Querido Hater
4 Capítulo 4
Notas iniciais
Já havia perdido a conta de quantas vezes pedi ou mandei esse imprestável parar o carro, ele apenas assentia e continuava dirigindo, começava a cogitar puxar aquele volante e nos atirar num poste, mas eu tinha que me acalmar, não podia simplesmente entrar em pânico por voltar à academia do Claudio e ver aqueles lutadores, sentir toda aquela vergonha novamente, todos iam me olhar e lembrar daquele episodio. O que estou pensando? Sou Maria quase Capitolina, não vou me abalar com algo que aconteceu anos atrás. Okay mas esse surto de superação vai ficar para outro dia, não que eu esteja com medo, não tenho medo de nada.
— É melhor você parar esse carro antes que eu pule – avisei com os braços cruzados sobre o peito.
Ele olhou para mim e respirou fundo como se estivesse a ponto de me chutar dali.
— Vamos lá Capitu, não pode ser tão ruim ver lutadores. As garotas geralmente gostam disso – Bernardo parou um pouco e arregalou os olhos virando-se para mim – ah meu Deus, você é lésbica!
Eu não mereço isso.
— Cara, que foda – disse fingindo entusiasmo – eu sempre quis pegar uma lésbica, penei que isso fosse uma tara, cheguei até a fazer um tratamento, pois o médico da minha tia disse poderia ser um problema psicológico e eu me tornar um desses assassinos. Mas eu nunca senti atração por você, só repulsa. Você me curou!
— Bernardo cala essa boca e para o carro! – gritei balançando as mãos no ar.
— Então você admite que é lésbica? – perguntou parando no semáforo.
— Espero que você bata num caminhão e vá direto pra o inferno – disse tirando o cinto.
— Isso é muito maduro da sua parte – gritou enquanto eu saía.
Mostrei-lhe o dedo do meio e bati a porta do carro com mais força do que era prudente, Claudio obviamente me mataria se descobrisse uma marquinha mínima em sua preciosidade – depois de mim e da minha mãe, é claro.
Atravessei a rua indo direto para o ponto de ônibus, olhei no relógio e pelos meus cálculos havia acabado de passar um, se conheço bem, o próximo vai demorar uma eternidade e não estou disposta a esperar. Ao longe vi um ponto de taxi, risca o táxi porque eu não tenho dinheiro algum, mas os taxistas não tem como saber, logo eu posso pegar um e rezar para que minha mãe esteja em casa. Corri até lá olhando rapidamente ao redor esperando ver algum vazio, era incrível, mas parece que todo mundo resolveu usar esses carrinhos brancos para se locomover. Talvez se alguém cuidasse dos transportes públicos sobraria ao menos um para mim.
Resumindo, tive que vir para casa a pé, então quando Claudio chegar eu terei o prazer de dizer que seu afilhado abandonou a sua princesinha no meio da rua à mercê de assaltantes, estupradores e serial Killers.
— Demorou, já estava pensando em ir te buscar – congelei enquanto fechava a porta.
Apertei os olhos virando-me lentamente e vi o idiota jogado no sofá comendo uma maçã como se já estivesse ali há muito tempo. Desgraçado maldito, com certeza fez tudo isso de caso pensado.
— Eu ia dar uma passada na academia, mas assim que te deixei me senti triste, vazio, um verdadeiro emo – disse sentando-se – então voltei para casa na esperança de te encontrar. Senti sua falta Capitu.
— Você é um demônio.
Joguei as chaves na mesinha atrás do sofá lançando um olhar mortal para ele antes de ir para a cozinha, ouvi o som irritante dos seus chinelos sendo preguiçosamente arrastados. O miserável estava me seguindo.
Oh isso é um pesadelo.
— O que eu falei sobre ficar no meu caminho? – perguntei virando-me, e por sacanagem do destino ele estava perto o suficiente para que eu me batesse nele.
Percebi que eu sou ridiculamente pequena em relação a ele, minha cabeça chega a seu pescoço e só, é uma verdadeira maldição. Ergui os olhos vendo seu rosto descarada e irritantemente bonito.
Senti suas mãos tocando meu cabelo, deslizando os fios por seus dedos enquanto sorria. Bati em seu braço afastando aqueles tentáculos imundos dos meus lindos e um pouco bagunçados fios.
— Quer parar de fazer isso? Não quero que me toque – disse rispidamente.
— Eu gosto do seu cabelo, se isso te irrita é só raspar – piscou sorrindo.
Sério, me digam qual é o problema desse garoto.
Primeiro diz que vai ficar fora do meu caminho, depois fica com piadinhas, me leva para o colégio aborrecendo-me durante todo o caminho até me fazer bater a cabeça, depois se bate em mim na escola, me provoca, me deixa no meio da rua e agora fica com esse sorrisinho idiota.
Dei-lhe as costas indo para a cozinha, estava bem arrumada, o que significa que minha mãe havia saído há muito tempo, o que também significa que ela e Claudio não ficaram de agarramento. Peguei a minha garrafinha na geladeira e corri para o quarto para me trocar.
[...]
"Vamos começar falando sobre vizinhos barulhentos e inquilinos indesejados. Não sei bem o que é pior, o vizinho mora perto de você, e o inquilino dentro da sua casa então... o inquilino é pior.
Se algum dia a mãe de vocês disser: fulano está vindo morar aqui. Simplesmente diga não, arme um verdadeiro barraco, faça greve de fome, mas não deixe isso acontecer. Sério, a tua privacidade vai pro buraco, sempre terá alguém mandando você ser simpática para que a pessoa não tenha más impressões e sim, eu estou falando do "Bernando".
Ele simplesmente brotou aqui dentro de casa quando eu menos esperava, minha vida se transformou num inferno, pois a todo o momento do meu dia estou com pensamentos assassinos que desconhecia até a semana passada. E eu também sei que vocês vão dizer: não ligue pra ele, blá blá blá... É isso que ele quer.
E já chega, não estou com paciência hoje.
E como algumas já sabem, sou uma das candidatas a assumir o jornal da escola, devo avisar à Melissa Toledo, aquela garota que é líder do conselho estudantil – que eu nunca soube da existência – eu já ganhei essa e quem fez o meu discurso foi você mesma. Obrigada, não fazia ideia de que precisava de um.
Por hoje é só, volto amanhã com as boas notícias".
Respirei fundo fechando o computador e me levantando para o jantar, pelo menos eu espero que já tenha um jantar pronto, se conheço bem a minha mãe deve ter se envolvido com uma matéria nova da revista, ela ama aquele emprego e não hesitaria em me trocar por uma promoção. Mentira, ela me ama acima de qualquer coisa aqui na terra.
Puxei as mangas da minha blusa e calcei meus chinelos, a porta do quarto da frente se abriu na mesma hora, pela primeira vez eu o vi sem camisa e até que é bonitinho. Olhei para seu rosto inchado e o cabelo bagunçado e fui para a escada. Desci correndo mais uma vez só me dando conta de que tinha um em falso, meu coração gelou mais uma vez, certamente estou cansada de viver, só não me dei conta. Olhei em volta procurando meus pais, nada deles, ah como é bom estar em casa sozinha numa segunda à noite, não tão sozinha como gostaria, mas enfim, é legal do mesmo jeito.
— Porque você não pode andar como uma pessoa normal? – girei nos calcanhares dando o meu melhor sorriso falso – estou com dor de cabeça.
Bernardo jogou-se no sofá cobrindo o rosto com uma almofada, aproveitei para olhar melhor o seu corpo... Pra ver se tinha ficado alguma marca na canela, sabe? Pro meu azar não ficou uma marca muito grande.
A porta foi aberta e Claudio entrou rindo com minha mãe segurando sua mão, obviamente que meus pensamentos não são nada apropriados para o horário, mas vamos nos conter até que alguma coisa seja dita.
— Ah, olha só Laura, eles estão se dando bem.
O garoto tirou a almofada da cara e olhou para mim entediado.
— Isso é ótimo! – minha riu exageradamente e puxou o marido para um beijo cheio de paixão.
Pisquei um pouco chocada com o que via, ela tinha vergonha de fazer isso na minha frente. Certa vez eu até brinquei que o Claudio deveria dar alguma coisa pra ela ficar alegrinha...
— Você tá bêbada? – perguntei, ou gritei.
— Cala a boca, Maria – Bernardo jogou a almofada em mim, mas não desviei os olhos do casal adolescente agarrando-se como se estivessem no cio.
— Mãe! – cruzei os braços esperando que ela me desse atenção, mas a única coisa que consegui foi um aceno antes de vê-la subir com o Claudio.
Abri a boca sentindo-me num seriado da Disney onde a protagonista é obrigada a ver a mãe se portar como uma de suas amigas. Não é que eu seja careta que acha que a mãe não pode dar uns pegas no marido, mas quando isso acontece na minha frente é um pouco demais.
— Vai ficar com essa boca aberta até quando? Parece uma atriz pornô.
Olhei para ele tentando ignorar o comentário ridículo.
— Você é sempre tão nojento? – fechei as mãos sentando-me na mesa de centro – é a minha mãe bêbada e...
— E daí? Você nunca bebeu demais e acabou fazendo o que não devia?
As lembranças voltaram fazendo meus lábios formarem uma linha reta. Tudo passava diante dos meus olhos como fotografias, as bebidas coloridas, o falso sabor de suco, os beijos, o sorriso dele.
— Boa noite Bernardo – disse me levantando.
— Boa noite Bernardo? – repetiu sentando-se – o que aconteceu com você?
Ignorei seu sorriso e voltei para as escadas, precisava de mais um banho para afastar todos aqueles pensamentos e me concentrar apenas no meu discurso amanhã.
—... É por isso que eu digo, o jornal é algo que vai ajudar a todos dessa escola, os alunos a saberem sobre eles e sobre as notas, os professores para saber o que acontece com os alunos, sem contar que tenho em meus planos fazer uma espécie de indireta no queixo – eles riram – se alguém quiser mandar uma indireta a alguém é só deixar um bilhete na urna que farei questão de mandar aquela indireta básica. Mas também é claro que para que isso seja possível, é necessário que a responsável pelo jornal esteja presente, e com todo o respeito, Melissa, todos sabem que o seu desempenho à frente do conselho estudantil não foi dos melhores, simplesmente nada mudou em nossa escola, não como eu quero mudar usando o jornal como principal ferramenta.
Entreguei o microfone para a diretora ouvindo uma salva de palmas seguidas de assovios e gritos. Sentei-me de volta no banco enquanto a mulher continuava com seu discurso sobre a importância desse veículo de informação e essa coisa toda sobre responsabilidade.
Passei os olhos pelo auditório só para me distrair um pouco, Malu estava ao lado de Marina mexendo no celular e acariciando a barriga enorme, definitivamente aquilo deve incomodar muito. As minhas seguidoras conversavam animadas, pelo menos as que estavam no meio ou no fundo, as do Bernardo prestavam atenção no que era dito, e por falar no diabo... Ele estava beijando uma menina na ultima fila de cadeiras, ela enterrava as mãos em seus cabelos enquanto ele estava mais preocupado em enfiar a língua em sua boca. Meio nojento, apesar de que seus lábios pareciam muito convidativos – não para mim – e carnudos, do jeito que eu gostava. Agora sou uma puritana de língua afiada.
— Então, quem quer que Melissa Toledo assuma o jornal, levante a mão – a mulher falou animada.
Fala sério, levante a mão?
Para a minha surpresa, muitos alunos levantaram as mãos, até a coisa maldita, o que não me espanta nenhum pouco.
— E para a Maria Reche? – seria tão mais bonito se fosse Capitolina.
A maioria levantou gritando, ah meu amor, nada do que não já sabia.
Dei o meu melhor sorriso e levantei indo em direção ao microfone novamente. A diretora nem precisou dizer nada, apenas olhou para mim e sorriu enquanto dava alguns passos para trás.
— Bem, obrigada – ri para todos – prometo não decepcionar os que acreditaram em mim, na verdade nem precisava prometer. Eu sou a Capitu – mais uma vez todos fizeram algazarra.
Agradeci mais uma vez e pulei do palco indo até as duas retardadas que pulavam de alegria – no sentido figurado – e as abracei.
Mais uma conquista para mim, tenho que começar a me candidatar a mais coisas, quem sabe um dia não serei uma deputada ou presidente do país? Fui longe agora, mas o que interessa realmente é que agora eu posso esfregar na cara do Bernardo e de suas seguidoras que estou uma casa acima na cadeia alimentar escolar, sou a jornalista que sabe dos podres de cada um e que vai conseguir uma matéria de capa sobre o quão problemático é o novato com sua família invisível. Oh sim, ele nunca falava da família, nem do pai ele falava e o meu sétimo sentido gritava que havia alguma coisa muito estranha nisso tudo. O meu sexto é a persuasão, lidem com isso.
— O que faremos para comemorar? Nem falem em pizza, a da cantina é horrível – Marina dizia enquanto nos acompanhava para a porta do lugar.
— Humm, estou com um desejo de comer brigadeiro – a outra comentou fechando os olhos como se sentisse o cheiro do chocolate.
— Certo, na minha casa às três da tarde – disse parando na frente delas.
— Ora, não fale com suas amigas como se fossem crianças – revirei os olhos ouvindo a voz de Bernardo.
Ele parou ao meu lado e tocou o meu rabo de cavalo colocando-o em meu ombro. Pergunto-me porque infernos ele tem essa mania de pegar em meu cabelo, é irritante.
— Vamos todos almoçar lá, tenho certeza que a tia Laura vai ficar contente – comentou pousando a mão em minha cintura – vocês topam almoçar comigo e com a Capitu?
As meninas trocaram olhares confusos e depois me encararam como se eu fosse algum tipo de aberração. Só então me dei conta de que a mão dele ainda me apertava em sua direção.
— Você chamou a minha mãe de tia e convidou pessoas para a minha casa? – perguntei afastando-me dele e fitei as meninas – eu as convidaria de qualquer maneira, só que esse imbecil se vê no direito de fazê-lo.
— Sem declarações de amor em público querida, sabe que sou tímido.
— E não me chama de querida! – esbravejei apontando-lhe.
Bernardo ergueu as mãos em defesa e deu uns passos para trás sorrindo ridiculamente sedutor, só agora notei que ele se veste como um rebelde sem causa, talvez seja algo relacionado a seus pais, talvez ele fosse rejeitado por usar drogas. Detalhes, meros detalhes que vão fazer a minha primeira matéria bombar.
— Preciso fazer uma coisinha antes de ir – comentou gesticulando para o auditório, provavelmente aquela vaca estava inclusa. Certo, eu não a conheço e não posso chama-la assim – me esperem no carro.
Lancei um olhar para as duas que prendiam o riso e dei as costas caminhando depressa para o automóvel, que infelizmente Claudio emprestou novamente e eu tive que aturar aquelas perguntas irritantes por todo o caminho. Meu padrasto tinha que rever algumas coisas em relação ao afilhado, era menor de idade e com certeza daria o maior problema se algum policial nos parasse, não que isso não fosse divertido de ver, mas o Claudio levaria uma multa descomunal.
E por falar em multa, eu deveria colar uma enorme na testa daquele imbecil do Bernardo só por nos fazer ficar esperando.
— Maria?
Estremeci ao ouvir aquela voz doce que acariciava os meus ouvidos e eu conhecia muito bem, reconheceria até seu sussurro numa multidão. Foco, eu não posso parecer vulnerável perto dele, ele é só um babaca que deveria estar na cadeia.
Olhei para trás vendo-o incrivelmente bonito, como sempre foi, mas o cabelo um pouco maior e mais arrepiado, a barba rala que o fazia parecer mais velho, assim como os músculos que nunca estiveram ali.
— Tadeu – tentei sorrir – não sabe a ânsia que me dá em te ver.
Ele riu se aproximando um pouco mais.
— Senti sua falta – fiz uma careta enquanto meus olhos teimavam a ficar grudados naquele peitoral – pensei que tivesse se mudado depois daquele acidente.
— Eu não chamaria de acidente – sibilei estreitando os olhos e ele abaixou a cabeça – agora saia daqui.
Malu tocou meu braço tentando me acalmar, só ela conhecia aquela história além dos meus pais.
— Maria...
— Sai! – gritei contendo o nó formado em minha garganta.
— Algum problema por aqui? — Bernardo apareceu pondo-se na minha frente – você não a ouviu? Saia daqui antes que eu te mostre o caminho.
Ah meu Deus.
— Tudo bem – Tadeu falou olhando para mim – até mais, Maria.
— Vá pro inferno – mostrei o dedo do meio ignorando o que minha mãe me dizia desde pequena: isso não é algo para uma moça fazer.
Mas quem se importa com modos quando está a ponto de explodir? Pode não parecer, mas esse cara consegue me fazer sentir tudo ao mesmo tempo, graças ao passado que eu adoraria esquecer.
Fique parada observando-o caminhar para longe lentamente, vez ou outra olhando para trás e sorrindo. Aquilo parecia mais um pesadelo, ele não podia estar aqui, muito menos vir falar comigo depois de tudo o que Claudio lhe disse.
"Fique longe da minha filha ou eu acabo com a sua raça"
Foi a primeira vez que ele me chamou de filha, sinto-me mal por nunca tê-lo chamado de pai, eu o via como um. Não dizem que os pais são o primeiro amor e herói de uma garota? Ele tem ótimo desempenho nas duas coisas.
— Quem era aquele cara? – Bernardo perguntou puxando meu braço antes que eu abrisse a porta. Olhei para sua mão com a sobrancelha erguida e ele me soltou.
Não parecia nervoso, só curioso demais.
— Ninguém – Malu respondeu me empurrando – vamos logo que estou morrendo de fome. Não vai querer ver uma grávida irritada, vai?
— É, ela pode fazer você sentir dor de barriga – brinquei sentando no banco.
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