NÃO

PRIMEIRO ANO DE NAMORO

Asher não podia acreditar no que via.

E, não importava quantas vezes piscasse, ela ainda estava lá.

No alto da escadaria, Julie parecia com quando eles saíram pela primeira vez num encontro: confiante, assustada, ansiosa, nervosa e linda, tão linda, que ele ficou sem palavras.

Apesar de conhecê-la há um tempo e de sempre vê-la desarrumada e descabelada e precisando de algumas roupas decentes. Asher se impressionava quando a via tão bem, como... Ela estava linda agora, naquele instante, e era linda antes, tão linda quanto ou mais, porque era real, porque era uma faceta que não mostrava a todos, porque era algo que Asher foi escolhido para ver e essa era uma beleza que nada podia competir com, nem mesmo Julie.

Embora...

—Como estou?

Julie sorriu, descendo as escadas e dando uma volta ao estar em frente a ele, um degrau a cima, um degrau mais alta, olhando-o altiva.

Asher revirou os olhos para ela, encontrando seu coração enfim controlado e esticou a mão para que ela pegasse e ele pudesse então puxá-la para si.

—Você está de salto alto — observou quando ela ainda parecia mais alta.

—Para o look ficar completo — explicou Julie. — Eu vou tirar os sapatos daqui a pouco — continuou. Como se Asher tivesse perguntado.

Ele balançou a cabeça. Não importava.

—Você está linda — sussurrou.

—Sou — corrigiu Julie.

—É — concordou ele.

Seus lábios no ouvido dela, um beijo em seu templo, um suspiro em sua pele, descansando por um momento ali, aproveitando o fato de estarem próximos, de Julie não ter recusado o pedido e... Asher sentia-se estranho.

—O que foi? — perguntou ela.

—Não sei, apenas... um mal sentimento.

—Tudo bem. — Julie bateu no ombro dele, reconfortante. Ou simplesmente sufocada. -Você já pode me soltar.

—Tudo bem. — Asher deu um passo para trás. — Você está bem?

Julie balançou a cabeça, jogando os cabelos por cima do ombro naturalmente a essa altura da vida (ela fazia mais isso sarcasticamente do que respirar) e então se abanou, sem ar.

—Sim, é só que você estava me apertando. E eu não gosto de ser apertada.

—Desculpe.

—Tudo bem — disse ela novamente, pegando a mão dele. — E não se preocupe, Asher, se alguma coisa acontecer, eu te protejo.

Asher queria saber quem iria protegê-lo de Julie, sua defensora nas horas vagas de Rainha Fada. Ela era simplesmente impressionante e uma dor no seu coração — ele sentia doendo-o, uma pontada por vez, cada vez que a via, cada vez que ela sorria e falava e brilhava e era apenas ela, respirando.

—Uou. — Ela assobiou. — Eu não sabia que festas eram assim. Animadas.

—É a companhia — explicou Ash.

Julie sorriu para ele.

—Eu definitivamente não sabia que era uma companhia tão boa assim.

Asher riu, porque Julie Harrison definitivamente não era, mas ele não podia se ver desejando por mais ninguém — e porque rir fazia ele fazer algo além de se preocupar e pensar e relembrar que algo iria acontecer, que a noite era longa e tudo era possível.

—Essa é a nossa música — comentou Asher.

—Nós não temos uma música — retrucou Julie, pronta para discordar.

Asher a puxou para a pista de dança, suas mãos na cintura dela, balançando-se de um lado para o outro num ritmo lento que não condizia com a música em questão, o sorriso nunca deixa seus lábios ou seus olhos, e disse:

—Então pode ser essa.

Julie ouviu por um momento. Se ela, eles, iriam ter uma música, ela gostaria de saber que música era. E, hum... ela conhecia. Julie queria saber se Asher conhecia, porque não era uma música que escolheria para eles livremente, embora se adequasse a situação.

—Eu não gosto dessa música – declarou.

—Você não precisa gostar dessa música.

—É claro que eu preciso – zombou ela. — Se essa vai ser a nossa música. Como é mesmo? “Eu nervosamente ensaio para quando você estiver por perto”? – traduziu, provocando-o.

—Hã, eu – gaguejou Ash. – Eu não conheço essa música – disse por fim, corando de vergonha por ter escolhido uma música que nem sabia qual era.

Julie sorriu, porque ele era adorável. E culpe-a por isso, por achar seu namorado adorável e tão malditamente fofo.

—Eu traduzo para você. Sua sorte é que conheço a música e sei inglês muito bem.

—Eu sei inglês – resmungou Asher. – É só que é diferente: ler e ouvir assim, as palavras parecem estranhas.

Julie revirou os olhos e o ignorou, ela não precisava daquelas explicações, ela não o julgava – Julie tentava se manter o mais afastada e neutra possível de julgamentos quando não estava a serviço, quando não era a única Rainha nas redondezas, porque todo mundo tinha um motivo e.... não julgue para não ser julgada, lembrou.

—Nunca ouve uma maneira de fazer isso fácil – declamou Julie. — Quando não há nada de errado, mas não me sinto bem. Ou a sua cabeça ou o seu coração, você coloca o outro no fogo. Antes e agora eu estou me sentindo culpada, porque eu simplesmente não consigo parar esse pêndulo na minha cabeça. Embora eu saiba que o nosso tempo está terminando, eu prefiro ficar deitada pra sempre nessa cama. E eu continuo esperando você me fazer mudar de idéia. Me dê mais uma noite – pedi por fim, mas a música continuou tocando. Novas palavras, frases antigas, letras não traduzidas. – O que achou?

Asher revirou os olhos, as mãos em sua cintura e inclinou-se até seus narizes escovarem-se, perguntando-se porque se sentia como Julieta na sacada, ouvindo seu amado Romeu declarar que gostava de sua prima, não dela, que eles não podiam fugir juntos. Isso tinha acontecido? Asher não sabia, tudo que sabia era que aquilo era estranho.

—Não vou elogiar seu inglês.

—Eu não preciso disso – retrucou Julie. – E eu falava da nossa música. Gostou dela?

—Eu não entendo qual o seu problema com ela – confessou Ash, dando de ombros. – Um pouco... parece ser o suficiente melodramática para você. Um cara, uma pessoa, alguém, parece estar apaixonada e não quer estragar o que eles tem, mas também quer confessar e... quer uma noite para mostrar que pode ser diferente, que eles podem ser diferente, ter algo. Eu gostei. Parece ser adequada para nós.

—Hum – disse Julie, não concordado, não negando, não reagindo.

—O que você quer dizer? – perguntou.

E então Asher girou-a, um círculo perfeito, o vestido dela armou-se, seus pés apreciam flutuar, Julie parecia voar — ele puxou-a de volta, ele diria o quanto ela estava linda ou simplesmente como era, o quanto a amava e queria ao seu lado e estava feliz por eles estarem namorando, se ela não queria ser casar com eles e...

Tudo foi arruinado.

Não apenas o momento.

Tudo.

Nunca ouve uma maneira de fazer isso fácil, Julie ouviu o refrão e não pode concordar mais. Mas, antes disso, ela ouviu: Quem escreveu o livro sobre adeus?

Julie queria saber.

Quando Asher puxou-a de volta, seus peitos batendo suavemente juntos, ela anunciou, com um sorriso no rosto e olhos... não tristes, neutros:

—Vamos terminar.

Asher piscou, atônito.

—Você está...

—Falando sério.

—Eu não posso...

—Acreditar.

—Isso não é...

—Não.

—Isso é...

—Sim.

Asher parou.

Julie o viu parando e em movimento e sabia que essas eram reações válidas. E, se não fosse, ela estava agindo como se fosse, porque Asher merecia qualquer reação como prêmio de tê-la namorado por tanto tempo desde que não a ofendesse.

Julie movimentou-se por ambos, suas mãos na cintura dele e seu quadril para lá e para cá, até que ele perguntou, a pergunta que deveria ter feito desde que ela anunciou o término:

—Por que?

Não o julgue, Julie, pensou ela. Nem todos são que nem você, tão inteligente ou, pior, tão afortunados quanto, pensou mordaz e rancorosa e triste.

—Você não pode terminar com alguém por causa de uma música — continuou ele, porque não queria ouvi-la, não realmente, não se fosse verdade.

—Não é — disse Julie.

—Você pode escolher outra para ser a nossa música.

—Eu gosto dela em retrospectiva — confessou ela.

—O que você achou da música? — perguntou Asher finalmente.

—Melodramática — concordou Julie com ele. — E eu concordo com ela: não tem jeito de fazer uma despedida fácil...

—Despedida? — ecoou Asher, ouvindo pela primeira vez essas palavras.

—As palavras da música é sobre isso. Me faz pensar no que tenho a perder.

—O que você tem a perder?

Asher definitivamente não entendia mais nada.

—Eu vou viajar, Asher.

—O que você tem a perder? — perguntou ele novamente. — E por que temos que acabar só porque você vai viajar? E você vai viajar para onde? Por que só estou ouvindo sobre isso agora? Por que eu não posso ir junto? Por que...

—Porque eu — interrompeu Julie — não sou uma dessas garotas que vai numa missão para salvar o mundo preocupada com o garoto ao meu lado. Eu não sou uma dessas que se apaixona e esquece seus deveres, que não sabe quando você deve se apaixonar e é uma idiota.

—Você não escolhe quando se apaixona — disse Asher. — Você não pode fazer parar assim como não pode impedir seu coração de bater, de querer alguém.

—O coração não...

—E não importa o que você diga, Julie — Asher falou mais alto — você entende o que eu quero dizer.

Julie revirou os olhos para ele, porque não importava o que ele dissesse, Ash não sabia de nada.

—Eu não sou uma idiota — repetiu ela. Ele estava perdendo o ponto a ser discutido.

—Você claramente é uma — disse Ash, desgostoso.

Julie sorriu. Ela gostava um pouco dessa expressão dele, de como ele parecia com raiva, mas ainda sim não estava soltando-a, não estava se afastando, ainda queria ela ao seu lado.

—Você não está indo, Iffigen.

—Eu não pedi. — Ele bufou.

—Me dê uma noite? — pediu Julie por fim, uma pitada de esperança no final da sua voz.

Asher não podia recusar, principalmente quando ela aguardou sua resposta com um beijo, quando os lábios grudados no seu tinha gosto doce e eram de Julie e ele não queria que ela se afastasse.

Quando o beijo terminou e outra música tocava, as pessoas estavam afastadas uma da outra enquanto dançavam, as testas deles estavam pressionadas e tudo que Asher queria era que isso não fosse verdade, que não tivesse acontecendo, que não precisasse dizer sim para Julie, porque ela devia saber que ele diria, mas ele sussurraria sim, sim e quantas vezes sim que ela quisesse, gritaria no alto das montanhas e ouviria seu eco para sempre, porque estava apaixonado por ela e ele era um dos idiotas que se apaixonaria no fim do mundo e se preocuparia com a garota ao seu lado quando ela era a mais perigosa de todos.

E tinha seu coração nas mãos.