Quimerae

3 Prólogo - O Ferreiro Parte 2


Notas iniciais
Terceira parte do prólogo

O ataque dos saqueadores pega Hochberg de surpresa. Apenas Meltse havia visto o grupo e eles já estavam a uns trinta minutos de distancia em marcha normal. Assim os moradores tiveram pouco tempo para se prepararem e fugirem. E tudo se agravou porque quase ninguém que estava na vila tinha alguma proficiência em combate. Quase todos os guerreiros e caçadores estavam fora, na caçada. E apenas dez dos pessoas se prontificaram a lutar.

Estes dez eram: Meltse, ferreiro e filho de Balthazar; Martha, a senhora que cuida do açougue; Ralph, um jovem de 14 anos, fã de Meltse e com sonhos mirabolantes; Marco, o fazendeiro e velho caçador; os três irmãos Helten, os únicos homens adultos além de Meltse, e que estavam com medo de contrariá-lo; Rachel, filha do taberneiro e a briguenta mais conhecida da vila; Colodi, irmão mais novo de Rachel que a segue por onde ela for; e Zepelli, um guerreiro aposentado vindo de terras distantes. Velhos, mulheres e jovens…

Na primeira observação, Meltse estimou que o grupo de saqueadores seria de aproximadamente quarenta indivíduos. Era difícil contar, por estarem longe e não ele não ter muita experiência nesse tipo de coisa. Estavam em clara desvantagem: eram dez contra quarenta. E nenhum dos dez, tirando Zepelli, tinha participado de uma luta de verdade anteriormente…

Alguns minutos já tinham se passado desde que Meltse percebeu os saqueadores, por isso decide subir novamente na torre para averiguar o avanço do grupo. Eles estavam bem mais próximos e já era possível ver com mais clareza. Vinham em marcha constante, bem ordenada, e tinha pouca preocupação em se ocultarem. Então o desespero toma conta de Meltse. Ele consegue distinguir quem eram os saqueadores: sáurios! Já tinha ouvido falar sobre tais criaturas. Eram fortes, ágeis. E também violentos e cruéis. Seu coração gela, não imaginava que iria enfrentar verdadeiros monstros.

Meltse não tinha tempo a perder. Então desce com rapidez da torre e tenta arquitetar alguma estratégia que funcione. Ou pelo menos uma que os deixe vivos…

Ele tenta raciocinar: “Não temos muros. O único ponto alto é esta torre… Não sei se é uma boa ideia colocar um arqueiro aqui. Ela não é muito robusta, esses sáurios podem muito bem ter forças para derrubá-la.” E suspira. A única solução que vem a sua mente é tentar utilizar-se de táticas de guerrilha: se esconder e tentar abater grupos pequenos e desorientados, enquanto estivessem muito ocupados saqueando. Mesmo assim seria muito arriscado. Se eles errassem em qualquer investida seria o fim.

Pelo menos ele não teria uma preocupação a mais a lhe atormentar. Ele tinha mandado os irmãos Helten levarem os moradores de Hochberg para o abrigo fora da vila. Se o pior acontecesse, pelo menos eles continuariam vivos. E a vida de todos era mais importante que a integridade da vila.

Agora só havia sete em Hochberg. Meltse não tinha esperanças no retorno dos Helten. Ele calcula que faltam poucos minutos para a chegada dos saqueadores e começa a dividir seu plano com os outros:

— Primeiramente, as notícias ruins: os saqueadores são sáurios — inicia. Todos se viram e encaram Meltse, assustados. Seus olhos traziam um pouco do desespero e uma pergunta: “O que faremos?” Meltse continua:

— Eis o plano: — continua Meltse — Marco, Ralph e Colodi, eu quero que vocês subam no telhado daquela casa e fiquem lá com arco e flechas a postos. — ordena, apontando para uma das casas próximas a entrada da vila — Quando eu der o sinal, vocês atiram. É muito importante que não ataquem antes do sinal. Será difícil se conter, mas se não esperarmos a oportunidade certa tudo irá por água abaixo. — Os três acenam afirmativamente. Ralph pensa em retrucar, queria ficar junto de seu ídolo, mas desiste. Não era a melhor hora. E também Meltse não queria colocar os mais jovens nos perigos de uma luta corpo-a-corpo. Quanto a Marco, era o arqueiro mais competente que tinha, além dele mesmo. — O restante de nós ficará escondido entre as casas. O plano é pegá-los de surpresa. Se forem realmente saqueadores, eles vão se separar em pequenos grupos. Será aí que atacaremos!

— E quanto a armas, Meltse? — pergunta Zepelli — Todos temos nosso próprio arco, mas de resto não temos nada. Seria suicídio atacarmos desarmados.

— Felizmente temos algumas armas prontas na ferraria. — responde Meltse. — Me acompanhem!

E assim, enquanto os três arqueiros se encaminham juntamente com seus arcos até o telhado, o restante do grupo se dirige rapidamente à ferraria. Aqueles eram minutos cruciais para o sucesso daquele plano.

Logo chegam e todos escolhem a arma com a qual lutam melhor. Zepelli pega uma espada, por ter bastante experiência com elas. Martha decide por um cutelo, usava-o todo dia no seu ofício, qualquer outra coisa seria inútil em suas mãos. Rachel fica um tanto indecisa, gostava de lutar com os punhos, o que seria loucura contra sáurios, por isso decide pegar duas facas além de um par de manoplas de aço para o caso de acabar numa luta corpo-a-corpo e ter que socar a pele dura de um réptil. Meltse, além do arco, que sabia que seria praticamente inútil para a posição que ele decidiu ficar, escolhe um martelo e uma faca, utilizava ambos em seu trabalho e tinha a esperança que isso servisse de alguma coisa numa batalha. Ele até pensa em pegar uma espada mas desiste, se lembra de como é horrível com uma. Ninguém pega armaduras, não tinham tempo para vesti-las. Mesmo se tivessem tempo, não era boa ideia. Eles precisariam agilidade para as emboscadas e as armaduras apenas atrapalhariam os movimentos, além de fazer barulho.

Após terminarem de se equipar, voltam para onde deixaram os arqueiros. Meltse vê que os três já estão posicionados e a postos. O grupo de Meltse então se esconde por trás das casas próximas. Contam os segundos, com medo e angustia. Já é possível ouvir nitidamente o caminhar dos saqueadores.

Pouco mais de um minuto se passa, minuto que para os defensores pareceu horas, até que o grupo de sáurios chega ao campo de visão de Meltse e dos outros. Agora havia um grande imprevisto: Cinco dos sáurios estavam cavalgando estranhos répteis que pareciam com cavalos, ou seja, cinco cavaleiros montados, muito mais perigosos que guerreiros a pé.

Sem dar tempo para devaneios ou planos, os saqueadores avançam como um raio vila adentro! Liderados por um dos cavaleiros, eles mantêm-se um grupo unido ao invadir, não se separavam para saquear, como Meltse havia pensado. Assim, todos os defensores aguardam, apreensivos e nervosos. Queriam defender sua vila e suas casas, mas não poderiam fazer nada enquanto os sáurios estivessem todos juntos. Como Meltse havia alertado, era muito difícil ficarem ali, escondidos, sem nada fazer, enquanto ouviam suas casas sendo arrombadas. Um sentimento de raiva muito grande começa a brotar em todos; e apenas o instinto de sobrevivência os mantinham em posição.

Ao todo quarenta e seis sáurios invadem Hochberg. Quatro dos cavaleiros ficam na estrada, apenas observando. Meltse não gosta nem um pouco daquilo: talvez aquele grupo fosse bem mais organizado do que imaginava e assim um daqueles quatro seria o líder. Sáurios organizados não fazia sentido na cabeça de Meltse, mas o que viu até então provava que o improvável era perfeitamente possível: eles eram organizados.

Enquanto isso, era perfeitamente audível o diligente ‘trabalho’ dos outros sáurios vila adentro.

— Acho que os líderes deles não estão muito satisfeitos. — sussurra Zepelli para Meltse, apontando para os quatro cavaleiros — Talvez algo tenha dado errado.

— Pra mim nenhum deles tem uma cara muito satisfeita. — retruca Meltse — Mas, se acabarmos com esses quatro talvez o restante desista do saque. E mesmo que este não seja o caso, eles são o menor grupo de sáurios no momento.

— E o mais perigoso também. Mas eu concordo! Devemos atacá-los! Somos sete contra quatro. Eles estão montados, mas que se danem! Pegaremos eles de surpresa e nem saberão o que os atingiu — fala Rachel, tentando conter a raiva que estava sentindo. Todos acenam, concordando.

Então todos começam a se aproximar silenciosamente dos quatro cavaleiros sáurios enquanto os arqueiros aguardam ordens, nervosos…

O sinal para atirar é dado.