Querido Papai
4 Capítulo 4 - Amizade
Notas iniciais
Chamei-o, num murmuro. Miroku abriu a porta e saiu, sem nem ao menos olhar para trás mais uma vez. Senti minha garganta apertar. Papai ia fazer menção de levantar-se, talvez para ir atrás dele, mas o impedi. Eu entendia Miroku melhor que ele.
- Eu vou, papai. – Levantei-me, às pressas. Não vi ao certo que expressão ocupava o rosto do meu pai, mas ele nada disse.
Não foi difícil encontrar Miroku, ele estava fazendo o curto caminho até a própria casa. Adiantei-me em fazê-lo parar, e segurei seu pulso, puxando-o em minha direção. Ele parou de andar. Foi nessa hora que eu percebi que ainda não sabia o que diria a ele. A verdade? Inventava uma desculpa? Mas que desculpa seria o suficiente para amenizar o fato de que estava beijando meu próprio pai? Aliás, ele havia realmente visto o beijo?
- Rin. – A voz dele me assustou, embora tenha sido baixa. Ele virou-se. Não sei se era apenas impressão minha, mas acho que o rosto dele estava um pouco corado. Ele abriu um sorriso sem jeito. – Desculpa, desculpa mesmo. Conheço você há anos e ainda pensei algo terrível...
Ergui uma sobrancelha, sem ainda saber o que dizer. Ele parecia confuso e nervoso. Acariciei de leve o pulso dele que eu estava ainda segurando.
- Fique calmo, Miroku. O que você pensou? – Incitei-o a falar. Ele levou a mão livre até a nuca, me olhando como se eu fosse chutá-lo na cara, como o personagem do videogame.
- Merda, você vai querer me matar. – Ele comentou. – Mas tudo bem, acho que mereço isso. – Ele começou a mexer nos dedos da minha mão, como fazia quando ia confessar-me algo difícil. – Quando vi do nada você abraçando seu pai no colo dele, pensei que vocês estavam... sabe, fazendo algo errado. – Confessou. Tive que me segurar para não demonstrar nenhuma reação. – Foi algo horrível da minha parte, eu sei. Você só tem seu pai, é lógico que vocês seriam bem próximos.
Suspirei, num misto de alívio e mais um sentimento estranho que não soube identificar. Aparentemente, o segredo estava salvo. Contudo, a forma como Miroku tratou aquela possibilidade, como algo horrível, me deixou um pouco desanimada. Não poderia culpar Miroku por isso, mas imaginava o que eu poderia conversar com ele caso soubesse e aceitasse. Compartilhar os sentimentos bobos da nossa idade, nossas dúvidas. Nesse momento, passou-me pela cabeça de que eu talvez queria que Miroku tivesse descoberto. Mas optei por manter a situação como estava.
- Está tudo bem, seu bobo. – Enlacei-o pelo pescoço, num abraço gentil. – Realmente, deve ter sido uma cena um pouco estranha, você não está acostumado com o lado amável do meu pai. – Ele retribuiu o abraço, balançando o rosto em concordância.
Miroku era uma ótima pessoa. Apesar de seu temperamento brincalhão e até um tanto pervertido, ele preocupava-se com os sentimentos das pessoas e tinha um terrível costume de sofrer calado, por baixo de sua aparente alegria. Quando éramos crianças, muitas vezes ele veio chorar no meu colo, sem dizer nada, mas o que logo descobri que era devido às brigas de seus pais, pelos comentários da vizinhança. Ainda sim, levou anos para que ele me confessasse tal coisa.
Acariciei-lhe os cabelos, sorrindo de canto. Se não tivesse um amor tão profundo pelo meu pai, talvez eu teria gostado daquele menino chorão que logo tornou-se conhecido por adivinhar a cor das calcinhas de todas as mulheres do bairro.
- Er... – Ele iniciou, mantendo ainda o abraço. – Você me desculpou, mas será que seu pai vai querer me matar? Digo, prefiro antes que você me corte em pedaços do que receber o olhar assassino dele. – Comecei a rir repentinamente. Ele havia voltado ao normal. Afastei-me um pouco, o suficiente para olhá-lo nos olhos. Ele também ria.
- Acho que não há necessidade de contar isso a ele, vou dizer que você ficou apenas enciumado. Ele compreende como funciona a mente desses jovens possessivos... – As feições dele se contorceram, mas o sorriso ainda estava em seus lábios.
- É, ciúmes. É uma boa explicação. – Disse, por fim. – Sobre o trabalho de matemática, amanhã de manhã você me empresta, depois desse susto, quero mais é dormir. – Concordei. Aquela situação também havia me deixado exausta. – Boa noite, Rin. – Ele inclinou-se um pouco e beijou-me na bochecha, como às vezes fazia, soltando-me e pondo-se a correr para casa. Seus lábios tocaram o canto dos meus por um breve momento, mas associei à pressa e ao fato da iluminação estar baixa. Sorri despreocupada, satisfeita por poder dormir tranquila naquela noite, e retornei para minha casa.
Papai estava na sala, me aguardando. Sorri calmamente para ele, sentando-me em seu colo mais uma vez.
- Ele não suspeita de nada. – Disse. Ele ficou em silêncio, observando-me por um longo tempo. Seus olhos estavam esquisitos.
- O que você faria se ele tivesse descoberto? – A pergunta mais parecia uma facada. Ou talvez fosse a resposta que eu precisaria dar a ela. No fundo, poderia até querer que isso deixasse de ser um segredo, mas sabia que papai não pensava da mesma forma, e nem poderia.
- Faria o que tivesse que fazer. Nem que para isso eu perdesse uma amizade. – As palavras me doeram. Ele deve ter percebido isso, pois me colocou delicadamente no sofá e levantou-se. Pensei que não me diria mais nada, até que parou aos degraus da escada.
- A juventude mascara as consequências das nossas decisões. Em contrapartida, a chance de levantar-se após o tombo é maior. – Ele prosseguiu seu trajeto, repentinamente, deixando seus devaneios e palavras no ar, ambos incertos. Meu pai pouco falava, mas quando falava, às vezes eu tinha a sensação que era melhor se ficasse quieto. Naquele momento, suas palavras se repetiam na minha mente como se tivessem sido gravadas. E o pior era que o amargo na minha boca me dizia que ele não havia nem ao menos deixado claro se estava falando de mim ou dele.
- Mas que merda. – Murmurei, me estirando no sofá. Não teria beijo de boa noite.
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