Querido Hater

20 Capítulo 20


Notas iniciais
Eu nem acredito que estou postando algo inédito, eu poderia fazer um textão sobre isso, mas vou me conter. Espero que ainda tenha alguém lendo ou relendo, caso tenha, deixou meu olá. Aproveitem e não esqueçam os comentários ♥

Ainda conseguia sentir as mãos de Capitu em meu rosto, passeando por meu maxilar e lábios, ela parecia tão entregue à mim que decidi que era melhor não ir adiante com aqueles beijos. E não pensem que eu não a queria, só Deus sabe o quanto eu anseio por tomá-la inteiramente para mim.

Não coloque o nome de Deus em suas perversões, Bernardo.

Depois de deixar uma linda e perigosa garota sedenta por mim dormir sozinha, eu decidi que não conseguiria pregar o olho naquela madrugada, na verdade não só por conta da minha adorável vizinha de quarto, mas também por todos os acontecimentos dos últimos dias, coisas que vinham acontecendo em minha vida que me faziam ter certeza de que em outra vida eu era um sádico e torturador. Cláudio tentava me animar, era o único que sabia sobre tudo o que acontecia em minha antiga casa, me levava para assistir lutas, me arrastava para a academia e até que tudo aquilo me ajudava por um lado, pelo outro estava Capitu.

Enquanto devorava um bolo que encontrei na geladeira, me permiti voltar a lembrar do dia em que tudo havia começado a desmoronar.

Quatorze anos.

Quatorze anos é a idade que todo garoto curte a vida querendo ser adulto a qualquer custo, questiona as regras, quer viver na rua, mas pouco sabe do mundo, pouco dá valor ao que realmente importa. Quando a minha mãe engravidou, eu fiquei radiante, sempre quis um irmão ou irmã para brincar, mas com aquela idade, eu o ajudaria a crescer e ensinaria a andar de bicicleta, mas então o meu pai foi embora de casa, disse que não queria outro filho, pois só eu já o fazia arrancar os cabelos — nem sempre fui esse anjo, desculpem por isso.

Durante toda a gravidez da minha mãe eu estive presente, ajudava no necessário, mas sempre me preparando para ir lutar ou jogar bola, ela passava a maior parte do tempo sozinha ou trabalhando em suas roupas, ela era estilista, não que ela esteja morta, nada disso, mas ela deixou de ser aquela mulher alegre que adorava passar horas penteando os longos cabelos enquanto me contava histórias sobre meu pai e ela. Quando a Isadora nasceu às pressas e eu não pude ajudá-la por estar num campeonato, ela desmoronou, entrou numa depressão tão profunda que a única forma que a família encontrou de ajudá-la foi internando numa clínica. Hoje ela está bem melhor, não está mais na clínica, mas isso é assunto para outra hora.

— Bom dia, garotão — Claudio apareceu já vestido — Laura me falou que vocês chegaram bem tarde. Acordou cedo hein?!

Ele passou por mim indo direto para a cafeteira, não sei como alguém pode ser tão animado às cinco da manhã.

— Sabe como é, treine enquanto eles descansam — tentei não parecer abatido.

Cláudio concordou sorrindo enquanto se encostava à mesa onde eu estava sentado. Ele perdeu o olhar pelas paredes e eu já sabia exatamente o que ele queria perguntar, se a Maria estava bem, e dizer que sentia muito. Nunca o vi tratar a bonequinha dele daquela forma, talvez estivesse estressado por conta do campeonato que estava próximo.

O homem respirou fundo e apanhou a caneca com o líquido fumegante que saía da máquina.

— Falei com seu pai — ele disse depois de alguns segundos — ele quis saber como está na escola, se está se comportando bem aqui em casa — Cláudio riu se sentando — quase disse a ele que a maior confusão que você arruma, é com a minha pequena.

Ri juntando as migalhas do finado bolo que encontrara pela metade logo antes.

O que foi? Estou em fase de crescimento.

— Ela está triste — comentei atraindo sua atenção — acho que deveriam conversar depois, sabe, não aconteceu nada comigo e tenho certeza de que ela não quis fazer aquilo, não para me acertar.

— Você não tem certeza disso.

— Não mesmo.

Nós gargalhamos.

Levantei para pegar um pouco de café enquanto o ouvia falar sobre meu pai, de como ele falava de mim com orgulho. Eu sabia que ele se orgulhava de mim, nunca neguei seus sentimentos, afinal eu havia sido planejado por eles quando eram mais novos, no auge do amor. Também o amava, não tinha raiva do que tinha feito à minha mãe, casais se separam a todo momento, só guardava mágoa por tê-la deixado aos cuidados de um garoto da minha idade.

E à própria sorte. Pensei.

— Sempre quis ter um filho como você — meu padrinho disse por fim — e invejo seu pai por isso, garoto.

Eu também queria ter um pai como você. Quis dizer a ele.

— Também queria uma filha como a Maria? — perguntei arrancando-lhe uma risada sincera e pensativa.

— Nunca — respondeu ficando sério aos poucos, ele pareceu pensar em toda a sua vida desde que nascera antes de continuar seu raciocínio — mas ela é melhor do que qualquer ideação de filha que já tive. Não brinco quando digo que ela é a minha princesa. Acho que nasci para ser seu pai, e ela a minha filha.

Balancei a cabeça concordando com aquela fala, a garota era tão filha que era até provável que seu DNA tivesse mudado só pela convivência. Capitu era uma extensão do Cláudio, todos podiam ver isso só pela forma como se olhavam antes de rir de uma de suas piadas, piadas essas que só os dois entendiam. Acho que o sentimento entre os dois poderia ser usado para exemplificar as almas gêmeas, que mesmo nascendo a quilômetros de distância, o destino consegue uní-las.

— Ela te adora. — comentei esticando o corpo para alinhar minha coluna — E não deixe ela saber que eu comentei alguma coisa, Deus me livre.

— E estragar a paz dentro dessa casa? Bom que tenham se acertado de uma vez, não quero desavenças até depois do campeonato — ele parou por um segundo e me olhou — você deveria lutar também, ainda dá tempo de se inscrever.

Maneei a cabeça considerando o convite. Até que não era uma má ideia participar de um campeonato novamente, mas estava ligeiramente enferrujado, pra não dizer vergonhosamente.

— Eu só estaria pronto para lutar se o melhor lutador que eu conheço me treinasse.

Um sorriso orgulhoso brotou nos lábios de Claúdio, e não precisou dizer nada para que eu tivesse a confirmação.

[...]

Quando acordei naquela manhã sem precisar que o despertador se desse o trabalho de tocar, um sorriso brincou em meus lábios imediatamente com as lembranças da noite passada, no caso, da madrugada recente. Fiquei deitada por alguns minutos olhando para nenhum ponto específico, apenas revivendo aqueles momentos com o hater em minhas memórias, estava tudo tão fresco que eu quase podia sentir seu toque e ouvir sua risada.

Ah Maria, qual é?! Não vai dizer que agora está apaixonadinha por aquele garoto irritantemente lindo.

Revirei os olhos me pondo para fora da cama. Nunca fui muito de acreditar em auto sabotagem, mas meus pensamentos intrusivos ultimamente estavam piores que trinta almas do inferno. Não diria apaixonada, mas que era muito bom beijar Bernardo, oh se era.

Apanhei o celular e a primeira coisa que verifiquei foi se haviam mensagens de Malu, e lá estavam as fotos da minha afilhada, toda pequenininha com aquele narizinho arrebitado, qualquer um diria que aquela menina era a minha cara, menos o implicante. Respondi suas mensagens avisando que iria vê-las no horário de visitas e que não era para ela deixar ninguém além de sua mãe tocar na criança, um pouco exagerada, mas só estava cuidando da minha filha.

Após um banho demorado, eu finalmente estava pronta para descer e encarar todo mundo sem desculpas ou outro assuntos no meio, só eu, as pessoas e um climão. Minha mãe, depois dela ter trazido o cafajeste para dentro da minha casa, meu padrasto depois dele ter me dado uma bronca, e o Bernardo depois de ontem. Acho que de todos, quem eu mais temia ver, atendia pelo nome de Cláudio e tinha um peitoral enorme.

Sorria, é um belo dia para esbanjar seu charme.

Com a minha máscara de sempre, desci as escadas tomando todo o cuidado com o meu pé que ainda incomodava, mesmo sendo coberta de remédios e tudo mais ontem, parece que a minha teimosia insistia em me lembrar que existia a cada passo que eu dava. Os sapatos nas mãos, o cabelo preso num rabo de cavalo de sempre e os fones pendurados no pescoço para que eu não o esquecesse em casa.

— Ah que pena, o Tadeu não está aqui para me dar bom dia — zombei notando que só minha mãe estava na cozinha. Ela esticou os olhos para mim e balançou a cabeça negativamente.

A mesa estava posta, mas não havia sinal do meu querido hater e nem do meu padrasto, talvez já tivessem saído. Constatei enquanto olhava ao redor antes de me sentar.

— Bom dia. Pelo visto acordou com a língua afiada — sorri me servindo uma boa dose de iogurte — Os meninos saíram cedinho para treinar, devem estar para chegar. Seu pé está melhor?

Fiz que sim com a cabeça.

— E você, está melhor?

Ela fez uma careta em resposta, eu não estava nem um pouco gostando daquele mal estar dela, repentino demais.

— Não acha melhor ir ao médico? Se for algo grave-

— Ai Maria, vira essa boca pra lá — ela bateu na mesa três vezes — não deve ser nada grave, devo melhorar logo. Pode ser a pressão baixa, está tão quente ultimamente.

— Mãe, você tá me escondendo alguma coisa?

Ela ficou quieta, quieta demais com a minha pergunta. Respirei fundo revirando a aveia dentro do iogurte e a encarei esperando que dissesse algo que não fosse uma má notícia que explicasse o porque meu Padrasto estava tão nervoso ontem, talvez ele já soubesse de alguma coisa e não conseguia externar da maneira convencional.

— Estou atrasada.

Consegui ouvir meus próprios batimentos cardíacos tamanho o silêncio que se instaurou naquela cozinha, o tempo pareceu parar diante dos meus olhos, meus olhos se arregalaram e eu só pisquei no momento em que soltei o ar que prendi em meus pulmões. Aquilo estava acontecendo finalmente, eu achava que ela já havia esquecido dos planos de ter outro filho.

Minha mãe escondeu o rosto nas mãos e o afundou ali, estava visivelmente nervosa. E o que eu diria? O que se diz numa situação dessas? A adulta não sou eu, e meu conselho sobre gravidez indesejada já é sabida por todos. Mas isso foi antes, antes da Constança nascer.

— O Cláudio já sabe? — perguntei num sussurro, lembrando-me depois que estávamos sozinhas em casa.

— Não, nem desconfia — respondeu choramingando — eu não tô pronta pra ser mãe.

Uni as sobrancelhas soltando o riso.

— Mas você já é — comentei — minha.

— Animador — ela riu se encostando na cadeira — Acha que eu tô pronta pro relançamento da Capitu?!

Abri a boca para protestar, mas antes que o fizesse, vozes altas e animadas foram ouvidas entrando pela porta. Olhei para o potinho à minha frente e depois para a minha mãe, ela apenas fez que não com a cabeça num sinal claro de que não deveria comentar nada.

Okay, minha mãe possivelmente estava esperando um bebê, isso explicava muita coisa.

Fiquei ali esperando que os dois entrassem pela cozinha, mas o único que entrou foi Cláudio, suado, desalinhado e com um sorriso de orelha a orelha para minha mãe. Quando eu treinava, era costume chegar desse jeito em casa todas as manhãs antes de ir para o colégio, nós ficávamos na academia até não conseguir exceder mais nenhum minuto, eu me destruía, destruía meus colegas e ele, que fazia questão de lutar comigo ao final de cada aula, os outros ficavam com ciúmes, mas quem se importava?! Eu podia, quem sabe um dia voltar lá para desestressar, dar porrada sempre me ajudou.

Talvez tenha virado um cão raivoso por falta dos treinos.

— Bom dia, meu amor — Cláudio beijou o topo da minha cabeça, e depois caminhou até minha mãe dando-lhe um beijo na boca. Fofo, mas desnecessário na minha frente — Está mais calma ou guardando outro copo para arremessar no Bernardo?

Poderia ignorar a provocação, mas essa era uma das formas dele me pedir desculpas, parece que a palavra era um pouco difícil demais de sair da boca do ogro.

— Só aceitamos desculpas em forma de flores e chocolates — ele riu com a boca cheia de presunto.

— Até porque demônios curtem oferendas — o hater falou entrando no cômodo — Bom dia, meu amor! — Ele imitou Claudio de forma debochada e beijou o topo da minha cabeça.

— Quer perder os dentes dessa vez? — vociferar em sua direção.

Bernardo sorriu e me lançou uma piscada, e eu lhe lancei um sorriso bobo, logo lhe mostrando o dedo do meio. Minha vontade era continuar sorrindo para ele, talvez estivesse, pois ele me olhava com aquele jeito que só ele tinha, e eu agradeci por meus pais estarem ocupados se acariciando e não perceberem a bandeira que demos.

Bom dia! Balbuciei em sua direção.

Ele estava tão imundo e nojento quanto o outro, seu cabelo molhado de suor provavelmente, estava jogado sobre os olhos, o que me fez lembrar que já fazia um tempo desde que ele chegara em minha casa, e que eu precisava atualizar o meu site. Já até fiz mentalmente uma lista de possíveis assuntos para tratar no meu próximo texto.

Terminamos o café da manhã conversando sobre aleatoriedades, o clima parecia amistoso, mas vez ou outra eu e o garoto trocamos patadas só para não perder o costume. Minha mãe se atentava para o que eu iria falar todas as vezes que Cláudio me perguntava alguma coisa, mas eu me limitava a responder com poucas palavras, o orgulho sempre foi meu melhor defeito entre os maiores, não iria ficar de gracinha com ele tão cedo. Okay, provavelmente à noite já estarei toda derretida por ele, mas isso é detalhe.

Quando chegamos à escola — atrasados — Marina veio logo ao nosso encontro combinando de irmos todos visitar a Constança à tarde, parece que Malu só teria alta no dia seguinte, então a visita estava confirmada hoje, só não sabíamos quantos de nós poderiam entrar no quarto. Eu não teria aula de educação física naquele dia, mas não deixei de procurar por Tadeu pelos corredores enquanto passeava antes de ir para a sala de aula, ainda estava na metade do segundo tempo e eu rabiscava uma folha de papel com coisas desconexas, só para distrair.

As próximas aulas passaram arrastadas, tivemos uma prova surpresa em dupla, e graças a Deus Bernardo no auge da sua implicância se sentou comigo — não com Marina ou outra garota. Ele é simplesmente brilhante em exatas, resolvia as questões tão fácil que eu me sentia totalmente burra.

— Desse jeito o resultado fica positivo — ele puxou o lápis da minha mão — você é burra por acaso?

Abri a boca para protestar, mas ele riu enquanto respondia.

— Se quiser aulas particulares, estou com a agenda e a cama livres hoje à noite.

Senti meu rosto queimar com aquilo. Bernardo não tinha limites e eu não fiz questão de impor agora.

Nunca época não muito distante — há dois dias — eu teria lhe dado um tapa na orelha, mas hoje eu só conseguia me envergonhar por aquelas palavras lembrarem da madrugada, e como eu o queria.

Pelo amor de Deus, se controla um pouco, Maria, ou daqui a pouco vai estar igual a uma “bernardete”.

[...]

Quando chegamos ao hospital, faltava mais ou menos vinte minutos para o horário de visitas começar, vim de ônibus com Marina, pois nosso segurança disse que havia marcado um treino com meu padrasto assim que saísse da escola, ele estava estranho, muito estranho.

— Deve estar descansando para mim — Marina comentou maliciosa.

— Você ainda tem coragem de ficar com ele, mesmo ele ficando com aquela outra garota?

Tudo bem essa pergunta foi mais para mim do que para ela, pois quem estava aos beijos com ele era eu, e nem me lembrava da existência dela no momento.

Eu sou uma péssima amiga e hipócrita.

— É só um lance — respondeu enrolando o cabelo — diversão para o intervalo não ser tão deprimente.

Por isso haviam sumido.

— Ficaram hoje?

Ela riu ainda mais e deu de ombros, não precisava nem responder mais.

Credo, Maria, não é hora de sentir ciúmes de um garoto com o qual você não tem nada.

Tudo bem que era meio sujo da parte dele, mas era homem, e no geral os homens são assim, usam as garotas como se não servissem para nada além disso. E eu havia sido só mais uma de suas vítimas.

Aquele desgraçado.

— Professor!

Nem ferrando.

Olhei para trás vendo Tadeu chegando no corredor onde estávamos, ele segurava um pequeno arranjo de flores, estava bonito, bem arrumado até. Não acredito que ele realmente tenha vindo visitar a Malu e a Constança, não estava falando sério nas mensagens, foi só a emoção do momento.

Mas parece que ele tinha levado muito a sério.

— O que faz aqui? — ela perguntou abraçando-o para cumprimentá-lo.

— Vim visitar a Malu, vocês já vão entrar?

— Sim, a enfermeira só foi conferir se estava tudo bem.

Ele assentiu, seus olhos passaram de Marina para mim e instantaneamente eu olhei para aquelas flores, talvez ele tivesse exagerado, ou fosse cavalheiro demais agora.

Não disse nada, fiquei apenas observando a garota ao meu lado interagindo freneticamente com ele, que se limitava a poucas palavras e sorrisos contidos, provavelmente estava no papel de professor para não lhe dar liberdades.

A mulher saiu do quarto dizendo que só nós três poderíamos entrar, ninguém mais, só depois dos trinta minutos. Provavelmente as tias da minha amiga logo chegariam, conheço bem a família e por mais que sejam beatas conservadoras, amam a sobrinha e estavam ansiosas pela chegada da criança.

Respirei fundo sentindo minhas pernas falharem, uma ansiedade crescente fez meu estômago se revirar.

Entramos no quarto e eu fechei a porta atrás de nós, estava tudo decorado com as lembrancinhas que eu ajudei a escolher, o bercinho arrumado com as coisinhas coloridas que Malu fizera questão de comprar sob meus protestos, até o ursinho cor de rosa pendurado na porta nós escolhemos juntas, eu fazia parte daquilo tudo. Sua mãe estava recepcionando os visitantes, comemorando juntos, eles seguiram para o pequeno bercinho e eu fiquei ali, olhando para minha amiga abatida e com olheiras aparentes, estava com um acesso no braço e um pouco pálida, nossos olhos se encheram de lágrimas deixando evidente o alívio que nós duas sentíamos naquele momento.

Caminhei a passos largos até a cama e a abracei, apertei seu corpo o máximo que pude, queria sentí-la viva.

— Eu fiquei com medo — falei finalmente.

— Eu também.

Um papelão, nós duas chorando ao mesmo tempo. Mas era a minha melhor amiga ali, abatida depois de uma cirurgia, depois de um parto que poderia tê-la levado de mim.

Senti sua mãe acariciando meu cabelo enquanto eu me afastava, limpei meu rosto encarando Malu e sorri sendo acompanhada por ele, que pela primeira vez olhou além do meu rosto e viu Marina e Tadeu. Com uma cara muito confusa ela olhou para mim e eu dei de ombros respondendo à sua pergunta silenciosa.

Me afastei um pouco para Marina passar e abraçá-la, dei alguns passos para trás para finalmente ver Constança sem um vidro atrapalhando.

Ali estava.

A criança responsável pela minha mudança repentina. Merecia umas boas palmadas.

Os trinta minutos passaram voando, quase não consegui me embriagar com o cheiro de bebe, nem conversar o suficiente com Malu, pois sua mãe toda hora dizia que ela não podia conversar muito, pois iria se encher de gases. Não ousei pegar a criança no colo, morria de medo que caísse e quebrasse, fiz muitas caretas quando tentei tirá-la do berço, mas aquilo era pro próprio bem dela. Quando a enfermeira veio nos chamar, dei outro abraço na minha amiga, prometi que nunca a deixaria sozinha de novo, que estaria sempre para ela e a menina. Ainda não havia me perdoado por não ter ido à casa dela quando faltou à escola.

Na ida de volta para fora da maternidade, Marina não parava de tagarelar sobre as fotos que havia tirado e quais iria postar. Tadeu ria e a ajudava a escolher, mas era só uma desculpa para impedir que fosse alguma em que aparecesse. Eu o conhecia bem.

— Ela é mais tagarela fora da escola — ele comentou quando ela entrou no ônibus — sorte a minha.

Olhei para os lados vendo se o meu ônibus estava à caminho.

— No começo irrita um pouco — tentei não soar venenosa.

O que? às vezes ela ainda me irrita mesmo.

— Aqui — me virei para ele novamente.

Tadeu segurava uma das flores que estava no arranjo que trouxera para Malu.

Pisquei para ele e sorri agarrando com cuidado aquela flor.

— Se chama gazânia — ele falou acariciando meus dedos com os seus — eu as cultivo.

Franzi o cenho olhando de volta para ele sem acreditar no que ouvia. Um homem cultivando flores parece papo de galanteador barato.

— Tá falando sério, Tadeu? — o meu tom de descrença estava quase se materializando de tão carregado.

— Só você pode ter um hobby?! — ele riu. Nós rimos. Pela primeira vez rimos um para o outro depois de todo o drama — O que está diferente em você?

— Não sei, me diga, você quem está vendo — sustentei seu olhar.

Ele respirou fundo ficando sério. Não sei quanto tempo ficamos desse jeito, nos olhando sem dizer nada. Ele não me afetava mais, não da mesma forma de antes, eu estava mesmo diferente.

— Talvez tenhamos nos conhecido na época errada — Tadeu tocou uma pétala da flor que estava em minhas mãos — Espero que o destino nos apronte daqui uns anos.

Prendam a respiração comigo.

Aquelas palavras realmente saíram da boca do cara que fez bullying comigo há quase dois anos, o cara que se dizia apaixonado, que me fazia suspirar a cada abdominal que fazia. O mundo dá voltas, acho que agora está dando voltas em cima de mim, porque estou de pernas bambas.

Antes que eu pudesse falar alguma coisa, o ônibus parou diante do ponto onde estávamos, me virei para Tadeu com uma despedida silenciosa entalada na garganta, e como se lesse meus pensamentos, ele se inclinou sobre mim, deixando um beijo demorado em meu rosto e partiu sem dizer mais nada, me deixando apenas com as borboletas no estômago e a flor amarelada em minhas mãos.

Notas finais
Esse capítulo é inédito ♥
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.