Notas iniciais
Olá mais uma vez! Esse capítulo dois foi reeditado, pequenos detalhes corrigidos e alterados. Espero que gostem.

Realizada, era assim que eu estava me sentindo enquanto assistia o "Bernando" – que nickname ridículo – tirar as batatas do cabelo, o miserável ainda ria de si mesmo, era para pelo menos ter ficado bravo comigo.

Meu padrasto balançava a cabeça olhando pra mim como se dissesse que minha mesada estava suspensa, minha mãe ainda estava chocada com a minha demonstração de afeto com o nosso hóspede, argh, essa coisa vai ficar na minha casa, dormir em frente a meu quarto, usar o mesmo banheiro que eu. É, vai ser maravilhoso.

— Oi pra você também, Capitu – ele disse sorrindo.

— Vocês se conhecem? – Claudio perguntou.

Dei as costas antes que me forçassem a falar sobre aquele hater maldito, se bem que não parecia ser tão ruim, era só falar sobre como ele era irritante e sem o que fazer, e tinha as fãs dele que ficavam respondendo nossas brigas defendendo ele. Agora vamos ver quem vai defendê-lo dentro da toca do leão.

Subi as escadas fazendo mais barulho do que eu queria, aquela madeira estava velha e precisava ser trocada urgentemente, não que eu não goste desse estilo de casa mal assombrada, mas é que pode causar um acidente a qualquer momento, imagine se alguém pisa num degrau e acaba caindo? Sorri com o pensamento, alguém desavisado que anda despreocupado pela casa quando de repente pisa numa tábua lascada e cai da escada, que coisa terrível. Não, eu não posso fazer isso com o garoto, por mais que eu o odeie.

— Vai ficar aí até criar raízes? – estremeci ouvindo Bernardo atrás de mim.

Certo, respire de olhos fechados e conte até três antes de virar para trás.

Virei-me para ele vendo seu rosto seco e a camisa molhada ainda, não havia mais batatas em seu cabelo que, aliás, estava bonito penteado e não como um ninho de pássaros como sempre estava nos vídeos. Fala sério, como essa coisa tem fãs? Seus vídeos são uma merda, o que ele escreve consegue ser pior, coisa de idiota, na verdade eu odeio qualquer coisa relacionada a videogame, e com esse fato ele estava no topo da lista.

— Antes de qualquer coisa, não dirija a palavra a mim quando estivermos sozinhos num cômodo, não gosto de você então não sou obrigada a te suportar. Segundo, minha casa, minhas regras-

— A casa é do Cláudio, sua mãe não é dona nem do cocô do cachorro na porta do condomínio. Quanto a falar com você? Fique tranquila, tenho coisas mais importantes para fazer do que manter contato com uma garota tão esquisita e mimada.

Abri a boca furiosa tentando conter o impulso de empurrá-lo escada a baixo, como seria prazeroso ouvir seus ossos se quebrando e o barulho oco do seu corpo batendo contra os degraus. Esse animal ainda quer ditar regras na minha casa? Sim, eu moro há mais tempo e isso torna a casa minha também.

— Terceiro – disse descendo um degrau, ficando cara a cara com ele – nunca. Jamais, em hipótese alguma. Nem que o mundo esteja acabando, me interrompa.

Ele riu.

— Você fica engraçada tentando me intimidar – estreitei os olhos para ele – mas está certo, eu fico fora do seu caminho e você do meu. Palavra de escoteiro, não que eu já tenha sido um. Você já?

— Vai à merda! – resmunguei passando por ele, descendo novamente.

[...]

Meus planos de ficar longe dele foram por água a baixo quando minha mãe insistiu que eu almoçasse com eles, e claro, que fui forçada a sentar à sua frente desejando profundamente que se engasgasse com o garfo e morresse ali mesmo. Tentei não olhar muito em sua direção, sua voz eu tinha que ouvir, pois Cláudio não parava de perguntar como estava o seu pai, sua família, o velho cachorro bom de caça, se o Bernardo estava treinando ainda. É, acabei descobrindo que ele treinava só para manter a forma e ter uma pose de lutador, brinquei dizendo que ele poderia procurar confusão em uma das favelas, quem sabe o chefe do morro não lhe desse uma bala quente no rabo. Ri como uma condenada sendo acompanhada por ele – que parecia ter se divertido com a brincadeira, mas estava muito irritado. Minha mãe brigou comigo mais uma vez.

Quando aquela tortura acabou eu fui para o meu quarto, fiquei lá conversando com minhas seguidoras até a hora do jantar, elas perguntavam quando eu ia falar sobre o novo trabalho da minha mãe, se ela já tinha previsão para lançar um livro novo e blábláblá. Algumas taradas pediam para fazer live com meu padrasto sem camisa, não é em toda uma má ideia, adoro ver o peitoral do Cláudio e os pelos do seu corpo. Sim, a minha mãe sabe que eu babo por ele, temos uma ótima relação já que ela escreve para jovens.

Ouvi batidas na porta e antes que eu abrisse a boca o energúmeno entrou segurando uns fios, apertei os braços da cadeira contendo o impulso de arremessar algo nele, é muita cara de pau entrar no meu quarto assim.

— O que você quer?

— Mandaram eu te chamar, você precisa comer pra poder alimentar seu ódio e sua loucura – sorriu de lado.

Miserável.

— Eu vou te matar mais cedo ou mais tarde – resmunguei levantando.

Ele deu as costas e entrou em seu quarto, eu podia trancá-lo ali para morrer de inanição, seria cruel e doloroso para ele. Respire Maria, siga o teu caminho e deixe-o aproveitar mais um pouco.

Desci correndo as escadas esquecendo-se do degrau maldito, meu coração parou quando me lembrei dele, eu só podia estar ficando louca. Tudo culpa do Bernardo.

Minha mãe servia o Cláudio enquanto conversavam sobre qualquer coisa, peguei o meu prato e fui abastecer pensando no próximo assunto para o meu blog, talvez sobre como se livrar de um rato em sua casa, só colocar um pouco de veneno num pedaço de comida e deixar num ponto estratégico, depois é só esperar.

— Eu não gostei de como tratou o Be, ele não te fez nada – essa não, o verme tinha até apelido já.

Dei de ombros terminando o que fazia.

— Deixe os dois, conversei com ele mais cedo – Claudio começou – parece que os dois são web inimigos – riu da piada sem graça.

— O que você tem de gato, você tem de besta – resmunguei sentando a seu lado – Bernardo é um hater, vive me provocando e procurando encrenca comigo.

— Isso é motivo para jogar seu lanche no pobre?

— É – respondi começando a comer.

Bernardo só desceu quando eu já estava acabando, conversava com meu padrasto sobre as instalações da casa, onde tinha um cabo mestre, se tinha fio terra e todas essas coisas de idiota que parecia gostar. Permaneci calada até terminar, deixei o prato na pia e fui para o quarto arrumar minhas coisas para amanhã e vi a quantidade de mensagens recebidas por seguidoras. Olhei todas e respondi o mais rápido que consegui, mas uma me chamou atenção.

"Fiquei sabendo que o Be está morando com você. Se fizer qualquer coisa com ele vai pagar caro."

Balancei a cabeça negativamente, aquelas jumentas que se intitulavam "Bernadetes" estavam me ameaçando?

"Ain, eu shippo".

Credo, não, eca.

Quase vomitei com aquilo e saí da página. Era só o que me faltava ter essas pessoas me shippando com aquele ser.

[...]

Aula. Eu ficaria mais feliz se não tivesse que dividir o carro com o Bernardo. Assim que terminei de comer corri para o carro do Claudio e saltei para o banco da frente, pelo menos eu não iria ao lado daquilo, fiquei mexendo no celular enquanto esperava os dois terminarem de comer também, notei que meu padrasto estava um pouco aéreo, claro que estava, ficou até a madrugada ajudando o garoto a instalar suas coisas e configurar não sei o que, em minha opinião foi perda de tempo, ele sabe fazer tudo isso sozinho, é o trabalho dele.

Puxei meus fones para ver se o tempo passava ainda mais rápido, quanto mais longe eu ficasse, melhor. E a Malu, espero que sua bolsa não rompa antes da hora, aquela criança vai ter que esperar a hora certa pra nascer ou eu não a deixo me chamar de tia nem dou pirulito. Nossa, como se eu gostasse de crianças.

Vi de relance uma mochila entrando no carro e olhei para o lado vendo Bernardo sentado no banco do motorista, fiquei encarando para ver se era realmente aquilo, se o Claudio havia surtado e deixado um moleque qualquer levar a princesinha dele para a escola.

— Bom dia querida. Pronta para o primeiro dia?

Minha sobrancelha se ergueu quase que automaticamente, seria um pesadelo ou uma pegadinha?

Olhei para os lados procurando por Cláudio, mas não vi ninguém, nem a minha mãe ou um vizinho para eu gritar por socorro.

— Não vai me levar pra escola – disse em alto e bom som.

— Ótimo, vai a pé – respondeu colocando o cinto.

Bufei afundando no banco enquanto ele ria dando partida. Eu vou matar o Cláudio quando voltar, onde já se viu fazer isso comigo, eu sou praticamente filha dele e ele sabe que eu odeio esse moleque. Corrigindo, ele sabe que eu odeio o "Bernando" e não o Bernardo, ai que ódio.

— Sabe que o seu padrasto me mandou levar você porque quer dar uns pegas na sua mãe, não é?

Ah meu Deus.

— Cala a boca – murmurei olhando para fora – só dirige essa porra e esquece que eu to aqui.

— Você tomou banho hoje? Se sim, devo avisar que esse seu perfume é muito vagabundo, sua mãe não te ajuda a escolher? Comprou na seção masculina para trabalhadores rurais?

Respirei fundo tentando afastar a ideia de virar o volante e nos lançar num muro, mesmo que eu me lascasse toda, ele também iria.

— Desculpa, feri seus sentimentos. Já pensou em se comportar como uma garota normal? Quer dizer, só como uma garota mesmo, não quero forçar a barra.

— Tá vendo, é por isso que não me arrependo por ter jogado suco na sua cara.

Ele riu mais uma vez, por incrível que pareça ele tinha uma risada bonitinha – eu disse bonitinha, tá legal? – sua boca é bem desenhada, bonita também. Merda, o desgraçado é bonito. Mas isso não diminui o fato dele ser um completo imbecil.

Como minha mãe sempre dizia, algo não pode ser ruim só porque você acha ruim. Nunca achei que isso fazia sentido, meu ego é muito grande para eu achar que minha opinião não altera em nada, claro que altera, já fiz muitas menina deixarem de seguir esse verme só falando o quanto ele incita a violência pela internet e prega padrões de beleza feminina, o que não deixa de ser verdade. E por falar em verdade, tenho que me preparar para a enxurrada de perguntas sobre ele quando chegarmos ao colégio, sim, ele tem fãs lá – muitas. Isso já resultou em muitas brigas entre as Capitolinas e Bernadetes, não gosto quando elas começam a brigar, a diretora sempre vem reclamar comigo, bem, agora já sei em quem pôr a culpa.

Com um sol alto de pneus e amortecedores, fui jogada para frente numa brecada e bati a testa no carro, a dor começou a aumentar junto com minha raiva enquanto ouvia alguém rindo como um condenado – porque um condenado riria?

— Esqueci de te mandar pôr o cinto – disse desligando o automóvel – foi mal.

— Fez de propósito – acusei gritando enquanto massageava meu futuro hematoma.

— Fiz – deu de ombros saindo do carro.

Ah meu Deus, esse garoto quer me provocar de qualquer jeito, eu vou matar ele, eu vou matar.

Abri a porta resmungando enquanto ele ficava parado no estacionamento como o babaca que já é. Pus a mão na testa e comecei a caminhar para a entrada daquela droga.

Droga!

Notei que ele me seguia pelo portão e consegui ver dois grupos no corredor aberto, um deles tinha seguidoras, de nós dois. Fechei os olhos rezando para que ele já tivesse parado bem longe, seria uma maravilha se isso acontecesse, mas o que realmente rolou foi:

— Ai meu Deus, vocês fizeram as pazes!

— Pensei que se odiassem. É puro marketing dos dois, só querem ibope.

Continuei de olhos fechados e caminhando, um dedo do meio não seria elegante da minha parte, elas dão vida à minha página, imaginem se espalham que eu sou grossa com minhas seguidoras? Aparência é tudo.

Esse ano vai ser um martírio. Infarto agora ou depois.

Notas finais
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