Querido professor...

1 Capítulo 1 - Apresentação


Notas iniciais
Fiz algumas alterações da versão original, então espero que curtam. Qualquer comentário é bem vindo, seja ele baseado em críticas ou elogios. Boa leitura! ^^

Por que os primeiros dias de aula devem ser tão difíceis?
Professores novos, matérias novas, pessoas -infelizmente- novas. Deveria existirum botão "Ctrl C"/ "Ctrl V" para isso. Quer dizer, mais ou menos. A regra nunca deve se adequar ao todo.
Me chamo Claire Underwood, estou no segundo ano do Ensino Médio, e lá está o Alberto, meu professor de matemática desde a sexta série, que não mudae continua irritante. Pela vigésima vez, ele explica logaritmos, como se ninguém tivesse passado por isso no finaldo ano anterior. Acredito que, na mente dele, somos todos tolos o suficiente para entender, e talvez ele esteja certo, porque eu só passei de ano por decorar exercícios. Nunca fui boa nas exatas. Sempre deixei a desejar, mas o que posso fazer? Não nasci para lidar com números, eles são tão confusos, porém nós os utilizamos na maior parte do tempo. Um paradoxo e tanto.

* BRIMMMMMMMMMM *

Finalmente o sinal toca, e lá está ele deixando a sala de aula, e minha mente cansada. Abro a mochila e pego o novo horário para saber quem será o próximo a me aportunar, e está marcado para História.
O meu último professor de história foi, com certeza, o meu melhor amigo. É a minha matéria favorita e eu sempre me apego aos mestres responsáveis por transmitir os fatos mais importantes do mundo. Seu nome é Felipe, e nossa sintonia era a melhor. Ele me deu aula durante os três últimos anos, mas infelizmente teve de sair neste para realizar o tão sonhado doutorado na Europa. E meu humor não poderia estar melhor, já que agora virá uma outra pessoa tentando criar uma intimidade com a turma, forçando simpatia e nos provando que não existirá ninguém como o Felipe. Ninguém.

A porta se abre, e um braço tatuado surge. Ouço risadas e, quase que imediatamente, a nova figura entra na sala. Alto, magro, porém com braços fortes. Ele está com uma camisa gola V branca sobre um casaco de couro, calças apertadas e sapatos sociais, só para não fugir da formalidade escolar. Nos braços há desenhos por toda a parte, não há espaços para pele. O rosto é coberto pela barba por fazer, algumas pintinhas e olhos caídos castanhos. Há alargadores nas duas orelhas e o cabelo é todo desgranhado, jogado para o lado direito. O estereótipo perfeito de alternativo revoltado, típico de vocalista de banda de rock independente.
– Bom dia, turma! — Ele sorri e coloca sobre a mesa o único material visível de trabalho: uma pasta preta. — Primeiramente, gostaria de me apresentar. — Pausa. — Me chamo Lucas Silveira, mas, para perder a formalidade, vocês podem iniciar com "Lu", "Luquinhas", "Lulu" ou até mesmo "Rockeirinho", só não me chamem de "Emo", porque esse é o meu apelido em todos os lugares, então vamos diferenciar, ok?
Todos riram. Menos eu.
Começou a forçar simpatia. Detestei.
– Professor, eu tenho uma pergunta! — A voz irritante de Kelly surge no ar. A patricinha mimada ridícula da sala. Já dormiu com metade do time de futebol, e isso porque a outra metade tem medo do professor de Educação Física, que também está incluso entre os namoradinhos.
– Claro que pode, querida. Seu nome é? — O rockeiro pergunta.
– Meu nome é Kelly! — Ouço um arrastar de cadeiras e risadinhas no fundo, provavelmente das três seguidoras fiéis, Tifanny e Britt.
Ela se levanta e logo surge em meu campo de visão com sua mini-saia rosa e blusa branca, o uniforme de líder de torcida. Sorri para todos e logo murmúrios começam a ser formados. Ela é a definição em carne e osso para a expressão "mulher galinha".
– Eu queria saber...se o senhor é casado. — Kelly se jogou na mesa, sentada com as pernas cruzadas e aquele olhar absurdo.
Revirei os olhos. Aquela era uma cena certa de todo início do ano. Ela iria se jogar, ele cair e os dois encarnariam o casal de novela mexicana na sala vazia do primeiro andar enquanto todos estivessem no recreio.
– Sempre tão jogada. — Sussurrei, mas creio que alto demais, pois todos estão olhando na minha direção. Das duas uma: Ou eu estou de verde, ou ouviram minha confissão.
– Você disse alguma coisa, Claire — A estranha? — Ela levantou da mesa e começou a caminhar em minha direção. Colocou as duas mãos sobre a minha carteira e impulsionou o seu corpo de vinte e quatro horas de malhação diária para cima de mim. O cheiro do seu Victoria's Secret entrou em minhas narinas e me senti obrigada a espirrar, odeio perfume doce.
Por fim, respirei fundo e respondi.
– Disse sim. Nós estudamos juntas há quase quatro anos, e há quase quatro anos você escolhe um professorzinho para dar em cima e depois espalhar boatos pelo colégio. — Levantei o olhar para Lucas em seguida, transmitindo a mensagem a ele. — Você esqueceu de comentar na sua apresentação que curte uma zoofilia.
– Zoo o quê? — Respondeu incrédula. — Você só fala isso, porque não é que nem eu. Seu sonho é ter esse corpo e poder mostrá-lo, ao contrário de continuar escondido sob esses trapos que você usa. — Todos na sala se calaram, exceto pelo professor, que caminhou em nossa direção tentando apaziguar a faixa de gaza.
– Meninas, não vamos descer o nível, tudo bem? E, Kelly? — Ele se virou para ela. — Pode, por favor, retornar a sua cadeira?
– Claro que sim, meu amor! — Kelly passou vulgarmente a língua pelos lábios e certificou-se de subir a saia antes de se virar e caminhar rebolando para o seu lugar. Lucas respirou fundo, levou uma das mãos para a testa e riu sozinho da cena anterior. A essa altura, já está confirmado o novo brinquedinho de Kelly Bittencourt.

– Certo, vamos voltar a aula?! — Silveira bateu nas mãos e olhou para a turma com os olhos semicerrados. Depois, pegou um piloto vermelho em sua pasta preta e escreveu no quadro branco atrás de si: "HISTÓRIA";
Ninguém entendeu.
– Galera! — Ele gritou. — O que vocês definem por história?
Rapidamente, braços começaram a surgir. Roberta respondeu "o estudo dos fatos históricos", Kelly não perdeu a oportunidade e disse "o que será contado para o colégio depois que o senhor me visitar no vestiário" e Ana continuava com a mão levantada, tal como a maioria da sala, pronta para responder a pergunta, exceto por mim. Odeio esse apelido tanto quando já odeio esse pedófilo idiota.
– Claire. — Lucas entonou meu nome com certo nojo. E esse é o sentimento exato que despertou em mim.
– Eu o quê? — Respondi no mesmo tom.
– O que é história para você?
– A História é o estudo do homem no tempo, concomitante a análise de processos e eventos ocorridos no passado. E também o estudo dos erros que cometemos anteriormente, pois justamente estudamos isso para não cometê-los de novo. Quer dizer, hoje em dia pode aparecer um político com tendências fascistas, mas, ao meu ver e crédito no bom senso alheio, ninguém iria votar nele pois sabe das consequências do regime no século XX. É o caminho para entender o futuro. É o que eu vivo, o que eu amo, o que eu quero levar pra minha vida.
Acho que exagerei, pois todos estão de boca aberta, inclusive Lucas, que se aproximou de mim e bateu palmas.
– Incrível!
– Eu não preciso do seu sarcasmo.
– Mas não é sarcasmo. — Ele se ajoelhou próximo a minha cadeira. Seu cheiro é maravilhoso. Uma mistura de sabonete masculino com colônia. — Digo isso porque é o que realmente é, vejo nos seus olhos o que eu queria ter sido quando mais novo.
– Certo, você veio até aqui para me dizer isso?
– Desculpe se te assustei, mas precisava. Vejo um futuro maravilhoso para você. Posso te ajudar e...
– Não! — O interrompi com uma das mãos. — Eliminar 10% da sua arrogância é o suficiente. Estranho!

* BRIMMMMMMMMMM *

Assim que o sinal tocou, Lucas deixou a sala e saiu correndo pelos corredores com sua pasta preta apoiada abaixo do braço. Levanto para me preparar para a próxima aula, mas a Sra.McGiven, nossa respectiva diretora, surge escorada a porta e pede para formarmos uma fila em direção ao ginásio, pois a aula seguinte fora cancelada por conta da apresentação do regime escolar do East High aos novos alunos, ou seja, meia hora de palestra sobre o quanto este estabelecimento é patético.
–
Não muito longe dali, um ser de braços tatuados e olhos castanhos procurava insano pela substância responsável por mantê-lo "puro" em sua pasta preta. Localizou o frasco e deixou que cinco comprimidos da cor branca escorressem por sua garganta. Finalmente pôde abaixar os ombros, descansar pós as lembranças traumáticas que uma criança lhe causara. E aquele era só o primeiro dia.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.