Quimera
1 Prólogo - O início do fim
Notas iniciais
Boa leitura a todos!
O mar dançava sob o casco do navio, e meus passos ecoavam sobre a madeira levemente murcha do convés. Enquanto eu corria, podia ouvir os gritos de guerra de nossos tripulantes, mas pouco conseguia entender sobre o que se falava, era tudo muito rápido. Minhas veias pulsavam e meu coração ardia em meu peito.
—O capitão! Eles o pegaram. —A voz do marujo se sobressaiu sobre as outras, e com aquela notícia, minha visão se tornou turva.
Tropecei, senti meus joelhos queimarem contra as farpas na madeira, e levantei.
E então segui correndo.
Eu sentia os olhares em minhas costas, mas ninguém ousaria me parar.
Meus passos se aceleravam cada vez mais, e o navio tremia abaixo de meus pés, ressoando a força de nossos canhões ágeis e fortes direcionados ao mar, que para os olhos leigos, parecia vazio.
Era como um ataque fantasma.
—Saiam todos da minha frente! —Eu gritava, e todos os homens abriam espaço, sem ao menos reclamar.
Quando alcancei a popa do navio, empunhei minha espada e a carreguei à minha frente, prevenindo-me de possíveis ataques. Os sereianos eram criaturas imprevisíveis.
Ao virar à minha esquerda, tive a visão do capitão de pé observando o mar, como um mero visitante que aprecia a beleza das profundezas azuis, e por um momento meu coração pareceu relaxar. Sorri um pouco com a tranquilidade que tomou minha mente, e cheguei até mesmo abaixar a guarda.
No instante seguinte, o capitão caiu para trás com as costas contra o chão, e então eu pude o ver. Eram dezenas, senão centenas de buracos contra o seu peito, pernas e cabeça. Eram como tiros, como espinhos que o penetravam. O sangue jorrava em algumas partes, e em outras parecia estancado pelos espinhos.
Corri em sua direção, e ao me ajoelhar ao lado de sua cabeça, percebi que um de seus olhos castanhos escuros ainda acompanhava meus movimentos, e então acariciei seus cabelos grisalhos.
—Aqueles filhos da mãe me pegaram dessa vez, Kari. —Meu pai tentou rir, e o sangue saiu como cuspe de seus lábios, o fazendo gorgolejar.
—Você está bem. —Acalentei, segurando sua mão. Ele gemeu de dor, e então percebi que dois espinhos haviam furado. Soltei sua mão e retornei minha atenção aos cabelos, imundos de sangue e algas. —Vai ficar tudo bem. Eu vou te levar para a enfermaria.
Respirei fundo, me levantei e tentei o puxar comigo.
—O senhor precisa me ajudar a te levantar, pai. —Urrei, e então o encarei, esperando por uma resposta.
Mas seus olhos castanhos já haviam se tornado turvos. Havia um sorriso fraco estampado do lado direito de seu rosto.
E então toda a tripulação nos alcançou, urrando e empunhando suas espadas. Ao mesmo tempo, os sereianos se jogavam para a popa, arremessando seus espinhos mortais e cantando seus hinos hipnotizantes. Eles eram os seres mais lindos que eu já havia visto em toda minha vida. Os cabelos possuíam tons dourados, e eram trançados com algas, e a cauda longa e colorida que possuíam transformava-se brevemente em pernas humanas quando tocavam o chão, e então retornavam ao mar, local de onde retiravam suas forças sobrenaturais. E tudo se repetia.
Com o canto do olho, pude ver nosso general olhando para a figura de meu pai morto ao meu lado, e então para mim, como quem solicita por ajuda.
Precisei de um segundo para tomar consciência da situação, e mais um para empunhar minha espada o mais alto que conseguiria, soltar nosso grito de guerra e então direcionar minha tripulação em direção aos canhões.
Sentia meu sangue pulsar, o suor escorrendo em minha pele e a dor no peito a cada tentativa de recuperar o fôlego.
Nunca me senti tão viva.
Naquela tarde, me tornei Katarina, a capitã de uma tripulação pirata.
Também naquela tarde, jurei acabar com a raça de qualquer sereiano que cruzasse meu caminho, e matei todos os que cercavam nosso navio.
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