NÃO

PRIMEIRO ANO DE NÃO NAMORO

Asher não se lembrava de como chegou em casa, tudo parecia um pouco nublado e distante. E drogado.

Uou, Julie tinha embebedado-o com beijos!

—Controle-se, garoto. — Julie o acotovelou, sorrindo, animada, feliz, tropeçando nos próprios pés com sono, nenhum pouco bêbada.

Era difícil para Asher acreditar que nenhum deles tinha bebido uma gota de álcool se quer e, ainda sim, se imaginar tão alto, acima de tudo... deslizando silenciosamente para o seu quarto na madrugada com uma garota.

Que não era sua namorada.

Não mais.

—Não conte a minha namorada — sussurrou, fechando a porta com o pé enquanto suas mãos se ocupavam com o zíper do vestido alheio.

—Não se preocupe — tranquilizou Julie, tirando as mãos dele do seu vestido e puxando o zíper de volta para cima antes de colar os lábios nos dele. — Tenho certeza de que ela acharia tudo muito permitido para maiores de dezesseis anos.

—Dezesseis anos? — ecoou Asher, afastando-se para poder olhá-la. Ele não se lembrava o que estava permitido para acima de dezesseis anos, mas se sentia injustiçado por esse ser o limite deles, porque ele ainda tinha dezesseis anos e ainda teria por um dia, enquanto Julie já possuía dezessete.

E ela era linda.

—Dezesseis anos — reafirmou Julie.

—Julieee — reclamou.

—Nem venha, Asher, contente-se por eu ter delimitado essa idade e não oito, para que fizéssemos traças um no outro.

—Você não sabe fazer tranca — resmungou ele.

—Mas você sabe.

—Você deveria ao menos tirar o vestido — continuou Asher. — Com dezesseis anos, eu já vi...

—Não quero saber o que você viu, Iffigen — interrompeu ela, levantando a mão.

—Não tem nada aí que eu não...

—Asher — avisou Julie.

—Eu estou falando sério. – Asher colocou as mãos na cintura dela, os lábios em seu pescoço e os fez terminar a música que não terminaram, tentando distraí-la para que pudesse puxar aquele maldito vestido para baixo. – Eu não quero que Liz pense que não estou cuidando da sua segurança como se deve só porque não estamos namorando mais. Tenho certeza que ficar tanto tempo com sutiã deve fazer algum mal, você pode pegar uma blusa minha.

Julie olhou-o... Ela não sabia nem como reagir diante de tanta cara de pau. Ele realmente achava que ela iria cair nessa? Quem ele achava que ela era? Embora ela estivesse impressionada.

—Eu fiz um teste de gravidez – anunciou.

Foi o bastante para que ele se afastasse e encarasse-a como se ela fosse louca — Julie sentiu-se uma ganhadora do Oscar, finalmente ganhadora das atenções que era merecedora.

—Você não está grávida — disse Asher, confuso, horrorizado, não entendendo qual era o problema dela.

Eram tantos problemas, Julie tinha tantos, em relação a si, sobre os outros, que ele não sabia nem por onde nomeá-los. E nomear só daria ainda mais poder a eles.

Julie levantou os olhos, desafiando-o.

Asher não sabia porque ela queria ganhar.

—Mas eu fiz.

—Não tem como você estar grávida – ele reformulou a resposta.

Asher queria ter filhos com Julie algum dia, por ventura, mas (tirando o fato de que era impossível que ela estivesse grávida nesse instante) ele queria isso quando eles estivessem condições de criar uma criança, trabalhando e com uma casa deles, não sendo sustentando pelos pais e...

—O teste deu negativo.

Asher respirou aliviado — era bom saber disso. Mesmo que já soubesse.

—Por isso o teste deu negativo.

—Por isso o teste deu negativo- concordou ela.

Asher olhou-a, sentindo que foi em outra vida que ela olhou para ele desse jeito e perguntou-se... Ele balançou a cabeça, sem saber o que ela perguntou, mas sabendo que não queria saber.

—Então. Por que você fez?

—Porque eu queria fazer. Eu nunca tinha feito um antes.

—Que... — Estranho? — Bom — decidiu.

—Sim. – Julie piscou. – Eu queria fazer ao menos uma vez.

—Okay – disse Ash lentamente. Do que ela estava falando? – Mais alguma coisa que queira me dizer?

—Não. – Ela balançou a cabeça. – Só isso. Mas agora que estamos no mesmo ponto podemos...

—Não, Julie — interrompeu Asher. — Não adianta ficar insistindo. — Ele a tirou gentilmente da sua frente e a empurrou para o lado. — Eu estou traumatizado. Não quero mais ver você nua.

Julie revirou os olhos teatralmente. Era isso que acontecia com o passar do tempo? Adaptação para fins psicológicos?

—Como se eu quisesse que você me visse nua — resmungou ela. — Eu aceito apenas a blusa. E a cama. Junto com a companhia.

—Eu pensei que fosse um pacote — disse Asher.

—Para você — Julie sorriu — eu faço um preço especial.

Asher tinha pensando sobre aquilo.

Seriamente.

E por que mesmo ele aceitou aquela história de terminar e de Julie viajar? Ele não estava batendo bem da cabeça. Ou aceitando.

—Eu não vou levar o meu namorado a tiracolo, Asher Iffigen — disse Julie mais uma vez, olhando para suas roupas no guarda-roupa e pensando quais seriam úteis para uma missão de salvação do mundo. Ela queria sabe onde estava aquela história de só falar uma vez para ser ouvida.

Asher precisava começar a escutá-la.

—Mas... mas... Charles e Liam vão!

—O que? — Julie se divertiu, olhando por cima do ombro para ele em sua cama. Era difícil não. — Você quer nos comparar a eles? Sério, Asher? Eles são os meus melhores amigos.

—Eu sou seu melhor amigo — murmurou Ash, magoado.

—Não como Charles é. Charles é meu melhor, melhor, melhor amigo. E Liam é meu irmão.

—Ei! — reclamou seu irmão. De algum lugar. Talvez no quarto, sozinho com Charles, onde não deveria estar. A menos que a porta estivesse aberta. Como a sua.

—O que? – Julie olhou para a parede, em direção ao quarto do seu irmão, para gritar. Gritar para o nada ou para alguém que não era para quem estava gritando não era com ela. — É um grande elogio! Ah, não, não, não... Você também é meu irmão, Charles, não se preocupe.

—Ei! — reclamou seu irmão biológico novamente.

—O que foi agora, Liam?

—Quer dizer que Charles é seu melhor, melhor, melhor, melhor amigo e irmão e eu sou apenas irmão?

—Não. Charles é apenas meu melhor, melhor, melhor amigo e irmão. Três melhor, não quatro.

—E eu?

—Você não vai desistir, vai?

—Não.

—Ótimo — suspirou ela. — Eu escolho... – Pausa dramática para pessoas dramáticas, pensou, antes de exclamar: — A carta da culpa!

—Oh, não – Julie conseguia ouvir Liam murmurar.

—Oh, sim — disse ela. — Quer que eu te lembre como você não me contou sobre estar namorando até que eu os vi namorando? Não? Mesmo? Então fique calado que eu preciso ter — ela deu uma pausa, olhando para os lados como se procurasse alguém nas redondezas, antes de confessar, conspiratória: — a conversa.

—Que conversa? — interrompeu Asher.

Julie endireitou-se, seus olhos concentraram-se nele com determinação, e ela anunciou:

—Precisamos conversar, Asher.

—Hum, sei — disse ele, cético. Ele não iria cair nessa de precisamos conversar. Novamente.

Da ultima vez, Asher tinha pensado que ouviu essas palavras ele pensou que iriam terminar, mas... Ash não iria cair nessa novamente. Não quando já tinham terminado. Ela iria o quê? Cutucar a ferida? Jogar sal? Dizer que era ela, não ele? Porque Asher já sabia.

—Eu deveria ter dito antes — disse Julie. — Maasss, não deu. Enfim. — Ela respirou fundo. — Não é você — disse sua ex-namorada. Asher olhou-a não surpreendido e ela voltou na metade do caminho. — Quer dizer... É! É sua culpa, Asher! — acusou. — Nada disso teria acontecido se você não... você não... se você não fosse você!

—Minha culpa? O que eu fiz? Eu nem sabia que você queria terminar!

—Por isso mesmo é sua culpa. – Julie cruzou os braços. — Como você pode não ter percebido os sinais?

—Que sinais?

—E eu sei? Você que deveria ter percebido! Ter feito algo para evitar.

—Julie! Eu não sei do que você está falando, eu pensei que tudo estava bem entre nós.

Julie parou. Considerou. Assentiu.

—Estava. Está.

—Do que... então... por que...

—Eu preciso viajar sozinha.

—Mas...

—Eles não contam.

—Obrigado — agradeceu seu irmão, sarcástico.

Ele não sabia cuidar da própria vida?, observou Julie vagamente, porque estava cuidando da dela.

—Eu preciso redescobrir minha sexualidade.

—Acho que suas pesquisas no tumblr estão indo bem, Julie.

—Obrigada — agradeceu ela. — E eu não preciso de você — terminou.

—Obrigado — agradeceu seu ex-atual-namorado.

Julie gostava disso. Era único.

—Qual é, Iffigen? – Ela sorriu. – Vai ser temporário. Não é como se eu tivesse realmente terminando com você.

—Você não está?

—É, eu estou. Estou oficialmente terminando com você.

—Está...

—Mas! – exclamou Julie, levantando o dedo triunfante. – Se eu souber que você está não oficialmente me traindo, porque nós não estamos mais namorando, pode ter certeza que vai ser recíproco.

—Eu não entendi nem um pouco o que você quis dizer... – disse Ash lentamente.

—Estou tendo uma crise de assexualidade.

—Isso existe?

—É claro que isso existe — respondeu ela, irritada. Porque, ei, Julie Harrison não era uma mentirosa, sempre falava a verdade, então era claro que isso existia. — Existe crise de heterossexualidade e homos podem refletir se são homos, então por que eu não posso?

—Eu pensei que você estivesse comigo por causa de tudo isso.

Julie odiava mal entendidos, porque só atraia mais mal entendidos e as pessoas paravam de falar e começavam a ficar desconfortável... Na verdade, não. Julie gostava de ver até quando as pessoas levariam isso adiante antes de decidir falar, mas ela não queria que Asher pensasse que estava com ele por causa do seu corpo — ela estava, mas não era apenas isso.

Julie Harrison não era tão superficial assim.

—Asher, querido, você está comigo por causa de tudo isso? — retrucou ela, apontando para si. — Então pronto. Eu não toleraria você agindo como um idiotas às vezes, se não gostasse de você a maior parte do tempo. E eu gosto do que vejo, é claro...

—Eu não quero ouvir isso — murmurou Liam para Charles. — Estou ficando enojado.

Julie que estava. Ela queria sabe o que tinha de errado com seus ouvidos para estar ouvindo tão bem. Ou talvez fosse sua imaginação. Igualmente valida.

—Eu não estaria tendo uma crise de assexualidade se não gostasse do seu corpo, se não sentisse atração por ele, porque eu já sabia que era heterromântica.

—Alguém pode ser heterromântica e demissexual ao mesmo tempo? — questionou Charles em voz alta.

—Ela era arromântica — respondeu Liam, que não sabia a resposta para a pergunta do seu namorado. Alguém podia ser heterromântica e demissexual ao mesmo tempo?

—Sexualidade é fluida — respondeu Julie, alto o suficiente para que todos naquela casa a ouvisse, porque não sabia a resposta. — E eu preciso de um tempo sem você, Asher, para aceitar a minha. E ver, é claro, se sou demissexual ou se você é apenas um acaso, preciso testar e provar a vida e não ficar presa no meu primeiro namorado.

—Você vai me trair? – resumiu Asher.

—Nós estamos terminando, então não seria traição.

—Você vai me trair? — repetiu ele, encarando-a, sério.

Era a única coisa que Asher precisava saber.

Julie gostava dele? Confere.

Julie ainda gostava dele? Confere.

Julie ainda sentia atração por ele? Confere.

Julie o amava? Confere.

Julie amava-o de forma romântica? Amor era amor e Asher não estava sendo exigente. Ele só não queria ser traído, ter seu coração quebrado, porque a amava e estava loucamente apaixonado e faria qualquer coisa por ela.

—Eu não vou te trair — respondeu Julie, com a seriedade que o momento pedia.

—De uma escala de uma dez, qual seria o número que você me daria se eu perguntasse...

—Por que você não pergunta realmente? — interrompeu ela, sorrindo grata por ele ter entendido.

—Quer casar comigo?

Julie cantarolou sem comprometimento enquanto se inclinava até seu ex-atual-Asher em sua cama e colocou as palmas das mãos contra o rosto dele, apertando suas bochechas e inclinando-se para frente até que seus narizes encostassem e os esfregou, num beijo esquimó.

—Não hoje — disse ela antes de beijá-lo.

Asher sorriu quando seus lábios se tocaram, puxando-a para perto e aprofundando o beijo ainda mais, enterrando-se no gosto e no cheiro dela, em tudo que era Julie Harrison e em tudo que amava e em tudo que perderia enquanto ela estivesse longe. Ele tentou dizer que a amava sem dizer as palavras, porque aquele não era o momento, porque Julie não havia aceitado o seu pedido de casamento, mas ele ainda a amava.

Asher amava-a tanto que, quando Julie puxou para longe, ele a deixou ir.

E ela voltou.

Para mais.

Para ele.

—Já com saudades? — sussurrou contra os seus lábios.

—É o seu bônus. Por. — Um beijo nos seus lábios. — Todo. — Nariz. — Esse. — Uma na bochecha. — Tempo. — Outro nos lábios.

E então Julie se afastou e ele esperou que ela dissesse que o amava, o amava profundamente, mas ela o beijou profundamente.

Asher não estava reclamando.

—Hum — gemeu. — Você está me benzendo?

Julie riu, afastando-se para poder olhá-lo e Asher viu as lágrimas nos olhos dela e sentiu as próprias, o gosto amargo na boca e... O vazio no seu coração. Julie iria embora. Julie iria embora sem ele. Talvez não fosse para sempre (não era), mas ela iria embora.

—Eu vou sentir sua falta — prometeu ela.

—Eu também.

—Eu não vou te ligar nem uma vez.

—Eu sei. — Asher sabia que era mentira.

—Vou conhecer muitos garotos e garotas e... — Julie não sabia mais o quê, mas tinha mais, sempre tinha. — Pessoas. Seres. Vivos.

—Eu pensei que você fosse heterromântica? — questionou Asher, levantando a sobrancelha para sua amada.

—Tenho que testar minhas opções — respondeu Julie prontamente. — Estou numa crise de sexualidade aqui.

—Hum.

Asher sabia que o que Julie realmente queria era dar um tempo dele, era estar sozinha, era mostrar a si, a ele, a todos, que não precisava de Asher, que tudo não estava indo rápido demais — Asher sabia que era isso que ele mesmo queria, porque era isso que ele sentia.

Tudo entre eles estava indo tão rápido que... que Asher tinha medo do que podia acontecer, que eles terminassem — e um término falso era melhor do que um verdadeiro, porque era claro que eles não iriam, não estavam, terminando; Julie apenas gostava de mal entendidos e confusões e barracos e brigas desnecessárias.

Qual era o problema dele?, pensou Asher, porque ele gostava disso nela. Às vezes, quase sempre, nunca.

Eu te amo, Asher guardou para si, vendo-a ir e esperando que ela voltasse.

Novamente.

Sempre.

Mais uma vez.