R&I - Wish You Were Here
11 Capítulo 10 - Só os Loucos Sabem
Notas iniciais
Eu estava com dificuldade de pensar num título pra esse capítulo, até que depois de escrevê-lo eu pensei e vi que não tinha título melhor do que esse da música do Charlie Brown. Vocês entenderão logo logo... haha.
Pras meninas que assistem OITNB, tipo a Mari, tenho uma surpresa nesse capítulo ;)
Boa leitura!
Algumas semanas se passaram desde a discussão em que Maura deixou bem claro para Jane que ela já havia conseguido lhe machucar com aquelas atitudes estúpidas. Desde então, elas não mais se falavam. Só quando o trabalho fazia disso uma necessidade. E mesmo assim, as palavras eram secas e muito bem pensadas antes de serem ditas. Havia um silêncio incômodo, um desconforto, tensão. Maura não queria falar com Jane. Ela a amava, sim, amava, mas Jane não merecia nem ao menos sua presença. Estava agindo como uma verdadeira imbecil. Maura entendia que a morena pelo fato dela ter ido embora não fosse querer mais ter uma relação de intimidade com a loira, por ter sido muito magoada e por ter perdido a confiança nela, mas não entendia aquela atitude baixa de namorar com Lauren e ir atrás dela querer provocar-lhe ciúmes.
A legista-chefe sentia-se muito sozinha. Em Londres, ainda que ela também não tivesse amigos íntimos além de Jonathan, ela conhecia várias pessoas com quem se divertia, saía. Em Boston, ela não conhecia ninguém além do amigo e de Jane, mas definitivamente Jane não estava na lista de "amigos", sequer estava na lista de "conhecidos", porque conhecidos ainda se cumprimentava gentilmente ao se encontrarem nos corredores e elas nem isso faziam.
Jane não fazia ideia do que estava acontecendo consigo. Ela pensava em Maura todos os dias, o tempo inteiro, mais do que pensava antes da loira retornar a sua vida. Porque agora ela não era só uma lembrança, ela era uma realidade constante em seus dias. Jane achou que começando um relacionamento com Lauren, se permitindo conhecer melhor a ruiva, sair, passear, ela conseguiria no mínimo amenizar seus sentimentos em relação à Maura, mas isso não estava acontecendo...
– Você parece sempre tão distante — Observou Lauren — Como se seu corpo estivesse aqui, mas sua mente não... sua mente e o seu coração.
Jane olhou para Lauren com pesar ao ver a feição triste da garota ao dizer aquilo. Estavam deitadas na cama de Jane, viradas de frente uma para a outra.
– Pareço, mas eu não estou, Lauren. Sabe que eu tenho tentado o máximo possível ficar mais tempo com você, mesmo com a loucura do meu trabalho... — Dizia com sinceridade.
– Eu sei que sim, eu sei do seu esforço, Jane. Antigamente você nunca era disponível pra mim, e agora quase sempre estamos juntas. Eu realmente vejo isso. Mas mesmo assim... — Ela esticou a mão direita e tocou o rosto dela delicadamente — Nós duas sabemos que você não está se dando por inteira.
Jane fitava aqueles lindos olhos azuis claros e o seu olhar para Lauren era sincero. Ela não mais mentia e nem fugia. Jane era uma pessoa que falava mais pelo olhar as vezes do que por suas próprias palavras, que acabavam sempre confusas e emboladas nessas situações.
– Está tudo bem, Jane, de verdade. Eu sei que você está se esforçando, que realmente quer que isso dê certo. Não estou te cobrando nada porque eu sei que você não tem culpa.
– Obrigada por me entender... — Ela segurou na mão da ruiva e levou até seus lábios, beijando-a delicadamente — Você é muito especial pra mim, Lauren. Eu não quero perder você.
– E quem disse que vai? — Ela abriu um sorriso, aquele sorriso também de covinhas e foi se aproximando de Jane, passando o braço por cima do quadril dela — Eu te avisei, morena, que quem entra na minha vida está destinado a me aguentar até não querer mais!
Jane soltou uma risadinha enquanto a ruiva lhe abraçava e puxava mais para si. Jane a abraçou de volta e beijou seus lábios.
[...]
– JANE! JANE! — Angela começou a gritar assim que entrou no apartamento.
Jane e Lauren se entreolharam assustadas.
– E agora?
A morena estava de calcinha e sutiã, mas Lauren só estava de calcinha. Ainda estavam na cama.
– Veste minha camisa, rápido!
Lauren pegou uma camisa branca de Jane que ela usava no dia anterior e estava caída no chão e vestiu, além de puxar rapidamente o lençol até a altura da cintura. Jane ajeitou os cabelos, levantou da cama e ainda tentou pegar alguma roupa para vestir, em vão, já que Angela abriu a porta no mesmo momento.
A mãe da detetive fez uma expressão de susto tão forte que a cena era hilária. Seu olhar alternava entre Lauren na cama, descabelada, com a camisa de sua filha, e Jane, semi nua, fazendo uma careta.
– Oh, eu não sabia que vocês... Oh — Angela se virou e foi se encaminhando de volta a sala.
Jane deu um tapa em sua testa.
– Merda! Eu vou lá falar com ela, espere aí — Disse a Lauren, enquanto vestia rapidamente uma calça jeans e uma camiseta antes de correr até a sala. — Ma? O que diabos você veio fazer aqui uma hora dessas e sem avisar?
– Eu sou sua mãe, agora preciso avisar quando venho na sua casa? — Estava indignada — Eu vim te visitar, porque fazem duas semanas que você não almoça mais com sua família!
A morena revirou os olhos e fez outra careta.
– Dois domingos que eu não almoço na sua casa, na companhia dos meus irmãos, da minha cunhadinha inteligente e do meu sobrinho lindo. Dois domingos só, ma! Por favor! E nós nos vemos todos os dias...
– No trabalho!
– Mesmo assim!
– O que é isso? Você não quer mais a presença da sua mãe na sua casa? Não quer mais conviver com sua família? — A italiana dramatizava, falando num tom alto.
Lauren podia ouvir do quarto e achava engraçado o jeito de sua "sogra". Ela só conhecia de Angela o que a namorada falava, e de vista naquele dia na cantina, mas nunca havia conversado com ela. Como Jane sabia que a mãe não gostava da ruivinha, não ousaria levá-la para os almoços de domingo. Seria uma péssima ideia, com certeza.
– Ma! Pare de drama pelo amor de Deus! — Jane rosnou, trincando os dentes — Eu trabalho no mesmo lugar que você e o Frankie e Tommy me liga sempre pra pedir pra eu ficar com o TJ. Só porque deixei de ir em dois almoços de domingo você vai me crucificar? E isso ainda não justifica sua "invasão" no meu apartamento! Eu tenho quase 31 anos, sabia? — Angela fez uma cara séria, o queixo erguido para cima, orgulhosa.
– Pra mim você sempre será uma criança. Minha criança. E eu só vim porque estava com saudade mesmo... — Agora fazia carinha de cão sem dono que acabou fazendo Jane suspirar, resignada.
– Ok, dona Angela, me dê um abraço e vá embora porque você não chegou numa boa hora! — Angela fez careta ao imaginar o que a filha fazia na cama com a cadeli... com a Lauren, e depois riu, antes de abraçar a filha fortemente.
– Só acho que você e a Maura deveriam fazer as pazes. Estou achando ela tão tristinha esses dias — A mãe sussurrou no ouvido da filha, para que Lauren não ouvisse do quarto, e então a morena desfez o abraço e a olhou repreensiva.
– Ma! Já chega! Saia, vamos...
– Está me expulsando da sua casa, Jane CLEMENTINE Rizzoli?
– Sim, estou!
E a morena foi praticamente empurrando a mãe até a porta, que saiu indignada. A última coisa que ela precisava era de sua mãe também falando sobre Maura. Como se sozinha Jane já não pensasse nela o suficiente.
[...]
Maura estava mais uma vez trancada dentro de casa. Ela não tinha mais vontade de sair, nem mesmo para ir em museus ou para ver as exposições de arte que mais achava incrível. Na verdade ela só queria aproveitar os finais de semana ou qualquer outro momento que pudesse ficar sozinha e protegida dentro de sua casa, longe de Jane e de tudo que pudesse incomodá-la.
Ela estava deitada no sofá, descabelada, com o delineador borrado e com os olhos levemente inchados por chorar. Estava coberta e encolhida como uma criança, assistindo um programa que falava sobre a reprodução dos macacos.
Jonathan entrou sem bater, porque havia ligado avisando a amiga que passaria em sua casa, então Maura já havia deixado a porta aberta. Ele olhou ao redor, viu vários livros, revistas e coisas aleatórias jogadas no balcão de forma desorganizada, o que não condizia com Maura, além de vários lenços em cima da mesinha da sala, e assim que viu Maura naquele estado, parecia chocado.
– Deus do céu, o que aconteceu aqui? Um furacão? Um tornado? Terremoto? — Ela balançou a cabeça negativamente, ainda sem encará-lo. — Você... Maura, você está um caco! — Ele quase gritou, ainda mais indignado. Parou do lado do sofá e olhou para a televisão. — Reprodução de macacos? Está brincando comigo?
Maura se levantou, meio que sentando no sofá, os cabelos ainda mais desarrumados, ela levou a mão direita com um lenço que segurava até o rosto e assoou o nariz.
– Eu tenho o direito de ficar deprimida pelo menos dentro da minha casa!
– Deprimida? — Ele soltou um risinho e abriu os braços — Olhe ao seu redor... Essa casa está mais do que deprimente. Parece que você está com depressão, querida.
– É possível. A depressão é um distúrbio afetivo que acompanha...
– Não! Maura, não! — Ele disse fazendo um sinal com a mão e então ela se encolheu, cabisbaixa. — Querida, você está louca se acha que eu vou deixar você entrar em depressão. Maura, você é a mulher mais deslumbrante e brilhante que eu conheço! É linda, inteligente, rica, educada, elegante... Qualquer pessoa pode entrar em depressão, não você.
Maura o olhou e permanecia com a mesma expressão triste. Ela não estava nem um pouco animada para levantar do sofá e fazer qualquer coisa senão chorar. Sentia-se deprimida, cabisbaixa, sem auto estima e desprezada por Jane, feita de idiota.
– Sou tão linda e inteligente que Jane não tá nem aí pra mim. Paramos de nos falar desde aquele dia e ela não se importa. Deve estar se divertindo uma hora dessas com a tal da Lauren...
Ele revirou os olhos, impaciente e puxou o cobertor de cima de Maura, que fez uma cara de susto.
– Meu cobertor!
– Olha aqui Maura Dorthea Isles, você sabe muito bem que eu sempre te dei o maior apoio quando o assunto era a Jane. Inclusive bem antes de você receber essa proposta de trabalho eu te incentivei a vir a Boston, deixar o medo de lado e procurá-la. Sempre apoiei porque eu sabia que você a amava muito, mas se essa detetive de meia tigela escolheu namorar a ruivinha e ainda fez aquela puta sacanagem contigo aquele dia, eu não quero mais ouvir você falar no nome dela e nem derramar mais nenhuma lágrima, entendeu? — Ele dizia em tom autoritário. Jonathan realmente amava Maura como se fosse sua irmã. Ele não admitia vê-la naquele estado, acabada, pelo motivo que fosse e faria o impossível para levantá-la.
Jonathan colocou o cobertor no canto do sofá e estendeu a mão para ela, que segurou enquanto sentia uma lágrima rolar pelo rosto e o olhou com aqueles olhinhos brilhando.
– Obrigada, Jonan. Eu não sei o que faria da minha vida sem você. Você sabe da minha história, que eu sou órfã e os meus pais adotivos... — Sua expressão se enchia de fúria — Melhor nem lembrá-los.
– Querida, você não pense que vai me agradecer com esse "obrigada, Jonan". Meu agradecimento vai ser você ir tomar um banho, colocar o seu melhor vestido e irmos para uma festa.
Maura sorrio.
– Está bem, eu vou. Mas farei isso por você.
Ela levantou do sofá, ainda segurando na mão dele. O rapaz alto a encarou e disse com firmeza, enquanto sorria:
– Não, você fará isso por si mesma.
Definitivamente Maura tinha sorte por ter Jonathan em sua vida.
[...]
Jonathan levou Maura em uma grande festa na mansão de um amigo antigo. Haviam tantas pessoas ali que ninguém se incomodaria com a presença de Maura. E depois que Jonathan a apresentou ao anfitrião como sua melhor amiga, Maura foi considerada uma convidada especial.
Maura estava impecável, usando um vestido vermelho e um casaquinho preto. Ela tentava se mostrar animada, já que o amigo com tanta vontade havia levado-a na festa para que ela melhorasse, mas no fundo Maura continuava igual. Como não conhecia ninguém ali, ao contrário de Jonathan, começou a se sentir um pouco desconfortável. Não estava afim de iniciar conversas banais afim de conhecer qualquer pessoa que fosse, então pegou uma taça de champanhe e foi até a varanda da mansão que era uma extensão enorme. Se aproximou o máximo que pôde e ficou contemplando a vista que tinha ali.
– Acho que eu não sou a única entendiada por aqui.
Aquela voz era familiar, mas Maura não conseguiu associar exatamente de quem era. Ao se virar, se deparou com a última pessoa que fosse encontrar em Boston e principalmente naquela festa. Olhou-a surpresa, dos pés a cabeça e não se surpreendeu ao ver que mesmo numa festa tão elegante como aquela a mulher usava uma calça preta de couro colada, uma botinha vermelha de salto, uma blusa branca meio transparente e uma casaquinho de oncinha por cima, além dos seus óculos inseparáveis que eram uma característica única dela.
– Alex Vause?
– Achei que você não fosse lembrar — A morena sorrio daquele jeito sempre num ar malicioso, as sobrancelhas finas arqueadas — Maura Isles. A loirinha de coração partido.
– Você também se lembra — Maura não pôde deixar de sorrir.
Embora lembrar de quando conheceu Alex fosse lembrar da fase mais difícil da sua vida, agora era até cômico isso. E se não fosse pela morena, com certeza Maura teria surtado.
– Faz tanto tempo... Não imaginei que fossemos nos reencontrar, ainda mais nesse tipo de festa. Não combina com você.
A morena se aproximou um pouco, também segurava uma taça de champanhe, bebeu um gole e fez uma cara de descontentamento.
– Realmente... não faz meu estilo. Estou aqui porque uma amiga me intimou a vir. Ela é apaixonada pelo dono da casa — Maura fez uma expressão de "compreendo". — Olha, não é por nada não, champanhe francês e coisa e tal... mas eu prefiro uma tequila, e você?
Maura soltou uma risadinha. O que ela realmente gostava de beber e bebia sempre era vinho, porque além de delicioso era benéfico a saúde, mas levando em conta o seu estado de espírito nos últimos dias...
– Uma tequila não seria nada mal agora.
– Mesmo? Então vamos dar o fora daqui.
– Mas eu vim com um amigo, preciso avisá-lo.
– Tudo bem. Avisa ele que eu te espero lá fora.
No passado...
A reação de Maura a separação bruta de Jane foi pior do que Constance e Richard poderiam prever. Ela não se alimentava praticamente, não saía do quarto. Desde que pisaram em Londres, já fazia quase um mês que ela estava trancafiada na casa. Não estava nem ao menos preocupada com a faculdade. Estava abatida, fraca e emagrecendo muito rápido.
Constance tentou animá-la, dizendo que ela não tinha culpa pelo que aconteceu, porque Maura vivia afirmando que Jane deveria estar odiando-a por ter ido embora. Maura queria telefonar para a morena. Tinha seu número decorado. Assim sempre a encontraria, mas os pais novamente a convenceram de não fazê-lo, pois se ela fizesse, eles sabiam que ela acabaria voltando para Boston, nem que precisasse esperar a maioridade para isso.
– Querida, se você procurar Jane, ainda que só por um telefonema, vai colocá-la em risco. É melhor que ela não saiba sobre Paddy Doyle — Era isso que Constance sempre dizia.
Mesmo contra sua vontade, Maura começou a se alimentar melhor e novamente se afundou nos estudos assim que entrou na faculdade. Dois anos passaram voando...
Maura estava indo muito bem na faculdade, continuava brilhante e cada vez mais inteligente. Ela já tinha absoluta certeza de que queria se tornar uma legista, porque definitivamente não sabia lidar com os seres humanos. Pelo menos não os vivos. Mesmo dois anos depois, ela continuava pensando e amando Jane incansavelmente. E muitas vezes foi surpreendida por Constance chorando seu quarto. Certa ocasião, mesmo contra as advertências dos pais, Maura ligou para Jane. Era aniversário da morena. Estava tremendo, o coração tão acelerado que ela acreditou que ele fosse parar a qualquer momento.
– Oi — Maura disse timidamente, num tom baixo e havia muito barulho do outro lado da linha.
Estava tendo uma festa na casa dos Rizzoli para comemorar o aniversário de Jane.
– Alô? Alô? Quem é? Fala mais alto, tá muito barulho, não dá pra ouvir — Jane disse quase gritando e Maura começou imediatamente a chorar ao ouvir aquela voz. Como sentia saudade...
Ao invés de respondê-la, Maura desligou o telefone e ficou duas semanas tão depressiva quanto quando havia chegado em Londres.
Certo dia, Maura havia chegado em casa sems os pais perceberem e os dois discutiam no quarto. A porta estava encostada. Maura cuidadosamente se aproximou e pôde ouvir o que eles diziam.
– Se eu soubesse que sua ideia de inventar que o pai biológico da Maura estava em Boston e ameaçava pela vida da Jane fosse resultar nisso tudo, eu jamais teria concordado! — Richard esbravejava.
– Mas você concordou com a minha ideia! E mesmo Maura estando desse jeito, depressiva e mais anti social do que antes, pelo menos ela está em Londres, estudando medicina em Oxford, garantindo um futuro renomado e não uma vidinha mediana ao lado daquela garota!
– Sim, ela está aqui, mas não está feliz! — Richard as vezes pensava que sua esposa não se preocupava com a felicidade de Maura. Mas ele não podia falar muita coisa, porque mesmo se importando, havia feito parte daquele plano horrível. — E acho que nós passamos do limite invetando toda aquela mentira... mandamos até mesmo darem uma surra na Jane...
Maura estava perplexa. Tão perplexa que não conseguia nem ficar em pé direito, por isso apoiou a mão na porta, que abriu completamente e então seus pais a viram ali e só pela expressão dela eles sabiam que ela tinha ouvido tudo. Eles também ficaram perplexos.
– Maura, meu Deus, você não podia ter ouvido isso... — Constance disse, preocupada que Maura ficasse ainda mais abalada emocionalmente.
Richard olhou para a filha com remorso e Maura mantinha a expressão de incredulidade no rosto.
– Vocês... vocês mentiram pra mim... — Começou a dizer, trêmula — Vocês me fizeram pensar que Paddy Doyle estava ameaçando a vida da Jane e de vocês dois...
– Maura, eu sinto muito — Richard disse, arrependido de verdade, com os olhos marejados, ele ameaçou dar um passo a frente e isso foi suficiente para Maura explodir.
– Não chega perto de mim! Nenhum de vocês! — Gritou histericamente — Vocês dois mentiram pra mim e não foi uma mentira qualquer... — A voz sumia as vezes porque ela já estava tomada pelas lágrimas, o coração doendo dentro do peito — Vocês... vocês me tiraram de Boston, me tiraram de perto da Jane... da única pessoa que me amou de verdade nessa vida...
– Não fale assim, Maura, nós somos seus pais e te amamos também, fizemos isso pensando no seu bem.
Maura olhou primeiramente com repulsa para Constance e depois abriu um sorrisinho irônico, para seu rosto ser tomado completamente pela fúria.
– Você chama isso de amor? Que porra de amor é esse? Vocês nunca me amaram! Vocês não sabem o que é amar alguém. A Jane sim me amava. E vocês me tiraram de perto da única pessoa que realmente se importava comigo, que me fazia feliz e me trouxeram para essa merda desse lugar só porque queriam que eu fizesse o que vocês sonhavam... vocês... vocês são doentes! — Ela dizia tudo ainda desnorteada, passou as mãos pelos cabelos, desgrenhando-os enquanto as lágrimas escorriam pelo seu rosto — Vocês pagaram para uns marginais baterem na Jane! Tudo isso pra eu pensar que era verdade a história do meu pai biológico...
Nenhum dos dois tinha coragem de dizer nada, independente da intenção de cada um, eles haviam errado e feio. Sabiam disso. Richard estava arrependido porque enxergava o sofrimento da filha e sabia que ela realmente amava Jane. Constance só estava arrependida naquele momento porque Maura havia descoberto a verdade, do contrário, não se arrependeria.
– Maura, se acalme e vamos conversar — Disse a mãe, num tom ponderado e era visível em seu rosto que ela era indiferente a Jane.
– Você não se importa, não é? — Ela sorrio ironicamente — Você acha normal usar da porra do seu dinheiro pra comprar tudo e todos. Você acha que pode tudo, não é, Constance? Mas você não pode! Você queria me trazer pra cá na intenção deu continuar sendo a filhinha obediente, estudiosa e resignada. Você conseguiu me trazer. Agora você vai ver do que eu sou capaz...
– Está me ameaçando, Maura? — Constance elevou o tom de voz, séria e Richard a tocou no braço.
– Ela está nervosa, Constance, releve.
– Vocês dois vão ver...
Maura se trancou no quarto e não saiu de lá nem uma vez sequer durante três dias. Podiam bater na porta, chamar, gritar, implorar, mas ela não saiu. Naqueles três dias ela só chorava e se sentia uma idiota por ter se deixado levar pelas mentiras dos pais. Maura entrou em surto. Estava com ódio de tudo e de todos. Eles haviam enganado-a, haviam feito ela ir embora, haviam feito ela perder Jane a troco de nada, porque a morena não corria risco nenhum. Maura tinha perdido o seu bem mais precioso por causa das mentiras de duas pessoas que ela amava e pensava que conhecia, mas que na verdade não passavam de dois mentirosos. Ela queria se vingar. E Maura sabia que não teria vingança maior se ela deixasse de ser tudo o que havia sido a vida inteira.
Quando ela resolveu sair do quarto, eles não a reconheceram. Maquiagem pesada, os lábios pintados de vermelho e as roupas pretas e totalmente diferentes do que Maura costumava usar. Eles tentaram falar com ela, mas a loira ignorava. Nas semanas seguintes, Maura além de se vestir daquele jeito e de ignorar os dois, começou a "desaparecer". Saia sem avisar, não voltava para casa no mesmo dia ou chegava muito tarde e bêbada. Eles não sabiam com quem ela saia, o que estava fazendo e nem como pará-la. Maura se tornou incontrolável com toda sua revolta. Mas eles precisavam pará-la antes que ela estragasse seu futuro, antes que suas notas despencassem.
– Maura, eu sei que você está inconformada pelo que nós fizemos, pelas nossas mentiras, mas você está em Londres já fazem dois anos, as coisas passam, o tempo passou. Esqueça o que aconteceu. Essa sua revolta não te levará a lugar algum além da ruína. Você está desperdiçando todo seu conhecimento, você pode acabar se prejudicando na faculdade, estragando o seu futuro — A mãe dava-lhe mais um sermão assim que encontrou a filha em casa, deitada na cama com os sapatos sujos em cima da mesma. Definitivamente aquela não parecia a sua filha.
Maura não olhava para a mulher e sua expressão era indiferente enquanto ela falava. Seus olhos estavam focados na televisão, num canal onde passavam videoclips e ela estava ouvindo rock. Num acesso de fúria, Constance desligou a televisão.
– Eu estou falando com você, Maura!
– Vá se foder! — Ela gritou, assustando Constance, que não teve reação.
Depois daquele dia, eles não sabiam mais o que fazer com Maura.
À loira resolveu ligar para Jane. Já que ela havia sido enganada pelos pais, a morena com certeza a entenderia, a perdoaria por ter ido embora e elas poderiam recomeçar. Maura daria um jeito de fugir de Londres. Não sabia como, mas daria.
Ligou na casa de Jane e dessa vez quem atendeu foi o Tommy.
– Tommy, sou eu, a Maura — Disse animada e esperançosa ao ouvir a voz do ex cunhado.
– Maura? — Ele logo reconheceu e ficou indignado — Você tá louca de ligar aqui?
Maura não entendeu o que ele quis dizer.
– Como assim?
– Você abandonou minha irmã, foi embora sem dar uma explicação e depois de dois anos tem coragem de ligar aqui? Deixa minha irmã em paz, ela nem lembra mais de você e é melhor que fique sem se lembrar, porque ela sofreu muito quando você foi embora. Não ligue mais aqui ou eu vou dar um jeito de trocarem o telefone! — E então ele bateu bruscamente o telefone na cara de Maura, sem dar chance dela dizer sequer uma palavra. Mais uma vez o coração da loira foi partido e então ela não via mais sentido em sua vida.
Se Jane já tinha a esquecido, se Jane não a perdoaria, se ela não pudesse voltar para Boston, para Jane, sua vida então teria acabado. Ela não conseguiria viver com seus pais depois de tudo, e muito menos levar a vida que levava antes. Estava acabada. Não podia fazer mais nada.
Maura entrou num estado de depressão tão profundo que esqueceu da revolta. Não tinha ânimo nem ao menos para ser rebelde, para sair por ai fazendo o que bem entendesse na intenção de irritar os pais. Agora tudo era indiferente. "Ela nem lembra mais de você", era esse o pensamento que vinha na cabeça de Maura. E doía. Doía muito pensar que Jane já tinha lhe esquecido. Tudo bem que faziam dois anos que Maura havia ido embora, que havia a machucado daquela maneira, mas o amor delas era eterno, ou pelo menos parecia. Maura já não tinha certeza de mais nada.
Sem saberem mais o que fazer para ajudarem Maura, Constance e Richard tomaram a última atitude que faltava para serem de longe na história os pais mais "insanos" do mundo. Colocaram Maura numa clínica psiquiátrica pois eles não podiam arriscar que a loira fosse vista por seus amigos da alta sociedade tendo surtos de grosseiria, de agressividade ou qualquer coisa do gênero. A loira não se surpreendeu com a atitude deles e nem ficou relutante. Estava tão deprimida que preferia ficar presa numa clínica na ausência dos pais e de toda sua vida medíocre do que ficar livre e na presença deles.
Maura era quieta na clínica. Não falava com ninguém. A maioria das pessoas ali de fato tinham problemas psíquicos. Haviam esquizofrênicos, bipolares, pessoas com todos os tipos de transtornos. Alguns mais tranquilos, outros mais hiperativos. Alguns agiam tão normalmente que não pareciam "loucos" mas explodiam de súbito, o que surpreendia Maura e a deixava ainda mais fascinada pela ciência. Na primeira semana ela não se importava de estar ali, na segunda, ela estava desesperada para ir embora, pois sabia que se ficasse lá por mais tempo, enlouqueceria.
– Eu preciso sair daqui — Ela disse ao médico chefe da clínica quando o mesmo apareceu na sala de recreação — Eu não sou louca, eu não tenho nenhum tipo de distúrbio psicológico, não tenho nenhuma patologia da mente e você sabe disso! — Ela falava seriamente.
– Se você não tivesse nenhum problema, Maura, com certeza não estaria aqui — Foi a resposta tranquila.
– O meu único "problema", que é o mesmo problema que me trouxe para cá são os meus pais. São os malditos dos Isles. Mas eu não posso ficar aqui e você sabe disso! Sabe que é contra lei e anti ético deixar uma pessoa presa numa clínica desse tipo só porque os pais dela pagam bem!
O médico olhou ofendido para Maura, achando-a audaciosa. De fato ele sabia que ela não tinha problema nenhum. Era óbvio. Ela era lúcida e muito inteligente, por isso ele mandava que lhe aplicassem um remédio que a deixava lenta e tranquila, como se estivesse drogada. A intenção era fazê-la parecer igual aos outros para que eles não tivessem problema. Maura ficaria na clínica pelo tempo que os pais quisessem, se dependesse do médico, afinal, os Isles pagavam e não era pouco.
– Senhorita Isles, é melhor você se comportar como manda o figurino, ou terei que mantê-la dopada e você sabe bem o que isso significa — Ele disse em tom ameaçador, encarando-a de uma forma que causou um arrepio em Maura antes de se afastar.
Aquilo não estava nada bom. Ainda se houvesse alguém lúcido como ela naquele lugar...
No dia seguinte estavam todos reunidos naquela mesma sala quando um enfermeiro conduziu uma garota nova, branquela, de olhos azuis e cabelos pretos lisos. Assim que Maura pôs os olhos em cima dela notou que ela era diferente dos outros ali mas não foi falar com ela, porque a morena se isolou, também não falando com ninguém. Na hora de jantarem quando foram ao refeitório, a garota sentou na mesa de Maura, porque todas as outras estavam ocupadas com toda aquela infinidade de loucos.
– É sério que eles servem essa merda pra gente comer todos os dias? — Foi a primeira coisa que Maura ouviu a morena de olhos inteligentes falar. Acabou soltando uma risadinha e então viu o sorriso de Alex. Um sorriso que era uma mistura de inocência com malícia. — Que foi? Tá achando que eu sou louca igual esses caras?
– Acho que você é mais sã do que eu. Desde que cheguei aqui comi essa comida que você acabou de xingar sem reclamar — Maura disse com humor, enquanto revirava o arroz papado e o feijão seco com o garfinho plástico.
– Bom, é que eu realmente gosto de reclamar. Mas eu sei que você não é louca também.
– Sabe? — Maura a olhou esperançosa. Se alguém acreditasse que ela era normal, talvez ela pudesse sair dali mais rápido. — Como sabe?
– Não sou cega. Só de olhar pra você dá pra notar. E também porque eu vi a notícia no jornal que a família Isles internou a filha e tal. Logo saquei que era filha da putagem deles... — Disse como se aquilo fosse normal e então ajeitou o óculos preto no rosto. — O que você fez pra irritá-los tanto ao ponto de te mandarem pra cá?
– Digamos que eu era a filhinha perfeita. Inteligente, estudiosa, focada, séria, que quase não saia, não fazia nada de errado, ouvia tudo que eles diziam e obedecia.
– Ou seja: você era uma pau no cu — Aquilo soaria ofensivo e grosseiro se viesse de qualquer outra pessoa, mas a forma como a morena disse e soltou uma gargalhada em seguida fez Maura rir também.
– Eu não sei o que significa ser "pau no cu", mas acredito que deve ser mais ou menos isso. Mas prazer, Maura Isles.
– Alex Vause.
– E você, Alex? Também não me parece louca. Quero dizer, não louca como os outros — Maura disse abrindo um sorrisinho doce, que Alex observou bem.
– Digamos que meus pais também são filhos da puta... Ficaram putos quando descobriram que eu era lésbica e fumava uns baseados com os amigos. E como a gente já vivia brigando pelo conservadorismo de merda deles, resolveram me colocar de férias aqui — Ela dizia com aquele mesmo sorriso, como se isso fosse uma coisa normal e Maura estava perplexa com tudo que acabara de ouvir.
– E você não se incomoda? Eu cheguei aqui há uma semana e estou com medo de ficar louca de verdade. Eu quero ir embora.
– Claro que eu me incomodo, ou tenho cara de quem queria estar aqui com esse bando de dementes? Mas o que eu posso fazer? Eu preferia estar na rua uma hora dessas me arrumando pra sair com uma gata ou então bolando um baseado, mas estou aqui, olhando pra uma loira gata que também se fodeu por causa dos pais e sentindo o cheiro dessa comida horrorosa... — Maura estava impressionada com o senso de humor da morena e com a forma despreocupada que Alex dizia tudo que pensava sem se importar.
Maura ficou um pouco constrangida pelo elogio, mas não disse nada. Aquela era uma situação muito inusitada. Nunca imaginou que fosse um dia estar num "hospício" e muito menos que conheceria alguém normal por lá.
Depois do jantar elas foram conversar. Maura acabou contando toda sua história para Alex. Não sabia bem o motivo, mas mesmo não a conhecendo e ambas estando naquela clínica, e Alex se comportando de uma maneira pouco convencional, a morena passou confiança para Maura.
– Caralho! Que história ein....
– Pois é.
– Nosa, me revoltei agora! — Ela tirou os óculos e Maura notou ainda mais o tom de seus olhos — Como que um pai e uma mãe fazem uma porra dessas? Cara, isso é muita sacanagem. Você deve ter sofrido pra caralho.
– Acho que ainda estou sofrendo — Disse com um sorrisinho amarelo, suspirando em seguida.
Estavam sentadas no sofá de uma das salas.
– Isso não vai ficar assim, loira do coração partido — Maura riu ao ouvir aquele "apelido" — Eu vou tirar você daqui.
– Como vai fazer isso? — Perguntou desacreditada — Você também está presa aqui.
– Fica tranquila e confia em mim, eu vou te tirar daqui mais rápido do que você pensa.
Dias de hoje...
Alex levou Maura para um bar completamente desconhecido. Ele era grande demais para um bar, e servia vários lanches, assim como o Dirty Robber, só que era movimentado mais por pessoas "descontraídas" como Alex. Elas estavam sentadas nos bancos, bebendo no balcão e conversando, relembrando o passado, os dias que passaram juntas na clínica.
– Puta merda, você lembra daquela garota vesga que ficava gemendo o dia inteiro? — Alex perguntou e Maura se lembrou no mesmo instante, gargalhando.
– Uma de cabelo curtinho, que eu te disse que me dava medo? — Alex assentiu e elas riram mais alto. — Lembra do dia que ela implicou com você lá no refeitório e jogou a gelatina dela na sua cara? Eu nunca ri tanto na minha vida... — Maura inclinava um pouco a cabeça para trás enquanto ria.
Alex ria também, mas não tanto quanto ela, e não desviava seu olhar de Maura. Ela estava tão diferente. Muito mais bonita do que naquela época. A morena sorrio ao lembrar. Logo quando pôs os olhos em cima de Maura no primeiro instante, ela se apaixonou. A loira era diferente do que ela estava acostumada. Uma menina doce, intelectual, educada. Em nada parecia com as garotas ousadas, desbocadas e vulgares com a qual ela se relacionava. Talvez fosse isso que havia dispertado o interesse de Alex em Maura. Mas elas não chegaram a ter nada além de uma grande amizade, porque Maura não tinha esquecido Jane ainda e também porque na época seus estilos de vida realmente não combinavam...
– Mas o que você veio fazer aqui em Boston? — Maura perguntou.
– Eu nasci em Boston. Fui parar em Londres por causa dos meus pais pau no cu. Mas voltei pouco tempo depois que sai da clínica. E você? Achei que tivesse ficado traumatizada com essa cidade...
Maura assentiu com a cabeça, bebeu mais um gole da dose de tequila, fazendo uma careta.
– Isso é forte demais pra mim... — Alex riu e assentiu — Eu voltei porque recebi uma proposta irrecusável de ser a legista-chefe do Estado de Massachuset's.
– Uau, parabéns loira. Eu bem sabia que você era porreta nessa de estudar, mas estou surpreendida.
Maura sorrio com o elogio, aquele sorriso meio tímido que Alex adorava.
– Mas e ai? E aquela história toda com a tal da... como é mesmo o nome?
– Jane — A loira a relembrou, com uma feição já diferente, triste, e na hora Alex sacou que alguma coisa havia acontecido. — Nós nos reencontramos assim que cheguei.
– E... ?
Maura contou toda a história para Alex, com detalhes e a morena esboçava várias reações diferentes, de surpresa, espanto, incredulidade e até mesmo raiva. Após ouvir tudo logo concluiu que Jane só poderia ser uma babaca por não ter deixado Maura explicar tudo que havia acontecido e ainda mais babaca por ter engatado um namoro e deixado àquela mulher espetácular sofrendo por ela.
– Você quer que eu mate essa filha da puta? — Alex disse séria e logo começou a rir, porque obviamente estava brincando. Fez isso apenas para arrancar um sorriso de Maura que havia ficado triste após relembrar os ocorridos. — Mas é sério... essa Jane é uma babaca, cara, na boa.
– Sim, ela é. Mas eu a amo, o que posso fazer?
Alex se sentiu incomodada ao ouvir aquilo, virou o resto da tequila em seu copo e se levantou.
– Vamos dançar.
– Que? — Maura a olhou assustada — Dançar? Aqui? Agora? — Ela olhou ao redor e só viu pessoas do estilo de Alex dançando.
– É, onde mais você quer dançar loira? No teto? Eu não acho uma boa ideia, poderíamos nos machucar, mas se você quiser, eu te acompanho de boa.
– Alex Vause, sempre bem humorada.
– Assim a vida fica mais suportável... — Maura sorrio e assentiu. Alex estendeu a mão para ela. — Vem, prometo que não vai se arrepender. Eu até que não danço tão mal e essas danças que eu curto são boas porque não corre o risco deu pisar no seu pé.
Maura não pensou muito, segurou na mão da morena e foi guiada até o espaço onde todos dançavam. A música era alta e animada como de uma balada, mas lá era mais divertido por não ter tantas pessoas aglomeradas e pela maioria das pessoas serem do mesmo estilo. No começo Maura estava um pouco tímida de dançar. Havia algo em Alex que era intimidador e assustava um pouco. A maneira como ela olhava para Maura, a maneira como ela falava, como não tinha receio de dizer ou de fazer as coisas era assustador. Maura estava acostumada com pessoas "normais", convencionais, que se escondem atrás de regras, e Alex sempre fugiu completamente desse padrão.
– Vamos lá, loira, animação!
Alex deixou os braços erguidos e retos, um de cada lado do corpo de Maura, mas sem encostá-la e começou a dançar num ritmo sensual, se abaixando um pouco e subindo, com seus corpos próximos, enquanto a fitava. Maura parou de se intimidar e encarou o olhar dela e começou a dançar da mesma forma, com seus braços erguidos para cima, virou de costas para Alex e foi movendo seu quadril lentamente, num rebolado sexy. Ficaram dançando assim por alguns minutos até que Alex levada por seus impulsos envolveu Maura pela cintura e colou seus corpos. A legista de costas para ela. Podia sentir o volume daquela bunda em seu corpo, o que era perigoso e muito tentador. Encostou o nariz nos cabelos da loira e falou perto do ouvido dela:
– Eu não sabia que uma médica tão respeitada sabia dançar assim...
– Há muitas coisas que você não sabe ao meu respeito, senhorita Vause.
A morena sorrio maliciosamente com a resposta e elas continuaram dançando até perderem a noção da hora, do tempo. Maura se divertiu como não se divertia há semanas. Ela amava a companhia de Jonathan, ele era seu melhor amigo, mas a companhia de Alex era diferente. A morena era tão diferente que tudo ao lado dela era muito inusitado, surpreendente. Embora Maura sempre tivesse gostado de planejar tudo em sua vida, ter segurança sobre tudo, ao se deparar com alguém como Alex, que vivia na incerteza de levar um dia de cada vez e apenas curtir, ela sentia uma atração irresistível para esse mundo.
– Obrigada por ter me resgatado daquela festa insuportável, obrigada por ter ouvido o meu desabafo e pela dança, por tudo — Maura disse assim que chegaram na porta de sua casa. Alex fez questão de levá-la, já que Maura havia ido para festa de carona com Jonathan.
– Tá me agradecendo porque, loira? Eu adorei sua companhia. Tava com saudade do nosso papo de "louca para louca" — As duas riram brevemente.
– Dizem que os melhores amigos se fazem nas piores horas, acho que é nosso caso. Nunca pensei qe faria uma amizade numa espécie de hospício, mas valeu a pena.
– Valeu muito a pena — Alex disse, se virando ousadamente e lançando um olhar intenso e diferenciado para Maura, que constrangida, desviou.
– Eu preciso ir agora. Quando te vejo novamente?
– Acho que mais breve do que você imagina... — Alex piscou para ela antes de Maura descer do carro com um sorrisinho.
Maura entrou em casa e assim que fechou a porta se encostou na mesma e fechou os olhos, sorrindo. Ainda estava chateada com toda a situação com Jane e não sabia o que iria acontecer, mas ela realmente havia adorado aquela noite. A companhia de Alex era incrível e revê-la depois daqueles anos tinha dispertado algo em Maura. Algo bom. Maura não era boba, e bem sabia como Alex era. Conhecia seus olhares e gestos e sabia que a morena tinha algum tipo de interesse nela, mas não se importava. Isso era bom. Lhe dava a sensação de que ela não tinha só o Jonathan, de que ela não estava sozinha e mais importante: de que ela era desejada.
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