Querida Jadelyn
10 É como se fossem um cardápio.
Notas iniciais
POV Beck
Depois de Jade sorrir para todos que passaram a entrar pelas portas do Teatro e tomarem suas cadeiras, ela decidiu chamar o Sinjin para ajudá-la a entregar os roteiros. Na verdade, ele fez todo o serviço sozinho quando o Daniel chegou e Jade passou a ignorar todo o resto do mundo.
Tori percebeu isto também, ela murmurou um “Eles tão juntos mesmo?” para mim e voltou a ficar vidrada na ação dos dois.
Como sempre, o cara estava muito tímido e recatado enquanto a Jade se aproximava bastante e sorria, bem diferente de como ela agia normalmente com qualquer pessoa.
Ela está louca. Só poderia estar. Depois de tudo que aconteceu, sendo ontem ou hoje pelo almoço, ela ainda insistiria em outro cara? Pronto, minha dúvida estava respondida. Nada seria o suficiente para fazê-la voltar para mim. Não dávamos certo, nunca iríamos dar. No máximo seríamos amantes para o resto da eternidade e eu nem sequer poderia chamá-la de ‘minha’ na frente das pessoas, eu nem poderia beijá-la em público ou brigar pelo tamanho da sua saia.
Um roteiro que ela estava segurando caiu no chão, bem a sua frente. Ela quase se abaixou para pegar, mas – Mas... É mesmo! Ela não estava usando calcinha. Calculei imediatamente a quantidade de seres masculinos por perto... Era o suficiente para eu ficar com depressão para o resto da minha vida. Mas graças a alguma força divina foi o idiota do Daniel que se abaixou e pegou para ela. Jade apenas sorriu e eu pude ler em seus lábios um ‘obrigada’.
Suspirei aliviado. Graças a Deus.
Tinha que me lembrar da próxima vez de ter cuidado para não acabar sumindo as roupas dela. Não seria a primeira vez que eu havia perdido sua calcinha...
– Ela é tão estranha. – Tori murmurou. – Eu estou com muita raiva, Beck. Antes era eu que chamava atenção de todos os meninos e eles nem olham mais para mim desde que ela passou a usar estas roupas vulgares!
Eu olhei para Tori. Ela estava mesmo se queixando disto agora? Sendo que meu coração estava a mil por hora por quase ter acontecido algo que todos os meninos ali perto poderiam se gabar de terem visto?
– Ei, Beck? – Ela gritou comigo. – Está me ouvindo?
Assenti enquanto não tirava o olhar de Jade. Eu ainda mal poderia acreditar que os dois estavam juntos. A ficha não estava caindo para mim.
Tori gemeu em frustração e se levantou da poltrona, com o seu roteiro em mãos. – Viu? Como eu disse! Licença que eu estou indo ensaiar do outro lado!
Eu assenti, na verdade mal prestei atenção no que ela disse por que agora eu tinha que descobrir quais eram os pensamentos da Jade.
Desisti logo, até porque percebi que precisava ler o roteiro dela e ganhar aquele papel. Assim eu ficaria ao lado dela durante toda esta peça... Mas descobri depois que o Daniel também tentaria justo neste papel.
Ela deveria escolher...?
Entre nós dois?
Mas que merda, eu não queria ser deixado para trás por ela. Apesar de agora ser só sua segunda opção para sexo casual, eu não poderia deixá-la sozinha neste teatro com estes brutamontes, e com o idiota do Daniel, e com aquelas duas líderes de torcida no canto que olhavam com segunda intenção para ela – e do jeito que a Jade é pervertida e tem tendências bissexuais – irão a levar para uma ‘festinha do pijama’ facilmente.
Minha atenção ao roteiro só foi quebrada quando Jade subiu no palco, e com a ajuda do Sinjin chamou atenção de todos. Ela estava sorrindo para nós e anunciou sobre a sua peça – e que agradecia a presença de todos. Mas o que? Ela nunca no universo pediu obrigada ou agradeceu por algo, para estas pessoas. Jade também falou que chamaria dos papéis secundários aos principais e explicou as regras. Ela gravaria as cenas e escolheria quem ficaria com qual personagem, anunciando-os hoje de noite pelo seu perfil no TheSlap e amanhã pela manhã no mural de recados da escola.
Eu ficava cada vez mais ansioso para a minha vez. Não haviam só líderes de torcida, jogadores do time ou o Daniel, haviam boas pessoas normais também... Amigos, pessoas que conhecíamos de alguma classe... Deveriam ter sido chamados ou vindo por conta própria ao saberem quem estava participando. Por que quando há gente popular numa peça, todas as outras pessoas querem participar também.
Não sei quem estava chamando, mas com o passar do tempo o teatro só ia ficando cada vez mais cheio. Com mais conversas paralelas e eu sabia que Jade estava irritando-se com aquelas 142 (sim, eu havia tido tempo para contar!) pessoas desnecessárias numa peça onde teria no máximo – contando com substitutos — vinte pessoas participantes.
Muita gente estava atuando bem, mas bem regular eram só os que se safavam de ser ruim. Na verdade, ninguém ali tinha algum dom com a atuação – eu conseguia notar facilmente o uso excessivo e desnecessário das dicas que Sikowtiz dava em suas aulas desde o primeiro ano.
Empenhados, não?
E enquanto mais uma pessoa se apresentava (uma menina que mexia os braços de maneira estranha) eu me levantei da minha cadeira e segui sorrateiramente para a primeira fileira, ao lado de Jade – ela estava sentada, com as pernas cruzadas e corpo encostado no lado esquerdo, enquanto tinha um dedo na frente dos lábios e olhava de maneira cínica para a participante – resumindo, Jade sendo sexy como sempre. Sentei-me lá, tive que tirar as nossas duas mochilas para poder sentar, e joguei-as em cima do Sinjin que parecia absorto demais olhando para as pernas de Jade.
A fileira de ‘juízes’ ficou assim, apesar de nem eu e nem Sinjin estarmos julgando algo. Jade na ponta, eu no meio, Sinjin do meu lado.
– Olá... – Eu me virei para o lado de Jade, flertando. – Sentiu saudades minhas?
– Eu estou ocupada. – Ela, cínica, nem tirou os olhos da participante. E era estranho porque do lado tinha uma câmera gravando tudo que ela veria mais tarde para enfim escolher quem entraria e quem não. Então nossa esperta Jade estava apenas me evitando. Será que era só ver o Daniel para ela passar a me ignorar?
– Ahh, Jade... – Reclamei e foi no mesmo instante que a menina desceu do palco e subiu uma outra candidata para o papel: Amiga Número 02, anunciado pelo Sinjin. – Você vai mesmo ficar me ignorando? Este e os três seguintes só serão papéis secundários que ninguém liga, você só deverá dar atenção mesmo quando for os principais.
Não sei se era a pedido do momento e o fato dela estar agindo profissionalmente cínica, mas me relembrava demais da minha Jade malvada que eu sentia tantas saudades. – Querido, — ela usou muito sarcasmo. – A peça é minha logo eu escolho no que devo prestar atenção ou não, e sendo assim cada detalhe para mim conta. E é nisto que eu estou prestando atenção agora: nos detalhes. E é claro que eu vou prestar atenção na sua vez, será uma épica batalha sua..
– Você realmente vai escolher? – Me reencostei na cadeira, sentindo um gosto amargo em minha garganta. – Pensei que eu já fosse o melhor para você. – Falei um pensamento em voz alta, sem nem perceber.
Só tive consciência disto quando Jade se virou e respondeu para mim.
– Eu gosto de escolher. Gosto de ter várias opções. Nunca ninguém vai ser o melhor para mim. – O sorriso frio dela, a sua expressão provocante... Os seus lábios vermelhos... Ela só conseguia me matar, me arrastar para baixo, me golpear e me fazer sentir dor. Mas eu a amava tanto, ela me prendia nela. Eu nunca poderia deixá-la ir mesmo ouvindo-a falar isto, mesmo sabendo que eu era uma de suas opções.
Ela era perfeita.
Dos pés a cabeça.
Jade remexeu-se na cadeira, puxando novamente minha atenção só para ela. Então desceu seu corpo vagarosamente, fazendo questão de usar as mãos para deixar a saia no mesmo lugar. Uma ação que qualquer criança entediada faria enquanto sentada, só que foi extremamente perturbador porque no processo eu consegui ver, e eu sabia que foi de propósito, grande parte da sua coxa e quadril.
Jade, Jade, Jade...
Será que ela não cansaria de ser irresistível?
Eu consegui disfarçar e manter a calma tempo o suficiente para não ter um amigo nas calças e me deixar com algum problema. Jade então subiu ao palco, totalmente sedutora em todo o processo de ida até lá – ou eu estava muito tarado — e anunciou que faríamos uma pausa para então retornamos em 10 minutos com os testes dos inscritos para os personagens principais.
Ela ficou no palco enquanto alguns seres vieram pedir ajuda em algum canto ou outro do roteiro, ou tinham algumas dúvidas sobre qualquer coisa. E enquanto explicava um pouco irritada – eu reconheci isto em seus olhares e gestos – aproveitei para subir descaradamente em cima do palco e ver se eu conseguia enxergar o Daniel de lá.
Só o achei porque enquanto rondava os olhos pelos cantos do teatro, fitei a cadeira de Jade e lá tinha alguém – o próprio Daniel. Qual é o problema dele? A cadeira é dela. Dela. Não dele, porque ele estava sentado lá? Para quando ela viesse de volta alegar que não sairia e fazê-la sentar em seu colo? Só era isto o pior que eu esperava. Mas enquanto pirava comigo mesmo, quase nem percebi que ela havia o chamado para o palco também.
E ele se levantou e veio.
Ela fez um sinal para eu acompanhá-la também, então estávamos indo ter uma conversa de três em particular.
– Oi, Jade? – Daniel acenou na sua frente todo simpático e, suspeito. Sério mesmo, Jade? Bufei comigo mesmo.
– Meninos... Vocês foram os dois que escolheram o papel principal ao meu lado. Sabem que eu serei a Ann e que terão que atuar ... – Ela mordeu os lábios, escolhendo as palavras. – E me beijar, fim. Gostaria de saber formalmente se algum dos dois se opõe.
– Claro que não! – Eu e ele falamos quase que no mesmo tempo. Eu olhei para ele e ele fez o mesmo, deixei demonstrado que não tinha mais respeito algum por ele.
– Então tudo bem? – Ela riu. Assentimos. – Então desejo um bom teste para vocês dois. – E Jade sorriu toda contente e simpática... Ela nunca tinha agido assim comigo, nem quando era nós dois sozinhos... Mas que merda ela estava fazendo, hein?
– Mas Jade... – Daniel a interrompeu. – Você disse que só nós dois havíamos nos inscrito?
Ela ficou parada. E ele continuou.
– Fiquei sabendo que muitos mais quiseram se inscrever. Acho que mais da metade de toda a escola, meus amigos viram o quanto é disputado e entraram em outros papeis só por isto. Só porque as duas vagas do principal já estavam preenchidas, quem não conseguir ficaria substituindo. E todos ficaram chateados por não conseguirem nem se inscrever. – Ele continuou. – Mas só falando... Sua peça deve ser de fato incrível e todos deveriam poder participar. Não quer dar uma chance também?
Idiota! Como esse cara era retardado! Só queriam participar para poderem ter a chance de beijar ela, esses canalhas imundos... E o Daniel usando sua super inteligência ainda! Estava propondo mesmo isto? Disputar com toda a escola um beijo da Jade? Um idiota completo.
– Claro que não. Isto dará muito trabalho desnecessário e é algo que eu não posso arcar agora. Pense se realmente queriam entrar neste papel... Porque não se inscreveram antes das vagas ficarem indisponíveis? – Ela cruzou os braços. Sim, esta era a minha garota. Eu fiquei tão orgulhoso... Tentei esconder o meu sorriso e acabar com a vontade de fazer uma ‘dança da vitória’ ali mesmo.
– Então eu e o Beck, né? – E sorrindo ele se virou para mim. Assenti e fiz questão de não transparecer intimidade. Nós demos outro olhar. Ele levantou uma mão para mim. – E assim, que vença o melhor.
Trocamos um aperto de mão e eu concordei com ele. Não queria demonstrar minha inquietante irritação sobre aquele cara, muito menos na frente de Jade... Ela olhava para ele como se o ele fosse o homem mais perfeito do universo.
É sério... Eu nunca tinha visto este olhar na Jade... A não ser quando ela viu o homem grávido e o seu time de hockey favorito ganhando nas finais do verão passado... Acho que só foi mesmo estas duas vezes – por que ela estava dando este olhar para um cara assim, como o Daniel? Eu levei a intrigante dúvida para o fundo da minha mente enquanto desci do palco em direção ao meu lugar de antes.
Só que o Sr.Incrível desceu juntamente comigo e eu não esperava que ele fosse fazer o que fez. Sentou-se novamente no lugar pertencente a minha Jade.
– Este lugar é dela. – Me virei para ele e sorri presunçosamente.
– Ah, eu sei. – Ele me deu um sorriso amigável. Tive vontade de explodir os miolos dele, nossa... Estou pensando como a Jade.
– Então? – Perguntei quando ele deixou claro que não iria continuar com uma explicação.
– Então que eu estou aqui. – Ele só respondeu como se não fosse nada demais e se virou novamente para o palco, e eu sabia que ele fitava o quão bonitas eram as pernas dela. Não piscava o olho sequer. E aquele cara estava começando a me deixar realmente irritado.
– Ei. – Ela apareceu na nossa frente depois de alguns minutos fora da nossa visão. Olhamos para ela... Estava com um picolé de cereja na mão e eu imaginei que fosse invenção da Cat. E ficamos assim: e eu o Daniel, dois bobos, a fitando constantemente.
– Daniel. – Ela falou tentando ser paciente. – Este lugar é meu.
Ele assentiu. – Eu só queria vim ficar perto de você. Mas o Beck está neste aqui do lado, no que estava livre. – Ele me culpou.
– Ah, mas eu cheguei primeiro! – Respondi com raiva. Ele não pensou que eu também queria estar perto dela? Idiota.
– Ok, ok. Nenhum de vocês dois pertencem a esta fileira. – Ela cruzou os braços sob o peito. Como ela era sexy... Prestei atenção quando ela levou o picolé a boca novamente e, eu juro que não poderia descrever isto sem transparecer o quanto eu poderia ser pervertido.
– E eu sei. – Daniel foi mais rápido. Tão hipnotizado nela quanto eu, se levantou e cedeu seu lugar para ela. – E desculpe-me.
– Oh. – Jade sorriu ainda de pé e o fitando. Frente a frente. Eu estava esperando um movimento dele para eu puder socar aquele imbecil. Mas não, Jade apenas continuou sorrindo e ele acenou novamente.
Qual era o problema dele com acenos?
Ela riu e sentou-se e ele logo desapareceu da nossa frente. Indo para algum outro lugar lá atrás. Então eu estava feliz por ter ganhando em resistência. Haha, idiota. Mas Jade se virou para mim com uma cara séria.
– Ei, você também. Este lugar não é seu.
– É de quem? – Eu perguntei e tentei não me distrair com a visão da boca vermelha dela, desta vez inchada e gelada. Será que eu poderia beijá-la?
– De ninguém. Mas isto não significa que eu quero você aqui. – Eu poderia ter ficado ofendido se não fosse o que eu quisesse ouvir... Jade agindo como a Jade normal. Fiquei maravilhado e me calei, na tentativa dela continuar com esta atitude.
Mas o meu amor só se calou e depois suspirou visivelmente chateada comigo.
– Não sei se devemos ficar juntos. – Ela falou. Eu juro que poderia ter entrado em pânico, me controlei e olhei para ela.
– Por que você pensa algo assim?
– Não sei. Eu juro. – Ela fez questão de não me olhar. – Eu não sei o que passa na minha cabeça agora, mas eu já te disse que tinha outros planos... E voltar para você parece bem tentador, só que vai levar estes planos por água abaixo e ainda tenho grandes chances de sofrer novamente por você. – Ela sorriu tristemente. – E eu não quero isto de novo.
– Você nunca mais vai experimentar esta sensação de novo. Prometo. – Eu me senti tão estúpido por ter feito a passar por isto uma vez. E antes que eu pudesse prometer mais alguma jura de amor, ela me interrompeu e falou mais alto.
– De qualquer forma, eu espero que você não converse mais comigo agora. Já que não vai sair do meu lado, por favor, não me faça pensar em você. – Ela se virou para o palco outra vez. E eu já estava indo abrir a boca para me impor, ou pedir que por favor ela não agisse assim, mas Jade só levantou a mão para mim e falou. – Não, não.
Eu me calei e me virei para a frente também.
Se ela queria, por que eu não aceitaria? Na verdade Daniel poderia fazer o que ela quisesse e isto me faria ser mais odiado ainda. Não permitiria.
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