Querida colega
1 Hero Fiennes
Aquele dia tinha sido bem difícil. Tinha muitos papéis para revisar, e ainda um desfile de moda. Sei que a vida de ator é puxada — mas foi o que escolhi pra mim. E, pra ser sincero, eu gosto muito do que faço. O que me cansa, de verdade, são as perguntas repetitivas de repórteres, jornalistas e fofoqueiros. Sempre querendo saber da minha vida pessoal, dos meus relacionamentos… Isso é algo que nunca vou expor ao público. Nem passa pela minha cabeça.
O que realmente importa agora é que ganhei um novo papel — e é daqueles bombásticos. Uma nova personagem, uma nova história. Estou satisfeito. Ainda não conheço minha colega de cena, mas espero que ela seja simpática. Aliás, quase todas com quem já trabalhei eram. Só que, diferente do que pensam, eu não costumo me envolver além da amizade. As pessoas vivem querendo criar histórias, talvez por não saberem o que fazer com a droga da vida delas.
Passo a mão pelos cabelos. Preciso pegar meu carro. Hoje não quero motorista. Essa semana de moda foi boa, mas estou exausto. Se eu tiver alguma folga, vou guardar pra sair com alguns amigos e tomar uma vodka. Não costumo beber até cair — só o suficiente pra relaxar.
Sinto falta de Londres. Faz dias que estou aqui nos Estados Unidos.
Entro no carro, coloco a chave na ignição. O celular toca. É uma amiga. Faz tempo que a gente não se vê. Inanna Sarkis. Atriz, canadense. Às vezes canta pra multidões. Nos conhecemos num bar, quando ela veio a Londres e resolveu encher a cara. Ela é divertida. Às vezes sinto falta dela.
Atendo antes que vá pra caixa postal.
— E aí, Inanna?
— Você não sabe o que eu tenho pra te contar.
Passo a mão nos cabelos e umedeço os lábios — hábito antigo.
— Nem você sabe o que eu tenho pra contar.
— Deixa eu ir primeiro.
— Vai em frente.
Ela sabe que estou dirigindo, mas não se importa. Nem eu. Podia usar os fones, ou colocar no alto-falante, mas não quero que o mundo todo ouça. Depois vira fofoca, e vão dizer que estamos namorando. Já consigo até imaginar as manchetes. Não posso deixar isso acontecer. Tenho o costume de proteger meus amigos, mesmo não sendo exatamente o tipo protetor.
— Eu acabei de receber um convite. Adivinha só?
— Vai fazer aquelas dancinhas ridículas?
— Não, seu tonto. Recebi um convite do diretor Roger Kumble.
— O quê?
Paro o carro de uma vez. Dou um sorriso discreto. Preciso esperar o sinal abrir.
— Tá ouvindo ou quer que eu repita?
Ela é assim. Meio chata às vezes. Mas eu não ligo.
— Ele também me chamou.
— Vamos fazer parte do mesmo filme! Isso é uma baita novidade.
— Fui pego de surpresa aqui…
Ouço uns ruídos do outro lado da linha. Parece que tem uma festinha acontecendo. Não tinha notado antes.
— Preciso desligar, tô ocupada — e ela desliga.
Volto a dirigir. Parece que vem muita coisa por aí, mas... sinceramente? Não tô nem um pouco preocupado.
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