Querido Hater
12 Capítulo 12
Notas iniciais
Olhei para o relógio mais uma vez e bufei, eram quase sete, a Capitu estava demorando e o Claudio parecia querer me pôr para fora a ponta pés, mas não dependia só de mim, mas também da princesinha Fiona dele, o que me dava uma pontinha de esperança de que talvez ele não surtasse. Certo, risquem isso, ele vai me amassar se não cumprirmos o combinado. Mas essa maldita tem mesmo que demorar? Não vai ficar menos assustadora se estiver decentemente arrumada e perfumada, é como dizem... Não sei o que dizem, mas é algo sobre a aparência exterior não significar a interior.
— Maria, vou te dar meio minuto para estar na porta da rua – gritei do pé da escada esperando ouvir algum xingamento.
Ela estava estranhamente quieta desde que disse que ia se arrumar para o nosso passeio – que eu não faço a mínima ideia de onde vai ser. Fala sério, ela tá saindo comigo, já a vi mais desarrumada do que um mendigo, não sei pra que essa cerimônia. Temos a intimidade de um casal.
Sorri brincando com os cordões do meu casaco. Se ela ouvisse isso certamente surtaria no mesmo segundo, não seria a garota por quem me apaixonei se não o fizesse.
— Sabe, eu nem acredito que vocês vão sair juntos – Laura apareceu com um pote de sorvete nas mãos – sabe, ela jogou o lanche em você assim que passou por aquela porta.
Ri voltando para perto dos dois.
— Usei meu charme – disse me sentando no braço do sofá.
— Se você chama ameaça de charme, então estou desatualizada – quem acertar quem disse isso vai ganhar um doce.
Revirei os olhos virando-me para a mulher.
— Sua filha é muito romântica – brinquei me levantando – só está nervosa.
— Você vai ver o romantismo quando eu afundar a sua cara com o meu tênis – ralhou atrás de mim.
— Eu não disse? – Laura sorriu enquanto Claudio olhou o relógio no pulso.
Virei-me para a criatura violenta e pisquei algumas vezes chocado demais com o que via.
— Estou pronta, vamos meu amor? – sorriu sínica enquanto me via tremer de raiva.
Ela estava com a minha camisa favorita. Como assim? Onde essa maldita encontrou?
—Essa camisa é minha – apontei enquanto ela puxava as mangas para cima como um desafio.
— Ficou ótima em mim não foi? – perguntou girando em torno de si mesma – também amo essa série.
Essa meliante devia estar numa camisa de força, é a minha camisa favorita, nem eu a uso direito com medo de estragar, se ela não tivesse ficado tão linda nela eu já teria arrancado na base do tapa.
— Você me paga – rosnei cerrando os punhos.
— Estou esperando a cobrança – disse parando perto de mim e cruzando os braços.
Eu queria, do fundo do meu coração, esquecer por um momento que sou apaixonado por ela e dar-lhe umas boas palmadas, porque ela conseguiu, conseguiu me tirar do sério.
— Sete horas – Claudio anunciou – rua!
Lancei mais um olhar assassino para ela e agarrei seu braço puxando-a para a porta ouvindo as recomendações da mulher entre risos.
Realmente, o humor dessas duas deve ser estudado pela NASA, não é possível um ser humano achar graça de dois adolescentes brigando por causa de uma camisa. Mesmo não sendo uma simples camisa. Eu devia ter escondido essa maldita camisa para essa outra maldita não achar.
Por incrível que pareça ela não estava me xingando ou tentando me matar com um anel, a desgraçada estava rindo do meu desconforto.
— Se não parar de rir eu te jogo numa caçamba de lixo – ameacei passando pelo portão lateral do condomínio – estou falando muito sério Maria.
— Como se eu tivesse medo de você – provocou puxando o braço da minha mão – mas para onde vamos?
— Encontrar uns amigos e depois ganhar um rumo. Falou com as suas domadoras?
Puxei o celular do bolso para confirmar o endereço e me desligar da minha preciosidade – a roupa, não a praga. Eu podia pedir mais dinheiro a Claudio, afinal quem vai suportar essa cria de satã não é ele.
— A Malu está indisposta desde ontem, nem sabe se vai ao colégio amanhã e a Marina está de castigo – respondeu fazendo voz de nojo – parece que a sua namorada te deixou sozinho dessa vez.
Olhei em sua direção percebendo uma pontinha de ciúmes em suas palavras.
— Ela não é minha namorada – respondi rapidamente – fiz isso para uma garota ficar com ciúmes.
Ela riu incrédula.
— Usar uma garota para chamar a atenção de outra não legal, você pode acabar magoando as duas – ri pelo nariz pondo as mãos nos bolsos.
— Sério que você tem um coração?
— É claro que eu tenho um coração, imbecil. As pessoas usam para bombear o sangue – prendi o riso querendo provocá-la um pouco mais. Minha língua estava coçando para fazer alguma piada sobre o que aconteceu no passado entre ela e o professor – você é um cretino, sabia?
— Sabia – dei de ombros olhando os carros passando lentamente pelo sinal – e é bom saber que o cretino aqui – apontei para o meu peito – não vai mais te ajudar com o computador.
Ela abriu a boca em protesto.
— Se eu soubesse que ia jogar na minha cara depois, nem tinha pedido – rebateu cruzando os braços – e você também não ajudou em nada.
— Como eu ajudaria se você não me deixou abrir aquela carroça?
— Você ia destruir, isso sim – alterou-se fazendo algumas pessoas olharem para nós.
— Incrível como você tem o dom de ser extremamente irritante – comentei balançando a cabeça – como consegue fazer isso?
— Do mesmo modo como vou arranhar a sua cara se não calar a boca – vociferou fazendo gestos em minha direção.
— Tenta – provoquei sentindo suas mãos puxarem meu casaco em seguida.
Bati em seus braços afastando-os do meu rosto, apoiei todo o meu peso numa perna afastando meu rosto do seu alcance, sorte minha que ela é pequena. Mas tem uma força de homem, valei-me minha Nossa Senhora.
Puxei seus pulsos e a sacudi na intenção de fazê-la parar e perceber que estávamos na rua e que todos nos encaravam como se fossemos loucos, ou como se estivéssemos tendo uma briga de casal.
— Você é um imbecil Bernardo! – gritou desistindo de me atacar – eu deveria te matar enquanto dorme.
— É, se seus sonhos eróticos comigo te deixassem acordada.
Ela rosnou de raiva, mas não foi um simples rosnado, ela parecia um cão feroz prestes a arrancar o meu pescoço, e mais uma vez rosnou, dessa vez mais alto.
— Para de rosnar como se fosse um cão de rua – briguei passando a mão pelo cabelo.
— Eu não rosno seu saco de ossos – gritou rosnando novamente.
Foi então que um latido alto me fez voltar para a realidade. Olhei para o lado vendo um muro baixo, extremamente baixo para o dobermann nos encarando do portão. Engoli em seco puxando Capitu para o meu lado, sempre gostei de cães, não tenho esse preconceito com raças que todos têm, só que agora vendo essa besta enorme querendo nos fazer de jantar eu mudei um pouco o meu conceito sobre isso.
— Acha que ele pula? – ela perguntou dando um passo para trás.
— Esses cães não gostam de brigas – comecei – e a julgar pelo seu comportamento selvagem agora a pouco eu diria que ele vai pular.
— O que a gente faz? – o cão disparou a latir ficando de pé no portão.
Observei que certas vezes ele tirava as patas do chão tentando tomar impulso para pular.
— Correr me parece ótimo – disse puxando ela para a minha frente.
Maria mantinha os olhos cachorro e quando ele correu para o muro e deu um pulo a única coisa que senti foi a rajada de vento que ficou para trás.
[...]
Não sei por quanto tempo corremos e nem onde estávamos, mas continuava puxando Capitu pela mão naquela rua que parecia não ter fim. Puxei o celular do bolso olhando o endereço novamente.
— O bar é logo ali – disse puxando o ar com força.
Maria pôs as mãos nos joelhos tentando se recuperar da corrida e olhou para mim rindo.
— Isso foi demais – comemorou voltando a posição normal – pensei que nunca mais fosse sentir tanta adrenalina.
Ergui a sobrancelha completamente chocado com o que ouvia, onde num mundo normal uma pessoa acha legal correr de um dobermann furioso?
— Adrenalina? Desde quando você curte adrenalina, Maria?
Ela girou com as mãos na cabeça e riu para um ponto qualquer.
— Eu já gostei de trocar socos — comentou orgulhosa de si — nem sempre fui uma patricinha agressiva, sabia?
— Aposto que por puro sadismo — Comentei bagunçando seu cabelo — Claudio sabe que você usava seus alunos de saco de pancadas?
Maria gargalhou graciosamente como eu nunca havia visto. Aquilo encheu meus olhos.
— Você não acreditaria se eu dissesse que eles me adoravam — ela continuou caminhando de costas para o mundo e me encarando com aquele lindo sorriso.
— Claro, principalmente o Tadeu.
Droga!
Seu sorriso foi morrendo lentamente ao mesmo tempo em que parava de andar e me encarava.
Eu puxei o ar lentamente sabendo exatamente o tamanho da merda que havia feito. Ela olhou para os lados balançando a cabeça negativamente e eu consegui ver, como num filme, os flashbacks passando por sua cabeça apenas pela transformação em seus olhos. Os olhos de uma pessoa ferida, como de uma fera que sabia que havia sido encurralada, alguém quebrado.
Taí, eu nunca havia parado para pensar no quão quebrada a Maria era. Toda essa marra dela, os acontecimentos do passado, as mudanças de comportamento e o jeito como ela se distanciava emocionalmente das pessoas.
— Caramba — ela começou — você tinha que estragar.
— Foi mal-
— Não — ela cortou — eu tolero suas provocações e às vezes até acho engraçado, mas isso não.
Meu Deus, o que eu faria agora?
Podem me julgar e dizer que sou um covarde, mas eu não sei o que dizer ou o que fazer nesse momento, acho que o melhor mesmo é calar a boca antes que eu piore ainda mais as coisas com essa babaquice de provocá-la. Céus, mas que raio eu tinha na cabeça de fazer uma besteira dessas?!
Querendo afundar meu próprio crânio voltamos a caminhar, agradeci internamente por ela não inventar de voltar para casa e fiquei na minha enquanto cantarolava uma música aleatória para me distrair. Maria seguia firmemente com as mãos agarradas à alça da bolsa e nem fazia questão de olhar na minha cara, que por vezes estava virada em sua direção inspecionando o mínimo vestígio de lágrimas. Não iria me perdoar nunca se a fizesse chorar.
— Grande Bernardo!
Me virei ao ouvir a voz de André. Abaixei o olhar vendo um ser sentado no chão com o celular na mão.
Olhei rapidamente para Maria e ela me devolveu um olhar frio, sem nem uma faísca.
— Que diabos você está fazendo sentando na calçada? – perguntei esperando que a resposta não fosse mais idiota do que aquela presepada que ele estava fazendo.
— O bar não me pareceu muito legal – respondeu se levantando – na verdade eu e o Marcos fomos expulsos por dizer os males que o álcool causa ao organismo.
— Fala sério – Capitu bufou ao meu lado – é com esse tapado que você quer que eu passe a noite?
Revirei os olhos esperando uma briga sem fim começar, em idade mental esses dois pareciam ter a mesma, e a Capitu ainda ia ganhar, pois tem um dicionário de xingamentos bem extenso.
— Aí, essa não é aquela nanica do jornal? Parecia mais dócil no primeiro dia.
— Vou te mostrar quem é nanica seu bastardo – segurei Capitu pelos ombros antes que ela alcançasse o outro, mas ela rapidamente se desvencilhou
— Certo, parem vocês dois – disse tentando não ligar para aquilo.
— Ele me chamou de nanica – falou irritada olhando pra mim – não vai me defender?
Respirei fundo contando mentalmente até três.
— Não vou, você é nanica, aceite os fatos – disse empurrando-a para trás – e você, não a provoque, ela morde e dói pra caramba.
Ele riu olhando para a menina e mostrou a língua. Fala sério, eles têm mesmo que se igualar na idade mental?
— E o Marcos? – perguntei olhando para os lados – pensei que estivesse com você.
— Ele foi pra casa – deu de ombros inclinando a cabeça para ver a Maria de braços cruzados e furiosa.
Começo a pensar que foi uma má ideia ter trazido ela pra um dos meus "roles" com a galera, essa garota nunca vai se enturmar com eles vai ser uma briga atrás da outra.
— Certo, vamos atrás do pessoal – falei me virando para o outro lado.
Agarrei o braço da bravinha – que fez o favor de se desvencilhar bruscamente – e comecei a andar mais uma vez. Minhas pernas ainda reclamavam da corrida até aqui, fazia tempo que não as colocava para trabalhar tanto, acho que desde a minha época de aprendiz de atleta. É, eu já treinei bastante para os jogos do meu antigo colégio, basquete, futebol, natação e corrida. Eu sou demais, nem precisam suspirar muito.
Ganhei algumas competições enquanto estava lá, não foi tão fácil, os outros era muito bons, me saí melhor na natação por causa do meu tamanho e peso, devia ter continuado se não fosse pelo meu pai insistindo para que eu começasse a lutar, não pensem que ele fez isso porque eu demonstrava algum talento para a coisa, mas sim porque quando eu quero uma coisa sou bem focado, isso ajuda muito na luta. Não vou negar, até gostei de dar socos e chutes, por um tempo cheguei a cogitar participar de um campeonato, mas aí começaram a acontecer algumas coisas e tudo o que eu pensava era voltado para a minha família, foram meses difíceis, mal conseguia dormir pensando em como minha mãe estava no outro quarto até que piorou de vez e tivemos que interná-la, bem, eu pensei que fosse tudo ficar bem, só que eu não contava com a teimosia e os constantes problemas que chegavam lá em casa.
Fechei os olhos querendo ignorar todos aqueles pensamentos novamente, olhei para as duas criaturas perto de mim dando graças por existir celular para mantê-los ocupados. André parecia concentrado numa conversa enquanto Maria procurava alguma coisa no meu celular.
Não, eu não me importo que ela veja as minhas coisas, até porque não tem nada demais aí.
— Be! – ergui a cabeça vendo uma das minhas seguidoras correndo em nossa direção.
Ela fazia parte da galera que estava fazendo o luau, confesso que já fiquei com umas três fãs desde que cheguei aqui. Elas são bem... Atrevidas. Gosto disso.
Abri os braços agarrando-a pela cintura num abraço forte. Só tem uma coisa que ganha dos lábios da Capitu, o carinho das Bernadetes por mim, sério, eu gosto de receber carinho e essa garota, Lívia, é a que mais me dá.
— Vai começar a sessão de amassos? Temos uma menor presente – André comentou nos fazendo rir.
Lívia permanecia agarrada a meu pescoço enquanto beijava meu rosto diversas vezes, afastei-a um pouco para respirar.
— Eu senti tanto a sua falta – disse sorrindo – pensei que fosse ficar em casa hoje também.
Olhei rapidamente para Maria que nos analisava com cara de nojo – grande novidade. Passei a mão no cabelo voltando a arrumá-lo – do meu jeitinho bagunçado. Lívia olhou para o meu lado vendo a "doce" Capitu parada nos fitando e tentou sorrir. Quando eu digo tentar, quer dizer que a garota pareceu fazer um grande esforço para ser simpática com a outra.
A antiga rixa que eu provoquei acidentalmente de uma forma não tão acidental assim.
— Oi Maria – cumprimentou rapidamente.
Capitu a mediu de cima a baixo com o nariz torcido.
— Oi – respondeu sem fazer questão de esconder o descontentamento – desculpe, eu não sei seu nome. É uma Bernadete, estou certa?
Ai meu Deus, o que eu fiz?
— Na verdade eu sou mais que isso – ela caminhou novamente para mim passando os braços por meu pescoço – não é Be?
Sabem o que significa o termo "sinuca de bico"? Então.
— Ah, vocês compartilham o mesmo vírus? – perguntou sorrindo falsamente – que gracinha. Meus pêsames.
Um sorriso brotou em meus lábios com aquilo. Ora, ora, Maria quase Capitolina está com ciúmes de mim? É isso mesmo produção?
Segurei o queixo da garota e beijei seus lábios ainda quando Capitu estava olhando. Vamos provocá-la um pouquinho? Claro que sim! Posso dizer que acertei na loteria só por essa princesinha estar com ciúmes de mim, e outra, não vai ser nenhum sacrifício provocá-la usando a Lívia, ela também é uma gata, além de beijar muito bem.
Pelo menos a Maria não parece mais magoada comigo, grande alívio.
— Certo, se vocês não pararem com isso eu vou arrancar a língua dos dois – ameaçou.
Me virei inteiramente para a minha arma secreta aprofundando o beijo e ignorando a nanica raivosa. Lívia sorriu afastando-se um pouco com as mãos em meus ombros e mordeu o lábio.
— Melhor deixar isso pra quando não tiver ninguém atrapalhando.
Sorri me virando para Capitu batendo o pé irritada.
— Melhor mesmo – concordei me afastando – vamos andando que a noite vai ser longa.
— Idiota – ela disse voltando a andar.
Olhei para André que balançava a cabeça negativamente para mim. Ele sabia da minha paixão inexplicável por ela, eu acabei contando depois de passar uma semana inteira sentando ao lado dela e procurando por sua atenção, lógico que foi para ela não ficar olhando pro Tadeu, o detalhe foi que eu me apaixonei mais.
É, acabei me ferrando bonito.
O lado bom da garota que você está afim não saber que você é afim dela, é que a meliante te trata naturalmente, sem medo de ferir seus sentimentos com as palavras, tipo, a Capitu só me põe pra baixo, daqui a pouco vou achar petróleo dentro daquela casa, mas eu gosto, ela é uma ogrinha podre e amável. Outra coisa, se ela soubesse e do nada eu a xingasse ela ia achar que eu disse que gostava dela só para "revirar os lençóis" de sua cama – deixo claro que não vou dizer com todas as letras o que isso significa devido o horário – não que eu não queira isso, a por favor, eu sou homem e ela é uma bela e atraente mulher – lê-se gostosa pra caralho – é normal isso.
Ri agarrando a cintura de Lívia e puxando-a mais para perto, olhei por cima do ombro e vi a minha ogrinha me encarando com aquele biquinho lindo. Como faz pra segurar a vontade de agarrá-la aqui no meio da rua?
Viramos mais uma esquina e vimos a praia ao longe, por sorte a nossa casa ficava bem perto dali, o que significa que podemos ficar até mais tarde sem nos preocuparmos com a distância.
[...]
Não demoramos muito e finalmente chegamos onde o pessoal estava, Lívia não saía do meu pé, o que já começava a me irritar já que Maria estava sentada olhando pro nada depois de quase avançar em André duas vezes, o motivo... Bem, precisa de algum pra ela surtar?
Certas vezes eu a provoquei, confesso que não queria, mas a cada vez que a Lívia chegava perto a Capitu se enchia como um baiacu – isso não foi uma piada. Então depois do gênio da calçada suja tocou no nome do professor Tadeu, as meninas começaram a suspirar e a maluca se afastou.
Depois de alguns minutos só observando-a de longe eu finalmente me levantei de onde estava e fui até a meliante, espero pelo menos que ela não me bata com o sapato.
— Oi – disse me sentando na pedra a seu lado.
Ela não tirou os olhos do saquinho de batatas para me olhar, é, acho que ainda não esqueceu o que eu falei há pouco.
— Enjoou de enfiar a língua no estômago daquela garota? – perguntou com a boca cheia – ou veio ter certeza de que eu ainda estou brava?
Cocei a nuca procurando as palavras certas.
— Foi mal, eu te deixei sozinha.
— E você acha mesmo que eu me importo? – riu – porque não volta pro seu grupinho? Estava contando com mais alguns minutos de paz longe de você.
— Tão grossa – comentei balançando a cabeça – se eu soubesse que ficaria com ciúmes não teria convidado a Lívia.
Uma mentirinha a mais ou a menos não faz mal a ninguém, concordam?
Ela abriu a boca, soltou o saquinho atrás de mim e bateu as mãos se levantando para me fitar, sorri analisando sua linguagem corporal. Colocou as mãos na cintura e bateu o pé como uma senhorinha irritada.
— De onde tirou que eu tenho ciúmes de você?
— De você – respondi esticando-me para puxá-la pela MINHA camisa.
Riu enquanto eu a puxava para perto, bateu em minha mão voltando para onde estava.
— Para de fazer isso – esbravejou tentando parecer séria – que saco.
Mordi o lábio olhando em seus olhos, ela sustentou por uns dois segundos e desviou para um ponto qualquer. Uma ideia passou por minha mente, uma ideia molhada e certamente dolorosa para mim, mas ia valer a pena.
— Onde estão nossas coisas? – referi-me aos nossos celulares e dinheiro que ela insistiu para colocar naquela bolsinha de grife que Claudio lhe dera mês passado.
— Atrás de você, tapado – apontou com o queixo.
Me virei para ter certeza e sorri malicioso em sua direção.
Me levantei num rompante segurando-a pelas pernas e jogando sob meus ombros num único impulso. Deixo claro que ela é bem levinha, mais do que eu pensei.
— Seu estúpido – gritou sacudindo as pernas – me põe no chão!
Balancei seu corpo arrancando um gritinho assustado dela e comecei a caminhar em direção a água.
Se eu pudesse escolher uma música para esse momento, acho que a marcha fúnebre. Brincadeira, eu não me recordo de nenhuma música parecida com nós dois, talvez tapas e beijos que aquela loira canta, não sei exatamente.
— Eu te odeio! – berrou mais uma vez enquanto batia em minhas costas.
— Tenho certeza disso.
Cheguei à beira e parei pensando se seria bom molhar toda a nossa roupa – lembrando que estamos de tênis. Se eu chegar vivo em casa, a Laura me mata.
Avancei para a água ouvindo xingamentos da menina, segurei suas pernas sentindo a água encharcar minha calça e subir mais, é bem desconfortável a situação, admito.
— Não faç-
A joguei no mar antes que terminasse de falar, ri enquanto ela se levantava furiosa tentando arrumar os cabelos. Senti suas mãos segurarem meu pescoço e depois foi só água, me levantei um pouco e a puxei para baixo ainda rindo.
Ela me empurrou deixando um sorriso escapar.
— Idiota, isso não tem graça – disse rindo enquanto passava a mão no rosto.
— Então porque está rindo? – perguntei me levantando.
Capitu riu mais uma vez apontando para minha cabeça.
— Estou rindo do seu cabelo – revirei os olhos balançando a cabeça para arrumá-lo – parecia um ninho de passarinho.
Olhei para o dela que estava espalhado pela testa e embolado atrás.
— Muito engraçado. O seu está bem pior.
— Pelo menos não vou estragar a minha chapinha – rebateu torcendo a minha camisa.
— Eu não uso chapinha sua remelenta.
— Remelenta é sua madrinha – ri mordendo o lábio.
A encarei enquanto desesperadamente tentava organizar aquele tanto de cabelo. Ela murmurava algumas coisas que eu tenho certeza que são proibidas em cento e cinquenta países.
Maria bufou e olhou para o mar caminhando um pouco mais para frente, esperou uma onda forte vir em sua direção e se abaixou para que "penteasse" o cabelo.
— Desculpa por mais cedo — falei de uma vez.
Ela se virou para mim ainda torcendo o cabelo e balançou a cabeça negativamente.
E lá vamos nós de novo.
— Olha eu sei que vacilei, não devia ter falado daquele cara.
— Não devia — ela rebateu — Bernardo, passou pela sua cabeça em algum momento que talvez, só talvez, esse assunto não seja da sua conta?
Beleza, foi a minha vez de respirar fundo para não explodir. Eu havia prometido ao Claudio que nunca contaria sobre aquilo com ninguém, e muito menos deixar que a Maria descobrisse que eu sabia o que aquele otário havia feito, mas existem limites para qualquer um.
— É da minha conta a partir do momento em que eu me importo com você.
Capitu voltou a andar como se não tivesse escutado o que eu acabara de lhe dizer, ou talvez fingido que não havia escutado.
Então no momento em que ela passou por mim eu agarrei seu braço fazendo-a me encarar com raiva.
— Não gosto do jeito que aquele cara fica te rodeando, ainda mais sabendo que vocês tiveram um lance. Que eu acho bem doentio.
— Como eu disse, não é da sua conta — puxou o braço de minha posse dando um passo para trás.
O silencio pairou sobre nós dois.
Eu não queria falar mais nada para não deixar escapar algo, mas ao mesmo tempo eu não queria deixar esse silencio todo para deixá-la pensar besteiras. E falando nela, ela estava parada no mesmo lugar olhando para o horizonte com os lábios fechados numa linha fina e tensa, as mãos agarrando com força a barra da camisa e os olhos marejados.
Ah merda!
Dei um passo em sua direção tentando alcançar o tecido enrugado e ela se afastou.
Beleza, Bernardo você fez ela chorar, seu babaca.
Segurei o tecido puxando-a mais para perto e dessa vez ela veio, timidamente, mas veio. Toquei seus braços ainda tentando fazer com que me olhasse, mas estava complicado, eu havia tocado numa ferida não cicatrizada, estava nítido.
Ainda sem dizer nada a envolvi em meus braços apertando-a aos poucos, ela precisava saber que eu estava arrependido, e como com palavras estava um pouco difícil de convencê-la, faria do jeito que sei melhor.
Fitei seu rosto vendo as lágrimas que formaram escorrerem por sua bochecha, foi como mil facas sendo apunhaladas em meu estômago. Engoli em seco tocando seu queixo com a mão livre enquanto ela fechava os olhos. Afastei-me um pouco para ter certeza de que aquilo estava realmente acontecendo, fitei seus lábios entreabertos e úmidos tão... convidativos que agora pouco me importava se era real ou não.
Aproximei-me novamente notando que ela queria aquilo tanto quanto eu, deslizei as mãos para suas costas selando nossos lábios, ela suspirou amolecendo em meus braços enquanto começávamos a nos mover em perfeita sincronia, o gosto salgado me fez rir em seus lábios e ela sem saber o porquê também riu. Eu não conseguia acreditar que ela estava me beijando por livre e espontânea vontade, eu sei que sou irresistível e tals, mas é a Capitu. Parecia que o mundo girava ao nosso redor, meu estômago se revirava e meu coração acelerava de um jeito que não sei explicar, talvez a intensidade de uma locomotiva se encaixasse perfeitamente na explicação.
Ela tocou meu rosto afastando-se um pouco como se voltasse a si. Olhei confuso para seu rosto, a minha garota permanecia com os olhos fechados e os lábios entreabertos, engoli em seco esperando levar um tapa ou um chute.
— Eu... Eu não sei por que fiz isso – disse quase para si mesma – me desculpa, quer dizer, eu não tenho que te pedir desculpas, mas eu te beijei e...
— Você é completamente maluca – disse tirando o cabelo do seu rosto.
— Sou – riu fungando e limpando o rosto – mas até que você beija bem.
— Se quiser repetir...
— Não! Isso foi um erro, eu odeio você – disse indo para a areia – e você também me odeia – olhou para mim apenas para completar e seguiu.
Torci o nariz caminhando atrás dela sentindo como se meus sapatos fossem feitos de chumbo.
Puxei o ar com força me recompondo.
— Eu não odeio você – respondi parando ao seu lado.
— Não? – perguntou arregalando os olhos – quer dizer, azar o seu, porque eu te odeio.
Ri tirando a camisa para torcer. Pelo menos não ficaria com aquele pano grudando no corpo, meu casaco estava a salvo com a Lívia, era só tomar de suas mãos e tudo se resolvia.
— Você é tão convincente que nem mesma acredita no que diz – ela desceu os olhos para minha barriga e virou o rosto.
Ah Capitu, melhor não entregar os pontos agora.
— Porque não tira a roupa? Vai acabar ficando resfriada. – recomendei sem maldade alguma.
Eu juro pela minha masculinidade que foi sem maldade nenhuma.
— Estou bem assim – respondeu rapidamente – e você não vai ver meus peitos.
— Ah, uma hora você me mostra, sou paciente.
Ela abriu a boca caminhando em minha direção.
— Você se acha a ultima bolacha do pacote não é? – perguntou irritada como sempre.
— Biscoito – corrigi sacudindo a roupa.
— Bolacha!
— Biscoito!
— É bolacha e pronto! – gritou virando-se e marchando de volta para a pedra.
— Maluca! – berrei o mais alto que pude.
Ela parou e virou para mim novamente.
— Babaca!
Nós rimos um para o outro e nos encaramos por um instante antes que ela se virasse saltitando para onde nossas coisas estavam.
Eu realmente não sei onde fui amarrar a minha mula.
Mas, o amor é cego, surdo, mudo, perneta, sem um braço e com um sério problema de déficit de atenção.
Até mais.
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