No inverno rigoroso, a neve costuma cair sem preocupações, apenas preenchendo um espaço ou cobrindo algum objeto. Não é apenas a temperatura que fica mais fria nessa época do ano, as pessoas de uma tal cidade interiorana do norte da Noruega também. Dentre os quilômetros de neve que compõem a paisagem , algumas isoladas casas de madeira aconchegante pintam o horizonte branco em tons amarronzados típicos de carvalhos. Dentro de uma dessas casas, uma família de duas pessoas comuns jantam normalmente, em uma mesa de madeira pequena, mas suficiente para suportar as coisas que eles colocam para se servirem.

A mulher segura o garfo sem preocupações e espeta no carneiro exótico que está servindo de alimento para o casal. Calma, porém não devagar demais, ela parte um pedaço para si, enquanto seu marido ainda mastiga legumes que colocou na boca segundos atrás. Focada nos olhos de seu marido, Marrion coloca o pedaço na boca, pouco degustando a carne temperada com o capricho tipicamente humano. Diego, por sua vez, notou os calorosos e fixos olhares que sua esposa emitia e rebateu com seu próprio. Os olhos azuis desse ainda encantavam a esposa, que oferecia íris negras brilhantes como flashes de lanternas. Diego, sentindo um estranhamento vindo de sua esposa, engole o brócolis em sua boca para assim poder falar, atendendo as preferências da esposa:

— O que foi?

— Uh? Nada. — ela come outro pedaço, sem saborear as especiarias que colocara.

— Está quieta, querida... Aconteceu algo? — sua voz confortante icônica abraçava delicadamente a mulher, mesmo que ela não se sinta confortável o suficiente para isso.

— Nada. — pegou um pouco de arroz e esperou que a amilase fizesse o trabalho para continuar falando. — Eu só... Eu só estranhei seu...

Por mais que não estivesse entendo com clareza, ele manteve o tom leve. Levantou involuntariamente uma de suas sobrancelhas castanhas e prosseguiu:

— Ainda não estou conseguindo entender seu ponto.

— Olha, Diego, é sobre seu trabalho... — ele aparentava ter entendido. — Você não acha que está ficando tempo demais trabalhando? Você está mais quieto desde que entrou nesse trabalho. Eu sei a importância disso para nós, mas não acha que deveria ficar mais livre? — Marrion colocou as mãos na cabeça, frustrada novamente por não conseguir expressar-se.

— Tudo bem, eu compreendi o que você quis dizer, não precisa ficar assim, Marry. — somente o ato de falar isso, já tranquilizava. — Se você não está gostando disso, eu vou procurar resolver.

— Obrigado, querido. Por isso que te amo. — voltou a comer normalmente.

Após a conversa, o ritmo do jantar acelerou-se e logo acabaram a refeição. Cada um levou seus pratos com talheres sujos até a pia, segurando com firmeza e plasticidade. Diego apertou carinhosamente o nariz de sua jovem mulher e passou levemente sua mão pelos longos cabelos negros que ele tanto amava nela. Ofereceu-se para lavar a louça, mas ela insistiu em dizer que não precisava. Ele foi ao seu quarto, enquanto Marrion lavava, pensando e observando a neve caindo através da janela da cozinha.

Por mais que seja um período frio e mais fechado, ela adorava os invernos, até porque foi em uma tarde fria que ela conheceu Diego no mercado da cidade. Ela ainda guardava as memórias daquele dia na forma de flocos de neve os quais caíam do céu, assim como acontecia naquele momento. Com carinho, ela limpava os talheres, como se estivesse massageando-os, esquecendo até do tempo. Por mais que essa seja a vida que ela sempre quis, ela não estava plenamente feliz com a mesma. Era o marido dos sonhos, mas por ser pessimista por natureza, parte por sua ansiedade elevada, Marrion acreditava que era bom de mais para ser verdade. Pensamentos como traição no trabalho refletiam em sua mente, por mais que tivesse quase certeza de que era apenas uma invenção de sua cabeça frustrada consigo mesma.

Sem perceber, já finalizou com a lavagem. Olhou para o relógio cujos ponteiros arrastavam-se e começou a secar a louça limpa. Passava o pano delicadamente nos pratos, comparando com as costas de Diego, polindo toda porcelana branca deles. Com o tempo, voltou ao mundo de sua mente. Lá, ela ainda estranhava o presente que Diego era, por mais que dois anos já se passaram desde o dia que se conheceram. Era notável que seu maior defeito era seu auto detrimento: ela transmitia pensamentos ruins sobre si mesma, mesmo que não quisesse, o que incomodava muitas pessoas, exceto Diego, que compreendia que aquilo era fruto de uma infância mal resolvida. Ele até sugeria um psicólogo a ela, porém Marrion recusava. O primeiro prato já estava seco e brilhando, sendo capaz de ver seu próprio reflexo. Essa habilidade de limpeza era uma das poucas coisas que sentia orgulho, até porque passou por anos de prática ordenados pelo seu TOC. Enquanto os flocos esbranquiçados deslizavam pela janela, acumulando na parte de baixo da mesma, ela passava o pano no garfo que usara na janta.

No relógio de parede, os ponteiros marcavam dez horas. Faltava pouca louça para ser enxugada, mas uma pessoa comum já deveria ter acabado; por mais que seja lenta nas tarefas, quase tudo saía bem feito, mas não o suficiente para ela amar a si própria. Como uma exposição de arte, os pratos, garfos, facas e copos ficavam na prateleira de vidro, esbanjando toda beleza que o toque delicado de Marrion deu a eles. Com a tarefa doméstica concluída, ela sentiu que podia descansar, agindo como se ainda estivesse no relacionamento anterior.

Chegando ao quarto, ela foi recebida por uma calorosa recepção de seu marido: um beijo quieto no pescoço e um leve toque em seu queixo feminino. Com os dois já preparados para dormir, desligaram as luzes e apenas o ruído de neve caindo era possível escutar, porque mesmo que por dentro estivesse quente, do lado de fora, ainda neva.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.