Querido Hater
10 Capítulo 10
Notas iniciais
Acordei com o som estridente do despertador do meu celular, tateei na cama em busca daquela coisa chata e o senti debaixo do travesseiro, olhei para a tela com os olhos estreitos por causa da claridade e tentei parar aquele barulho irritante.
"Resolva o quebra-cabeça para parar o despertador"
Rosnei com aquilo e o atirei na parede ouvindo o som abafado pela capa protetora e do tapete. Graças a Deus!
— Cala a boca! – gritei esfregando meu rosto.
Sentia a raiva fervendo em meu corpo, tinha vontade de berrar e quebrar tudo o que via pela frente e por quê? Pelo simples fato de que estava suando com aquele calor infernal que fazia no quarto, passei o braço na cama procurando pelo celular e praguejei – ou gritei – lembrando que havia arremessado aquela porcaria no chão. Joguei as cobertas para o lado sentindo um ventinho de nada refrescar meu corpo, mas durou apenas três segundos e o calor voltou. Eu simplesmente odeio acordar suada, é nojento e você tem a impressão que dormiu suja, mas isso não é pior, pra ferrar com a minha vida ainda é domingo, não tem nada que preste na TV e a casa fica um tédio só. Joguei minhas pernas para fora da cama e rolei para o lado caindo no chão, pelo menos o tapete não estava tão quente. Sentei-me vendo meu reflexo no espelho, maravilha, eu sou uma princesa.
— A princesa de Ogrotópolis – murmurei com os olhos quase se fechando novamente.
Abriram a porta sem bater, eu não liguei, estava irritada demais para gritar com alguém.
— O que faz aí no chão? – minha mãe perguntou apoiando-se na maçaneta.
— Procurando minha coroa – respondi me levantando.
— Você está linda com esse cabelo – comentou quando passei por ela – estamos te esperando para o café da manhã, tente não destruir o banheiro com seu ódio descomunal.
Ódio descomunal, era assim que ela chamava meu mau humor, só porque eu gritava com todos e tentava derrubar a casa com meus súbitos ataques de fúria.
Parei diante do espelho avaliando meu estado, realmente um lixo, mas quem liga? É só um dia qualquer de domingo, com a família e um garoto estúpido que do nada resolveu me beijar – e que beijo bom – mas isso não o faz menos estúpido. Peguei a escova e a encarei por um tempo, aquela não era a minha, vasculhei tudo procurando-a e nada. Bati no mármore da pia abaixando a cabeça.
Péssima hora para me irritar, Bernardo. Péssima hora.
Peguei uma reserva e a usei, bati a porta do banheiro e tomei um banho gelado, saí enrolada na toalha esperando não encontrá-lo na minha frente, hoje estou querendo matar um. Vesti algo leve e desci para o café encontrando todos lá, principalmente o climão entre minha mãe e o marido, puxei uma cadeira ao lado de Bernardo e me sentei assistindo a briga com ele – que por sua vez estava sério – peguei um garfo à frente e roubei um pouco do seu omelete, por incrível que pareça ele não reclamou, continuou comendo junto.
— Mas você me pediu pra fazer um sanduíche de presunto – reclamou o homem.
O garoto ao meu lado tomava alguma coisa que parecia suco de melancia, tomei o copo de sua mão fazendo-o rir. Essa coisinha tá boa demais – o suco, não ele.
— Mas tá horrível, olha o cheiro disso – falou quase enfiando a comida na cara de Claudio – se eu comer vou vomitar no seu ouvido.
Bernardo riu pondo o braço atrás da minha cadeira.
— Ouvi seu celular caindo – comentou baixo virando a cabeça para mim enquanto eu devorava seu café da manhã.
— Bom pra você – repliquei encostando-me na cadeira.
— Seu humor ta zoado – falou com uma careta – ainda por causa do beijo?
Estremeci sentindo seus dedos acariciando meu braço. Afastei-me um pouco ouvindo sua risada.
— Não toque nesse assunto – vociferei apertando o talher – tem sorte de estarmos nessa maldita aposta, caso contrário eu arrancaria a sua língua.
Mais uma vez sua risada acariciou meus ouvidos, dessa vez ele esticou o braço tocando meu rosto.
— Algo me diz que isso é uma grande mentira – vamos contar até três antes que eu exploda com esse infeliz e mande a aposta para o espaço – meu beijo é tão ruim assim?
Olhei de soslaio para ele ignorando completamente sua pergunta, foquei nas panquecas enquanto terminava de comer e o ouvi suspirar. O que ele queria que eu fizesse, gritar coisas absurdas e perder essa droga?
Minha mãe e Claudio continuavam discutindo, agora era algo sobre deixar a toalha em cima da cama, coisa de casal, isso me fez lembrar o meu post mais normal antes do Bernardo aparecer em minha vida. Tudo bem, não está sendo o inferno que imaginei e nem que eu faço parecer, ele é até legal quando está dormindo e às vezes eu rio de suas piadas – mas sem deixá-lo perceber.
Ele esticou o braço agarrando o sanduíche que minha adorável mãe largou na mesa e deu uma mordida entregando-o para mim.
— Não vou comer da sua boca – comentei mordendo o outro lado – tem doença.
— E você adorou se contaminar com ela – rebateu pegando de minhas mãos – você não vai responder mesmo a minha pergunta? – neguei – ótimo!
Ele sorriu pegando o copo de suco e levando aos lábios enquanto me fitava daquele jeito.
— Crianças, vamos passar o dia na praia? – Claudio falou chamando nossa atenção – claro que vamos. Levantem-se e arrumem-se antes que eu mude de ideia.
— Eu não vou a lugar algum, prefiro ficar em casa me afogando em meu próprio ódio – falei e sorri para o lutador.
Voltei a comer o que tinha sobrado ouvindo minha mãe falar algo sobre mau humor matinal e morte terrível, sei lá, também não entendi.
Os três começaram uma conversa breve sobre horários e planos para o resto do dia, fiquei apenas observando cada movimento do braço do garoto que permanecia no encosto da minha cadeira, por duas vezes ele apertou meu ombro e parou antes que eu fizesse algo. Depois daquilo ele finalmente subiu me deixando em paz ali na cozinha enquanto meu padrasto lavava o que estava sujo.
Às vezes acho que ele é de outro planeta, não sei se já falei isso, mas ele é perfeito demais para um padrasto, sequer pensou ter direitos de pai sobre mim, nunca levantou a voz para a princesinha aqui – o que foi bom para ele. E ainda por cima é um faz tudo. Okay, paremos de babar pelo marido da dona Laura, temos coisas mais importantes para fazer.
Levantei-me da mesa indo para a escada, precisava do meu celular para mandar mensagens para a minha querida amiga grávida – não, eu não vou falar com a Marina, ela me esqueceu completamente. Malu não parecia muito bem ontem ao telefone, parece que ela havia discutido com o pai sobre a criança sem pai, coisas que aconteciam quase sempre quando ele ligava para ela. Nunca entendi aquela família, e olhe que a conheço bastante.
[...]
Eu já montei e desmontei essa caixinha de musica mais vezes do que posso me lembrar, não sei mais o que fazer para passar o tempo nessa casa tão vazia, comecei a pensar que teria sido bom ir à praia me distrair, mesmo com Bernardo provavelmente me enchendo o saco a cada segundo. Virei-me de barriga para cima fitando o teto e em seguida virei a cabeça para a janela coberta pela cortina, eu sou mesmo uma otária, um calor desses e tudo está lacrado.
Empurrei a caixinha de lado e me estiquei para pegar o celular, estava na hora de levantar e procurar alguma coisa para fazer.
Joguei as pernas para fora da cama olhando de relance para a gaveta onde eu guardava o diário, me recriminei por aquilo e a abri puxando o caderno para o meu colo. Passei os dedos pela capa dura e parei no colar que o envolvia, maldita seja a hora em que eu decidi guardar essas lembranças, eu mantinha o meu amor por ele nessas pequenas coisas, um colar que deveria estar perto do meu coração e nas fotografias onde parecíamos felizes.
— Porque eu não consigo te esquecer? – perguntei encarando o cordão acobreado com um pingente de coroa.
A resposta estava na minha cara, mas o gênio aqui não joga todas essas porcarias fora. Ta não são porcarias, são lembranças.
Guardei tudo novamente e me levantei, precisava de um banho para me animar, quem sabe até fosse à casa da Malu ver como estava tudo por lá. Saí do quarto lentamente e parei no meio do corredor olhando para os lados, estava tudo muito vazio ali.
Aproximei-me da porta do quarto de Bernardo e a empurrei me perguntando por que diabos estava fazendo aquilo. Abracei o batente olhando para dentro do lugar incrivelmente arrumado, pensei que aquilo ali estaria uma zona por ser domingo, mas até que me admirei. Sua cama estava impecável, o lençol estirado perfeitamente e sem nenhuma dobrinha, os livros enfileirados na estante, os cadernos na mesa do computador, a cômoda...
Pigarreei lembrando-me do que havia acontecido naquele canto.
Balancei a cabeça e caminhei até a mesinha, passei os dedos pelo encosto de sua cadeira e depois pelo teclado enorme que ele devia usar para jogar. Ri enquanto me sentava para ter uma noção de como era estar desse lado do site, não vou mentir, certas vezes eu via o que ele postava, achava até engraçado algumas daquelas besteiras. Eu disse algumas tá legal?
— Quanta curiosidade pra uma pessoa só.
Fechei os olhos pensando numa boa desculpa para estar em seu quarto. Era só o que faltava esse imbecil aparecer justo agora.
— Não te ensinaram que é feio entrar no quarto dos outros sem permissão? – perguntou divertido.
— Estou na minha casa.
— Na casa do Claudio – corrigiu.
Olhei para ele me levantando, o melhor que eu podia fazer era sair antes que me perdesse nas respostas, não estava lá no clima para rebater suas provocações.
— O que faz aqui essa hora? – perguntei enquanto passava por ele.
— Senti saudades – respondeu vindo atrás de mim.
Revirei os olhos continuando meu caminho ouvindo seus passos atrás de mim, arrependo-me amargamente de ter reclamado do vazio da casa, esse garoto já chega enchendo o meu saco com essas piadinhas sem graça.
— Seus sentimentos me emocionam, jovem príncipe – brinquei enquanto descia as escadas – mas sinto muito desapontá-lo, nosso amor não pode acontecer.
Ouvi sua risada atrás de mim.
— Quando tornastes tão fria e descrente em relação a nós?
Foi a minha vez de rir. Terminei de descer os degraus e girei nos calcanhares pondo as mãos à frente do corpo.
— O senhor foi inteiramente culpado por minha descrença– pus a mão sobre o peito de forma dramática.
— Pois diga-me quando, lhe assegurarei minha súplica pelo seu perdão, bela e perigosa donzela.
Ri internamente quando Bernardo ajoelhou-se com a mão também sobre o peito como aqueles homens dos filmes prometendo lealdade.
— Quando me beijaste na tarde passada de modo tão grosseiro como se eu fosse uma das tuas mulheres de cabaré – terminei prendendo o riso.
Bernardo levantou estendendo a mão ainda de cabeça baixa. Ergui o queixo olhando para o lado me negando a tocá-la.
— Ora, se não é de seu feitio ser tomada de forma rude – começou ficando na posição normal e dando um passo em minha direção – posso tentar controlar meus modos. Dessa vez vai gostar, potranca.
Caímos na gargalhada no mesmo instante. Definitivamente esse garoto tem sérios problemas.
— Você é um idiota – disse parando de rir – como consegue conquistar as garotas com esses termos?
Ele deu um passo em minha direção ainda rindo. Passei a mão pelo rosto fechando os olhos tentando me conter, não era bom ter uma trégua com ele de uma hora para outra, na verdade nem sei mais o que pensar sobre esse nosso ódio sem sentido.
— Posso mudá-los – murmurou me puxando pela cintura. Ah não, ele não vai fazer isso de novo – se você preferir.
— Bernardo, não estrague o momento com a sua lábia de cafajeste – falei sentindo-o me puxar ainda mais para si – por favor.
Mais uma vez ele fingiu não ouvir, tocou meu rosto com a ponta dos dedos deslizando-os até meus lábios, fechei os olhos sentindo um arrepio na espinha. Ele ainda acariciava meus lábios delicadamente, eu sabia que não deveria estar cedendo, tentava com todas as minhas forças empurrá-lo para longe – internamente, claro.
Até que ele tocou meu queixo com um dos dedos levantando-o na direção de seus lábios tocando-os quase que imperceptivelmente e se afastou soltando meu corpo lentamente.
— Acho que isso cela nosso acordo de trégua – murmurou fazendo-me abrir os olhos.
Fale com o autor