Quimera - COBRINA
5 Capítulo 4 – Karina
Notas iniciais
Depois de falar com a Bi eu precisava conversar com alguém que me entenderia, que sempre me aconselhou, me falou a verdade, cuidou de mim e mesmo não gostando do Pê, fez o necessário para nos unir e acabar com minha dor. Se tinha alguém que eu podia contar e confiar era o Cobra. Passei pela sala como um foguete e fui no QG. Já tava quase fechando, então me apressei para conseguir falar com ele ainda hoje.
Entrei, como ele estava de costas apagando as luzes do fundo o chamei, acho que ele se assustou em me ver ali aquela hora. Conversamos, na verdade eu falei sobre minha decisão, dessa vez ele não tinha o que falar, afinal eu queria terminar por mim sem brigas, confusões, simplesmente porque realmente chegou ao fim.
O Cobra nem deve ter se dado conta que me ajudou muito, deixando eu falar sem medo, além disso me fez ver que nosso primeiro amor pode não ser o último, até meu pai arranjou a Dandara, mesmo depois de todo amor por minha mãe. Acho que o tempo realmente nos ensina muitas coisas. De lá fui dormir, afinal o dia seguinte seria longo.
O dia começou tenso, com o João acordando a “Bianquinha” cheio de amor, saí de lá logo, tomei meu banho, troquei de roupa, tomei café com a família e desci pra academia. No caminho encontrei o Pê, que já veio fazendo graça e gritando.
P – MINHA ESQUENTADINHAAAAAAAA, TE AMO!!
K – Para Pê! – sorri meio sem jeito.
P – Ka ontem você me expulsou da sua casa, hoje fica sem graça quando me declaro, o que está acontecendo?
Nessa hora minha respiração para, meus olhos se esbugalham e eu começo a suar frio.
K – Pê a gente precisa conversar.
P – Lá vem. O que eu fiz dessa vez esquentadinha?
K – Você não fez nada, mas podemos falar disso depois do treino?
P – Claro...que não Ka. Vai me deixar nervoso esperando?
K – Ok Pê, vamos pro Perfeitão.
P – Agora que estamos aqui pode falar Ka. – ele já tava com cara de fazer dó.
K – Bom... – não sabia como dizer aquilo – por onde eu começo?! – falei baixo, tentando ter coragem de olhar nos olhos do Pê.
P – Esquentadinha num vai me dizer que você ficou com o Cobra...por favor!
K – Claro que não Pedro, tá maluco? Nós somos amigos e eu nunca te trairia. – ele respirou aliviado. – Mas de onde você tirou isso?
P – Esquentadinha sei que vocês falam que são como irmãos, mas depois que vi aquele beijo e o jeito como vocês se dão bem, sempre acho que a qualquer momento vão descobrir que se amam. Tenho medo de te perder esquentadinha.
K – Pê aquele beijo aconteceu porque nós dois estávamos sofrendo, mas nem quero falar desse tempo de trevas e o que tenho a falar com você não tem nada a ver com ele.
P – Então fala logo esquentadinha, já tô ficando ansioso.
K – Pê não vou ficar enrolando, não sei bem como dizer isso, mas quero ser sincera com você. Quando eu soube de toda aquela mentira que nos uniu, sofri muito, mas descobri que te amava e te perdoei, quando você já tinha desistido de mim eu resolvi voltar, recomeçar nossa história, mas dessa vez sem mentiras, com sinceridade. Desde então você ficou mais grudado em mim, com medo de me perder ou fazer alguma besteira. Você foi meu cúmplice enquanto eu estava na casa do Lobão, você me salvou quando eu preci.... – ele me cortou.
P – Porque você tá falando tudo isso Ka? Parece até que está se despedindo – ele estava preocupado, com os olhos cheios de água.
Engoli meu choro, tinha que concluir o que comecei.
K – Pê eu preciso falar, só me escuta. Pois é você me salvou, na verdade, você me ensinou com ser feliz, que fazer loucuras às vezes faz bem, que sorrir é sempre maravilhoso, você me fez mulher com todo carinho e amor, também me fez pagar os maiores micos da minha vida – olhei pra ele sorrindo e balançando a cabeça. – Só que depois de tudo que aconteceu Pê, desses últimos meses em casa ao lado das pessoas que eu amo, percebi que mudei, não sou mais aquela menina marrenta e acuada.
P – Eu sabia que aí tinha, que vinha bomba. Fala logo Karina o que você veio dizer. – ele estava impaciente, no rosto um olhar que não entendi se era raiva ou tristeza.
K – Pê eu quero terminar nosso namoro! – falei de uma vez.
P – Mas esquentadinha eu te amo, não sei viver sem você, lembra de “olhos bem fechados, sorriso assim de lado...”. Você é minha inspiração. O que eu fiz pra você querer me ter longe? Não me ama mais? – ele estava desesperado, chorando e segurando em meu braços.
K – Você não fez nada Pê e é claro que te amo, só não é mais como antes. Não quero ficar longe de você ou perder sua amizade, apesar de entender se você não quiser falar comigo. Mas preciso de um tempo pra mim, foram tantos acontecimentos, tanta gente me cercando que nem parei para pensar em mim.
P – Mas você pode pensar em você do meu lado Ka!
K – Eu sei, mas não quero. Quero poder me afastar um pouco e ver melhor. Pedro preciso de um tempo para descobrir o que de fato eu sinto por você, o que de fato eu desejo. Não quero te fazer mal Pê, nem que nossa relação siga numa mentira, estou sendo sincera quanto aos meus sentimentos hoje.
P – Então é isso? Você do nada descobre que não me ama e quer me ver longe pra poder pensar, saber se me ama ou não? Se você precisa disso é porque não ama, simples assim.
K – Pê eu te amo e sempre vou amar, sempre vou te respeitar. Mas é como na luta, uma ora os rounds acabam, o torneio passa e temos que nos preparar para novos desafios. Talvez essa não seja à hora de continuarmos juntos, você está com a banda correndo atrás do seu sonho e logo logo sei que fará muito sucesso, quando isso acontecer vou estar lá torcendo por você. Mas hoje eu preciso focar em mim, nos meus sonhos e objetivos.
P – E eu não faço parte deles, né?
Eu só pude suspirar enquanto olhava pra ele e o respondia em silêncio. Depois de um bom tempo calada enquanto ele chorava, eu ia me levantar para ir embora, quando ele segurou meu braço me olhou nos olhos e disse:
P – Esquentadinha, sei que não posso te obrigar a ficar comigo, apesar de não entender em que momento você simplesmente deixou de me amar, de querer estar do meu lado. E sei que isso vai me doer por um tempo, assim como dói agora. Foi tudo tão louco entre nós, nossas brigas, pirraças, micos, fugas do mestre cruel, nossa primeira vez, as aventuras contra o Lobão, a raiva ao te ver com o Cobra e o sofrimento ao te ver lutar. São muitas histórias pra contar, não sei porque você decidiu isso, mas dessa vez eu vou respeitar Ka. Não se preocupa que não vou fazer nenhuma loucura, não vou te sequestrar, nem fazer serenata, nem nada. Eu te amo e sempre vou amar, mesmo que ter você longe seja a forma de te fazer sorrir.
Eu só pude abraçar o Pê com toda a força que eu tinha e ficamos assim por um bom tempo.
K – Pedro obrigada por tentar me entender! — sai do abraço e olhei nos seus olhos com minhas mãos segurando seu rosto – Sei que agora está difícil entender, mas sempre que você precisar de mim eu vou estar aqui, apesar de não ser mais sua namorada quero ser sua amiga. – virei e fui embora.
Respirei tão profundo que pareceu que o ar do mundo ia acabar, soltei tudo de uma vez. Sei que é clichê falar de amizade quando se termina o namoro, sempre achei isso uma frescura, mentira, mas era exatamente isso que eu sentia. Meu carinho pelo Pê era enorme, minha gratidão também, porém eu não podia estar com ele apenas por esse motivo.
Nem eu sei explicar em que momento tudo mudou, em que momento parei de desejar o Pedro e passei a querer só sua amizade, apenas aconteceu. Apesar de me sentir aliviada a vontade de chorar estava grande, não podia ir pra casa ou para a academia, muito menos ficar na praça chorando enquanto o Pê passava por ali. Entrei no QG correndo, indo direto para o saco de areia dei um soco e desmoronei chorando.
C – Kaaaaa...Karina?!
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