher atraente que conquista qualquer pessoa por uma noite. Mas como eu posso fazê-la acreditar que eu sou mais que isso, se nem os meus amigos acreditam? — Ela estava realmente chateada e deixou os três sem palavras. Jonathan jamais pensou que seu comentário a deixaria assim e Maura e Jane também estavam surpresas com aquela reação. Antes Alex até brincava com seu desempenho sexual e a sua "lista" de pessoas com quem já havia dormido. Agora ela parecia repudiar isso, porque ela sabia que Lauren também repudiava.
Alex virou toda sua garrafa de cerveja, encerrando-a, limpou a boca com a costa da mão e ficou cabisbaixa, olhando para o nada enquanto os outros três se entreolhavam, ressentidos, sabendo que ela estava magoada e que isso não era bacana.
- Alex, nos desculpe pelos comentários, brincadeiras ou qualquer má colocação que te deixou entristescida — Maura começou a dizer daquele jeito calmo, não querendo deixá-la mais irritada. Ela estava sentada entre Maura e Jane. A loira então buscou sua mão direita sobre a mesa, tocando-a. — Nós somos seus amigos e acreditamos sim em você! Nós sabemos que você é muito mais do que uma mulher atraente e com dotes de conquista. Você é inteligente, esperta, sabe se virar nesse mundo como ninguém, e eu bem sei disso.
- Sim, Maura tem razão. E lembra do que me disse no hospital? — Jane voltou a tocá-la no ombro e Alex ergueu um tantinho o rosto só para olhá-la, mas ainda estava desencorajada — Você não precisa querer ser igual a mim, como se eu fosse uma espécie de mito ou de heroína, porque eu não sou. Sou só uma pessoa com defeitos e qualidades, que optou arriscar sua vida em nome de um bem maior, em nome dos outros, assim como você. Somos policiais, detetives, colocamos nossa vida em segundo plano para nos dedicarmos a um trabalho não tão bem remunerado, mas que nos enche de orgulho e que nos faz sermos quem somos.
- Você é INCRÍVEL, Alex Vause! — Jonathan disse naquele jeitão mais sorridente e descontraído, roubando um sorriso leve das três — Se olhe no espelho. Você é linda com esse olhar sedutor, esses lábios sensuais. Vamos lá. Você é uma mulher do caramba. Tem toda moral do mundo. Com 30 aninhos você é detetive, tem seu próprio espaço, seu carro, não deve nada pra ninguém. E tem um coração enorme escondido aí, por mais que fique se fazendo de durona e ligando o "foda-se" para tudo.
- Exatamente, Jonan. Você é nossa Alex, a detetive mais descontraída e porra louca do mundo. E a melhor amiga que alguém pode ter!
- Somos uma dupla, tipo Batman e Robin, mas no caso acho que seria Superman e Batman, porque você ama o Cavaleiro das Trevas e eu não nasci pra ser Robin né, eu sou o Superman — Jane disse soltando uma risada e acabou fazendo os outros, incluindo Alex rirem.
- Superman e Batman? — Alex olhou meio de lado — Adorei a ideia! Bate... — Ela esticou a outra mão livre para Jane, que deu uma batidinha e então sorrio, alternando o olhar entre os três — Obrigada. Vocês são os amigos mais esquisitos que eu podia ter. Um viado fino, uma lésbica lady que fala mais que a boca e parece um google ambulante e uma sapatona colega de profissão que gosta do Superman. Realmente não era esse tipo de amizade que eu sonhava na infância, mas... — Seu tom era totalmente irônico e brincalhão.
- Vai gente, vamos dizer, ela tá merecendo — Jane olhou para Jonathan, que entendeu o que ela quis dizer e concordou e Maura parecia confusa. — 1, 2...
- Vai se foder, Alex! — A morena e o homem disseram em coro, fazendo Alex rir e Maura se assustar, arregalando um pouco os olhos.
- Até você está adquirindo esse comportamento animal, Jonan? Achei que fosse um ser espiritualmente mais evoluído!
Jane olhou para a noiva com uma careta enorme.
- Espiritualmente mais evoluído?
- Porra Maura, você é estranha demais — Alex disse e soltou uma risada, erguendo a mão e assoviando. — Garçom, trás mais cerveja aí cara.
- Depois dessa eu vou beber cerveja também — Jane disse em tom de tédio e Jonathan olhou com desdém para a melhor amiga, dando de ombros, entrando na onda de Jane e Alex.
- É sério que vocês vão ficar com essas caras para mim? O que foi que eu disse demais? Será que agora sou obrigada a usar esse linguajar inapropriado em público?
E assim à noite seguiu agora só com brincadeiras e risadas.
[...]
Eram 00:00h, mas ela não conseguia dormir. Mesmo tendo ingerido uma dose de álcool no Dirty Robber suficiente para lhe dar sono naquele horário, ela não parecia estar nem um pouco sonada. Pelo contrário. Estava elétrica. Parecia que tinha usado algum alucinógeno. Seu cérebro funcionava a todo vapor emitindo pensamentos constantemente e fazendo-a recordar de várias cenas ao mesmo tempo, misturando e embaralhando tudo. Sim, ela pensava em Lauren. Pensava nos cabelos ruivos esvoaçantes em seus lençóis, no som da risada, no sorriso que era uma mistura de malícia com ingenuidade, nas leves sardas que ela tinha próxima ao nariz, no corpo pequeno, macio e perfeito, no toque firme e delicado, nas conversas.
Mas que porra afinal estava acontecendo com Alex? Primeiro, semanas atrás, antes mesmo do tiro de Maura, ela andava parecendo uma adolescente em crise existêncial, querendo mudar sua forma de encarar a vida e buscando alguma coisa que desse sentido a sua existência além da sua profissão. Queixou-se sobre isso com Jane e agora, em menos de dois dias, estava completamente atordoada, incomodada, com a cabeça virada por causa de uma garota. Não era uma mulherona mais velha, de quarenta anos, com carreira bem sucedida e coxas grossas que deixava qualquer rapazote ou lésbicas safadas como ela babando. Era apenas uma garota universitária, com jeito de menina doce, descobrindo a vida. Só uma porra de uma garota!
Mas que se foda. Uma vida inteira ela foi intensa e impulsiva. Jogava-se de cabeça nas situações que tinha vontade. Fazia o que bem lhe convinha e não seria diferente agora que estava sentindo algo tão estranho mas ao mesmo tempo tão bom que não poderia ser comparado com nenhuma outra sensação que já tivera sentido antes.
Alex levantou da sua cama, tomou uma ducha de cinco minutos só para dar uma reanimada e tirar aquela cara de idiota, e sem pensar duas vezes, pegou o papel rasgado e cor de rosa que Lauren havia lhe dado, ligou para ela.
- Hm, alô? — Ouviu a voz sonolenta do outro lado da linha e era óbvio que Lauren não sabia que era ela. Ficou estática por alguns instantes para responder. — Alô? Se não falar quem é, vou desligar.
- Sou eu, Alex! — Imediatamente a ruiva acordou, quase pulando na cama, se levantando. Acendeu o abajur do quarto e passou a mão pelos cabelos, olhou no relógio e se assustou com o horário. — Está aí?
- Estou. Eu... Aconteceu alguma coisa, Alex? Já são pouco mais de 00:00.
- Eu sei e desculpa estar ligando essa hora, mas é que... — Sua idiota, pare de se comportar igual retardada! — Eu... — Começou a andar de lado para o outro pelo quarto e Lauren estava aguardando a resposta, em expectativa, já mais acordada do que qualquer outra coisa — Eu precisava ouvir sua voz. Eu preciso te ver, na verdade. Eu sei que é de madrugada agora, a cidade está dormindo, mas foda-se. Eu quero te ver agora.
Alex disse com toda coragem e impulsividade que tinha e nunca imaginaria a resposta que receberia a seguir, levando em conta o jeito receoso de Lauren com ela, e o fato de que ela gostava, pelo visto, de mulheres certinhas como Jane.
- Eu também quero te ver. Onde?
Ficou totalmente atônita com a resposta, e um sorriso bobo lhe fugiu dos lábios. O mais fácil, até pelo horário, seria que ela fosse até o apartamento de Lauren, mas ela o divia com uma colega, então o óbvio seria levá-la para seu apartamento, mas Alex não cogitou a hipótese por um motivo: Não queria que Lauren pensasse que ela só queria transar.
- Vamos dar um passeio. Eu vou aí te buscar, pode ser?
- Sim! Mas que tipo de passeio? Que roupa eu coloco?
- A que você preferir, mas está frio essa madrugada, então leve um casaco. Passo pra te pegar em vinte minutos.
- Fechado! — Respondeu cheia de entusiasmo, na verdade ambas estavam entusiasmadas.
[...]
Jane já havia adormecido e Maura estava quase perto disso também, mas ainda de olhos abertos, ela observava a morena dormir tranquilamente, de bruços, com o cobertor até metade das costas nuas e os cabelos rebeldes espalhados. Como ela era linda e como Maura sentia-se feliz ao lado dela. E pensar que há poucos dias atrás aquela felicidade esteve ameaçada... O pânico que Maura havia sentido quando seu "pai" mirou a arma na direção de Jane foi sem dúvida a pior sensação que teve na vida, pior até do que o que sentiu quando teve que partir de Boston há anos atrás. Não, ela não conseguia imaginar uma vida sem Jane, imaginar um mundo sem ela.
Maura estava encolhida, deitada de lado e coberta até quase o pescoço. Sua mão direita tocava a cabeça da amada delicadamente, acarinhando os cabelos quando a mesma começou a se tornar inquieta e resmungar coisas que à loira não poderia entender. Jane estava tendo um pesadelo e se mexia cada vez mais, preocupando Maura.
- Jay, amor... ei... acorda... — Sussurrou perto do ouvido dela, ainda fazendo os carinhos até que Jane acordou, erguendo o tronco, sua feição assustada, os olhos escuros arregalados. — Está tudo bem? Você estava tendo um pesadelo?! — Ela assentiu com a cabeça — Vem cá...
Maura se virou, deitando de barriga para cima e juntou Jane em seus braços, que ainda em silêncio, repousou o rosto um pouco suado no peito da loira, que puxou o cobertor mais para cima delas e a abraçou fortemente.
Longos minutos se passaram e ainda estavam acordadas. A respiração de Jane que inicialmente era ofegante, já estava calma, embora fosse pesada. Os carinhos de Maura em seus cachos não cessavam, o que lhe dava ainda mais tranquilidade.
- Nós estávamos em uma floresta, em algum lugar que não consigo me recordar. — Começou a contar o sonho e Maura prestou atenção — O ambiente não me era familiar. Foi bem estranho. Estava fazendo bastante frio. Nevava. Nós caminhávamos e surgiram ossos de seres humanos no nosso caminho. A medida que o sonho ia passando, tudo ficava mais estranho e assustador, até que encontramos uma pequena criança. Uma menina negra. Ela estava sozinha, com frio e suja, escondida no meio de arbustos. Devia ter no máximo uns três anos. Nós a pegamos e a levamos no caminho conosco. Aparentemente não havia ninguém na floresta além de nós. Andamos muito e então apareceu um homem estranho, todo de preto e armado. Eu não lembro do seu rosto, mas eu lembro dos olhos. Eram pretos. E vorazes. Ele queria a garotinha que eu estava carregando no colo e ela começou a chorar compulsivamente ao vê-lo. Eu me lembro dos olhos dela e também eram negros, mas ao contrário dos dele, eram olhos cheios de doçura. Nós tivemos que entregá-la porque ele estava armado, mas não queríamos. Me senti angustiada ao vê-la chorando daquele jeito. Ela segurou nas nossas mãos, com suas mãozinhas pequenas e foi andando na direção dele, sofrida, sabe? E no meio do caminho ela parou, virou para trás e olhou para nós. Quando ela me olhou... não sei explicar...
Maura ouviu tudo e não interrompeu em momento algum, permaneceu parada, apenas acariciando os cabelos da amada, e ficava imaginando as cenas que ela descrevia. Soltou um suspiro baixo e beijou o topo da cabeça dela.
- Foi só um pesadelo. Não estamos numa floresta e nem há criança indefesa aqui com algum bandido atrás. Está tudo bem, meu amor.
Jane fechou os olhos e respirou fundo, soltando o ar lentamente. Ela sabia que Maura tinha razão, mas o sonho havia sido tão real que mexeu com seu psicológico e emocional.
[...]
Em exatos 20 minutos Lauren havia chegado no prédio de Lauren, que mais rápida ainda, já estava na porta, vestindo uma calça vermelha bem colada, uma blusa de linha branca e um casaquinho cinza por cima, com um par de botas pretas que iam quase na altura dos joelhos. Os cabelos soltos e o rosto pálido, porque ela nem havia tido tempo de se maquiar.
Alex ficou boquiaberta ao ver a garota tão linda, mas tentou se manter "sóbria" daquela espécie de embriaguez que a paixão era. Não encostou em Lauren quando ela entrou em seu carro, embora tivesse vontade. Deu apenas uma boa olhada e abriu um sorriso sincero que foi correspondido.
- Onde vamos? Vai me levar para dançar? Olha, eu realmente amo dançar, mas no meio da semana, e levando em conta que acordei não faz nem uma hora, eu não sei se meu desempenho seria um dos melhores — Disse Lauren, colocando o cinto.
- Relaxa que eu não pensei nisso. A balada fica pra sexta-feira — Lauren arqueou as sobrancelhas, então elas sairiam na sexta também? — Vou te levar agora para dar um passeio diferente. Menos agitado.
Alex dirigiu por mais um tempo, e as duas ficaram em silêncio. Para quebrar o clima meio tenso, Alex perguntou como foi o dia dela, perguntou da faculdade e a ruiva perguntou de seu trabalho, mas nada que desse continuidade uma conversa que pudesse render. Elas estavam tão felizes por estarem ali juntas, queriam tanto estar ali, haviam passado o dia desejando se verem novamente de uma forma tão intensa que chegava a ser estranha por não se conhecerem direito, e agora, estando diante uma da outra, não sabiam o que dizer. Realmente patético, especialmente para Alex.
Parou de dirigir assim que chegaram numa espécie de mini floresta que pertencia a um condomínio fechado. Mesmo com os receios de Lauren de que fossem pegas, Alex convenceu-a de entrarem, pulando a cerca. A mini floresta era maravilhosa. Possuía uma trilha e dos lados vários bancos brancos. As árvores eram mais bonitas que o comum, cheia de flores. E a cada banco, de cada lado, haviam postes de luz que mantinham o lugar iluminado o tempo todo.
- Você é bem louca, sabia? Se os seguranças nos pegarem aqui...
- Ninguém vai nos pegar aqui. Estão todos dormindo. Já é de madrugada. Só se você gritar, com medinho de ficar na floresta.
- E porque eu iria gritar? — Lauren olhou-a fazendo careta — Já disse que não sou criança.
- Eu não disse nada.
- Eu entendo de linguagem corporal.
- Sério? E que meu corpo está te dizendo agora? — Alex começou a fazer uma dancinha ridícula e Lauren pôs as mãos sobre os lábios para não rir alto.
- Que você é idiota.
- Eu sei que sim. Vem, vamos sentar...
As duas caminharam até um banco e sentaram lado a lado, quase encostando seus braços. Um vento fino passava, abaixando ainda mais a temperatura.
- Apesar de ser da cidade grande, agitada e viver em coisas baladas, eu gosto da natureza. Gosto desse silêncio que ela tem. Da paz que eu sinto quando estou em contato com ela.
Lauren olhou para o rosto de Alex enquanto ela dizia aquilo. A morena olhava rumo ao horizonte e seus cabelos voavam algumas mexas por causa do vento, trazendo aquele perfume em direção ao rosto de Lauren. Havia algo nela que lhe trazia essa mesma sensação que ela acabara de descrever: paz.
- Eu também gosto. A natureza é capaz de nos revelar coisas desconhecidas. Coisas que ficam imperceptíveis a quem está sempre ocupado demais na correria e na agitação da cidade grande. Só quem sabe olhar para a natureza com os olhos da alma são capazes de encontrar a verdadeira paz.
- Uau, nunca ouvi nada parecido antes — Alex virou e encarou Lauren — Você tem uma visão muito bonita da vida pra uma criança — Viu a ruiva fazer careta e mostrar a língua, soltou uma risadinha. — Sério, você é uma garota muito cabeça. Isso é legal e difícil hoje em dia. Não só entre as garotas, mas todos os seres humanos, no geral. Estão ficando cada vez mais superficiais, cabeça vazia.
- Não são suas cabeças que estão vazias, mas sim seus corações. As pessoas esqueceram de amar. Elas não amam nem a si próprias, embora tenham se tornado totalmente egocêntricas.
Os olhos de Alex brilhavam para Lauren. Como a garota conseguia ser tão encantadora? Como a garota conseguia atraí-la tanto? Ela nunca entendeu absolutamente nada daquele tipo de sentimento. Mesmo achando lindo, não podia entender como Jane e Maura se amavam tanto depois de tantos anos. Não entendia como um casal depois de passarem muito tempo juntos podiam manter ainda o mesmo amor, a mesma paixão. Alex enjoava tão rápido das pessoas que uma única noite era suficiente para não querer ver alguém nunca mais. Achava as pessoas tão iguais, monótonas, superficiais. Mas Lauren parecia tão diferente, como se fosse de outro planeta.
O olhar que elas trocavam era tão intenso, tão carregado, como se já se conhecessem, como se tivessem compartilhado uma vida juntas, que automaticamente algo fazia seus corpos se atraírem como híman enquanto se olhavam. Logo estavam tão próximas que sentiam suas respirações em sintonia.
- Ainda estou com o gosto daquele último beijo na boca — Alex disse de repente e se repreendeu mentalmente. "Que frase mais cafajeste!", mas por sorte Lauren não se importou e até sorrio — O seu sorriso é lindo.
- Você é tão linda que me dá borboletas no estômago — A garota falou de forma tímida, soltando um risinho bobo e logo suas mãos, que estavam geladinhas, tocaram o rosto de Alex, que se arrepiou com o toque e fechou os olhos — Você é muito linda. Nem parece que é de verdade.
- Mas eu sou — Ela abriu os olhos e encarou Lauren fixamente. — E estou aqui com você.
Aquela frase fez o coração de Lauren saltitar de tanta felicidade. Não pensou duas vezes em unir seus lábios nos lábios de Alex, num beijo lento, de entrega.
Ali, naquela floresta que haviam invadido no meio da madrugada, sem pensarem em mais nada, num Universo particular, sentindo as mãos delicadas tocando seu rosto e os lábios se fundindo com os seus, naquele momento, Alex tinha certeza que estava mostrando quem ela realmente era. Do lado de Lauren ela era totalmente espontânea, se via boba, e acabava transparecendo tudo aquilo que ela sempre foi, mas acabou escondendo dos outros por proteção.
Notas finais
#RIPLee.
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