R&I - Wish You Were Here

12 Capítulo 11 - Linhas do Coração


Notas iniciais
Esse capítulo ficou enorme, eu nem achei que fosse ficar tão grande, mas como vocês disseram que gostam e tal, e como eu preciso dar uma agilizada até o capítulo 15... eis aí.

Pra quem gostou da Alex: Ela vai ser personagem fixa, tchau.

O título do capítulo é creditado a dona Maria porque eu não estava conseguindo raciocinar um.

Boa leitura!

Cada pessoa lida com a dor da perda de uma forma diferente. Mas independente da forma como lidamos com ela, nunca estamos prontos para perder ninguém. Mesmo tendo a noção de que nada dura para sempre, de que todos iremos morrer um dia, ninguém nunca está apto para enfrentar facilmente uma grande perda. Aceitar que perdemos alguém que tanto amamos não é nada fácil. É doloroso. Cruel. Uma dor que não há descrição que faça jus à ela. Só quem já perdeu um ente querido, uma pessoa amada sabe entender essa dor, e ainda assim, não consegue explicá-la.

Há várias formas de se perder alguém, além da morte. Essa história nos mostra isso. Jane e Maura se perderam. Se perderam pelos erros, pela maldade de outras pessoas, pelas circunstâncias da vida, pelo destino implacável. E mesmo assim ainda se amam e tiveram a chance de se reencontrar. E acredito que qualquer perda, sem ser a perda da morte, qualquer perda pode ser revertida porque enquanto temos vida, há possibilidades. Há uma infinidade de possibilidades. Só basta estar disposto a se arriscar em algumas delas.

Mais um início de semana que tinha tudo para ser comum. Pelo menos Maura não estava mais naquele estado de início de depressão. Continuava incomodada com sua situação com Jane, porque preferia no mínimo tê-la implicando consigo, falando ironias e bobagens do que simplesmente vê-la a ignorando daquela maneira, mas Maura não daria o primeiro passo para uma reconciliação. Jamais.

Maura estava animada por ter reencontrado Alex. Chegou cedo no trabalho, arrumou suas coisas em seu escritório e desceu para tomar café da manhã. Mesmo que Jane estivesse lá, ela não deixaria mais de falar com Angela por causa dela. Aliás, não deixaria de fazer o que quer que fosse por causa dela.

– Maura, querida! Preparei suas panquecas felizes — Angela disse assim que a viu se aproximar com um sorriso agregador.

– Bom dia, Angela! Obrigada. Eu adorei essas panquecas. São deliciosas... — Disse na mesma animação que a italiana, se aproximando do balcão, mesmo já tendo visto que Jane estava numa mesa ali próxima e olhava para ela.

– Vá sentar, querida, eu levo na mesa pra você. Tem café com leite desnatado também, do jeito que você gosta.

Maura sorrio ainda mais e então escolheu uma mesa vazia em que a deixava no campo de visão de Jane. Se a morena queria namorar com Lauren e levar aquela história de ficarem sem se falar adiante, que levasse, mas teria que fazer isso encarando Maura, sua beleza e sua tranquilidade todos os dias. Ela não mais fugiria do campo de visão de Jane e muito menos apareceria deprimida.

– Quando vocês vão parar com isso? — A italiana disse, tirando Maura do transe enquanto servia o prato com panqueca e a xícara de café com leite — Eu acho uma bobagem vocês não estarem se falando. Tudo bem que Jane está com essa de namorar a cadelinha ruiva, mas pelo menos conversar como amigas vocês deviam!

– Sim, eu concordo com você, Angela, mas eu não vou correr atrás de Jane. Ela tomou atitudes estúpidas e não se desculpou e deixou a situação ficar assim. Ela que não espere que eu vá tentar reverter, porque não irei.

Jane mal conseguia disfarçar que olhava para a mesa de Maura. Daria tudo para ouvir o que ela e sua mãe diziam. Jane não entendia como a mãe podia agir assim, dando tanto "apoio" a Maura em sua frente, sem se incomodar. Jane sempre soube que a mãe aprovava o namoro delas e gostava de Maura, mas não imaginava que fosse tanto assim.

Maura percebia que ela olhava, mas ignorava. Quando Angela se afastou da mesa da loira, foi direto na mesa da filha, como se levasse um recado.

– Eu acho bom vocês duas pararem com isso.

– Eu não estou fazendo nada! E do que vocês estavam falando?

– Eu estava dizendo isso a Maura. Que é uma idiotice vocês não se falarem nem na amizade, já que antes de mais nada sempre foram grandes amigas...

– Amigas não abandonam a outra!

Angela bufou alto e apertou a bandeja de ferro com força contra si, fazendo uma expressão tão séria que Jane ficou assustada.

– Até quando vai usar o mesmo argumento? Quando vai superar isso? Quantos anos você tem, Jane Clementine Rizzoli? Cinco?

Viu a filha arregalar os olhos. Não sabia o que mais a deixou perplexa. Se a cara da mãe, as perguntas ou ouvi-la chamar pelo seu nome completo, coisa que a morena detestava mais do que tudo no mundo.

Ela não esperou por resposta e largou Jane ali, sozinha e pensativa. Talvez estivesse na hora dela voltar a falar com Maura. Quem sabe se mantivesse uma relação amigável com Maura, ela não se sentiria melhor e não pensaria menos na loira? Quem sabe aquele sentimento todo não pudesse voltar a ser simplesmente de amizade?

Jane não teria tempo de pensar nisso agora. Seu celular tocou e o de Maura também. Um assassinato novo havia acontecido.

[...]

A cena do crime era a mais inusitada possível: um museu. Logo no corredor da entrada do museu havia o corpo de uma loira estendido ao chão. O corpo estava nu, cheio de hematomas e cortes. Aparentemente havia sido morta com um tiro no peito. O mais estranho é que as roupas dela não estavam em lugar nenhum. Sem roupas, sem carteira, sem documento, o que tornava difícil a identificação da vítima. Mas havia um "pequeno" detalhe que chamava atenção: Ela estava usando uma máscara anônima de um filme protagonizado por Natalie Portman.

– Porque alguém mataria uma mulher e depois traria o corpo dela nu e deixaria dentro de um museu e ainda com uma máscara? — Korsak parecia realmente confuso.

– Boa pergunta. O que são essas marcas? — Jane perguntou à Maura, que analisava o corpo.

– Ela provavelmente foi bastante tortura antes de morrer. Espancada. E ao que tudo indica estuprada também. Vê as manchas de sangue na genital? — Olhou para Jane por um breve momento e uma mexa dos cabelos desgrenhados caía em seu rosto de forma a desconcentrar Maura.

– Sim. E ela foi morta com um tiro.

– Não posso afirmar isso.

Jane ergueu as mãos e a olhou surpresa. Nem sabia porque ainda se surpreendia com a frescura de Maura em não palpitar.

– Como não? Esse ferimento no peito dela é de tiro, certo? — Maura assentiu — Então!

– Mas como você mesma está vendo há várias marcas no corpo dela indicando tortura, e não sabemos se talvez o assassino tenha a envenado ou qualquer coisa do gênero. Preciso fazer a autópsia.

– Só seja rápida, porque precisamos descobrir quem ela é.

[...]

Pela digital descobriram a identidade da vítima, fizeram o mesmo processo de sempre. Foram na casa onde ela morava, conversaram com os pais, interrogaram amigos e pessoas mais íntimas. Aparentemente não havia motivos para ela ter sido assassinada. Não possuía desentendimentos com ninguém, não tinha um namorado, era uma profissional eficiente. Mas tinha que ter um motivo. Ninguém era assassinado aleatoriamente, pelo menos não na teoria dos detetives.

Jane desceu até o necrotério e foi direto para a sala de autópsias. Notou que ao contrário dos últimos dias, ao erguer o rosto e olhá-la entrar, Maura não esboçou reação de insatisfação nem nada. Simplesmente parecia indiferente e isso a incomodou um pouco.

– Achou algum DNA do assassino no corpo dela? Ou na máscara?

– Não. Provavelmente ele deve ter usado luvas — Maura disse, erguendo suas mãos com luvas e balançando os dedos, sem olhar para Jane, fitando ainda o corpo. — E sim, ela foi morta com o tiro no peito. Calibre 38.

– Eu disse! — Maura ignorou completamente o tom impaciente e ao olhá-la e ver o sorriso vitorioso, deu de ombros. — Certo... sem DNA, sem digital... não fazemos ideia de quem possa ser o assassino... deixe-me chutar a identidade dele... V de Vingança? — Disse ironicamente, apontando com o indicador para a máscara. Maura deixou escapar um risinho.

– V de Vingança é um personagem fictício, ele não existe — A morena revirou os olhos com a irrelevância do que Maura acabava de dizer — E mesmo que existisse, V de Vingança não era um assassino, mas sim um herói.

– Não era um assassino? — Jane arregalou os olhos — E todas as pessoas que ele matou? Tudo bem que eram pessoas ruins e que haviam acabado com a vida dele, mas mesmo assim. Se ele matou, é um assassino.

Maura ficou entretida com o assunto, tombou a cabeça para o lado direito, pensativa. Tirou suas luvas e deu a volta pela sala. Jane a acompanhava com os olhos.

– Sim, ele é um assassino, mas não um psicopata. Tecnicamente ele era um herói, mesmo tendo assassinado algumas pessoas.

– Um herói? Really? — Jane cruzou os braços — Eu gostei da mensagem do filme, da revolução toda no país e tudo, mas não consigo vê-lo como um herói. Herói não mata pessoas, ele as salva, independente se elas são boas ou más!

Maura olhou para Jane com uma sobrancelha arqueada.

– Vendo por esse ponto de vista... Não havia pensado nisso ainda! Acho que fiquei tão entretida com a mensagem revolucionária do filme que não me apeguei nesse detalhe e acabei vendo-o como um herói. Se bem que eu ainda acho que ele seja, nem que for um pouco.

Jane esboçou um sorriso de repente e Maura não entendia o porquê. Faziam semanas que Jane não esboçava sequer um sorriso que fosse quando estavam perto uma da outra. A verdade era que ambas não aguentavam mais ficarem tanto tempo sem se falar direito e com aquele assunto Jane viu a oportunidade perfeita de se reaproximar da loira.

– Que tal nós continuarmos esse assunto no Dirty Robber depois do expediente?

A morena viu o espanto da loira, que realmente ficou surpresa. Maura não imaginava que Jane fosse dar o primeiro passo da reaproximação.

– Prometo que não vamos brigar por causa disso. Apenas discutir.

A legista não teve como recusar.

– Está bem, Jane. Discutiremos isso no Dirty — Sorrio para a detetive e trocaram um olhar. Aquele olhar.

Ambas passaram o dia ansiando por aquele encontro, e ansiedade só não as corroeu por completo porque estavam ocupadas demais com aquele novo caso. Eles sabiam a identidade da vítima e Maura já sabia a causa da morte, mas aparentemente não havia motivos para ninguém matá-la, e por mais que os detetives desconfiassem de qualquer pessoa que testemunhou, não havia evidência nenhuma para culpá-las. Sem DNA, sem digital, logo, sem respostas para quem era o assassino.

No anoitecer, depois do término do expediente, Maura entrou no Dirty Robber com a ansiedade ainda maior e viu Jane sentada de costas para a entrada. Enquanto caminhava até a mesa, Maura notou que ela esfregava as mãos, hábito esse novo e desconhecido para à loira, porque na adolescência ela não fazia isso.

– Oi Jane — Disse com um sorrisinho, sentando na frente da morena, que imediatamente sorrio também, mas parecia tensa e continuava esfregando as mãos. — Hábito novo?

– Esse? — Ela olhou para suas mãos e logo entendeu ao que Maura se referia — Ah... depois de... — Ela ergueu as mãos abertas e Maura pela primeira vez reparou mais de perto, ambas as mãos com cicatrizes — Disso aqui, ganhei esse hábito.

Maura fez uma expressão de desconsolo. Só de imaginar o que haviam feito em Jane, como haviam feito, seu coração se esprimia dentro do peito. A morena abaixou as mãos, deixando-as sobre a mesa e sem pensar muito, Maura esticou as suas e as segurou delicadamente.

– Ainda dói? Porque é comum sentir dor as vezes em cima das cicatrizes.

Jane a olhou um pouco assustada, mas não fez nem menção de retirar suas mãos dali. Sentir o calor do toque de Maura continuava sendo uma das melhores sensações do mundo. Balançou a cabeça positivamente com a pergunta dela.

– No frio... no frio eu sinto bastante dor... — Sua voz de tão baixa ficou mais rouca.

Maura então soltou as mãos de Jane, porque aquele contato já estava se tornando incômodo para as duas, não porque fosse desagradável, mas sim pelo contrário. Quanto mais próximas elas ficavam, maior era a vontade de se entregarem ao amor que ainda sentiam, mas que relutavam em esconder.

O garçom se aproximou e elas fizeram seus pedidos. Maura só quis vinho, já Jane pediu hambúrguer com fritas além de cerveja.

– Você continua com péssimos hábitos alimentares — A loira disse assim que o garçom se afastou, depois de trazer a cerveja e o vinho. Ela bebeu um gole do líquido. — Deveria pelo menos beber vinho. Sabe quantos benefícios ele trás a saúde?

– Sim, mas ainda prefiro minha cerveja. E você só está falando isso porque não faz ideia de como é bom o hambúrguer daqui!

– Prefiro me alimentar de forma saudável — Retrucou a loira, com aquele ar falso de superioridade, bebendo mais um gole de vinho.

Jane a olhava desacreditada. Se por um lado Maura continuava igual era há doze anos atrás, por outro, ela estava ainda "pior". Mais saudável, mais sofisticada, mais intelectual, mais chata e mais linda, também. Soltou um suspiro enquanto olhava para ela, que estava destraída, mas logo notou o olhar de Jane e corou um pouco.

A morena então parou de encará-la daquela forma, porque era mesmo constrangedor. Sua perna direita começou a balançar em baixo da mesa. Estava nervosa. Sabia que tinha que tomar as iniciativas, porque havia sido babaca com Maura, mesmo achando que a loira merecia sua raiva.

– Eu queria te pedir desculpas pelo que aconteceu aquele dia — Começou dizendo, sem saber de onde vinha coragem e Maura a olhou surpreendida — Eu realmente não deveria ter feito ou dito nada daquilo, Maura. Me comportei como uma completa idiota porque você tinha acabado de reaparecer na minha vida, e bom, eu... eu me vi em conflito com o passado e o presente, mas com o passar dessas semanas eu percebi que isso tudo é bobagem... não posso ficar com raiva de você por algo que aconteceu há tantos anos, em outra época. Somos duas adultas agora. Tudo mudou. Nós mudamos. Trabalhamos juntas e.... — Mordeu o lábio inferior e voltou a esfregar as mãos — Eu não sei você, mas eu gosto da sua companhia. De uma forma ou de outra, você foi a primeira amiga que eu tive na vida.

Ela não consigou deixar de sorrir após ouvir Jane dizer aquilo. Mesmo a amando como mulher ainda, talvez depois dos conflitos daquele reencontro, depois de Jane iniciar um namoro com Lauren e lembrando do telefonema de anos atrás em que Tommy lhe disse que Jane já havia a esquecido, talvez fosse melhor ser apenas amiga de Jane, porque provavelmente a morena não a amava, não daquela forma. Só haviam se beijado e dormido juntas naquele sábado porque os sentimentos dela deviam estar confusos depois de todos aqueles anos. Mas os sentimentos de Maura não estavam. Ela sabia o quanto ainda amava Jane e ela terrível imaginar que isso não fosse recíproco.

– Você também foi a primeira amiga que eu tive na vida, a melhor — Jane sorrio ao ouvir aquela afirmação — E se quer saber, ninguém roubou esse título até agora. O único amigo que eu tenho, que é como um irmão para mim, é homem, então...

– Melhor amigo homem? — A morena desfez o sorriso, e se Maura não fosse tão lerda teria percebido que aquilo era evidente ciúme — Nunca vi amizade muito íntima entre homem e mulher.

– Ele é gay, Jane. Muito gay! — Soltou uma risadinha ao lembrar do jeito do amigo e Jane acabou rindo de si mesma por ter pensado outra coisa. — Você vai adorar conhecê-lo. Jonan é um barato.

– Se você diz... mas o que eu queria dizer era que eu gostaria que nós fossemos amigas. Eu... eu sinto sua falta — Olhou-a nos olhos. Não diria que sentia falta dela como sua namorada, até porque não cairia bem, pois estava com Lauren, mas de qualquer forma, estava desabafando. — Não gosto de ficar esse clima estranho entre nós.

– Você nunca gostou, nem quando nós brigávamos à toa e ficávamos sem nos falarmos na sala de aula — Maura relembrou com um sorriso doce.

– Claro, tem coisa mais ridícula do que brigar e ficar de cara feia, sem se falar?

– Como se não fosse você quem ficava com a cara mais emburrada do mundo, não é, Detetive Rizzoli? — Maura brincou e Jane revirou os olhos, dando de ombros.

– Pelo menos não ficava querendo aparecer e se intrometendo nas minhas conversas com os professores, querendo me mostrar uma sabichona.

– Acho muito ofensivo esse seu "sabichona".

– Desculpa, Dra. Einsten — Ironia e Jane. Como Maura sentia falta daquela combinação quase perfeita. Não conseguiu não sorrir. Mesmo sabendo que devia soar ofensivo aquele apelido, Maura achava até que soava bem ser comparada ao Einsten.

O garçom se aproximou novamente trazendo o hambúrguer e as batatas fritas de Jane. Maura olhou espantada para a refeição, que estava com uma cara e um cheiro delicioso. Jane segurou o hambúrguer e foi aproximando-o de sua boca quando notou o olhar de Maura.

– Que foi? Tá querendo um pedaço do meu lanche gorduroso? — Perguntou com ironia, achando que Maura só estava olhando daquela maneira para implicar com ela.

– Quero! — A loira respondeu mais do que depressa e arrancou o hambúrguer da mão de Jane, dando uma mordida grande no mesmo, deixando a morena boquiaberta — Meu Deus, que delícia!

– Maura... você... você acabou de morder um pedaço do meu lanche gorduroso que você disse que faz mal a saúde...

– Eu sei! — Disse colocando uma mão na frente da boca ainda cheia, mastigou e deu outra mordida grande, fazendo a cara de espanto de Jane aumentar — Mas isso realmente é bom...

– Você vai comer todo o meu lanche? Não quer pedir um pra você, não?

– Não, só esse aqui está ótimo!

Jane revirou os olhos e soltou uma gargalhada. Claro que estava ótimo. Ela iria comer todo o seu hambúrguer. Se Jane quisesse, teria que pedir outro. Mas ela nem se importou. Achou muito fofo ver Maura comendo daquela maneira. Porque no fundo ela era tão simples.

Como haviam resolvido dar aquele passo para se tornarem amigas, não iriam tocar no assunto sobre Maura ter ido embora, mesmo a loira sabendo que Jane não sabia a verdade e que talvez, só talvez, se ela soubesse, as coisas poderiam ser diferentes.

Conversaram bastante. Jane contou quase que todos os passos que deu para conseguir se tornar detetive. Contou cada disfarce, cada aventura, e Maura parecia excitada em ouvir as histórias. Só ficou séria quando Jane citou Charles Hoyt e explicou mais detalhadamente o ocorrido com suas mãos. Depois foi a vez da loira falar sobre a medicina e sobre sua vocação de ser legista. Essa foi a parte mais longa da conversa porque Maura não deixava escapar nenhum detalhe e ainda desviava os assuntos, querendo explicar coisas que Jane não fazia questão de saber, mas a deixava falar só pelo prazer de ficar mais tempo ao seu lado ouvindo sua voz. Por fim, chegaram no assunto que foi estopim para aquele encontro: V de Vingança. E como imaginavam, não chegaram num senso comum. Maura continuava achando que ele era um herói e Jane não.

– Então vamos fazer o seguinte, se for apenas uma coincidência a máscara do V estar na cara da nossa vítima, eu aceito que ele é um herói. Se, por um acaso, essa máscara do V foi usada porque o nosso assassino se acha uma espécie de vingador, você aceita que ele é um assassino, ok? — Foi a sugestão de Jane ao ver que não concordariam e Maura assentiu, selando o acordo com um aperto de mãos.

Quando acharam que já estava tarde, decidiram ir embora. Foi um pouco constrangedor na hora de dizer tchau. Não sabiam como se cumprimentar. Maura acabou deixando um beijo muito próximo dos lábios de Jane, sem querer. Cada uma pegou seu carro e foi para sua casa. E mesmo com aquele simples encontro de amigas, as duas estavam radiando felicidade.

Maura não conseguiu se conter, ligou para Jonathan contando as novidades.

– Então quer dizer que agora vocês voltaram a ser melhores amiguinhas? — Ele disse divertido — Aliás, pelo que me recordo, vocês nunca foram melhores amiguinhas, a não ser que garotas apaixonadas uma pela outra que fazem amor sejam melhores amiguinhas.

– Jonan! — Ela resmungou do outro lado da linha, deitada em sua cama — É sério. Depois de toda aquela idiotice de Jane, não esperava que ela fosse tomar essa iniciativa. Eu estou realmente feliz com isso. Mesmo tendo colocado no meu cérebro que não importa o que aconteça eu não vou mais sofrer ou me abalar por ela, é bom que a situação entre nós tenha se resolvido. É bom que fiquemos amigas.

– Fico feliz porque sei que falar com ela numa boa vai te fazer bem, meu amor, mas não se iluda. Isso não é "se resolver". Toda essa história só se resolverá no dia em que você disser a ela a verdade.

Ele pôde ouvir um longo suspiro de Maura.

– Eu não sei se um dia vou contar a ela. Não faz diferença mais, Jonan. Ela está namorando a Lauren. Provavelmente não deve mais sentir nada que sentia por mim antigamente...

Do outro lado da linha ele bufou, fazendo cara de impaciente. As vezes Maura podia ser tão burra, mesmo sendo tão inteligente.

– Claro que ela não sente mais nada por você, querida. Ela só te beijou todas aquelas vezes, te levou pra cama e quis te causar ciúme porque ela tem algum probleminha na mente — Ironizou ele, e mesmo com vontade de rir, Maura não o fez, pois ficou pensativa.

– Será mesmo que ela ainda...

– Com certeza! — Ele disse alto e rapidamente — Eu não vi a tal da ruiva ainda, mas tenho certeza que você é melhor do que ela.

– Ela é bem bonita.

– Mas você é Maura Isles!

– Já faz anos que eu deixei de ter orgulho desse sobrenome — Murmurou ela, ajeitando o lençol sobre seu corpo.

– Tanto faz. Mesmo assim. Jane ama você. Por tudo que ela fez... só pode te amar. Você sabe que meu sexto sentido não falha nisso. Me leve para conhecê-la e aí eu vou ter certeza.

– Sério mesmo?

– Claro! Podíamos marcar um jantar na sua casa sábado. Assim além de me conhecer, Jane aproveita e conhece sua casa — O tom dele era malicioso e Maura captou as segundas intenções.

– Jonan! Você não disse que depois de me ver sofrendo daquele jeito não me queria mais com a Jane?

– Eu odeio o fato dela ser imbecil as vezes e de te magoar, mas se você não consegue deixar de amá-la, e se eu constatar nesse jantar que de fato ela também te ama, pode ter certeza que eu serei a fada madrinha de vocês e esse casamento vai que acontecer nem que eu tenha que amarrar vocês duas em cima de um vulcão! — Maura gargalhou alto ao ouvi-lo.

– Ok, ok. Vou falar com Jane sobre o jantar. Mas vá com calma, arquiteto fantasioso. Não chegamos nem perto do namoro ainda, que dirá do casamento. Guarde sua varinha mágica pra depois. Agora eu preciso dormir porque amanhã o dia será longo. Boa noite, Jonan.

– Boa noite, rainha dos mortos! — Ela riu do apelido e desligou.

Antes de adormecer Maura ficou com aquela ideia de Jonathan martelando na cabeça. Afinal, não seria de todo mal convidar Jane para jantar em sua casa na presença de Jonathan. Pelo menos com o amigo ali, o convite não soaria com segundas intenções e assim elas se aproximariam mais, com Jane tendo o conhecimento de sua casa. Era uma ideia a se pensar.


No dia seguinte Jane chegou animada na central. Era à primeira vez que usava um terno diferente em dois anos. O terno era cinza. E usava uma camisa azul escura de seda que dava um contraste lindo em sua pele morena. Foi direto para a cantina tomar um café da manhã e a mãe estranhou ao vê-la tão aparentemente bem humorada e sorrindo.


– Que aconteceu com você? — Angela perguntou espantada ao se aproximar da mesa, levando as panquecas e o café da filha — Está tão bonita hoje... — Sentiu um cheiro forte de perfume e se aproximou mais de Jane, "cheirando ela".

– Que você tá fazendo, ma?

– E passou perfume.

– Eu sempre passo perfume pra trabalhar — Retrucou séria.

– Não esse perfume — A mulher olhava desconfiada para a filha. — Não vai me contar o que aconteceu, Jane?

– O que aconteceu para eu estar vestida assim?

– É!

– Fiz compras, tomei banho e passei perfume — Disse ironicamente enquanto cortava sua panqueca, dando um sorrisinho e fazendo a mãe fechar a cara.

– Você é tão engraçadinha...

Angela avistou Maura, que estava impecável como sempre numa saia estampada e uma camisa amarela, com o diferencial de que hoje estava com um sorriso doce e uma feição tranquila. Estranhou ao ver a legista caminhar na sua direção, porqe estava ao lado da mesa de Jane.

– Bom dia Angela, bom dia Jane!

– Ei Maura... — Angela observava um pouco perplexa a troca de olhares e sorrisos das duas. — Senta comigo, estou tomando café.

– Cheguei numa boa hora, então.

A ficha de Angela começou a cair, mas ela continuava com aquela mesma expressão.

– Estou sonhando ou vocês duas voltaram mesmo a se falar?

– Voltamos sim, ma — Jane disse impaciente — Não está vendo?

– Decidimos ouvir seus conselhos, Angela.

– Voltaram a namorar?

As duas se entreolharam constrangidas e Jane fez uma careta, voltando a olhar para mãe.

– Nós... nós voltamos a nos falar, somos amigas, ma! Eu namoro a Lauren... — Tanto Maura quanto Angela ficaram desanimadas ao ouvirem aquilo, cada uma reagindo de uma maneira. Mas Maura não iria ficar triste por isso. Estava feliz demais por ao menos estar começando a ser amiga de Jane.

Angela não comentou nada, porque mesmo achando a filha uma estúpida por não pedir logo Maura para voltarem a namorar, também estava feliz por elas terem se entendido. Já era um grande passo.

Depois de tomarem café da manhã tranquilamente, se encaminharam até os elevadores. Cada uma pegaria um elevador para ir ao seus respectivos setores, quando o Tenente Cavanaugh saiu de um deles.

– Dra. Isles, Detetive Rizzoli, bom encontrá-las juntas. Quero que as duas subam, temos uma nova detetive que acabou de ser promovida. Ela veio da narcóticos assim como você, Rizzoli — Olhou para a morena e depois para Maura, ambas prestando atenção nele e surpresas com a novidade — Quero que todos deem boas vindas a ela, inclusive você, Dra. Isles, já que tem contato direto com os detetives.

– Claro, nós vamos subir agora para a apresentação.

Elas subiram e estavam todos os detetives a postos no escritório, esperando para receber a tal nova detetive. Jane ficou em pé, próxima de sua mesa, ao lado de Frost e Korsak. Maura do seu outro lado.

– Achei que nunca fosse viver o suficiente para ver outra detetive mulher nesse departamento — Korsak disse para eles.

– Eu também estou surpreso, já é difícil hoje em dia os homens serem promovidos...

– Exemplo disso foi Frankie, que penou para ser promovido. E agora do nada temos a chegada de uma detetive. Esse ano realmente promete — Jane pensou alto e deu uma olhadinha para Maura, que também a observava e ficou reflexiva com aquela frase.

– Pessoal, senhores — Cavanaugh disse, entrando na sala — Quero que vocês deem as boas vindas para nossa nova Detetive Vause! — Ele se posicionou de lado e então a branquela de olhos azuis e cabelos pretos que Maura bem conhecia surgiu na frente de todos, usando uma calça social preta bem colada, que dava forma ao seu corpo, uma camisa branca com os primeiros botões abertos, dando um charme ao seu colo e com as mangas dobradas na altura dos cotovelos. Usava seus óculos inseparáveis e tinha os cabelos soltos.

Todos os homens, incluindo Korsak e Frost babaram ao vê-la. Ela era muito sensual. Maura estava surpresa demais e não conseguia disfarçar. Nunca pensou que aquela garota maconheira e rebelde se tornaria policial. Mesmo agora, no reencontro delas, Maura continuava achando que ela com um espírito muito "selvagem" para ser policial.

Alex foi cumprimentada por todos os detetives, um por um, e notava que todos babavam em sua beleza e achava engraçado. Quase o tempo todo ela olhava para Maura com aquele seu sorrisinho. Quando Maura lhe contou toda a história de sua volta, Alex já sabia que elas iriam trabalhar juntas, e mesmo assim resolveu não contar, quis surpreendê-la.

Por fim, Alex tomou a iniciativa de se encaminhar na direção de Jane e Maura, as únicas paradas ali, que não foram até ela. Estendeu sua mão para Jane, que até então, não sabia que ela e Mara se conheciam.

– Prazer, Detetive Rizzoli — Jane disse simpática, embora tenha achado o jeito de Alex um tanto quanto estranho.

– Detetive Vause — Disse com um sorriso cordial e estudou o rosto de Jane por alguns instantes. Maura havia falado tanto naquele dia, que Alex não via a hora de ser promovida para ficar frente a frente com a morena, e embora ela fosse bonita, Alex continuava segura do seu potencial.

Finalmente, então, Alex se voltou a Maura, que a olhava com um sorrisinho.

– Quando disse que nos veríamos mais breve do que eu imaginava, não pensei que fosse nessa circunstância, "Detetive" Vause — Deu ênfase na palavra e então Jane se virou e ficou olhando-as, confusamente.

– Digamos que eu quis fazer uma surpresa, Dra. Isles. E também eu não tinha certeza se seria promovida.

– Nunca imaginei que você fosse ser policial. Estou impressionada! Meus parabéns pela promoção...

Jane estava boiando. Que diabos estava acontecendo ali, afinal? Maura já conhecia a tal da Detetive Vause de algum lugar, e com certeza não era algo recente, pela maneira como se olhavam e conversavam. Jane não gostou nada daquela sintonia, dos sorrisos e muito menos da cara de Alex para Maura.

– Será um prazer trabalhar com você — Maura acrescentou.

– Não se engane, o prazer será todo meu.

– Vocês se conhecem? — Jane interrompeu o transe das duas, fazendo ambas olhá-las, e embora sorrisse de forma forçada, Jane estava morrendo de raiva por dentro.

– Sim, nós já nos conhecemos — Maura respondeu.

– De longa data, não é? Conheci Maura em Londres há anos atrás.

– Londres? — Pela expressão que Jane olhou para Maura, a legista sabia que a morena estava pensando tudo errado.

Depois de ter abandonado-a, Maura foi para Londres virar a grande legista em Oxford e de quebra conheceu e se envolveu com a tal da Alex. Foi exatamente isso que Jane pensou.

Cavanaugh se aproximou.

– Venha comigo, Detetive Vause, vou levá-la para conhecer todos os setores aqui.

– Sim, senhor. Com licença.

Assim que os dois se afastaram, Maura olhou para Jane como se dissesse "eu posso explicar", preocupada com a má interpretação de Jane, que estava agora evidentemente mal humorada.

– Podemos descer até o necrotério e conversarmos na minha sala?

Jane não respondeu nada, sua resposta foi sair andando até o elevador e então elas desceram e foram até a sala privada de Maura.

– Diga...

– Estou percebendo pelas suas feições que está zangada mas não há motivos. Eu e a Detetive Vause não temos nada uma com a outra. Nos conhecemos há anos atrás por um acidente e nos reencontramos no final de semana por um acaso.

Jane ficou ainda mais irritada. Além de se conhecerem também se reencontraram no final de semana. Realmente estava adorando saber de tudo aquilo.

– Não sei porque está me dizendo isso. Eu não estou zangada.

– Não é isso que o seu rosto diz.

Jane revirou os olhos e respirou fundo. Por um momento achou que as coisas estivessem começando a melhorar, mas pelo visto...

– Dane-se o que o meu rosto diz. E não sei porque você fez questão de me dizer isso. Não me deve satisfações, Maura — Disse de forma grosseira e foi a vez da loira se irritar.

Maura então cruzou os braços.

– Quer saber? Não, eu não te devo satisfações mesmo. Quem eu conheço ou deixo de conhecer, é problema meu. Com quem eu me relaciono, é problema meu também. Só quis te contar isso porque agora somos amigas. Só isso...

– Desculpa... — Murmurou baixinho, não queria brigar com Maura sendo que mal haviam começado a se entender. A loira sorrio ao ouvi-la e assentiu.

– Queria te fazer um convite.

– Um convite?

– Sim. Quer jantar na minha casa sábado à noite? — Jane se surpreendeu com o convite, e realmente ela adoraria ir, mas porque Maura estava convidando-a para jantar em sua casa? Ela namorava Lauren, isso era perigoso e... — Meu amigo Jonan vai também e quer te conhecer, aquele que te falei ontem.

– Sim, eu lembro. Que horas?

Maura se animou. Então Jane iria.

– 20:00h. Eu te passo o endereço depois.

– Ok.


Jane voltou ao escritório. Alex estava se instalando em uma mesa próxima a de Korsak. Em sua mesa havia miniaturas de Star Wars e um boneco do Jason, além de uma caneca do batman. Jane olhou com as sobrancelhas franzidas para aquilo e depois para Frost e Korsak, que também se entreolhavam assustados ao ver aquilo. Definitivamente Alex Vause era um tanto quanto... exótica.

– Batman? Acha que ele vai te ajudar a pegar os assassinos? — Jane cutucou com ironia, sentando-se em sua mesa, fazendo Frost e Korsak rirem.

Alex sorrio. Ela sabia que Jane já estava com ciúme dela. Tinha conciência disso, afinal, ela era muito atraente e notou o quão desconcertada a morena ficou ao ver a reação de Jane quando viu que ela e Maura se conheciam. Girou na cadeira, virando-se de frente a direção de Jane.

– Eu sou muito melhor do que o batman, Rizzoli. Você vai ver... — Piscou para ela ousadamente e girou na cadeira outra vez, voltando-se para seu computador.

Korsak e Frost fizeram uma expressão que Jane bem conhecia. Frost disse baixinho só para Jane, já que sentava de frente para ela.

– Essa doeu ein.

– Não senti nada ainda — Ela ironizou, fazendo careta para ele, que riu.

Definitivamente Jane não estava gostando nem um pouco de Alex, do jeito dela e principalmente do fato de ela e Maura terem algum tipo de relacionamento.


Jane, Frost e Korsak tiveram que atualizar Alex desse novo caso da Sara, nome da vítima. Alex trabalharia diretamente com os três, seria parceira de Korsak, o que deixou Jane ainda mais irritada. Mas ela faria o possível para não se estressar com a presença de Alex, já que teria que lidar com ela todos os dias e também não deixaria isso afetar sua "amizade" com Maura.

Já era quinta-feira e nem sequer uma pista do assassino. A semana havia sido há mais longa em meses para Jane, que ao contrário do que imaginou, já não estava mais suportando Alex. Ela era extremamente irritante. Se Jane se considerava a rainha da ironia, Alex estava com o título de princesa, porque ela era irônica como ninguém sabia ser além de Jane, só que a diferença era de que Alex tinha uma ironia debochada, ela gostava de brincar com tudo e todos e não levava nada a sério. Já Jane levava sério até demais e estava sempre mal humorada.

Alex chegava na central pouco tempo depois e sempre aparecia na cantina quando Jane e Maura estavam tomando café da manhã. Na quarta-feira Maura convidou Alex para sentar com elas e a morena teve vontade de arremeçar o seu precioso café na cara de vadia louca que Vause tinha.


– Você precisa se controlar, Jane! — Angela repreendia a filha ao ver sua cara de fúria após cruzar com Alex e Maura conversando no corredor — Daqui a pouco a central inteira vai perceber que você está com ciúme da Detetive Vause.

– Ciúme? — Jane quase berrou, algumas pessoas na cantina ouviram, então ela abaixou o tom de voz — Ciúme daquela... ? Por favor! Sou muito melhor do que ela... não sou? — Perguntou insegura e a mãe riu da carinha que ela fez.

– Que bobagem é essa, Jane? Está se comparando com Alex por quê? Vocês são bem diferentes, embora eu ache que tenham algumas coisas em comum.

– Todo mundo tá "apaixonado" pela Vause. Cavanaugh é só sorrisos pra ela. Korsak está adorando a nova parceira. Frost fica babando e não diz que ela é "butch", como faz comigo. E a Maura... ah... — Relaxou os ombros e abaixou o rosto, desanimadamente.

– Você está com ciúme dela e da Maura, admita!

– Não é certo. Eu namoro a Laure, eu e Maura somos só amigas...

– Não é certo, mas você está. Sabe porque está com ciúme? — Jane ergueu o rosto para encarar a mãe — Porque vocês não são, nunca foram e nunca vão ser só amigas. Vocês ainda se amam.

– Não sei se Maura me ama. Agora que a Alex apareceu ela nem me dá tanta atenção. Eu desço pra ir no necrotério e quase sempre Alex está lá. Quando conseguimos ficar sozinha pra almoçar no Dirty, de quem ela fala? Da Alex... do quanto ela é engraçada, do quanto ela é louca e faz coisas ousadas... enquanto eu sou uma chata reclamona...

– Ao invés de ficar pensando nessas coisas, você deveria tomar vergonha na sua cara e terminar com a Lauren e ir se declarar com a Maura! — Jane ia protestar, dizendo algo, mas a mãe interrompeu — E se vier de novo com aquela conversa de que ela te abandonou, eu juro que fico um mês sem falar com você, Jane.

A morena então nada disse, ficando cabisbaixa novamente. Sabia que sua mãe tinha razão. Estava fazendo papel de idiota. Não amava Lauren e nunca conseguiria amá-la porque Maura ainda ocupava seu coração. Mas não sabia o que fazer. Além de ainda não conseguir entender e engolir o fato de ter sido abandonada, Jane tinha medo que Maura não a amasse mais. Até porque, se a morena acreditava que Maura havia a abandonado sem uma real razão, era mais do que certo pensar que a loira não a amava.

Maura poderia ser um pouco lenta, mas estava percebendo a mudança de Jane. Andava muito mais irritada do que o normal, mas não descontava em Maura, pelo contrário, tentava tratá-la da melhor forma possível e estava quase sempre cabisbaixa, especialmente quando se falava em "Alex Vause". A loira não sabia se isso era ciúme profissional, por Alex ser a única detetive mulher no departamento além dela, ou se era ciúme das duas mesmo.

Ao longo da semana, Maura atualizava Jonathan sobre as novidades, e o amigo, que adorava um "babado" e estava disposto a unir Jane e Maura de qualquer maneira, deu inocentemente a ideia de Maura convidar Alex para esse jantar, mesmo que em cima da hora e a loira sem captar a malícia, o fez.

Finalmente sábado à noite chegou. Jonathan já havia chegado na casa de Maura e a ajudou a arrumar a mesa impecavelmente. A loira mesmo havia cozinhado uma lasanha deliciosa. Maura estava bem nervosa. Era à primeira vez que Jane ia em sua casa. Sentia até aquele frio na barriga. Ela mal sabia que a morena também estava super nervosa.


Pouco antes de Jane começar a se arrumar para o jantar, ela e Lauren se encontraram e a garota estava bem chateada com ela, porque Jane havia sido bem ausente naquela semana, e usando de desculpas, ao invés de dizer a verdade, como elas tinham combinado.

– Nós mal nos vimos a semana inteira e agora você diz que tem um compromisso em pleno sábado à noite? — A ruiva perguntou tranquilamente, de braços cruzados. Estavam numa lanchonete perto da casa dela.

– Eu não tive culpa, já disse que a semana foi corrida, Lauren. E estou aqui com você agora para compensar por eu não poder sair com você essa noite.

– Bom, se você queria me compensar, ao invés de me trazer numa lanchonete pra comer deveria ter me levado pra sua casa pra nós transarmos — Disse sem humor nenhum, descruzando os braços, pegando seu copo de suco de uva e bebendo um gole. — Onde você vai?

– Onde eu vou? — Jane ficou assustada com a pergunta e Lauren a olhou como se ela fosse retardada.

– É. Disse que tem um compromisso hoje. Onde você vai?

– Eu... — Oh merda, como ela falaria isso para Lauren sem discutirem? — Eu vou jantar... na... casa da Maura — Disse tudo de uma vez no final e estranhou ao ver que Lauren não parecia surpresa.

– Porque não me disse isso antes?

– Porque fiquei com medo que ficasse chateada e pensasse algo errado. Ela me convidou porque queria me apresentar um amigo gay dela. Só por isso aceitei ir...

– Não precisa ficar se justificando. Não importa porque você aceitou. Você é adulta o suficiente para saber o que faz ou não da sua vida, e o porquê faz.

Jane a olhou assustada. As vezes Lauren conseguia ser mais direta e grossa do que ela.

– Ok. Mas eu realmente não quero que você fique chateada ou pensando...

– Vai se foder, Jane! — Disse brava, mas não alto para os outros não ouvirem, inclinando o rosto para frente — Você além de trabalhar com ela todos os dias agora vai ficar de amizadezinha. Vai deixar de passar à noite comigo pra ir jantar na casa dela com a desculpa de que vai conhecer um amigo da Maura, é isso? Você acha que eu sou idiota?

– Lauren, se acalme, eu estou te falando, não tem nada demais nesse jantar, nós estamos começando uma relação de amizade porque aquele clima estava horrível e...

Lauren observava a maneira como Jane falava e soltou um risinho de indignação.

– Não, você não acha que eu sou idiota. A idiota é você por acreditar mesmo que vai conseguir ser só amiga dela — A ruiva levantou da mesa, pegou sua bolsa e saiu, deixando Jane ali sem acreditar.

O que ela havia feito de errado? Era só um jantar...


Jane chegou na casa de Maura e ficou impressionada só com a entrada. Por fora já dava para ver que era uma grande casa, e conhecendo a loira como conhecia, sabia que só podia esperar por luxo e conforto. Tocou a campainha meio receosa e logo seus olhos brilharam ao ver Maura abrir a porta, usando uma calça preta e uma blusa de linha vermelha, de salto, maquiada e os cabelos loiros sempre perfeitos.

Maura reparou também sem ser discreta em Jane. Estava de calça jeans, uma camiseta preta e um casaco de couro bege, e calçava tênis. Isso fez Maura lembrar a adolescência. Naquela época Jane só se vestia naquele estilo, sem às roupas sociais.

Elas perderam minutos olhando uma para a outra com um sorriso bobo nos lábios até que Jonathan surgiu ao lado de Maura.

– Você é a Jane Rizzoli?! Finalmente vou conhecê-la! Que honra! — Disse alto e alegre, pegando-a pelo braço e puxando Jane para dentro, que mal entrou e então ele a abraçou e depois deu dois beijinhos no rosto — Maura me falou tanto de você, mais tanto durante todos esses anos que já me sinto íntimo de você, queridinha.

Embora Jane tenha ficado um pouco assustada com o jeito de Jonathan, ela o achou engraçado. Sorrio um pouco tímida.

– Maura falou muito de mim? — Olhou para a loira, que desviou o olhar e seguiu até a cozinha.

– Vou pegar o vinho...

– Você não faz ideia do quanto essa mulher falou de você, e olha que ela normalmente já fala demais sobre qualquer assunto — Os dois riram, e Jane assentiu, realmente ela falava... — Nossa, adorei teus cachos! O que você faz para ter esses cabelos tão lindos? — Ele disse segurando em alguns cachos dela e jogando para cima.

– Bom, eu... na verdade não faço nada, eu tenho preguiça de cuidar, não gosto de salão de beleza.

Maura voltou com a garrafa de vinho aberta e colocou-a na mesa.

– Falta pouco para nosso jantar ficar pronto. E cuidado, Jane, senão ele vai roubar seu cabelo!

Os três riram.

– Com certeza. Tô invejando demais esses cachos...

De repente a campainha tocou e Jane ficou surpresa.

– Quem será?

Maura foi até a porta e Jonathan disse baixinho para Jane.

– É só mais uma convidada do jantar.

Outra convidada? Jane não sabia que além dela e Jonathan mais alguém iria comparecer... Não, não. Não podia ser verdade. Ao ouvir a voz, ela virou e ao ver Alex parada na porta, cumprimentando Maura com um beijo no rosto e ainda por cima tocando-a na cintura, a morena teve certeza de que ela não iria conseguir se controlar.

Notas finais
Jane com ciúme. Bem feito trouxa. Tchau!