Querido Hater
5 Capítulo 5
Notas iniciais
De todas as coisas que eu pensei que pudesse acontecer comigo naquele estacionamento, o Tadeu era a ultima delas, na verdade isso nem passava pela minha cabeça, pensei que esse traste estivesse bem longe, de preferência preso com um bando de mafiosos mexicanos numa cela minúscula. Claudio me garantiu que ele nunca mais voltaria, talvez estivesse apenas de passagem pela cidade, acho que seus pais ainda moram aqui com sua irmã mais nova... Ah por favor, se fosse isso, por qual motivo ele estaria ali naquele lugar? Coincidência não era de jeito nenhum, e se ele quisesse só me cumprimentar chegaria antes.
Merda!
Praguejei tirando o cabelo emaranhado da toalha. Porque tudo não pode ser mais fácil?
Analisei meu reflexo no espelho embaçado e me recriminei por tomar mais um banho quente – lê-se fervendo – tenho que começar a ouvir o que minha mãe diz sobre esses banhos no verão, mas ela também tem que entender que não me sinto bem na água fria. Por falar em água fria, as meninas estão lá embaixo me esperando. Mas o que uma coisa tem a ver com a outra? Nada!
Enrolei-me na toalha e balanceia cabeça para espalhar mais o cabelo, se bem que ele fica melhor preso, escondido e sem todos esses fios caindo na minha cara. Isso aqui é Brasil, calor e mormaço, e quem anda de cabelo solto o tempo todo deve ter problemas mentais. Puxei a porta de uma vez soltando-a para trás arrependendo-me amargamente. Bernardo estava encostado na parede do corredor com as mãos para trás e olhando para o teto, parecia alheio a tudo, até dar aquele sorriso bobo de sempre e me encarar erguendo as sobrancelhas rapidamente. Por infelicidade do destino ele gostava de sorrir para mim sem mostrar os dentes, ficando ainda mais divertida a expressão em seu rosto.
— Suas amigas são uma graça – falou se aproximando de mim.
O medi de cima a baixo querendo ler suas intenções, ele podia bater minha cabeça no batente da porta e dizer que eu escorreguei.
— Por isso são minhas, não suas – respondi dando o meu melhor sorriso cínico.
Ele pôs a mão sobre o peito fingindo-se magoado.
— Você me trata como se não houvesse amor algum entre nós – disse com a voz chorosa.
— Ah cala a boca – esse Mané só veio roubar meu tempo aqui nessa casa.
Maldito seja aquele lutador aposentado e suas ideias de trazer parentes para a minha casa. Não que a casa fosse realmente minha, mas quando o Claudio morrer vai deixar em meu nome já que sou sua única princesinha, pelo menos eu espero.
Entrei no meu quarto sem antes dar uma espiada para trás, se aquele moleque me seguisse com suas manias esquisitas eu juro que afundaria seu crânio com uma escova de pentear, se desse. Tranquei a porta e joguei a toalha na cama, corri para o guarda-roupa apanhando um vestido fresco para aquele dia que tinha tudo para ser infernal. Peguei meu celular na cama e corri para fora descendo as escadas o mais rápido que consegui e novamente só me lembrei do degrau podre quando cheguei ao ultimo, preciso parar com essa mania de correr dentro de casa antes que eu desfigure meu rosto.
— Venham – chamei as duas para a cozinha enquanto cantarolava uma música lindinha que ouvi não sei aonde, mas ficou na minha mente. Que coisa.
Apoiei-me na pia checando todas as notificações das minhas redes sociais, aquilo demoraria muito se eu não tivesse aprendido a ter olhos de águia. Nada além do de sempre, pessoas querendo alguma coisa, outras me elogiando, algumas seguidoras do demônio – Bernardo – me xingando e me mandando parar de dar indiretas a ele, que eu era uma garota mal amada...
— Mal amada? – disse em voz alta lendo de quem era aquele comentário.
Malu fechou a porta da geladeira vindo até mim.
Aquele saco de ossos ambulante me paga, oh se paga.
"Mal amada! Com certeza está assim porque eu não te dou tanta atenção. Pare de implorar, e aproveita e para de "bostejar" em seus textos."
— Você não vai raspar a cabeça do garoto por causa disso, vai? – ela perguntou me encarando.
— Olha o que ele escreveu – quase gritei agitando o telefone na frente de seu rosto – acha que ele merece piedade depois disso?
Revirou os olhos entregando os vasilhames com comida a Marina.
— Vocês são tão infantis – murmurou indo ajudar a outra.
Infantis, até parece. Eu sou a adulta da história, ele quem começou com essas provocações sem sentido, aposto que foi jogada para ter mais visualizações naquele blog ridículo. Invejoso maldito!
— Mudando de assunto – Marina começou – sua mãe ligou, disse que já está vindo com o seu padrasto gato.
— Abaixa o fogo, Claudio não tá a fim de ir pra cadeia.
— Até parece que você não acha ele um gato – Malu se meteu ascendendo o fogão – eu já teria cometido um pecado.
— Claro que teria – comentei rindo.
Claudio era realmente muito bonito, tinha certa mania de arrumar o cabelo perfeitamente antes de sair do banheiro, e sempre estava cheirando bem apesar de dar aulas de boxe. E falando em boxe, a vontade de voltar a praticar estava cada vez maior, se não fosse pelo idiota do Tadeu eu ainda estaria lá, e não sucumbindo ao sedentarismo.
Aquela noite foi tão estranha, tão triste que eu não ousava pensar nela, mas como não pensaria se o idiota brotou na minha frente minutos atrás? Argh! O pior de tudo é que o Bernardo vai comentar com meus pais sobre isso, aí o Claudio vai procurar por ele na cidade inteira e a guerra estará feita. Preciso dar um jeito de tirar isso da mente dele.
— Ai, anda logo Marina, a Constança já deve estar me comendo por dentro de tanta fome, que nem o alien – Malu reclamou afastando a outra do lugar.
— Não é alien que come por dentro, é a filha da Bella com o vampiro verde – repliquei roendo minhas unhas.
— Ele não é verde, é pálido demais por conta-
— Tá, tá. Todo mundo sabe que você ama aquilo, não precisa repetir mil vezes – que droga.
— Que bicho te mordeu?
— O Bernardo te deixa tão perturbada assim? Se eu não te conhecesse diria que está muito ligada nele – Malu riu enquanto eu pegava os pratos no armário.
Era só o que me faltava agora.
— E porque ela não poderia estar ligada nele? – foi a vez de Marina se meter.
— Porque ela não se apaixona por ninguém – deu de ombros.
— Porque a Capitu não se apaixona por ninguém?
Respirei fundo deixando que as duas discutissem sobre os meus sentimentos, era melhor eu não me pronunciar sobre nada, a Malu sabia bem como despistar qualquer curioso acerca dos meus segredos mais obscuros. Risca o obscuro, nem foi nada tão grave assim, dependendo do ponto de vista, é claro.
— Ela não acredita no amor, por mais que a mãe dela acredite e escreva sobre isso, a anormal aí se recusa em acreditar que duas pessoas possam se amar genuinamente – ri internamente. A Marina não sabia quase nada sobre mim, estava há muito pouco tempo conosco e nunca deixamos escapar nada.
— Nossa, eu pensei que você fosse amarga, mas não a esse ponto.
— Eu não sou amarga – protestei incrédula, era assim que as pessoas me viam?
— E o papai Noel não existe – Bernardo disse entrando na cozinha.
Erguia cabeça para vê-lo em sua total insignificância enquanto entrava com o cabelo molhado e o sorriso idiota. Ele tem que viver sorrindo?
— Mas o papai Noel não existe seu burro – falei cruzando os braços.
— Você que pensa, ta?
Eu não mereço isso, além de insuportável ele é louco.
[...]
Ficamos ali brigando por mais um tempo até que nossa comida ficou pronta, e como num passe de mágica, todos estavam calados e comendo, meus pais chegaram para lavar a louça e nos mandaram fazer algo útil. Dei um jeito de tirar Bernardo de perto do Claudio com a ajuda da Malu, fiz ela pedir alguma coisa ao traste, de preferência que demorasse o suficiente para ele focar em outra coisa. Meu padrasto estava alternando o olhar para mim e para o saco de ossos a cada vez que eu fixava os olhos nele enquanto falava, precisa cuidar da situação, mas com certeza percebeu alguma coisa de muito errado. Estou frita com farofa e azeite.
Arrastei Marina para o sofá para ver alguma coisa na TV – e para fugir dos meus pais. Meus pensamentos vagaram por diversos lugares, inclusive no estacionamento da escola, era tão estranho revê-lo depois de quase dois anos, aqueles olhos azuis tão lindos. Não, são horríveis e tristes... Porque estavam tristes? Não faz sentido algum isso, ele tem uma vida legal, pelo que sei não é a ovelha negra da família como certas pessoas, também não é feio. Ah, pare de pensar nele.
— Meninas, fiz brigadeiro – minha mãe aparece na sala segurando uma tigela cheia o suficiente para nos cáries e vermes por anos – esse era o seu trabalho, ouviu Capitu?
Saí do meu transe pegando uma colher em sua mão. Ela me olhou com a sobrancelha erguida querendo saber o que se passava comigo.
— Cadê o Bernardo? Quero xingar alguma coisa – perguntei olhando para trás.
— Do seu lado, amor – maldito.
Virei de volta vendo-o sentado na poltrona ao lado do sofá.
— Certo, estou indo para a revista – minha mãe falou retomando a postura de mulher de negócios – tente não matar o Bernardo, e o senhor não mexa com a oncinha aqui.
Oncinha, mais essa agora.
Observei ela correr para a porta toda contente, com certeza vai receber aumento hoje, a chefe só falta lamber o chão que ela pisa. E tem mais é que lamber, não é qualquer um que tem uma escritora famosa trabalhando em sua revista ou seja lá o que for. Meu padrasto passou por mim dando um beijo em minha testa, quase não nos falamos hoje, que pena, gosto desse troglodita me enchendo o saco e me paparicando.
Finalmente sozinhos.
Ficamos jogados no chão da sala comendo brigadeiro e vendo filmes de comédia, Marina se aproximou mais do Bernardo, ficaram brincando o tempo todo de uma espécie de adedonha, escolhiam um tópico e tinham que dizer o mesmo nome ao mesmo tempo, estava engraçado antes de se tornar chato e eu gritar com os dois, pra variar eu quase avancei nele, o que resultou num show dramático da Malu sobre o bebe estar dormindo em sua barriga e parto prematuro na mesa de centro. Achei melhor deixar os esquisitos cochichando e se alisando no canto do sofá enquanto assistia a clipes com a grávida, era tão bom dançar sem me preocupar com nada, esquecer os problemas ao som de uma diva do pop numa de suas canções cômicas. Lembrei de quando conheci a Malu, ela era tão perdida na vida, viva no mundo da lua onde os unicórnios habitam.
Depois de dois dias eu me aproximei dela, nos tornamos amigas inseparáveis desde aquele momento, ela esteve comigo nos piores e melhores momentos me mandando engolir o choro ou me dando um banho de água fria, literalmente.
— Acho que vou para casa – Malu falou colocando as batatas de lado – acho que já comemoramos demais a sua vitória.
Puts! Eu me esqueci completamente do jornal, mas que se dane, terei o ano inteiro para pensar sobre isso, eu acho.
— A Constança vai nascer rechonchuda – brinquei tocando sua barriga – aimeudeus, eu toquei na sua barriga!
Eu nunca havia tocado na barriga dela, acho estranho demais.
— Idiota – ela riu se levantando – melhor se acostumar com minha barriga e o bebê, vai ser madrinha dela.
— Vou pensar se aceito – me levantei também – Marina, você vai também?
Não obtive resposta.
Malu apontou para trás de mim, olhei na direção e vi os dois conversando no maior climinha, isso explica a paz dessa sala. Revirei os olhos jogando uma almofada neles.
— Maria, espere a sua vez – disse debochado olhando para mim.
— Prefiro a morte – sorri falsamente.
— Certo crianças, vamos dar por encerrado a confraternização – glórias ao pai por isso. Não pelas meninas, mas pela coisa que ficou empatando.
Marina se levantou preguiçosamente, acompanhada pelo namoradinho ou sei lá o que. Ele parecia mais sério, talvez irritado por eu ter interrompido seu flerte com a minha amiga, coisa que eu faria a todo tempo daqui pra frente, não quero que a coitada se envolva com aquilo, parecia ser um cafajeste – vale lembrar que ele estava aos beijos com uma garota mais cedo.
Levei as duas até a porta, e como boas amigas que somos, demorou mais vinte minutos até que nos despedíssemos de uma vez, essa é a vantagem de ter uma boa amizade, as despedidas diárias acabam não sendo ruins. Uh, vou colocar isso no blog.
Fechei a porta voltando para dentro, precisava dormir um pouco, ou ficar vagabundando na internet, caçando treta com meus haters – bem maduro da minha parte, devo acrescentar – mas é divertido, quando me canso vou fazer as atividades do colégio.
Subi as escadas correndo novamente e entrei no quarto assustando-me com um ser sentado na minha cama segurando uns papéis.
Ah não, você não mexeu aí filho da mãe.
— Parece que alguém tem segredos – comentou rindo enquanto erguia as fotos para eu ver.
Fotos em que eu estava com o Tadeu.
Fale com o autor