Querido Hater
7 Capítulo 7
Notas iniciais
Ergui a cabeça para ver quem era o sujeito, estava de costas apagando a aula do noturno de ontem – trabalho esse que deveria ser da funcionária mal humorada desse andar. Ele se virou olhando para toda a turma.
Merda ao quadrado multiplicada por cacete!
— Maria?
Engoli em seco sentindo vontade de socar a minha cara. É a droga do Tadeu!
Ouvi uma risada alta lá no fundo, nem precisei me virar pra saber de quem era. Estou tão ferrada, se o Bernardo esquecer aquela mordida com certeza vai me atazanar pelo resto do ano, isso se não acabar abrindo o bocão pro Claudio, esse é outro que se souber da presença desse individuo no meu ambiente escolar é capaz de chamar até o exercito pra me proteger, isso depois de fazê-lo cuspir sangue, acho justo.
Apertei o lápis com mais força do que deveria vendo-o pigarrear e voltar a organizar seus papéis. Ousei olhar para trás e por sorte, o Bernardo estava conversando com uma garota sentada na frente de sua mesa. Pelo menos pra isso essas Bernadetes prestam, diminuir seu campo de visão e ocupá-lo por alguns segundos. Malu estava balançando a cabeça pra mim como se descesse que não sabia de nada, é claro que não, ela só se concentra no pequeno alien desde que completou sete meses.
— Bem – ele começou a falar – a Alice me pediu para passar esse trabalho pra vocês, é em dupla.
Que seja de livre escolha, por favor.
— Podem se juntar com seus amigos e colocar os nomes aqui na mesa.
Olhei para a minha grávida e anotei nossos nomes num pedaço de papel, agora era ter que entregar ao dito cujo, miserável insensível, aproveitador desgraçado.
Certo, chega de adjetivos, vamos ao que interessa.
Os alunos passavam por mim para entregar os nomes ao professor, engoli em seco criando coragem enquanto enrolava rabiscando no caderno. Mas porque a Malu não pode entregar? Simples, ela está grávida e não pode ficar sentando e levantando toda hora, já que o alien pesa pra caramba. Eu sei que sou uma boa amiga.
Uma mão pousou em minha mesa, um cheiro cítrico – do meu perfume – tomou conta das minhas narinas enquanto o ser passava o braço pelos meus ombros aproximando-se ainda mais.
— Que coisa chata não é? – Bernardo perguntou olhando para o meu caderno – logo ele veio-
— Sai de perto – rosnei tentando me conter — ainda não engoli a invasão de privacidade ontem e muito menos a de hoje.
Ele riu pegando o papel das minhas mãos.
— Vou ignorar sua falta de educação e entregar isso – murmurou beijando meu rosto demoradamente – vai ficar me devendo uma, Capitolina.
Eu travei, as únicas coisas que eu conseguia mexer eram meus olhos, seguindo-o por toda a sala. E não, não travei de timidez, foi de ódio, esse desgraçado sabe como me irritar de um jeito que nem eu sabia que era possível. Torci afolha de papel amassando-a o máximo que pude, tinha que me controlar, qualquer arranhão causado por mim naquele verme os meus pais me trancariam na torre sem celular e internet. Engula seu ódio, Capitu, ainda terá muitos meses de convivência com o adorável afilhado do seu padrasto. Maldita tradição de batizar filhos alheios.
Permaneci repassando os motivos para odiar o Bernardo e o Tadeu durante todas as aulas que se seguiram. O professor substituto explicou como queria os trabalhos e ficou por lá conversando com a turma sobre seu método de ensino nesse estágio que estava fazendo ali, santa maldição esse filho da mãe estar se formando em educação física e ter escolhido dar aulas. Porque ele simplesmente não podia abrir uma academia lá na puta que pariu de onde veio e esquecer a minha existência ou pedir estágio em alguma? O que ele quer, terminar o que começou?
Bem, que se dane, não vou ficar torrando meus miolos com esse carinha, o passado deve ficar no passado. Vamos ao presente, Bernardo encostado à parede do colégio esperando a hora de ir, graças aos deuses por eu não ter que ficar muito tempo com ele em casa e muito menos no colégio, já que as suas seguidoras o levam para todos os lugares para tirarem fotos ou sei lá o que mais... Orgia. Credo, não comece a imaginá-lo assim, é contra as regras.
— Você vai pra casa com o Be? – Marina brotou do meu lado com o típico olhar de apaixonada.
Mais essa agora.
— Não Marina, o Be está meio que proibido de se aproximar de mim porque raspou meu cabelo – respondi entediada.
— Errado, ele vai ficar longe da Maria porque essa descontrolada infantil quase arrancou seu braço ontem – a grávida se meteu.
Bufei tirando os fios de cabelo dos olhos. Só não corto essa merda porque gosto do comprimento, só isso.
Puxei meu celular para ver as horas e me arrependi amargamente, tinha uma mensagem do Bernardo saltitando em minha tela. Ah, mas é tão simples, basta não ler. Sim Sherlock, se eu não fosse a curiosidade em pessoa.
"Você não faz ideia do que eu descobri sobre você e o professor substituto."
Franzi o cenho inclinando a cabeça para o lado tentando entender o que diabos ele queria dizer com aquilo. Descobriu algo sobre nós? Isso é impossível, Tadeu não diria nada a ninguém sobre aquilo.
Para. Rebobina. É do Tadeu que estamos falando aqui Maria.
— Algum problema? – Marina quis saber enfiando a cabeça na minha frente.
— Nada – respondi guardando o celular no bolso.
Tentei congelar qualquer pensamento acerca daquela mensagem, era muito provável que aquele idiota tivesse dito algo para o Bernardo, mas também era improvável, já que ninguém chega em outra pessoa do nada e fala esse tipo de coisa. Chega disso, estou ficando confusa.
— Eu vou indo – disse me afastando abruptamente da parede – preciso organizar umas coisas no meu blog, então nada de ligações demoradas ou visitas hoje à tarde.
— Já disse que você é uma criatura amável? –Malu sorriu irônica.
Bati palmas jogando beijos para as duas e me virei para finalmente sair daquele purgatório, precisava me preocupar com outras coisas, como tretas online, conteúdo novo para as Capitolinas e principalmente um plano diabólico para atacar meu vizinho de quarto.
Passei pelo portão me despedindo do porteiro como sempre fazia e rumei para o ponto de ônibus. Sim meus amores, a princesa dá uma de plebeia às vezes, "oká"? Preciso manter minha fama de querida.
[...]
Tentei. Eu juro que tentei não gritar com aquele tarado que ficava passando a mão na minha bunda no meio do ônibus, reclamei três vezes com ele e nada de parar, quando eu finalmente explodi, fiz o maior escândalo dentro daquela joça até cobrador jogá-lo pra fora, o que me causou um belo incomodo na garganta. Isso que dá não usar a potencia vocal sempre, agora ficarei com a garganta inflamada. Tudo culpa do Bernardo, claro.
Depois de descer perto da minha casa caminhei cerca de sete minutos até avistar aquele condomínio maravilhoso que o ogro morava. Tenho que admitir, minha mãe deu um tiro certeiro quando resolveu seduzir o troglodita aposentado que eu tanto amo – mas é segredo, se ele souber não vai me deixar em paz. Nós não tínhamos o que reclamar dele, era um bom marido para a dona Laura e me tratava com respeito sempre. Se eu conhecesse meu pai talvez ele nem fosse tão atencioso quanto o Claudio.
— Maria!
Parei onde estava e me virei para procurar de onde vinha a adorável voz da minha mãe. Um carro prateado parou ao meu lado e logo reconheci a perua de cabelos sedosos ao volante.
— Não era pra estar na redação? – perguntei cruzando os braços sobre o peito, abaixando-me para ver quem estava no outro banco. Calça apertada, camisa preta e fones brancos – o que essa coisa faz com você?
Ela abriu a boca olhando para o garoto e depois pra mim.
— Bem, você não esperou até a hora certa. Combinei com o Bernardo de buscá-los na saída – disse enquanto eu entrava no banco de trás – Claudio avisou que estaria ocupado demais para ficar de olho no Be, e como estou de folga-
— Porque você não me avisou? – gritei para o infeliz que parecia alheio à conversa. Bati em seu braço o mais forte possível – responde babaca!
— Quer parar de me bater? Não sou seu saco de pancada – retrucou tirando os fones – e eu não sou obrigado a nada.
— Ora seu-
— Chega! Melhor ficarem quietinhos ou corto a internet dos dois – minha mãe ameaçou voltando a dirigir.
Afundei de volta no banco contando os segundos para chegar em casa e me trancar no quarto, não iria ficar olhando para aquela cara de bunda o resto da tarde, pois EU que não sou obrigada a nada.
— Vamos fazer o seguinte — ela começou enquanto colocava o carro na garagem – quem conseguir ficar duas semanas sem brigar com o outro, vai ganhar a mesada em dobro no final do mês.
Fiz cara de nojo ao ouvir aquilo, ela estava querendo comprar o meu silencio.
— Mas ele nem é seu filho – argumentei indignada – vai dar mesada a ele?
A vi assentir.
Aquilo era o cúmulo do insuportável!
Primeiro: eu só fui ver a cor de uma quantia maior que dez reais da minha mãe quando o Claudio apareceu, mesmo assim por insistência dele. Segundo: pelo que eu sei, esse garoto ganha uma mesada do pai que é maior do que a minha, sem contar com o que ganha com aquele blog nojento. Terceiro: EU SOU A FILHA DELES. Como podem me tratar dessa forma?
— Eu topo!
— Eu destopo!
— Essa palavra não existe – falou virando-se para me encarar.
— Se eu disse então ela existe – rebati cruzando os braços – e se tentar me corrigir, arranco sua orelha.
E assim ficamos por alguns minutos. Saímos do carro discutindo sobre as minhas palavras e como ele era um aproveitador de mães alheias, e por falar em mãe, a minha estava sentada na poltrona assistindo a nossa conversa bastante madura e enrolando o cabelo no dedo.
Eu não consigo me controlar quando esse garoto me tira do sério, nunca foi histérica e nem violenta, mas desde que o vi parado dentro da minha casa com aquele sorriso idiota, virei a Charlie e descontei todo o ódio que sentia nele. Virou mania e agora estou assim.
— Eu topo.
— Eu topo.
Dissemos ao mesmo tempo fazendo minha mãe rir.
Depois de uma discussão madura finalmente chegamos juntos a uma conclusão, é claro que não ia deixar de competir com esse garoto por mero ciúme da minha mãe, se ele quer perder pra mim, ele vai perder pra mim. Duas semanas sem brigar, claro que aguento, eu sou Maria quase Capitolina, essa aposta 'ta no papo.
[...]
Eu vou surtar amanhã ou depois, esse moleque faz tudo de propósito, não é possível.
Nos primeiros dois dias ficamos apenas nos encarando e falando o essencial para conviver com os velhos, estávamos indo tão bem que nem precisaram levar a medida protetiva a diante. Claudio saía despreocupado, me conhecia bem pra saber que não ia perder uma aposta tão facilmente, faria de tudo para ganhar e foi por aí que minha estrada para o inferno começou.
Usei seu computador e mudei todas as configurações enquanto ele estava no banho, fui para o meu quarto como se nada tivesse acontecido e fiquei limpando minhas unhas até ouvir um soco no batente da minha porta, olhei rapidamente e o vi em um estado de fúria totalmente desconhecido por mim, estava vermelho e mordendo o punho. Se não fosse pela aposta, tenho certeza que teria ganhado um soco dele naquele mesmo momento. Mas esse não é o ponto, e sim porque graças a essa ideia estúpida de provocar sua fúria ele leva vantagem pelo simples fato de que eu me irrito por qualquer coisa. Sim, eu sou uma pessoa de humor seletivo, obrigada e passar bem.
Depois daquela burrada o Bernardo simplesmente passou a me provocar a todo minuto, perdi a conta de quantas folhas de papel já havia amassado na sala de aula, graças à ideia estúpida dele de colar a cadeira na minha e passar todas as aulas mexendo no meu cabelo, eu nem prestava mais atenção no Tadeu, por mais que ficasse me encarando e tentando puxar assunto no colégio, eu me esquivava ou me escondia na sala de limpeza quando ele vinha se aproximando, isso rendia muita chateação do meu querido hater.
— Maria, vai ficar apertando o garfo ou vai comer de uma vez?
Apertei os olhos saindo do meu transe e olhei para o Claudio, depois para a minha mão soltando o garfo na mesa.
— É que esse idio... – parei no meio da frase e respirei fundo tentando ignorar os ruídos feitos pelo mesmo, que mastigava de boca aberta ao meu lado – o Bernardo, está me desconcentrando.
Minha mãe prendeu o riso olhando para o marido, eles estavam meio que cúmplices do Bernardo para me ver no limite do ódio.
— Desculpa amor – ele segurou minha mão – não sabia que estava te incomodando.
— Eu sei que não – sorri cínica tirando minha mão da sua.
Voltamos a comer civilizadamente ignorando a conversa dos velhos sobre como foram seus respectivos dias de trabalho, Claudio estava preocupado com o campeonato que se aproximava, parece que um de seus favoritos quebrou a patinha no treino, bem feito. Minha mãe falava sobre como seu chefe a tratava diferente das outras pessoas da redação, fiquei com ciúmes, resmunguei algo sobre o meu padrasto ficar de olho nos dois e os dois começaram uma pequena discussão.
Comecei a tirar a mesa para cumprir minha parte do castigo, o engraçado é que Bernardo não ia mais cumprir a dele, o que é mais injusto ainda comigo. Quando essa aposta acabar eu vou passar um dia inteirinho gritando no ouvido dele, mesmo que me cause uma inflamação na garganta. Coloquei uma musica pra animar aquilo já que meus pais deixaram um climão na cozinha.
Era uma das minhas favoritas, por isso não conseguia ouvi-la sem dançar e cantar com um sorriso enorme na cara. Esse era meu momento de garotinha, eu parava nas notas certas e voltava a cantar com a mesma animação.
— I really, really, really, really, really, really like you...
— Eu sei disso, não precisa ficar repetindo – virei para trás vendo Bernardo encostado na mesa, me encarando com os braços cruzados e uma seriedade incomum – até que você parecia uma garota... Quer dizer, você estava cantando muito bem.
Pigarreou desviando os olhos.
— Eu sei disso – o imitei jogando-lhe um pouco de sabão e ri sendo acompanhada por ele.
— Quer ajuda com a louça? Tem muita coisa suja – ergui a sobrancelha vendo-o se aproximar.
Ta legal, eu sei que minha musica tem esse poder sobre as pessoas, podem dizer. Eu ainda sorria por causa da cena anterior, pensei que ele estivesse no quarto ou sei lá onde.
— Claro – respondi dando espaço para ele – mas não se acostuma com essa trégua, só te deixo ficar perto porque-
— Está de bom humor – completou começando a secar os copos – e precisa de mim, como na maioria das vezes.
Revirei os olhos empurrando-o com o ombro.
Deus pode mandar o dilúvio porque eu não sei o que fazer com ele. Está acontecendo o que eu nunca pensei que vivenciaria.
— Você fica muito bonita quando sorri de verdade – comentou quebrando o silencio – deveria fazer isso mais vezes.
— Nem comece com suas piadinhas ou enfio esse prato no seu rabo – ele riu alto jogando a cabeça pra trás.
— To falando sério Capitu – mordi o lábio balançando a cabeça negativamente – ver você dançando e sorrindo de felicidade me lembrou a minha mãe.
Parei o que fazia e me encostei-me à pia ficando de frente pra ele. Precisava saber se aquilo era mesmo verdade ou se ele estava me zoando. O motivo? Não faço ideia.
A música mudou para uma mais... Tocante, digamos assim.
Bernardo mantinha os olhos fixos no que fazia, terminava de secar o ultimo prato enquanto eu o analisava. Okay, isso ta muito estranho, pela primeira vez o ouvi falando da mãe, se bem que ele não pareceu muito bem com isso.
— Pareço com sua mãe? – perguntei rindo – obrigada, mas não tenho idade e nem condições psicológicas de ter um filho como você.
— Não disse isso – ele sorriu me olhando — disse que quando você sorri de verdade fica muito parecida com ela.
— E o que isso significa? – cruzei os braços divertida.
Ele se calou por um tempo, parou de sorrir e nem me olhou mais enquanto limpava a pia – o que era trabalho meu.
— Significa que não é da sua conta – resmungou jogando o pano no balcão e dando as costas.
Mas gente, o que eu fiz?
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