Querido Hater

19 Capítulo 19


Notas iniciais
Estão prontas crianças? Isso aqui vai ser elite. Aproveitem ♥

Após muita briga e uma cena lamentável da minha parte, nós deixamos Marina em casa, eu insisti para que ela fosse dormir comigo, pois não queria encarar Claudio sonha, mas isso ela não precisava saber, só devia ir para minha casa e permanecer no meu quarto comigo até a hora de ir para a escola amanhã, lógico que não consegui convencê-la.

— Por que esse show todo para a Marina dormir lá em casa? Não to a fim de ficar com ela hoje – Bernardo comentou voltando a dirigir.

— Eu não quero encarar o Claudio quando chegarmos. Tenho vergonha – choraminguei sentindo o cheiro do fracasso em minhas narinas. Maria quase Capitolina estava arregando pela primeira vez.

Bernardo riu de lado balançando a cabeça e esticou a mão para apertar meu joelho de leve.

— Eu te ajudo com isso – acho que posso começar a gostar desse hater – só fingir que está dormindo quando entrarmos em casa.

— E deixar você me derrubar daquela escada? Não, obrigada – ri imaginando a cena.

O garoto umedeceu os lábios ainda com ar de riso e encarou a rua à nossa frente pensativo. Contemplei o belo maxilar à minha frente lembrando-me de como queria acertar aquela raquete de mosquito ali, seria um crime contra a natureza estragar um rosto tão bonito.

— Certo, vamos fazer o seguinte, Maria quase Capitolina – endireitei-me pronta para ouvir – eu entro com você no colo, se por acaso ele estiver na sala você fecha os olhos e arrisca, se não estiver eu te levo até a escada e você sobe sozinha.

— Acho justo – concordei sorrindo.

Eu e Bernardo nos encaramos por um instante trocando um riso divertido e pela primeira vez não precisei arrancar sua mão da minha perna – até porque não queria – ele mesmo a removeu voltando a dirigir com as duas mãos.

Taí, até eu estou estranhando esse comportamento amigável com o hater, devo mesmo estar mudando por causa da Constança, ou talvez por estar chegando perto de casa e ainda não engoli aquela bronca que o grosso que minha mãe chamava de marido havia me dado, estava acostumada a ser tratada como uma princesa por ele, choque de realidade sem aviso prévio é no mínimo traumatizante. Me sinto uma garotinha indefesa, preciso reerguer as barreiras que existiam antes de Tadeu aparecer. Afinal, porque diabos eu havia erguido barreiras? Isso é tão seriado adolescente.

O detalhe que eu sempre esqueço é que eu sou uma adolescente, daquelas cheias de dramas e manias bestas que eu provavelmente odiaria ver num livro. Todo esse ódio do Tadeu na verdade era medo de olhá-lo mais uma vez e fazer papel de idiota jogando-me em seus braços, pois eu juro de pés juntos que só não o beijei naquele dia do jantar porque ele não me beijou. Mas olhando agora, depois de todo aquele drama, ter finalmente encarado meu ex não foi traumático como eu pensei que seria, foi um alívio.

O grande portão de ferro sendo aberto à minha frente fez meus olhos piscarem trazendo-me de volta à realidade, estava entrando no condomínio novamente, Bernardo desacelerou lançando-me um rápido olhar, ele tentou enrolar ao máximo nosso caminho ali dentro até chegar às casas médias, tínhamos dinheiro, mas ainda não precisávamos de uma casa enorme como as outras. Prendi a respiração quando ele subiu na calçada parando o automóvel na frente da garagem recuada.

— Está na hora – disse tirando o cinto de segurança.

Fiz o mesmo abrindo a porta do passageiro e saindo do carro. Bati a porta nervosa e esperei o hater fazer o combinado. Bernardo parou ao meu lado com um sorriso brincalhão nos lábios e se abaixou para me pegar, passei os braços por seu pescoço sentindo-o me erguer do chão.

— Isso é pateticamente necessário – murmurei pendendo minha cabeça em seu ombro – por outro lado, meu pé está doendo.

— Deve ter sido por causa do repouso no carro.

Assenti contra sua camisa.

Ele parou na porta de casa prensando meu corpo contra a madeira para alcançar a maçaneta. Agora eu estava desconfortável.

Passamos pela soleira entrando calmamente, pelo silêncio não havia ninguém ali na sala.

— Pensei que fossem dormir por lá, estava quase ligando para saber – olhei para o lado vendo minha mãe parada com um copo de suco em mãos – devo me preocupar por ela estar em seus braços?

— Não havia necessidade de dormirmos lá — falei agitando as pernas para que me pusesse no chão — você tem que ver a Constança.

Mais uma vez eu sorri de orelha a orelha.

— Eu imagino ela parecida com a Malu.

— Segundo a Maria, se parece com ela — disse Bernardo encostando no corrimão da escada.

Revirei os olhos voltando a falar sobre a menina com minha mãe. Eu dava todos os detalhes de toda aquela saga, começando com o sumiço dela, as queixas, depois falei como meu hater havia me tirado de casa como se a vida delas dependesse disso, só não mencionei o que ele tinha me dito sobre sua falecida irmã, ou como demos uma trégua. Ficar de picuinha num momento como esse era no mínimo egoísta, voltaria às ameaças dentro de alguns dias, quem sabe. Agora prefiro ficar com os sorrisos tortos que ele me lança sem motivo algum, como agora.

Balancei a cabeça desviando o olhar, não sei se minha mãe havia percebido, torcia para que não.

— Vai me dizer porque seu padrasto chegou no restaurante tão bravo com você? — ela perguntou — por que eu gostaria muito de ouvir a sua versão antes de decidir apoiá-lo num possível castigo.

Mordi o interior da minha boca procurando um bom motivo para não falar sobre a bronca vergonhosa que levei.

— Longa história — suspirei — mas ele está meio que certo.

— Sei – minha mãe nos lançou um olhar. Aquele olhar que todas as mães adquirem quando põem uma criança no mundo – E vocês estão bem mesmo assim?

Não acredito que ela ta perguntando isso.

Okay, talvez seja porque ela nos viu entrar em casa juntos e eu sendo carregada pelo garoto que tentei assassinar mais cedo.

— Já me acostumei com a linguagem de amor da Capitu — Bernardo comentou saindo do canto — ela machucou o pé mais cedo, então eu estou ajudando a tratar da teimosia.

Não vou negar que estou surpresa e admirada por aquele estrupício não ter comentado nada sobre meu padrasto ou feito uma piadinha sobre eu ter chorado.

Minha mãe levou a mão esquerda ao peito como se estivesse assistindo a um dorama e sorriu caminhando até Bernardo, eu assisti aquilo com um sorriso brincando nos lábios enquanto ela apertava a bochecha do garoto.

— Você é tão fofo — ela parecia que ia explodir em extase — porque não namora ele, Capitu?

Já ouvi essa pergunta antes.

— Eu já ouvi essa pergunta antes — balancei a cabeça começando a andar, estava cansada e estava muito tarde — e o Bernardo já tem dona.

Olhei para o garoto que cruzou os braços divertido como se me perguntasse silenciosamente como eu podia ter tanta certeza daquilo que dizia.

— Uma pena — minha mãe suspirou — já vai dormir?

— Estou cansada, amanhã quero visitar a minha afilhada. Boa noite, mamãe.

— Boa noite, meu bebê.

Lancei um último olhar para ele, que retribuiu com uma piscadinha arrancando de mim um sorriso genuíno. Minha mãe rodopiou nos calcanhares fazendo um breve sinal para Bernardo acompanhá-la. Ótimo, lá vem mais coisa para cima de mim, minha mãe devia fazer um intensivo para aprender a ser sutil, só faltou perguntar se paramos num motel no caminho.

Segurei firme no corrimão enquanto praticamente escalava aquela droga, meu pé parecia uma brasa a cada vez que o apoiava no chão, ah se arrependimento matasse.

Eu terminei com muito custo meu percurso até o banheiro, ouvi a TV do quarto de casal ligada e ao que parecia, meu padrasto estava lá, não me atrevi a chegar mais perto, me enfiei debaixo do chuveiro deixando a água quente invadir meus poros e relaxar todos os meus músculos, o dia não foi nada fácil. Lavei meu cabelo igual a minha cara, dei uma leve secada e saí enrolada numa toalha, bati a porta para todos da casa terem certeza de que eu estava ali e me troquei, eram quase duas da manhã, o que significava que eu tinha relaxado o bastante no banho.

— Posso entrar?

Virei-me para a porta vendo Bernardo entrando com os braços cheios de tranqueiras.

— Antigamente usavam bater na porta dos outros – comentei indo pentear meu cabelo na cama.

O hater bateu o dedo no interruptor vindo em minha direção com... Com o que?

— Antigamente você não estava caindo aos pedaços. Agora não corro o risco de sair sem um olho – riu sentando-se na cama – trouxe água, seu remédio e gelo.

Ele sacudiu a bolsa de gelo como se fosse um saco de doces, e no momento aquilo surtiria o mesmo efeito em mim.

Alívio tomou conta do meu corpo antes mesmo de colocá-lo sobre o tornozelo avariado.

Bernardo se abaixou, segurou minhas pernas e as colocou sobre o colchão, não pude evitar o riso quando ele apanhou um travesseiro para altear meu tornozelo machucado. Parei o que fazia observando-o pegar a bolsa de gelo e pressioná-la levemente no local, seus dedos acariciavam a lateral inchada como se o objetivo fosse aliviar a dor, os olhos do garoto estavam concentrados no que fazia, era muito bonitinho vê-lo cuidando de mim, e eu gostava, pois nunca um garoto fora tão cuidadoso comigo.

Certo, Constança volta para a barriga da sua mãe.

— Seu remédio – ele me tirou do transe entregando-me a garrafa e a caixinha – o outro você tomou antes de dormir não foi?

Assenti pondo um comprimido na boca.

— Obrigada – sorri apoiando a garrafa na perna. O garoto me olhou sério com o cenho franzido como se perguntasse o que – Obrigada por me levar até a maternidade, me levar ao médico... Por cuidar de mim agora – murmurei a última parte como um segredo. Ele apenas sorria sem me olhar – me desculpe por ter tentado te matar, eu não quis-

— Tudo bem – interrompeu deixando a bolsa ali e arrastou-se para perto tirando a garrafa de minhas mãos – sei que não fez de propósito.

Assenti engolindo o último gole que restava em minha boca.

Bernardo tocou meu queixo forçando-me a olhá-lo – como se fosse um esforço – ele estava se aproximando do meu rosto, hesitei por um instante pensando se tratar de mais uma de suas brincadeiras.

Olhei para seus olhos negros e foi o meu maior e melhor erro naquela noite, eu me perdi completamente naquela escuridão que de um jeito estranho me cativava e instintivamente ergui a mão para tocar seu rosto. Não sei se era efeito do remédio ou do garoto, mas eu estava tonta e atraída por ele, era como se meu corpo gritasse pelo dele. As pontas dos meus dedos deslizavam delicadamente pelas maçãs de seu rosto, desceram por seu maxilar preguiçosamente acompanhando a protuberância de seu rosto muito bem desenhado, ele fechou os olhos aproveitando as sensações. Seus lábios estavam entreabertos e pela primeira vez me permiti sentí-los com meus dedos, eram tão macios, assim como sua mão ainda em meu rosto.

Esfreguei minha bochecha em sua palma num sinal claro de que gostava do toque.

— Me beija.

Meus olhos se fecharam esperando por seu toque, o garoto deslizou o polegar por minha bochecha até chegar ao canto dos meus lábios, já conseguia sentir o calor do seu rosto perto do meu e no momento seguinte aquela erupção tão familiar dentro de mim.

Aquela sensação era tão boa que podia mover meus lábios junto aos seus por toda a noite e não me cansaria, Bernardo tinha um jeito particular de me beijar, a sensibilidade de sua boca sobre a minha faz-me querer permanecer nos mesmos movimentos, mas a possessividade do mesmo atiça meus mais profundos desejos, é um paraíso obscuro que se forma ao nosso redor.

A mão que antes tocava meu rosto deslizava como uma serpente por meu pescoço e meu colo, eu não dava a mínima, queria mais e mais daquele hater maldito. Apertava sua camisa puxando-o para cada vez mais perto, se pudesse usar as pernas para prendê-lo também as usaria sem pestanejar. Sua boca abandonou a minha indo em busca de outro lugar, um que ele só havia explorado uma vez e era o ponto de partida para ligar todo o meu corpo como uma locomotiva. O pescoço. Sem delicadeza alguma, o garoto afundou os lábios ali apertando minha cintura com força exatamente como eu queria.

Arfei querendo a todo custo zerar toda a distância entre nós dois.

— Não – ele se afastou ofegante – eu não posso continuar.

Balancei a cabeça sem conseguir formar uma frase, minha respiração estava comprometida o bastante.

— Se eu continuar, não vou conseguir parar – defendeu-se levantando da cama.

— Mas eu não quero que pare – falei finalmente olhando para seu rosto — e não sou nenhuma virgem, se é com isso que está preocupado.

Bernardo sorriu voltando a sentar em minha cama, mesmo com uma sombra de confusão pairando sobre seus olhos, provavelmente curioso. Não pude deixar de notar seu corpo trêmulo e sua respiração forte.

— Minhas experiências românticas não se resumiram ao Tadeu — respondi sua pergunta invisível.

Ele franziu a testa sentando-se na cama, demorou um pouco encarando o tapete e sorriu como um pensamento divertido tivesse cruzado sua mente.

— Seria interessante não mencionar outro homem enquanto eu estiver na sua cama – sorri me endireitando na cama – Deus sabe como eu queria continuar, mas não podemos. Você está sensível e não seria certo – eu estava atenta às suas palavras – não seria certo com nós dois.

Ah.

Assenti com a cabeça num gesto quase imperceptível, talvez eu estivesse sensível hoje com todos os acontecimentos, não o julgava por aquilo, até porque ele só estava sendo decente. Decente em nos respeitar.

— Tem a ver com a garota que você gosta, não é?

Ele riu passando a língua no lábio superior, abaixando a cabeça e balançando-a.

— É, de certa forma – respondeu se levantando – conversamos amanhã, Maria Capitolina.

Assenti dando um meio sorriso deixando-o se afastar de mim. Ainda estava tonta, dessa vez um pouco mais do que antes, definitivamente esse remédio era muito forte para mim e meu sistema nervoso. Ou ele.

— Bernardo – o chamei quando passava pela porta. Ele parou para me fitar – eu ainda te odeio.

O hater lançou-me um beijo e apagou a luz fechando a porta atrás de si.

Encostei-me nos travesseiros sentindo toda aquela carga elétrica correr por meu corpo como se procurassem o seu par novamente.

Ri sozinha tocando os lábios na penumbra do meu quarto.

Que diabos está acontecendo com você, Capitu?

Notas finais
Esse capítulo foi reeditado e reescrito. Bom, finalizamos aqui as reedições, agora será tudo inédito. Nos vemos em breve ♥