Réplica

1 Não me abandone, é o que diz a Ágora de nós dois.


Não esperava esse tipo de comunicação comigo.

Não esperava que fostes me enviar algo tão duro, mas, ao mesmo tempo, também não esperava que fostes despertar em mim todas as minhas memórias sensoriais ou não sobre todos os nossos momentos juntos.

Nunca achei que, depois de tudo o que conversamos e depois das horas gastadas em um duelo argumentativo que pessoalmente pensei ter vencido, resultaria em algo tão derramado, tão sincero como o que pude ler. Permita-me agraciar-te pelo bom momento. Sei que só você é capaz de fazer certas coisas.

Como o que beija cada linha do meu corpo. Como o que arrepia-me, me causa calafrios, me deixa ébria, sem ar e sem forças pra recusar-te, tua escrita também causa-me tal efeito.

Inebria-me. É o que te faz ser o que foi. E aliás, é o que é. Fomos, não seremos mais e não te tiro sua razão em tirar essa conclusão. Também não te tiro o direito resguardar tal angustia. Sei que o que vivemos foi intenso, mas permita-me responder-te na mesma dureza de pedra ao quais tuas palavras tomaram tal carta.

Não nego que o que está escrito é verdade, para principio de conversa. Desejar-te, ainda que no ínfimo do meu coração, tendo revelado só agora depois de tanto tempo de convivência, era algo quase que inevitável. Tu se fez sentimento. E esse sentimento tornou-se quase incontrolável. Como não se perder, depois de tantos homens habitarem meus lábios, minha cama, minha vida, ainda que se resuma a um beijo simples no banco da praça, vens até essa mesma cama e mostra-me que para me fazer sentir bem, nunca foi necessário um ato de transa. Bastou o olhar, o toque, o jeito, o sorriso. Mesmo tu não sendo a pessoa mais bela que vi em vida.

Bastou dizer-te que pedia a Deus pra morrer, porque não aguentava mais a minha vida. Não suportava mais carregar tanta coisa que fiz no passado que você estava lá. Aberto a mim. A dar-me aquilo que nunca mereci. A celebrar algo que nunca fiz por merecer.

Perdoa-me. Sei que te irrita cada atitude que tomei ao seu respeito. E sei que também não merecia. Você é louco sim. Louco de ter estado aqui durante tanto tempo, dando o seu máximo. A sua máxima e mais amável forma de ser e eu vi isso. Eu sei disso e como acabei de dizer-te e disse antes mas parece que passou batido, senti isso. No fundo.

Nunca ninguém me tocou. Não desse jeito.

Sei que nossos caminhos agora serão outros. Sei que nos machucamos, mas perdoa-me. Se ias partir, que pelo menos deixasse-me ouvir tua voz. Era pedir demais? Saber que talvez nunca mais fosse te ver, meu amigo… Me levou a loucura. Só queria te ouvir ter o prazer que nunca tivera e que merecia receber de mim, tamanha a dedicação que teve largando tudo em uma tarde qualquer para me encontrar quando precisei de ti.

Amigo é uma palavra um pouco forte que me parece que já não cabe mais a nós, aliás. Nenhuma palavra caberá explicar o que oito anos foram capazes de dizer nos sobre nós.

Desculpe. Mas não podia deixar as minhas convicções pra ficar contigo. Não poderia deixar de lado uma chance de salvação de um passado tão cruel e tão devasso para entregar-me a algo tão desconhecido, ainda que tenha conhecido de cabo a rabo cada centímetro do teu olhar. Não podia me entregar. Não te julgo, sei que o que fizeram contigo não foi integro. Mas tente perdoá-los, por favor! Entregar-se ao ódio puro e simples nunca levou ninguém a lugar nenhum e você sabe disso. Sempre fostes tão sábio. O que aconteceu pra que você mudasse dessa forma?

Não foi certo te subestimarem. Te colocarem em um lugar onde não merecia estar. Te humilharem a você e a sua família, mas não os considere como um todo. Você sabe disso tão bem. Por que quer esquecer disso agora? Não os tenha como uma demonstração daquilo que não são. Eles não tem o caráter que eles dizem que ter, mas não diga que todos os outros têm a mesma forma, porque você sabe que isso não é verdade.

Por favor. Entenda-me! De qualquer forma! Eu não podia deixar a minha redenção de lado. Não podia colocar tudo a perder por sua culpa. Eu não quero repetir as mesmas falhas e nem queria ter te colocado nesse inferno. Eu sei que não te correspondi, mas entenda minha situação. Entenda minhas escolhas. Sim, eu sei que teimo a acreditar, mas seremos amigos, muito embora nossos olhares digam o completamente oposto.

E quem iria aceitar-nos? Sua mãe? Tão perto daquilo que pareces criticar? Aquela que me taxava de louca e dizia que eu tinha problemas e que não era recomendável que eu estivesse na sua vida? Meu pai? Nunca te aceitou dentro da minha casa, muito embora tenha dito que não e continue a me incentivar a encontrar marido. A dizer que tenho um corpo maravilhoso e preciso aproveitar. Quem vai dizer a ele que fiz isso e me arrependo? Não parece que será você. E infelizmente, parece que terei que aceitar. (Tendo ele nunca te aceitado da maneira que achei que o tinha feito).

Sei que nada disso parece certo, ou empecilho. Mas, entenda. Não podemos. Nunca poderemos. E ainda que pudéssemos, já há alguém entre nós.

Eu sei. Outra vez alguém. Sempre que pedias, havia alguém e dessa vez não foi diferente. Você, sempre sincero, porém sem tino para pedir no momento certo. Nunca, também, pensei-te em avisar que tenho alguém. Por que isso agora parece necessário?

Não te sou exemplo para deixar de acreditar num sentimento tão belo. Não sou exemplo algum para deixar-te tão próximo de perder a fé como pareces estar.

Não jogou oito anos fora. Eu não joguei. Sei que aprendi muito contigo. E por favor, entenda: Não é porque aconteceu-te algo assim, que tenhas o direito de desprezar alguém que, mesmo que ainda não tenha mostrado o seu rosto, há de te querer e de te aceitar bem mais do que é.

Os teus não merecem ver este teu lado calcificado e que não faz jus o menino doce que conheci.

Perdoa-me. Sei que te fiz muito mal. Mas saiba que também me fez. Também partiu o meu coração. Mas, hoje estou a tentar juntar os cacos e acredite, talvez você deva tentar fazer o mesmo. Não te deixes morrer desta forma. Não morrer de vez, mas deixar que algo tão belo morra em meio ao mar de decepção que te toma e te faz querer ser o que ninguém mereces que tu seja.

Sei que não acreditas mais em mim. Sei que pra você, sou tudo o que há de mais repugnante que possa existir. E não te julgo, são oito anos. Não é algo que se joga fora do nada. Não é algo que se pode dizer, de um dia pra outro, que não existiu, que nada disso aconteceu. Que tudo é apenas uma ilusão das nossas cabeças. Eu sei que não. Mas, por favor, não se deixe vencer. Há muito para ti além de sofrer por mim. Sofrer pelo que nunca te dei. Por aquilo que nunca mereci ter de você.

Por favor, se tenho o direito de te pedir algo, é isso. Atenda meu desejo. Não por mim mesma. Eu já tenho um caminho que você mesmo determinou que será longe de você, mas o faça única e exclusivamente para que desperte novamente aquilo que você está perdendo aos poucos.

Não acho esse destino justo. Para ser honesta. Ainda te queria por perto. Ainda gosto de ter a sua presença, suas palavras de carinho, o jeito que me entendes, o jeito que podemos conversar francamente sobre tudo e sobre todos.

Eu sei que mudou. E infelizmente, também sei que tenho que aceitar.

Nunca fui digna de você. E talvez nem seja. Mas, também não aceito ver-te partir, não aceito separar-me de algo que sei que me fez bem apesar de tudo. Mas, sei que ao mesmo tempo pode nos ter feito mal.

Nunca sei. Nunca saberei. E ao que parece, não terei chance nem de tentar.

Todos os perdões não são possíveis. Não me trarão a chance de pensar diferente. Talvez, nem te trarão paz.

Só observe o que pedi.

E por favor, que a sua cegueira pelo ódio não te impeça de me parabenizar pela minha sobrinha. Eu a amo e espero que veja que era importante que soubesse. Fostes um dos primeiros a saber, ainda em segredo tudo o que aconteceu. Era importante que participasse disso até o final, muito embora não tivesse percebido isso de antemão.

Sinceramente sua,

L.

Notas finais
A quem chegou até aqui, meus sinceros agradecimentos. Grande abraço e feliz dia dos namorados. Dr. Lucas
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!