NÃO

PRIMEIRO ANO DE CASAMENTO

A primeira vez que sentiu realmente vontade de desenhar, que seus dedos coçavam para colocar a imagem que via no papel para imortalizá-la, para nunca esquecê-la, Asher soube que nunca conseguiria recriá-la do jeito que via, imaginava — ele nunca conseguia, a imagem que colocava em tintas nunca era tão boa quanto a que tinha na sua mente — mas não era isso que ele queria e a vontade de tentar, a emoção do desafio e a chance de ter alguma coisa, qualquer coisa, que guardasse aquele momento... faria aquele momento valer a pena.

E tudo aquilo acontecia novamente.

Julie deslizou por cima do tapete de pétalas, levando-as, arrastando-as... Seu vestido tinha tantos babados que ela devia estar sufocada, de algum modo, muito pano para ela, contudo, pela expressão dela, mais parecia que Julie estava numa grande e fofa nuvem de algodão, dentro de um confortável e macio marshmallow.

E Asher não podia acreditar que aquela garota — aquela garota que havia feito o certo, que havia socado-o somente porque ele duvidou dela, que cortou o cabelo porque sentiu calor (assim disse ela tremendo de frio) — agora era aquela mulher, aquela mulher que entrava vestida de branco para se casar. Para se casar com ele.

Asher não podia acreditar em sua sorte de ter conhecido uma garota tão doce que o dava calafrios enquanto roubava amendoins (ele nem gostava de amendoins!) — ou na sorte de Julie, porque essa sim era sortuda.

—Oh, meu Deus! — gritou Julie, tropeçando nos seus próprios descalços e caindo no chão. — Droga — murmurou ela, levantados os olhos. — O que você está fazendo parado aí, Asher? Venha ajuda sua noiva barra não-oficialmente-esposa ou ex-futura mulher. Noiva ao chão! Noiva ao chão! Noi... — Uma mão, com dedos que Julie conhecia bem, apareceu no seu campo de visão, e ela aceitou, sentindo-se a Cinderela do momento. — Obrigada.

—Doce — murmurou Ash para si. — Você é um doce, querida.

—Seu doce? — questionou Julie, fazendo beicinho enquanto puxava o vestido como tinha aprendido para não cair novamente.

—Meu... — Ash sentiu seus olhos se arregalaram ao ver os pés dela. — Você está descalça?

-Viu algo que gostou? — questionou Julie, provocativa, levantando o pé e colocando-o em cima do banco, mostrando suas belas pernas.

—Oh meu Deus — sussurrou Liam, escandalizado com a visão.

Asher sorriu, meio rindo, porque... Sim, era engraçado. E não era algo, era alguém. Era Julie. Ele via completamente alguém que gostava.

-Hum hum — murmurou Ash, inclinando-se para beijá-la, atraído por sua força gravitacional.

—Hum hum — tossiu a juíza antes que ele pudesse fazê-lo.

—Você conhece as regras, Julie — reclamou Asher, puxando para trás. — Nada de beijos antes do casamento. Então pare de me tentar!

—Nada de beijos antes... tentar... — murmurou ela, incrédula pelos seus ouvidos. Eles tinham ouvido o que tinham ouvido? — Sem beijo para você depois do casamento! — ditou Julie, puxando-o para o altar. — Oh, eu vou amar isso, essa lua de mel será...

—Bem, não precisamos nos beijar para...

—Essa conversa está ficando muito íntima para os meus ouvidos puros — interrompeu Charles.

—Puros — zombou Julie.

—Como se ele não a conhecesse há muito tempo.

—Eu pensei a mesma coisa! — exclamou ela.

—Ou não tivesse namorado seu irmão — completou Asher.

—Sério — insistiu Julie. — Ainda bem que vamos nos casar, porque... — Ela balançou a cabeça. — Essa conexão entre a gente... uau.

—Você me ama — traduziu Asher.

Julie sorriu.

—Não force a barra.

—Asher, querido — começou Julie, de um jeito que queria dizer "você é realmente querido, mas estou sendo sarcástica nesse querido, querido". — Eu sei que durante todos esses anos de namoro houve muitos momentos que eu te disse "não hoje" e você sabe porque, porque algumas vezes, muitas vezes, foi uma brincadeira, outras eu não acreditava, em outras... — Julie parou, sorrindo de um jeito que queria dizer que era brincadeira, que suas próximas palavras seria uma provocação, mas seus olhos diziam que eram verdades, suas palavras foram verdades. Ela confessou: — Eu tinha medo. Estávamos naquele rolo há o que? Quase dois meses? Namorávamos há três, cinco, quase uma semana? E eu não acreditei em você. Podia ser verdade, alguma dia eu esperava que fosse, mas não hoje, não naquele dia, e... E isso aconteceu. Eu acredito em você. Eu finalmente acredito em você, não porque você me disse, mas porque você me mostrou. Você me mostrou que me amava, que confiava em mim, que aceitava minhas escolhas, embora não concordasse. E sinceramente? Essa foi a prova que eu precisava para saber que você me amava. Talvez você não se lembre desse momento, eu ficaria surpresa se você se lembrasse, mas eu disse "sim" a você muito antes de você ter feito aquela pergunta. Novamente. Então... — Julie sorriu. — Agora é a minha vez. — Julie levantou o anel que colocaria no dedo de Asher, e perguntou, a mesma pergunta, a mesma afirmação, que já ouviu tantas vezes e que sempre disse"não hoje": — Quer casar comigo?

E Asher a beijou.

E se lembrou.

Sim.

Ele já havia feito aquela pergunta há muito tempo e Julie havia aceitado, Ash pensou vagamente, distraído com os lábios de sua noiva sobre si, lentamente se afundado em memórias antigas, em memórias esquecidas, em memórias que havia sido obrigado a esquecer e que agora ele se lembrava, como se Julie estivesse dando-as de volta, como se tivesse roubado-as há muito, muito tempo....

Como se agora fosse o momento de tê-las novamente.

E Julie havia aceitado — Asher recuou diante da realidade, olhando-a por um momento e vendo que... que ela sabia que ele sabia, que ela confiava nele, que ela havia aceitado novamente.

E agora ele aceitava — Asher sentiu as lágrimas, a vontade de chorar, enquanto os dedos delicados de Julie deslizaram o anel pelo seu anelar devagar, prolongando o momento, mostrando que era uma decisão racional e que ela não se arrependeria, que...

Era uma escolha sua.

E ela escolhia Asher.

E eles estavam se casando.

E eles se amavam.

E agora Asher Iffigen não tinha nem uma idéia do que dizer como seus votos de matrimônio

Amor era uma palavra, um substantivo abstrato, e Asher não fazia nem uma idéia de como se falava sobre ele, o que dizer. O que deveria se dizer a alguém que se casa, como seus votos?

—Eu te amo — disse Ash primeiramente. — Cada vez que eu disse essas palavras era verdade, mesmo quando eu estava brincando, mesmo quando eu não entendia, mesmo que eu não tivesse dito. Eu te amo. Não vou dizer que entendo, às vezes me pergunto como, mas eu te amo. Eu amo tanto você que não sei como é possível. Eu te amo como minha melhor amiga, eu te amo como minha namorada, minha noiva e agora...

—Daqui a pouco — corrigiu Julie. – Oficialmente.

—Como minha esposa. Eu passei a te amar além do que você mostrava, dessa faceta despreocupada de quem não se importa com nada...

—Eu não me importo com nada — murmurou Julie, indignada.

—Eu passei a ver e a admirar essa pessoa honesta, eu comecei a enxergar você não como uma garotinha intrometida, mas como uma garota intrometida, uma mulher intrometida. Você cresceu, Julie, e não vou dizer que não gosto do que vejo, contudo eu gosto ainda mais difícil fato de você não ter mudado nem um pouco. — Asher parou, pensando sobre aquilo, e não era verdade. Ele reconsiderou: — Para pior. A cada dia você está melhor do que antes e eu mais apaixonado. Eu me lembro de você ter dito uma vez que acreditava em casamentos eternos, que quando se casasse seria porque você tem essa certeza, e... — Asher sorriu. — Eu estou feliz por você ter demorado a aceitar esse pedido. Não vou dizer que vai ser fácil, mas eu prometo te amar todos os dias da sua, da minha, da nossa vida. Mesmo quando você estiver me interrompendo a cada instante. Mesmo quando você se recusar a ver que estar errada. Mesmo que você faça escolhas que eu não concorde. Eu prometo te apoiar, ser seu alicerce como muitas vezes você foi o meu, ser alguém que você saiba que pode contar. Eu prometo te amar. Eu prometo que cumprirei minhas promessas. Então, Julie Agnes Harrison, você promete me aceitar?

Julie revirou os olhos.

—Que pergunta idiota — declarou ela.

—Você deveria dizer...

—Não me faça dizer "sim" — disse ela para Asher. — Não hoje. — E então se virou para a juíza e disse: — Sim.

—Eu pensei que você...

—Eu não estou dizendo a você, mas a ela — apontou Julie.

—Grande coisa — murmurou Ash.

—Você quer que eu não diga a ninguém?

Asher fez o que fazia de melhor quando conversava com Julie e percebia que estava indo ladeira abaixo... ele se calou. E a beijou – ouvindo vagamente a juíza falando algo sobre agora, em nome da lei, poderem se beijar, serem finalmente casados. Como se importasse.

Eles já estavam, já eram; eles se amavam e era o que importava.