Querido Diário

1 Capítulo único


“Eram seis da tarde. O frio era absolutamente congelante. A neve caia sobre mim e sobre o banco, como se me castigasse por minha ousadia. As peças de roupa listradas em preto e rosa que eu usava tornavam a cena ainda mais dramática. Minha maquiagem estava borrando por causa das lágrimas...

Carregava uma bolsa. Nela havia um estojo de maquiagem, dinheiro, uma escova de cabelo, alguns cigarros... Talvez o tabaco me mate... Será? Eu não tinha fósforos, os cigarros eram inúteis. Pensei até em tingir a neve branquinha com uma cor mais legal: vermelho. Vermelho como o sangue. Meu sangue...Como? Talvez o espelho do estojo de maquiagem. Deitei sobre o banco e me encolhi, sentindo o vento polar. Tudo o que eu sentia eram meus pensamentos torturantes e uma madeira gelada pintada com tinta barata. Quase adormeci. Caí em devaneios, vi o vazio. Encontrei-me comigo mesma. Me senti horrível. Como sentir outra coisa? Aquilo era imperdoável Não pude conter meu pranto.

Acordei. Olhei para a torre do relógio, eram nove horas. Minhas costas doíam. A praça estava vazia, a não ser por um cachorro que revirava o lixo e uma rapariga de poucas roupas entrando num carro. Ninguém. Minha cabeça latejava. Vou à polícia. Vou me entregar... Me sentia culpada. Afinal, eu deveria ter feito alguma coisa. Não fiz. Talvez por omissão. Talvez porque, no fundo, soubesse que já era tarde. Me levantei, sacudi a neve, peguei a bolsa e fui para casa tentar me esquecer aquela cena deplorável, mesmo sabendo que seria impossível...”

- Trecho retirado do diário de Amy London, escrito após testemunhar o suicídio de seu irmão, Tom London

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