Querido Hater
3 Capítulo 3
Notas iniciais
— Você parece irritada, mais do que o normal – Malu comenta enquanto como sua salada de frutas.
Irritada é pouco, tudo pareceu conspirar contra mim no exato momento em que o Bernardo pôs os pés dentro da minha casa – da casa do Claudio. E por falar naquele lutador, o ogro foi o primeiro a me trair, ficou um bom tempo conversando com o idiota enquanto arrumavam os equipamentos, ele nunca me ajudou com essas coisas. Okay admito que se eu deixasse alguém me ajudar em qualquer coisa o Cláudio seria o primeiro a se voluntariar, mas o ponto não é o quão cabeça dura e teimosa eu sou, vamos ao que realmente interessa.
Começou quando chegamos à escola, aquelas garotas tirando conclusões atropeladas e precipitadas, só porque uma garota chega acompanhada não quer dizer que esteja com o macho em questão, ela pode estar sendo sequestrada, forçada ou dando seus últimos passos em vida. Voltando ao assunto, o verme ficou na minha sala, e como senão bastasse fez amizade com todo mundo em menos de oitenta minutos, isso é impossível de se conseguir, e quem ficou com o posto de metidinha sem humildade fui eu, eu não sou obrigada a ser humilde só porque algumas pessoas me conhecem, não gosto disso, assim como não sou obrigada a ser simpática com qualquer um que olhe em minha direção. Não sou cachorro de criança pra abanar o rabo a todo o momento.
— Ei, você vai acabar quebrando o copo de tanto que aperta – olhei para minha mão soltando o copo plástico em seguida.
Desviei o olhar na direção das risadas e o vi no centro da mesa rodeado por suas fãs.
— Não entendo porque gostam tanto dele, é um animal –falei incrédula – olha só o que ele fez comigo.
Apontei para a mancha roxa e avermelhada em minha testa, Malu riu balançando a cabeça.
— Ele é legal-
— O que? – quase gritei – essa criança está sugando sua sensatez?
— Maria – começou fazendo-me olhá-la – lembra-se do que sua mãe sempre te diz quando vocês saem e do nada você olha para alguém e diz que a odeia?
— Uma coisa não pode ser ruim só porque você não gosta – repeti as palavras da dona Laura e revirei os olhos – mas ele é um mané comigo, tenho todo o direito de odiá-lo.
— Tá bom, tá bom – concordou – mas com os outros ele é legal, por isso sua mesa está cheia, se você sorrisse mais para as pessoas, quem sabe fosse assim também, ou quem sabe até conseguiria atrair os garotos.
— Rá — ri jogando a cabeça para trás – rir para todos e acabar grávida sem nem saber se o cara vai assumir? Não, obrigada.
Ela me lançou um olhar triste como sempre fazia quando eu lhe dava um tapa de realidade.
— Não me olhe assim, você sabe que é verdade – mordi o meu lanche gorduroso e limpei a boca – e é por isso que sou a melhor amiga que você poderia ter, não fico te dando falsas esperanças. Quando essa criança nascer a sua vida estará em stand by por no mínimo três anos.
— Que horror Maria, você fala como se essa criança fosse uma praga.
Dei de ombros.
— Para mim, todas são umas pragas. Fala sério, pra que colocar uma coisa pequena e mole dentro de alguém? Seria bem mais fácil colocá-los numa cápsula e tirá-los depois dos dez anos, olha só que maravilha, sem choro, sem vômito, sem cocô e xixi-
— Ah cala essa boca – me interrompeu séria enquanto eu ria – quando tiver uma vida dentro de você, verá toda a verdade e beleza em ser mãe.
— Prefiro ficar na ilusão – disse, pondo um ponto final na discussão.
Debrucei-me na mesa puxando meu celular para passar da fase setenta de um joguinho maravilhoso, simplesmente viciei nesse troço antes mesmo de aprender a pronunciar seu nome rapidamente. Baixei e comecei a jogar na primeira aula enquanto o professor fazia seu discurso de boas vindas ao nosso ilustre panaca, entre uma frase outra eu o ouvi mencionar algo sobre novo-alguma-coisa, eu sei que foi importante, pois toda a sala começou a murmurar, sim eu sei que não devia usar o celular em sala de aula, me processem.
Os professores não costumam pegar no meu pé, eu sou tipo uma celebridade aqui, tinha certa relevância na internet, uma mãe escritora e conhecida, um padrasto gos... ex-lutador, notas excelentes mesmo tendo um comportamento "diferenciado". Eu nunca ia para a diretoria por motivos de mau comportamento.
Merda! Mais mensagens de Bernardetes.
Bufei empurrando o aparelho para longe e vi Marina se aproximando sorridente. Ela, uma das minhas seguidoras, está quase na posição de amiga, já que sempre conversamos e eu não dou um jeito de afastá-la com meu jeitinho simpático.
Apoiei o queixo na mão esperando-a chegar, Malu fazia caretas e se mexia no assento, provavelmente seu alien estava se virando dentro dela. Isso é tão nojento que me arrepia.
— Maria, finalmente te encontrei – disse sentando-se na minha frente – todos estão comentando sobre o Bernardo, parece que gostam dele.
— E se você disser que ele é legal, dou na sua cara – comentei girando o copo nos dedos.
Ela riu erguendo uma folha com algo escrito.
Puxei de sua mão e li erguendo uma sobrancelha. Era um comunicado sobre quem seria a/o novo responsável pelo jornal da escola, dei meu nome no final do ano passado por brincadeira, nunca passou pela minha cabeça que os professores me escolheriam, pela primeira vez eu fui lerda o bastante para não pensar nas possibilidades, isso é tão frustrante. Agora teria uma votação para saber qual das duas indicadas ganharia.
— Quem diabos é Melissa Toledo?
— É a líder do conselho estudantil – respondeu roubando um pouco da salada da prenha.
— Temos um conselho?
— Sim, mas eles não fazem além de encherem o peito para dizer que fazem parte dele. Nunca resolveram nenhum problema da escola, nem sei o que fazem lá. Eu voto em tirar aquela porcaria que só serve para ocupar uma sala.
— E eu voto na Malu para presidente – levantei fazendo uma faixa imaginária – Vote Malu! Vote para que o seu bebê possa vir com você e quem sabe conseguir um irmão – elas riram – uh, você podia até colocar uma máquina de camisinhas, seria bem útil.
— Certo Glória Maria, já entendemos – Malu me fez sentar novamente – pelo menos já tem algo para colocar no jornal quando ganhar.
— Quando eu assumir, eu já ganhei essa – pisquei olhando no relógio e o sinal tocou.
Levantei-me recolhendo nosso lixo e fui até a lixeira, que por azar ficava ao lado da mesa onde o Bernardo estava. Ele e todas as suas novas amigas continuavam ali e quando me aproximei todos os oito me encararam, uma delas agarrou o braço do esquisito e me olhou de cima a baixo.
Como se eu quisesse aquela coisa.
Dei as costas e fui para a sala sendo acompanhada por Malu e Marina – curioso, nós três temos M no nome – os outros alunos passavam por nós como pestes que eram, gritavam e brincavam como se estivessem indo para casa. Isso é tão irritante.
Quando chegamos ao corredor eu dei mais uma olhada para trás instintivamente, Bernardo estava caminhando preguiçosamente com duas garotas em volta, se fosse qualquer outra pessoa eu diria que estava entediado com elas, mas sua cara já era de tédio, então eu não sabia o que pensar. E por falar em pensar, já pensei na minha vingança, esse hematoma não vai ficar na minha cara sem que ele pague uma taxa, e sei exatamente o que fazer com aquela coisa.
Sentei-me perto da janela novamente e virei a cabeça para olhar o estacionamento, parecia tão calmo sem todos aqueles adolescentes à procura de uma boca para enfiar a língua. Não consigo entender a necessidade deles em sempre estar beijando alguém, a vida é tão melhor quando não temos que nos preocupar com status. Sim, pois é disso que se trata, status. Quando você conversa com um amigo e pergunta se ele conhece outra menina ele pode dizer: eu já fiquei com ela; ou então: um amigo já ficou com ela. São raras as vezes que a resposta é simplesmente não ou sim.
Permaneci no mesmo lugar até todas as aulas acabarem, todos os professores se espantavam com Bernardo, alguns até conheciam ele, pelo amor de Deus, o que um professor quer fuçando a internet e assistindo aos vídeos daquele panaca?
Quando a última professora nos liberou eu joguei meu caderno na mochila e levantei trombando com alguém, resmunguei empurrando-o de volta e olhei para cima. Bernardo estava sorrindo descaradamente e depois que eu estreitei os olhos para ele, o desgraçado simplesmente tocou a ponta do meu cabelo e riu. Continuei parada encarando-o de volta, ergui o canto da boca esboçando um sorriso que logo iluminou meu rosto de forma diabolicamente travessa, então pus as mãos em seus ombros delicadamente arrancando um olhar surpreso dele e chutei sua canela o mais forte que consegui. Pus as mãos sobre a boca contendo um grito de felicidade enquanto ele urrava abaixando-se para massagear o local.
— Sua vaca – rosnou ainda na mesma posição – vai ter volta Capitu. Ah se vai.
Ri de sua ameaça vazia e disse antes de me afastar:
— Estou pagando pra ver.
Marina e Malu me olhavam completamente chocadas, não sei o que elas esperavam de mim, eu não ia ficar com essa mancha enorme na cara enquanto ele desfilava por aí todo pomposo. Pomposo? Pelo amor de Deus, Maria.
Sorri para elas e as segurei pelos pulsos arrastando-as dali, podia ouvi-lo praguejando atrás de nós, como iríamos voltar juntos para casa eu teria o prazer de ouvi-lo me xingar e ameaçar tamanha a raiva que sentia. Eu quero é mais, muito mais.
Depois que chegamos ao estacionamento nos despedimos e eu fiquei lá esperando que o idiota viesse logo, estava conversando com uns garotos enquanto mexia no celular, talvez tomando seus números para marcar um encontro logo mais. Enrolei o cabelo prendendo-o com um elástico e me sentei no capô cantarolando minha música favorita enquanto batia o pé na lataria, já impaciente. Olhei mais uma vez em sua direção vendo que ele já caminhava para o carro. Suspirei aliviada levantando-me enquanto ele passava por mim.
— Se quiser ficar aí é só falar – disse destravando as portas.
Corri para o lado do carona e entrei – pondo o cinto dessa vez – o que arrancou um riso dele.
— Já disse que odeio qualquer demonstração de felicidade vinda de você?
— Pois eu adoro a sua. Nunca tinha visto uma risada tão sem graça.
— A próxima coisa que vai ficar roxa é a sua cara – rosnei olhando para ele.
— Então vamos para a academia do Claudio, quem sabe algum lutador não me arrebenta?
Academia do Claudio? Ah não, definitivamente não.
— Fiquei sabendo que você odeia lutadores – comentou enquanto acelerava saindo do estacionamento.
Eu não mereço isso.
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