Questão de Tempo
2 O mundo que não era o seu
Harry não sabia dizer quanto tempo permaneceu naquele vazio. Poderiam ter sido segundos... ou horas inteiras. Não havia cor, som ou cheiro — apenas a estranha sensação de estar suspenso, como se o próprio corpo tivesse deixado de existir.
Um frio rastejou por sua pele, despertando nele o instinto de lutar contra aquele nada. Respirou fundo — ou ao menos achou que respirou — e, então, uma claridade tênue começou a se formar à sua frente.
O mundo voltou de maneira abrupta.
Ele caiu de joelhos sobre um chão de pedra irregular. O ar estava impregnado com o cheiro de maresia, misturado ao leve aroma de flores noturnas. Por um instante, não soube dizer onde estava, mas havia algo... diferente.
As estrelas brilhavam acima de sua cabeça, mas ele não reconhecia as constelações. O som distante das ondas indicava que o mar estava próximo, e a brisa fria trazia consigo um murmúrio quase... familiar.
— Potter? — uma voz masculina ecoou, carregada de preocupação.
Harry abriu os olhos, a mão instintivamente apertando a varinha. Um homem alto se aproximava, vestindo o uniforme dos Aurores Chefes. O distintivo indicava alta patente. As feições eram familiares, mas os olhos... tristes e vazios.
— Não acredito... você... está bem? — a voz soou carregada de emoção, mas Harry não conseguiu identificar o motivo.
— Eu... quem é você? — a pergunta escapou antes que pudesse conter.
O homem franziu o cenho, como se aquela dúvida fosse absurda.
— Está brincando comigo, Harry? Sou eu... Neville.
O coração de Harry gelou. Neville Longbottom. Mas aquele não era o Neville que ele conhecia. Os traços eram mais refinados, a postura mais confiante, e havia algo nos olhos dele... como se tivesse vivido uma vida inteira completamente diferente.
Antes que pudesse reagir, passos rápidos soaram atrás de si. Uma voz feminina, suave e firme, cortou a noite.
— Harry? — ela disse. — Meu amor, você está bem?
Hermione estava ali. Não a Hermione exausta das cartas, mas uma diferente: cabelos soltos, olhar intenso, vestindo um manto azul-escuro bordado com um símbolo que ele nunca tinha visto.
O que o deixou sem ar, porém, não foi a roupa... Foi o sorriso dela — um sorriso que dizia que eram mais do que amigos.
Então, a dor venceu a sua consciência.
O som foi a primeira coisa que ele registrou.
Baixo, repetitivo: o tique nervoso de um relógio, passos apressados ao longe, o farfalhar de tecido quando alguém se movia por perto. Harry abriu os olhos devagar. Sentia dores fortes, e a vista estava embaçada.
A luz era suave, mágica. O teto, pálido e redondo, exibia um símbolo cintilante de mandrágora bordado. O cheiro inconfundível de poções pairava no ar, misturado a um leve aroma herbal.
St. Mungus. Mesmo com a visão turva, ele reconheceu a ala dos agentes do Ministério.
Seus olhos percorreram o quarto: um vaso de flores agitava-se levemente no parapeito, livros de capa encantada alinhados em uma prateleira, frutas recém-descascadas numa bandeja e um bule de chá soltando vapor.
E, ao lado da cama, dormindo com a cabeça apoiada nos braços cruzados, estava Hermione.
Harry prendeu a respiração. Seu coração disparou de uma forma estranha — uma felicidade misturada à saudade da amiga.
Ela estava tão próxima que ele podia contar as sardas suaves sobre sua pele. Vestia um suéter azul-claro, e os cabelos estavam presos de forma desajeitada, como se tivesse corrido até ali sem tempo de se arrumar. Uma aliança dourada brilhava no dedo anelar.
— Hermione? — chamou, fraco. Confuso, perguntava-se como ela havia chegado a Londres.
Ela se sobressaltou, abriu os olhos rapidamente e sorriu — aliviada e emocionada, como se estivesse segurando o choro havia horas.
— Harry! Graças a Merlin... você acordou. — Ela sorriu com gentileza. Ele tentou se erguer, mas ela pousou a mão sobre o peito dele, com cuidado:
— Calma. Você teve um acidente, lembra? Estava numa missão do Ministério. Caiu feio, bateu a cabeça, fraturou levemente as costelas e ficou desacordado dois dias inteiros. — O rosto dela carregava preocupação.
Harry piscou.
— Missão...? — murmurou. A última coisa que lembrava era a clareira, a luz, a dor.
— Os medibruxos disseram que é normal — ela explicou. — Pode demorar um pouco para recuperar a memória, mas vai voltar. Está em observação. E... bom, está em boas mãos. Como sempre. — Sorriu com carinho.
Ela apertou a mão dele, e Harry sentiu um arrepio estranho. Havia algo nos olhos dela — algo íntimo, profundo. Aquilo não era amizade.
Virou o rosto. Sobre a mesa, ao lado da cama, havia uma moldura mágica.
Ele e Hermione. Abraçados, sorrindo. Ele a beijava na têmpora enquanto ela ria. Não era uma memória. Era um retrato — de um momento que ele nunca viveu.
Engoliu em seco.
— Hermione... nós... a gente está...? — o nervosismo o impediu de completar. Se censurou por dentro — era um homem de quase 30 anos, mas se sentia como um adolescente.
Ela riu com doçura e passou as mãos pelos braços dele, carinhosa.
— Casados, Harry. Claro que sim. Há quase sete anos. Esqueceu de novo? — disse, divertida.
Ele arregalou os olhos, mas antes que pudesse reagir, uma voz animada surgiu na porta:
— Bom dia, dorminhoco!
Um homem de cerca de 50 anos entrou com um buquê de crisântemos flutuando à frente. Óculos quadrados, uma longa cicatriz à altura da orelha, olhos castanhos profundos e cabelos começando a ficar grisalhos.
— Olha só quem resolveu acordar, Lírio — disse, sorrindo com orgulho.
O coração de Harry disparou. James Potter parecia mais vivo que nunca.
Atrás dele, Lily trazia uma cesta com potes de geleia e pão embrulhado em pano grosso. Os cabelos ruivos, em corte chanel, destacavam os olhos verdes. Usava um casaco verde-musgo, e o rosto delicado exibia poucas linhas de expressão.
— Harry, amor, precisa comer alguma coisa — disse, colocando tudo na mesinha. — Perdeu peso. E ainda me deve aquele almoço de domingo. — O tom era divertido.
Harry estava pálido.
— Pai...? — sussurrou. — Mãe...?
Eles sorriram, mas trocaram um olhar breve — preocupados com a extensão da perda de memória dele.
— Você vai ficar bem — disse Lily, ajeitando os travesseiros. — Os medibruxos garantiram que não houve dano permanente. Mas pode ser que as lembranças recentes fiquem embaralhadas por um tempo.
Ele não respondeu. Apenas os olhava, como se estivesse sonhando — ou vivendo um pesadelo ao contrário.
Hermione puxou uma cadeira, sentou-se ao lado dele e entrelaçou os dedos nos dele.
— Vamos passar por isso juntos, tá? Como sempre.
Ele assentiu lentamente, ainda em choque. Nada fazia sentido. Estava certo apenas de uma coisa: aquele não era o seu mundo.
Fale com o autor