Querido Hater
11 Capítulo 11
Notas iniciais
— Eu vou te matar!
E lá vamos nós de novo.
Me abaixei bem a tempo de escapar do relógio que Capitu me arremessou.
— Cuidado com a aposta – adverti rindo enquanto me afastava mais dela.
Definitivamente ela não é humana quando acorda de mau humor. É Bernardo, bela ideia de jumento deitar em sua cama e abraçá-la, o que você pensou, que ela iria se virar e te encher de beijos?
— Pro inferno essa aposta – gritou ficando de pé na cama – vou quebrar todos os teus dentes com uma raquete seu imbecil.
Pensei que depois de uns beijinhos ela melhoraria esse comportamento selvagem em relação a mim.
— Como se você tivesse força pra fazer isso – disse ainda dando passos para trás – ou vai me dizer que começou a tomar hormônios masculinos? Nada contra.
Ela estreitou os olhos em minha direção saltando do colchão. Ri enquanto saía correndo de seu quarto ouvindo apenas algo batendo na porta. Desci as escadas sabendo que a maluca estava bem atrás de mim, Capitu não era de procurar confusão comigo, ficava na dela e procurava não falar sobre o acordo de trégua que eu inventei – na verdade foi um pretexto para beijá-la sem apanhar – ela parecia me evitar, pois depois daquilo nem olhou na minha cara, então... Eu tive que encontrar um jeito de chamar sua atenção mesmo que isso custasse a minha vida.
— Meninos vocês já estão brigando logo cedo? – Claudio gritou da cozinha quando provavelmente nos ouviu descendo as escadas.
Olhei para trás vendo Capitu com uma raquete elétrica na mão toda coberta de glitter, essa maldita é uma psicopata. Ela sorriu ligando-a e avançou em minha direção correndo como uma gata – que realmente era.
— Vou fazer omelete com seus ovos – rosnou erguendo aquela arma.
Afastei-me e peguei a vassoura encostada na parede, não tinha medo de machucá-la, desde pequeno as minhas brincadeiras eram um pouco pesadas, digamos assim. Não sabia distinguir o maior do menor e acabava fazendo igual.
— Vem – chamei rindo – achou pouco eu ter raspado seu cabelo?
Apertei a vassoura esperando ela se aproximar mais, Capitu estava morrendo de ódio, apesar de ela ter a mesma cara emburrada quando está perto de mim, eu sabia exatamente o nível de raiva pelo bico que ela fazia. Uma gracinha.
— Já chega! – Claudio apareceu com uma caneca e puxou a vassoura das minhas mãos – será que vocês nunca vão parar de implicar com o outro?
— Ela que é louca – rebati apontando para a menina – pediu que eu dormisse com ela e quando acordou tentou me matar.
— Mentiroso estúpido! – berrou vindo pra cima de mim.
Eu ri enquanto Claudio segurava seus braços com apenas uma mão e a sacudia para que soltasse a raquete.
— Admita que tem uma queda por mim e que vive me pedindo para dormirmos juntos – foi a vez de Claudio rir.
— Certo, pare de provocá-la antes que dê um ataque de raiva e morra aqui mesmo.
— Isso seria ótimo, pelo menos me pouparia de vê-la todos os dias – disse sorrindo para ela.
— Eu vou acabar com a sua raça Bernardo – rosnou apontando para mim – eu juro que acabo.
— Poupe-me das suas declarações de amor, aquele relógio arremessado partiu meu coração.
Eu poderia passar o dia irritando-a, não seria muito esforço já que ela me ameaça apenas por olhá-la. Mas eu não faço por prazer, talvez também, mas sim porque sei que Capitu precisa dessa distração. Algumas vezes já a peguei triste no quarto e sei exatamente o motivo, alto, musculoso e extremamente atraente, me apaixonaria por ele se meu coração já não tivesse dona – mesmo essa dona me odiando.
Depois de toda aquela confusão com a Maria por causa das fotos eu e ela levamos uma bronca das grandes, tudo bem, exagerei quando raspei seu cabelo, mas ela quase me esquartejou com os dentes, tive que dar o troco. Tudo bem, admito que gostei, mas tudo tem limite.
Eu ainda não entendia o porquê de tanto escândalo por causa de fotos idiotas, então assim que ela correu para sua caverna de ódio e rancor eu me virei para o casal e perguntei o que diabos havia acontecido, a única coisa que me contaram foi que eles namoraram na época em que ela ainda estava na academia, mas terminaram porque ele foi embora da cidade. Bem nada a ver isso, tava na cara que tinha mais alguma coisa, ninguém tem um ataque psicótico por causa disso.
— Aí Claudio – o chamei quando sua esposa foi dormir – o que realmente aconteceu entre a Capitu e o Tadeu?
Perguntei sentando-me ao seu lado no sofá.
— Foi o que eu já disse, eles terminaram porque o Tadeu teria que viajar por um longo tempo. Só isso.
— Tem certeza? Porque não parece – ri pelo nariz – mas se você não quer falar, tudo bem, eu pergunto diretamente ao Tadeu.
Bati em sua perna fazendo menção em levantar, mas como eu previa ele me impediu. Tava na cara que rolou algo muito sério que até hoje assombra a minha... Quer dizer, a Capitu.
— Como assim? – perguntou sério – como você conhece o Tadeu? É amigo daquele desgraçado? Se você for – continuou entre dentes – acho bom mantê-lo longe da minha filha.
Notei sua mandíbula travada quase se quebrando, definitivamente eles não são muito amigos.
— Ele está nos dando aula de educação física – falei simplesmente.
— O Que?! Eu vou matar aquele filho da mãe – rosnou levantando-se visivelmente furioso.
Ta, talvez eu tenha feito uma pequena merda contando isso a ele.
— Pera aí, me conta o que rolou, dependendo eu posso até te ajudar – sorri ficando pé à sua frente.
Claudio passou a mão pelo rosto e começou a caminhar de um lado pro outro, devo confessar que comecei a ficar com medo do que ele diria, podia ser algo bem... Sério.
Depois de ouvir muitos palavrões e ameaças de morte destinadas ao professor bonitão, me deitei no sofá esperando finalmente o momento em que ele me contaria tudo, o que não demorou muito. Ele começou desde quando os dois se conheceram, como se aproximaram até que começaram a andar pra cima e pra baixo, não gostei muito dessa parte, mas tudo bem. Estava tudo tranquilo até que chegou a parte que eu queria saber, meu sangue ferveu de raiva, aquele filho da mãe teve coragem de enganar a minha Capitu e ainda por cima mentir descaradamente sobre um assunto delicado.
É, eu fiquei muito puto, coisa que é bem rara de acontecer.
— Pode deixar, se depender de mim aquele imbecil não vai se aproximar dela nunca mais.
Balancei a cabeça e fitei a menina do outro lado da mesa me encarando enquanto comia. Estava na hora do almoço e por incrível que pareça não havia tido nenhuma briga, Laura parecia comer sem vontade alguma, Claudio lia alguma coisa no tablet e Capitu continuava me encarando, não com raiva, mas com curiosidade. Sorri para ela esperando receber um dedo do meio, mas ao invés disso também sorriu, não foi um sorriso do tipo: meu Deus que sorriso enorme, mas foi um meio sorriso.
Impressionante como ela pode ser uma criatura odiosa e ao mesmo tempo fascinante. Engana a todos escondendo seus segredos e consegue agir normalmente, em seu lugar eu já teria surtado. Esconde da mãe o real motivo do termino com Tadeu, persuadiu o padrasto para que não lhe contasse nada e ao mesmo tempo o engana sobre a volta do cara que lhe fez sofrer o diabo.
— Pode falar, eu sou a criatura mais linda e graciosa que você já viu – disse revirando o prato.
— Desculpa amor, mas hoje você não vai ouvir um elogio de mim.
Ela revirou os olhos revirando a comida, ainda me olhando.
— No que estava pensando? – perguntou fingindo desinteresse.
Ta certo, pra uma pessoa que fingir desinteresse ela ta bem interessada.
— Em como você é oblíqua e dissimulada – respondi sorrindo – mas o que eu poderia esperar da Maria quase Capitolina? Vocês têm o mesmo nome, ter a mesma personalidade não me espantaria.
Capitu ergueu a sobrancelha e abriu a boca como se entendesse o que eu queria dizer.
— Vai começar com as piadinhas? Não estamos num livro.
— Certo meninos, não comecem novamente – Laura alterou a voz chamando nossa atenção – vamos falar da aposta. Faltando dois dias para acabar e a Maria decide ameaçar o Bernardo com uma raquete elétrica. Você se orgulha disso filha?
Sorri olhando para a garota que voltava a seu estado normal, furiosa.
— Esse imbecil estava na minha cama me encoxando – defendeu-se agitando as mãos em minha direção – não me orgulho do que fiz exatamente porque não fiz.
— Muito simpático da sua parte me ameaçar com aquela coisa.
— Não há de quê.
Claudio pigarreou.
— Certo – falou alto calando a menina – então esse mês a minha princesinha – apertou sua bochecha – vai dar a mesada para o campeão aqui.
Ela se calou fazendo aquele bico de criança mimada que ela era, sinceramente não sei o que eu vi nessa garota pra me apaixonar, é tão mimada, irritante, marrenta, egocêntrica, um mini-demonio, antipática e mal humorada, mas também ela consegue ser meiga, divertida, leve e dona de um sorriso lindo pelo qual eu seria capaz de qualquer coisa para vê-lo em seus lábios. Droga Bernardo, você está terrivelmente apaixonado por essa ogra. E põe terrível nisso.
— Vai pagar caro por isso, babaca – ralhou em minha direção tentando soar ameaçadora.
— Seu meio metro me põe muito medo – sente a ironia pairando.
— Melhor trancar a porta quando for dormir, pode acordar castrado – murmurou se levantando com os olhos pregados em mim.
— Eu já disse que você é uma gracinha quando tenta parecer ameaçadora? – cruzei os braços sobre a mesa ouvindo os adultos bufarem exaustos – continua fazendo, é interessante.
— Desgraçado!
— Maria, os modos – Laura repreendeu enquanto a menina saía da cozinha.
Balancei a cabeça negativamente voltando a comer, ela correu para cima fazendo mais barulho que o necessário enquanto trotava pela casa. Ficamos um pouco mais na mesa conversando sobre qualquer coisa, eu começava a pensar novamente em Capitu e o professor imbecil, se eu pudesse daria uns bons socos nele para aprender a não tratar garotinhas daquela forma tão covarde, ainda mais porque Claudio o tinha como um filho. Mas vamos ser realistas, eu nunca conseguiria apagar aquele armário com um soco sem virar saco de pancadas antes.
Fui para o meu quarto terminar de editar o ultimo vídeo, vou dizer, se eu não ganhasse para fazer isso, já teria largado faz tempo e migrado pro Youtuber, bem mais fácil e o alcance é bem maior e mais rápido.
Abri a gaveta à procura dos meus fones e só então me lembrei que haviam queimado. Inferno de vida.
Vasculhei tudo à procura de algum perdido, mas a única coisa que encontrei foi uma foto da minha família. Era incrível a minha capacidade de bagunçar gavetas em menos de duas semanas, e olha que nem trouxe tudo que tinha em meu quarto.
Segurei a foto e sorri.
— Ô palhaço – ergui a cabeça vendo Capitu entrando e fechando a porta atrás de si.
— Não to no clima hoje – disse jogando a fotografia de volta na gaveta – já disse, feriu meus sentimentos.
Ela revirou os olhos jogando-se em minha cama sem tirar os chinelos. Rodei a cadeira para fitá-la.
— Vim te pedir um favor – ergui a sobrancelha analisando suas roupas para ver se havia algum volume suspeito, que poderia ser uma faca ou aquela maldita raquete de mosquito.
Cruzei os braços notando o desconforto da meliante em estar ali, tava na cara que ela não queria me pedir alguma coisa, e eu como um bom sádico ia me aproveitar da situação.
— Meu computador travou e nem quando reinicio ele volta ao normal – disse calmamente.
— Incrível como você fica dócil quando quer alguma coisa – murmurei sorrindo.
— Se não quer ajudar é só falar seu babaca – irritou-se levantando da cama.
Revirei os olhos me levantando também.
— Qual foi a burrice que você fez?
— Não foi minha culpa – rosnou passando por mim.
Ri puxando-a pelo cabelo fazendo-a parar, ouvi alguns palavrões que acho inapropriado repetir. Ela voltou-se para mim dando um soco em meu peito, tentei segurar seus pulsos enquanto a meliante os puxava-os de minha posse.
— Praga – disse empurrando-a para a cômoda – sai do meu quarto, anda.
— Peste – rebateu chutando a lateral da minha perna.
Puxei seu braço, segurei sua cabeça e a empurrei para o corredor fazendo-a bater contra a parede. Ri de sua cara enquanto ia para o ninho que ela chamava de quarto.
Assim que passei pela porta senti algo bater em minhas costas, virei-me para a criatura anã que ostentava um largo sorriso no rosto enquanto segurava um pé do chinelo e presumi que havia me arremessado o outro.
— Quer que eu dê meia volta?
— Não – choramingou soltando a havaiana – desculpa Bernardo.
Assenti puxando a cadeira e me sentando, liguei a tela e franzi o cenho.
— Pega uma chave de fenda lá na cozinha – pedi tirando os fios do Notebook.
— Por quê?
— Porque eu não posso abrir com o dedo – respondi olhando para ela.
— O que?! Você não vai abrir as minhas coisas! – puxou o aparelho das minhas mãos abraçando-o como se fosse um bichinho de pelúcia.
— E você quer que eu concerte como? Usando a mente? Me dê logo isso Capitolina.
— Não! – gritou afastando-se – e se tentar pegar eu te mordo de novo.
Encostei-me na cadeira olhando para ela tentando entender o que essa coisa tinha na cabeça além de cabelo. Primeiro me chama para ajudar, depois me agride e agora não quer mais a minha ajuda.
— Desisto de tentar te entender – falei me levantando.
— Não pode simplesmente formatá-lo?
— E como eu vou fazer isso com o HD torrado, gênio?
Ela abriu a boca olhando para o seu "filhote" e voltou-se para mim com uma careta.
— Você é muito desagradável.
— Claro que sou eu o desagradável da casa – respondi irônico.
Caminhei até a porta parando a seu lado fitando o meio metro me encarando de volta, umedeci os lábios pensando em como ela estava vulnerável para ser agarrada novamente.
Não Bernardo, é feio agarrar garotas que não podem se defender.
— Como vou atualizar meu blog agora? – perguntou manhosa.
Juro. Eu juro que a minha vontade foi abraçar aquele pedaço de ruindade tamanha foi a fofura daquilo. Ela não tá merecendo muito não.
— Meninos, que bom que estão juntos – Claudio falou surgindo pela escada – Maria, não corra ainda.
Olhei novamente para a criatura estranha com cara de choro e ri passando o braço por seu pescoço puxando-a para perto.
— É culpa da Capitu – disse rindo.
O lutador olhou para os dois por alguns instantes e balançou a cabeça.
— Bem – começou puxando a carteira – como vocês sabem, eu e a Laura estamos brigando muito, ela parece até a Capitu de tão brava.
— Que barra em – comentei acariciando o cabelo de Maria que estranhamente estava quieta.
— Quero que você sumam até as onze da noite, quero um momento a sós com a minha esposa.
A bravinha finalmente despertou do transe e se afastou de mim tirando bruscamente meu braço dela.
— Porque nós temos que sumir? Pode fazer isso com a gente em casa.
— Ele quer transar com a sua mãe no sofá.
— Sim, e para isso vocês precisam estar longe – Claudio concordou – principalmente você, Maria barraqueira.
Ri vendo a expressão de choque na cara dela.
— Vocês são nojentos – rosnou apertando ainda mais o computador contra o peito.
Claudio abriu a carteira tirando duas notas cinquenta e entregou para cada um.
— Bico fechado – recomendou colocando-a de volta no bolso – quando derem sete horas não quero ver nem fumaça dos dois nessa casa, entenderam?
Assenti vendo Maria fazer um bico.
— Tudo bem – concordou a contra gosto.
É, vai ser uma noite bem divertida.
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