Querido Hater
6 Capítulo 6
Notas iniciais
— O que você ta fazendo com isso?
Meu sangue estava fervendo naquele momento, eu podia esperar tudo dele, menos que mexesse nas minhas coisas. Ao mesmo tempo em que sentia raiva dele, sentia medo, era muita coisa ruim revivida de uma hora para outra, ver aquelas fotos faziam meu estômago revirar. Tentei me segurar, ele não podia desconfiar de nada.
Ele se levantou rindo para mim.
— Estava procurando algo pra usar contra você. Caso não se lembre do chute que me deu – essa era uma ótima lembrança – achei dentro daquele diário em branco.
Apontou para o livro aberto em cima da cômoda. Eu usava aquilo apenas para guardar certas coisas, minha mãe não mexia em nada que tivesse cadeado ou algum tipo de lacre, ela mais do que ninguém, sabia que os jovens precisam de privacidade. Era um bom lugar para esconder as fotos, a correntinha com o pêndulo me lembrava de que não deveria vê-las novamente, era proibido para mim mesma. E a pergunta que não quer calar? Porque eu as guardo então? Ora, pelo simples fato de que quero me lembrar dele, apesar de ter me machucado muito, tive bons momentos ao seu lado, foi o meu primeiro amor, meu primeiro beijo.
Certo, pare de pensar nessas besteiras, você não é romântica e para todos os efeitos nunca foi.
— Bernardo, ou você sai daqui agora – comecei no meu melhor tom de ameaça – ou a próxima coisa que farei é me certificar que não vai se reproduzir.
Aquilo pareceu não assustá-lo, ao invés de entrar em pânico o miserável ergueu a sobrancelha ainda rindo.
— Pensei que aquele cara do estacionamento fosse um tarado – comentou ignorando minhas ameaças – mas ele foi seu namorado.
— Me devolve – estendi a mão impaciente demais para ficar esperando.
— Mas já? – a cada palavra dele meu sangue pulsava mais forte. Eu ia acabar matando esse babaca — você fica tão fofa quando está vermelhinha.
Inclinei minha cabeça para o lado avaliando as chances de apagá-lo com só um soco.
Sem pensar em mais nada avancei nele desferindo tapas e socos ouvindo sua risada por eu não alcançar seu rosto, maldito seja ele e sua altura. Enquanto eu batia em seus braços para alcançar as fotos, ele me afastava sem muito esforço, se eu ainda estivesse nas minhas aulas ele ia ver o estrago que eu lhe causaria naquela cara nojenta. Aquele maldito sorriso, a coisa que eu mais odeio nessa vida depois de mamão.
— Para com isso Capitu – disse me prendendo pelos ombros contra seu peito – vai acabar machucando esse rostinho lindo.
— Eu vou te matar – gritei sacudindo-me em seus braços.
Não sei por quanto tempo ficamos naquele jogo de empurra, ele tentava me imobilizar e eu afundar seu crânio, talvez eu conseguisse se fosse uns centímetros maiores que isso. Obrigada genética. Já estava ficando cansada, quando de repente, eis que surge uma ideia, um tiro de misericórdia, a arma secreta, a única chance de me vingar dele, como Jack Sparrow e aquela única bala na Isla de Muerta.
Eu o mordi. Não sei de onde tirei forças e o fiz sem pensar duas vezes ouvindo gritar e me empurrar para longe.
Certo, vamos deixar bem claro que foi em legítima defesa, meu DNA está em sua pele e... Passei a língua nos lábios, sem gosto de sangue. Okay foi só uma mordidinha de criança.
— Você me mordeu, sua maluca – gritou estendendo o braço para ver a pequena mordida. Não tão pequena assim.
Uh, eu preciso admitir o que minha dentista me disse a vida toda: meus dentes são bons. Aquela marca ficaria nele por uma semana, a minha marca, diga-se de passagem.
— Que fique avisado, se encostar no que é meu – abaixei para pegar as fotos no tapete – vai levar mais do que uma simples mordida.
— Você chama essa tentativa de homicídio de simples? Você tem problemas sérios Capitolina.
Rebateu me chamando daquele jeito, nunca ninguém me chamou assim apesar do meu apelido. Sempre foi Capitu, eu até que achei mais bonito. Certo, voltemos ao que interessa.
— Para de frescura – falei saindo da sua frente enquanto ele seguia para o banheiro – deveria se comportar como todos os homens depois que apanham de uma mulher.
— Te dar um belo tapa? – berrou ligando a torneira – eu bem que deveria sua pirralha mal amada.
Ele me chamou do que?
— Repete isso que te arranco os dentes – gritei indo pra cima dele mais uma vez.
— Vem – pegou o barbeador de Claudio e o ligou apontando para mim – passo isso aqui no meio da sua cabeça.
— Babaca!
— Pirralha! – estreitei os olhos para ele, alternando para a maquina barulhenta em suas mãos – sai daqui, anda.
Cruzei os braços desafiando-o. Na verdade eu estava morrendo de ódio por dentro, queria afundar as unhas em seu pescoço até alcançar sua traqueia e apertá-la até que não conseguisse respirar, mas aquela maldita máquina me dava medo. Via como cortava uma barba melhor do que nem sei o que, aquilo no meu cabelo faria um estrago e tanto.
— Se você comentar com alguém sobre essas fotos – comecei dando um passo em sua direção tentando me manter firme – vou transformar sua vida num inferno. Palavra de escoteiro.
Ele sorriu abaixando a maquina.
— Pois é – começou tocando meu cabelo com dois dedos – acho que vou pagar pra ver. Agradeça a seus dentinhos.
— Não vai querer entrar em guerra comigo – disse tirando sua mão de onde estava.
Olhei para seus olhos castanhos tentando intimidá-lo, eu sempre fazia isso com os coleguinhas quando era menor, só que eles desviavam para outro ponto qualquer e não o sustentava como esse verme está fazendo, não vai ganhar de mim Bernardo. Cruzei os braços novamente levando aquela competição mais a sério, Malu nos chamaria de infantis por estarmos fazendo isso, mas não é, pensem comigo, se você entra numa briga é pra ganhar e não desistir nos primeiros trinta segundos.
— Acho que eu vou – sussurrou se aproximando mais.
Bernardo desviou os olhos para baixo e mordeu lábio dando um sorrisinho – admito, isso foi sexy – inclinou o corpo em minha direção para me beijar. Nem pense nisso filho da mãe.
O silencio momentâneo foi preenchido por um estalo.
— Au – gritou afastando-se com a mão no rosto – você me bateu!
Sua expressão era de puro choque, sua bochecha estava vermelha até onde dava pra ver, pela terceira vez eu o machuquei, isso está saindo melhor do que encomenda.
Ri alto jogando a cabeça pra trás enquanto ele me assistia furioso o suficiente para cumprir a ameaça de raspar meu cabelo. Ah merda!
— Agora você me paga – rosnou apanhando a máquina novamente.
— Opa, calma aí Dom Juan – disse dando passos para trás – vamos conversar.
Eu ainda não conseguia parar de rir, era muito bom ver sua cara de bravo.
— Pode conversar enquanto eu raspo sua cabeça – avançou em mim tentando alcançar meu braço.
Soltei um grito saindo de perto dele e batendo as costas no batente, virei para a escada e saí correndo ouvindo-o atrás de mim, tentei descer o mais rápido que conseguia, pela minha experiência em correr pela casa aquilo seria fácil. O som dos nossos pés contra o assoalho se misturava com a minha risada e os xingamentos dele, quando cheguei ao pé tropecei no tapete caindo de ombro do chão duro da sala, maldição, isso parece filme terror. Senti sua mão puxando meu tornozelo enquanto eu gemia de dor, mas ainda rindo – isso lá era hora pra ter um ataque de risos? – prendi minhas mãos no chão chutando o ar para afastá-lo, Bernardo me puxou de uma só vez montando em mim.
Eu ria feito uma idiota enquanto ele tentava segurar meus pulsos, aquilo ficaria vermelho depois.
— Para Bernardo – gritei sacudindo cada parte que eu conseguia.
— Agora é "para Bernardo"?
Ele conseguiu – não sei como – prender meu corpo de lado e colocar o joelho para prender minhas mãos, a graça saiu correndo pela janela quanto ele segurou minha cabeça e ligou a máquina.
Ah meu Deus ele não vai ter coragem... Ou será que vai?
— Não! – gritei choramingando enquanto ele aproximava aquela coisa infernal – Não! Não!
Ele apertou minha cabeça contra o chão e pôs a máquina pouco acima da orelha deslizando-a para trás rindo feito uma criança brincando com lama.
— Meninos! – olhei para cima vendo minha mãe parada na porta ao lado de Claudio. Pareciam mais confusos do que o Rick após acordar do coma naquela série de zumbi.
Bernardo tirou o joelho que prendia minhas mãos e eu aproveitei para voltar a atacá-lo. Ou tentar, já que ele ainda tinha a vantagem de estar sobre mim.
— Seu desgraçado, eu vou te matar! – berrei enquanto batia em sua barriga e ele novamente tentava segurar meus pulsos.
— Bernardo, solta a Maria – Claudio falou se aproximando de nós dois.
— Soltar? Ela vai arrancar minha pele. Não ta vendo como ta possuída?
— Possuída? Eu vou te mostrar o que é estar possuída – gritei enquanto ele se levantava ainda segurando meus pulsos – ta vendo essa máquina? Eu vou enfiar ela no seu-
— Maria!
Meu padrasto se aproximou para assegurar a vida do imbecil enquanto ele me soltava, tentei avançar nele novamente, mas Claudio e suas mãos de ogro me ergueram pela cintura me afastando do garoto. Sacudi minhas pernas de anã tentando alcançá-lo, o verme fazia caretas afastando-se com a mão na virilha, seu rosto tinha a marca vermelha ainda, o que eu acho ótimo, e pra ele se lembrar com que comigo ninguém mexe.
— Já chega! – disse autoritário me fazendo parar de tentar escapar.
Minha mãe que até agora estava quieta, passou por nós abaixando-se para pegar algo no chão. Claudio soltou um braço ainda me segurando como outro, estava me sentindo uma trouxa de roupa suja sendo segurada daquela forma, o pior era que eles estavam conversando como se eu nem estivesse ali. Nunca me senti tão inútil.
— Isso aqui é cabelo? – me virei para ver do que minha mãe estava falando.
Ah não, ele cortou mesmo.
— Mãe – choraminguei como uma criança birrenta encostando a cabeça na clavícula do meu padrasto – ele cortou meu cabelo. Claudio ele cortou meu cabelo.
— Oh minha bonequinha – sorri sentindo a mão dele afagando meu rosto.
Ele fica tão carinhoso quando me faço de vítima perto dele, é como se seu instinto paterno aflorasse comigo.
— Essa idiota quase me esquartejou lá em cima – rosnei virando a cabeça para o moleque.
Sim, eu rosnei mesmo, como um cão de rua.
Dona Laura passou a mão na testa ainda segurando um pedaço de mim, era uma mecha enorme. Levei os dedos ao local sentindo os "toquinhos" que sobraram em minha cabeça, mais ou menos seis centímetros ficaram ali.
— Ah, nós vamos conversar mocinhos.
Ferrou!
Três horas. Isso mesmo ficamos três horas ouvindo sermões dos dois, falaram sobre nossa implicância um com o outro, que não podemos viver sob o mesmo teto brigando sem parar, que era apenas o terceiro dia que ele estava aqui e já tínhamos feito mais estrago do que um casal de girafas num conjugado, eu ri e recebi uma almofadada na cara. Claudio falou de como era bom receber o afilhado em sua casa, que eu tinha que me comportar ou ficaria de castigo, sem mesada, sem internet e sem felicidade.
A mordida de Bernardo estava ficando roxa mesmo com o gelo que minha mãe havia colocado — ela estava cuidando o bebezinho – parecia gostar mais dele do que de mim, isso irritava muito, vê-la mexendo no cabelo dele delicadamente. Argh!
Bem, pelo menos ele não comentou nada sobre as fotos, estavam no meu sutiã, como o dinheiro daquelas tias que vão à feira bem cedo. Tive que engolir meu ciúme e assistir aquele verme ser acariciado pela minha mamãe, se esse fosse o preço por manter a língua dele dentro da boca, tudo bem. Fiquei sentada naquele sofá vendo os dois conversarem com o maníaco da máquina e darem seu castigo, a partir de amanhã ele iria para a academia do Claudio e só voltaria com ele para casa. Ri da cara que ele fez. Eu só teria que lavar a louça até segunda ordem e me controlar, caso contrário sofreria as consequências mais duras.
Depois daquilo eu corri para o meu quarto sem nem me importar com o jantar e guardei minhas fotos, jogando-me na cama em seguida, teria um dia cheio amanhã, começando por ver como a marca estaria naquele braço branquelo.
[...]
— E a sua mãe não te mandou pra cadeia? – Malu perguntou quando terminei de contar o que havia acontecido ontem.
Ela ouviu tudo completamente chocada, disse que passamos dos limites da infantilidade, tentei me defender, mas era como falar com uma porta. Lição do dia: nunca discuta com uma grávida, elas são teimosas demais.
— O melhor de tudo é que me livrei do Bernardo durante a tarde – comentei sorridente enquanto caminhávamos para a sala de aula.
— É, mas ele sabe do Tadeu.
— Não, não, não minha amiga – parei à sua frente – ele acha que sabe. Ele é um idiota, só pensa que fomos namorados e eu ainda sou apaixonada por ele e blá blá blá.
— Será que é só coisa da cabeça dele? Você não é mais apaixonada pelo cara que te fez suspirar horrores, jura?
Vai começar.
— Não, eu não sinto mais nada por ele. Fala sério, até você que nunca foi santa não esqueceria um cara que quase – parei no meio da frase – você sabe.
Não sei como consegui olhar para mim mesma depois daquilo, me senti tão imunda, tão culpada e idiota. Não, não foi culpa minha, ele que é um canalha. Ergue a cabeça, Maria.
— Eu sei – suspirou empurrando a porta da sala – deve ser traumático passar pelo que você passou, apesar de eu achar que isso só acontecesse em série e filmes. Minha estrela de cinema.
Ri afastando suas mãos das minhas bochechas. Fomos para os nossos lugares estranhando a falta da Marina na entrada da escola. Bernardo estava mais ao fundo com uns garotos bagunceiros e as "maluquetes" dele, usava uma braçadeira para esconder o hematoma, assim como eu usava pulseiras para esconder os que ficaram em meus pulsos.
Abri meu caderno procurando as aulas que viriam, Educação física logo de cara, ninguém merece aquela mulher horrível e mandona, horrível no sentido de ser um verdadeiro sargento em aula, e não de beleza, a filha da mãe até que era bem gata.
Um avião de papel pousou em minha mesa. Segurei com os dedos e olhei para trás procurando a pessoa que o mandou, meus olhos encontraram os de Bernardo, ele revirou os olhos voltando a conversar com os amiguinhos. Abri o papel lendo o que estava ali.
"Cabelo legal."
Mas que...
Lembrei que eu estava com meu rabo de cavado de sempre, e a parte pequena aparecia nitidamente posta atrás da orelha. Começaram as piadinhas, que ótimo.
— Bom dia crianças – embolei o avião jogando-o no chão da sala ignorando a piadinha – sou o novo professor de vocês, a professora Alice precisou se ausentar por uns dias.
Ergui a cabeça para ver quem era o sujeito, estava de costas apagando a aula do noturno de ontem – trabalho esse que deveria ser da funcionária mal humorada desse andar. Ele se virou olhando para toda a turma.
Merda ao quadrado multiplicada por cacete!
— Maria?
Engoli em seco sentindo vontade de socar a minha cara. É a droga do Tadeu!
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