Notas iniciais
Esse capítulo entra na galeria de favoritos EVER.

Certo, a parte boa de ir ao shopping é poder comprar o que quiser sem ter um adulto dizendo isso ou aquilo. A parte ruim é se essa amiga estiver grávida e for uma maníaca do cartão de crédito.

Já estávamos mais de uma hora andando de um lado para outro procurando roupas de bebê, roupas de adulto e até roupas de cachorro – é sério. A Malu fazia aquilo com tanta destreza que eu me sentia uma idosa, fala sério a garota tá grávida e não reclamou das pernas nenhuma vez, eu me encostava nas paredes e me sentava nos bancos que encontrava tudo para aliviar os meus lindos pés, devia ter vindo de tênis e não de chinelo.

— Acho que nunca comprei tanto na minha vida – comentou rindo enquanto sentávamos – você deveria ter comprado mais.

— Não sei se percebeu, mas estou levando as minhas sacolas e as suas – falei mordendo meu sonho.

Estávamos numa padaria perto de sua casa, ela fazia questão de comer aqui sempre que saía, pelo menos os funcionários nos deixavam pendurar alguma coisa.

— Agora que você está com açúcar suficiente em seu organismo, pode começar a me falar porque estava tão pensativa?

Afastei o doce da minha boca e a encarei. Essa cadela sabe como eu fico quando estou com muito açúcar no organismo, começo a falar besteiras e a fazê-las também. O lado ruim da amizade de anos, sua amiga sempre sabe o que fazer pra te fazer falar, é horrível.

— Não é nada – falar de Tadeu para a Malu é a mesma coisa que falar pro meu padrasto.

Quando tudo aconteceu, ele a chamou para dormir em nossa casa, foi muito fofo da parte dele. Eu contei tudo a ela enquanto chorava e tomava chocolate quente, ela ficou brava, pensei que fosse sair que nem uma louca atrás daquele canalha, mas simplesmente deitou do meu lado e ficou cantando comigo um álbum inteiro de músicas tristes. Mas depois daquilo só ouvi ameaças, cheguei a pensar que fosse rolar uma briga dela com o professor, só que parece que o alien a mudou.

— Ah, claro que não é. Quando eu senti os primeiros enjoos disse a mesma coisa pra minha mãe, e olha só o tamanho da minha barriga – falou tocando a bola – então trate de começar a falar. Foi o Bernardo? Com certeza não, pois por mais que você negue ele te colocou nos eixos. Então só sobram Tadeu e sua família, como eu sei que você pouco sabe sobre eles-

— É, foi o Tadeu sim – murmurei empurrando o prato – eu voltei a pensar naquilo, sei lá, não consigo entender o que ele quer comigo. Caramba, ele arruinou minha vida há dois anos, agora está de volta e... Não sei, eu não sei o que pensar e o Bernardo não me pôs em eixo nenhum.

Ela revirou os olhos tomando um gole do suco.

— E o que você vai fazer com tudo isso?

— Eu não sei – respondi encolhendo os ombros.

— O que você quer fazer com tudo isso?

O que eu quero fazer? Bem, eu queria muito ir até ele e perguntar tudo que está entalado, só que não é tão simples. Falar com ele a essa altura do campeonato é como mexer num ninho de vespas, eu não sabia como reagiríamos a esse encontro, talvez eu surtasse, talvez congelasse – o que era o mais provável – e ainda tinha um pequeno detalhe, eu o ficaria frente a frente com ele duas vezes na semana, com que cara eu ficaria na sala se me sentisse mal assim que o professor substituto entrasse?

— Quero falar sobre outra coisa, caso não se importe – resmunguei desconfortável na cadeira.

Mudar de assunto sempre a fazia perder a linha de raciocínio para arrancar informações de mim, pelo menos por algumas horas. Certa vez ela me ligou às quatro da manhã e me forçou a dizer por que eu estava estranha, eu comecei a falar tudo como se estivesse num psicólogo. Aliás, quando eu fui ao psicólogo saí mais traumatizada do que quando entrei, fui para resolver um problema de ansiedade e voltei pra casa com fobia de zumbis, um mistério pra mim também.

— Bem, a Marina está com o Bernardo – respirei fundo – chamei aquela vaca pra vir com a gente, sabe o que ela disse? "Não vai dar, marquei de sair com o Be". Sacanagem aquela garota nos trocar pelo hater.

— Tomara que se engulam – falei atacando meu sonho. – acho que no fundo eles se merecem. Se bem que ninguém merece aquele garoto.

Peguei o copo de suas mãos levando-o aos lábios, essa minha mania de não misturar líquido com sonho vai acabar me matando asfixiada.

— Ah – ela gritou me assustando – eu quase me esqueci de te falar.

— Garota você tem problema? – perguntei tossindo em seguida. Pensei que ela estava passando mal ou a bolsa havia se rompido.

Ela riu ignorando meus outros xingamentos e pegou a bolsa revirando-a por um tempo, olhei para a rua procurando algo para me distrair, talvez uma calota decepando a cabeça de alguém.

— Achei – disse fazendo-me voltar à realidade – aquele garoto que você acha esquisito mandou te entregar.

Estiquei a mão pegando o papel de suas mãos, bilhetinhos, fala sério, não temos mais idade para isso, hoje em dia os garotos chegam na cara dura e beijam.

— Eu acho todos os garotos esquisitos – falei abrindo o bilhete e franzi o cenho – é um endereço.

— O endereço de uma festa na casa dele, faz questão que você vá.

— Ah não, da ultima vez que fui numa festa fiquei traumatizada por dois anos – repliquei limpando a boca.

Encarei o pedaço de papel amassando-o e jogando no chão, de pessoas me cercando já bastava em casa, não precisava de mais.

— Mas você tem que se dar uma chance, quem sabe não arruma um gatinho que te faça parar de implicar com o mundo?

— Cala a boca, não vou à festa alguma – definitivamente, o inimigo anda fazendo a cabeça de todos contra mim.

Continuamos discutindo sobre ir ou não a essa festa durante alguns minutos até sua mãe aparecer para nos levar pra casa, quando voltei para a minha estava tudo quieto, subi as escadas lentamente com meu corpo gritando por um banho frio e relaxante. Joguei a bolsa em cima da cama e enrolei o cabelo no topo da cabeça olhando-me no espelho, acho que acabei engordando umas gramas, ou é impressão minha. Não sei.

Tirei os sapatos colocando-os ao lado da porta, saí do quarto cantarolando uma música baphonica – desde quando eu falo assim? – passei pela porta do quarto da coisa e o vi no computador como sempre... Aqueles são meus fones?

Voltei até a porta de seu quarto e bati no batente fazendo-o rir. Tenho certeza de que já me viu, ele tem poderes sobrenaturais, só pode.

— Já chegou amorzinho? – perguntou sem desviar os olhos da tela – estava com saudades.

— Não, ainda tô fora.

— Grosseira como sempre – revirei os olhos – e não revire os olhos pra mim.

Suspirei entrando um pouco mais.

— Vai fazer o que? Jogar-me em seus joelhos e dar palmadas no meu traseiro?

Ele riu afastando a cadeira da mesa, tirou os fones e me encarou por alguns segundos. Ergui a sobrancelha caminhando até a mesa para pegar minhas coisinhas.

— Se eu fizesse? – perguntou segurando meu pulso.

— Seria um homem morto – vociferei puxando meu braço.

Era só o que me faltava, agora ele estava com o complexo de Christian Grey. Se ele fosse o próprio, quem sabe eu até considerasse revirar os olhos novamente. Certo, vamos parar por aqui antes que eu ajoelhe no chão e diga "sim, senhor".

— Vê se não pega minhas coisas sem permissão – falei olhando para a tela do seu computador bem curiosa. – o que faz num site sobre distúrbios psicológicos? Nunca ouviu falar que autodiagnóstico é perigoso?

Prendi o riso enquanto ele se virava novamente para a tela. Eu realmente espero que a próxima aba não seja de alguma coisa pornográfica.

— Tentando entender minha vizinha de quarto – falou pigarreando – sabia que a cada crise bipolar o cérebro meio que vai perdendo o sinal?

Ergui a sobrancelha ainda rindo. Admito isso foi engraçado.

— Perdendo o sinal? – foi a vez dele rir – vou logo avisando que já me chamaram de coisas bem piores que "bipolar".

— Tipo o que, gostosa? – meu sorriso desapareceu – para você deve ser uma ofensa. Como eu já disse antes, esses elogios ferem seu ego de macho alfa. E nem me olhe assim, as regras são claras, nada de xingamentos, agressões físicas ou gritos.

— Eu não preciso de alguém me dizendo o quão atraente sou para inchar meu ego, ele é grande o suficiente. E se eu sou como um homem, você deveria tomar cuidado, já que tentou me beijar no banheiro. Por acaso é bissexual?

Bernardo sorriu com os lábios fechados do jeito "Bernardo" de sorrir e se levantou.

— Você quer mesmo entrar nesse joguinho de provocações educadas? – assenti rindo da mesma forma que ele – justo comigo, o mestre?

— Mestre das Bernadetes? Francamente, teria mais medo se fosse dos gatos – provoquei cruzando os braços.

É isso aí Capitolina, mostra que você pode com ele sem gritar feito uma maluca.

— É só isso que tem? – perguntou aproximando-se – vai ter que melhorar um pouco.

Estreitei os olhos dando um passo para trás à medida que se aproximava de mim, ele pode ter uma faca.

— Desculpe, tenho que usar palavras de acordo com a idade do oponente. Algo para preservar sua semântica– rebati sentindo a parede em minhas costas.

Ele riu balançando a cabeça.

— Eu diria que está apenas – parou diante de mim erguendo a mão em minha direção. Engoli em seco, disfarçadamente, seguindo seus dedos com os olhos – confusa?

Senti as costas de suas mãos tocando meu rosto levemente, apenas o rastro de calor causado por sua pele.

Oh meu Deus, faça-o parar.

— Você vai perder essa aposta, Capitu – murmurou aproximando-se mais.

Meus olhos pareciam piscar cada vez mais devagar, ele colocou a outra mão na parede perto do meu rosto, virei a cabeça para olhá-la, ele tinha as veias bastante alteradas no antebraço, coisa que era a oitava maravilha do mundo sob meus olhos. Sua pulseira de couro marrom roçou em minha orelha de repente causando-me um arrepio, encolhi os ombros fechando os olhos esperando aquilo passar quando percebi sua mão abandonar meu rosto e pousar do outro lado da minha cabeça.

— Eu-

Bem, não sei exatamente o que ia dizer, na verdade nem sei por que abri a boca.

— Sim, você – e foi a última coisa que ouvi antes de sentir seus lábios pressionarem os meus.

Não sabia o que fazer e nem pensar, a única coisa que conseguia era sentir meu corpo todo indo a mil, era como uma locomotiva a todo vapor, você só ouve o barulho dos vagões passando pelos trilhos e estremecerem tudo, e era isso o que Bernardo parecia, fazendo-me perder os sentidos e só prestar atenção nele. Coloquei as mãos em seu peito apertando sua camisa enquanto ele me segurava deslizando os lábios nos meus, seu coração estava acelerado sob meus dedos, apertei meus olhos puxando ainda mais sua camisa, não conseguia relaxar, era impossível.

Ele puxou meu lábio superior fazendo-me morder o seu. Estava tão extasiada com aquilo, meu corpo parecia se mover sozinho envolto numa energia poderosa e estranha, mas então agarrando-me a um fio de sanidade voltei à mim afastando-me dele e batendo novamente contra a parede. Bernardo voltou a me beijar ignorando completamente minha tentativa de fugir, enfiou a mão em meu cabelo fazendo-o cair sobre seu braço, passei a puxá-lo mais querendo aprofundar o beijo, sua língua brincava com meus lábio, hora lambendo-os, hora pedindo passagem – que eu lhe dava sendo enganada. Puxou meu cabelo abandonando meus lábios e mordeu meu pescoço – uma senhora mordida – arfei sentindo minhas pernas bambearem.

— Filhota!

Empurrei-o no mesmo instante puxando o ar para os meus pulmões, ele me olhou por um instante e jogou a cabeça para trás respirando com a respiração pesada, a adrenalina passava pelo meu corpo como carro de fórmula um num dia de corrida. Passei a mão no pescoço sentindo um incômodo no lugar da mordida.

Que merda eu acabei de fazer? Como fui me deixar levar por esse... Esse garoto, não, eu não o beijei! Oh sim, você o beijou e gostou bastante, Maria Capitolina.

— Meninos vocês estão vivos? – minha mãe apareceu na porta do quarto fazendo-me saltar.

Arregalei os olhos alternando entre ela e Bernardo, ele engoliu em seco desviando os olhos dos meus e coçando a nuca. Senti minha garganta gelada, era como se um grito estivesse escalando-a para sair, era a sensação de euforia que senti no meu primeiro beijo e as malditas borboletas no estômago, só que dessa vez era mais forte. Bem mais forte, diga-se de passagem.

— Wow – disse mais alto do que eu queria enquanto voltava a respirar – nós aposta... Do – estalei os dedos procurando a frase – nós não esquecemos da aposta.

Ela ergueu as sobrancelhas olhando para nós dois.

— Vocês dois por acaso estavam... – ela começou apontando e sorrindo minimamente. Bernardo se jogou na cadeira novamente, passei a mão disfarçadamente no cabelo imaginando como ele estaria e fiz cara de paisagem – esqueçam, trouxe sorvete, venham antes que eu coma tudo.

Laura sumiu novamente pela porta indo ruidosamente para a escada, aquelas plataformas de quinta, precisava jogá-las no lixo de uma vez por todas.

Joguei o cabelo para trás apanhando meus fones no chão e me dirigi à porta, só então notando o quanto minhas pernas estavam bambas, eu parecia ter acabado de atravessar fios elétricos, isso explica a vontade de pular, parecia estranhamente energizada depois do... Daquilo.

Nota mental: Nunca repetir isso, esquecer que a palavra beijo existe e principalmente. Ele é seu inimigo.

Parei no batente girando nos calcanhares, Bernardo olhava para mim sem expressão alguma no rosto, seus lábios –antes rosados – estavam vermelhos, inchados, talvez tenhamos exagerado um pouco. Virei-me novamente para fora e continuei andando tentando não perder o 'time' e cair da escada, toquei o corrimão segurando-me enquanto descia lentamente.

Isso é loucura – pensei levando os dedos aos lábios notando-os levemente inchados, ri mordendo-os. Balancei a cabeça afastando aquele sorriso bobo e voltei a descer acelerando um pouco mais. Pulei o ultimo degrau indo direto para a cozinha onde provavelmente minha adorável mãe estava devorando tudo sozinha, ela sempre fazia isso quando trazia alguma coisa para nós.

"Filha, trouxe bolo... oops, comi quase tudo."

Apoiei-me na mesa vendo-a comer colheradas cheias de sorvete numa concentração de agradecer aos céus, como ela conseguia ser tão magra comendo como uma leitoa?

— A colher vai ser um pouco difícil de digerir – comentei pegando uma banana, e lembrando-me de alguns dias antes no episódio da "porcaria gordurosa" ri – parece que invertemos os papeis.

Ela ia falar, mas o doce quase caiu de sua boca, rimos enquanto ela pegava algo para se limpar.

— Eu estava vindo pra casa e vi um hambúrguer gigante na lanchonete, aí comprei o sorvete – disse me entregando outro pote.

— Isso não faz sentido algum – ri dando outra mordida na fruta, pelo menos o tempo mastigando não me deixava pensar no beijo.

Balancei a cabeça. Não posso pensar nisso, foca em outra coisa.

Você que não faz sentido algum – olhei para ela com o olhar mais inocente que consegui e puxei o pote para minhas mãos lentamente. Isso vai dar muito ruim – ou pensa que sou trouxa?

— Me recuso a tentar te entender – falei passando o dedo naquela coisa maravilhosa de flocos.

— Você e o Bernardo se beijaram – parei com o dedo na língua e olhei para ela procurando uma boa desculpa para cobrir os vestígios – escrevo isso várias vezes, sei exatamente o que significa cada ruguinha na sua cara.

Passei a mão livre na minha testa.

— Não tenho rugas – resmunguei olhando para baixo.

De repente senti uma vontade estranha de me enfiar debaixo daquela mesa e chorar como uma criança, seria patético, mas necessário.

— Maria...

— Não começa com seu discurso de escritora infanto-juvenil – ergui a mão para ela – nos beijamos, mas não quero falar sobre isso. Tudo bem?

Ela suspirou e sorriu. Claro que tudo bem, é da minha mãe que estamos falando, a melhor mãe do mundo. Correu até mim com os braços abertos e eu me preparei para receber uma sessão de beijos de uma mãe orgulhosa por sua filha ter beijado um garoto.

As lembranças do que aconteceu lá em cima sorriram para mim, respirei profundamente enquanto minha mãe falava algo sobre seu trabalho. Eu devia prestar atenção, mas a minha mente estava ocupada demais fazendo-me sentir aquela energia toda voltando, e eu que pensei que isso só acontecia na ficção. Ri balançando a cabeça novamente.

Ah Bernardo, não sei o que faço com você. Na verdade, não sem nem o que fazer a partir de agora, não conseguiria olhá-lo da mesma forma, talvez com uma terapia de choque.

Agora é oficial, ferrou de vez!

Notas finais
Esse capítulo foi reeditado.