Quem tem medo de fantasma?
2 Capítulo 2
Ele que estava de cabeça baixa, debruçado sobre a carteira, como se estivesse dormindo com o capuz na cabeça, parece ter sentido sua chegada, quando se virou para ela. Os olhos curiosos da novata, cheios de brilho se cruzaram com seu mórbido olhar escurecido. Ela não hesitou, ele continuou a encarar. Um sorriso no canto da boca surgiu da menina, que foi friamente ignorado pelo tal, se virando novamente pra mesa e voltando á dormir.
Num impulso de ousadia ela comentou, irônica.
— Muito educado da sua parte.
Mas ele continuou imóvel, apenas escutando o bater de pés frenético e ansioso da irritante menininha. Ela também teve a audácia de cutuca-lo, pra ver se o despertava daquele falso sono. Na verdade, ele só queria que a deixasse em paz, mas no fundo sabia que ela não iria desistir tão fácil. Murmurou algo que nem o próprio entendeu.
— O que? – Ela indagou – Fale mais alto!
O silêncio persistiu
— O que ouve? Você não sabe falar? – Ela franziu o cenho.
Morgan ergueu a cabeça e fez menção de se levantar, mas logo se retraiu ao ver a passagem bloqueada pelas pernas da pirralha insuportável. Deveria pensar consigo mesmo “Eu não passei nove anos nessa escola pra ter que aguentar uma criança dessas no meu pé... Elas não respeitam mais os idosos hoje em dia...”. O idoso preso naquele corpo adolescente suspirou.
— Que diabos você quer? – Ele olhou para ela, que parecia não acreditar que ele sabia falar.
— Você fala, ai meu Deus! – Ela arregalou os olhos
— Você fala, ai meu... – Ele recuou antes de dizer a última palavra. Pigarreou, com sua voz baixa – Novamente, o que é que você quer?
— Sei lá... – Ela mexeu os ombros – Conversar, ué. Conhecer você.
— Não há nada que você precise saber sobre mim – Ele empurrou suas pernas de cima da mesa – Com sua licença, senhorita – E deu as costas, caminhando para longe.
— Espere! – Ela segurou em seus ombros, coisa que ninguém tinha feito á muito tempo. Ele se assustou, virou rapidamente, tirando sua mão.
— O que pensa que está fazendo? – Ele arqueou a sobrancelha.
— É... – Ela pensou – Socializando?
— Crianças de hoje em dia... – Ele revirou os olhos, num movimento que quase se assemelhou a um sorriso – Vocês são um desastre.
— Foi mal, senhor velhinho – Ela brincou, ele não viu graça, era verdade – Prazer, Olivia – Disse, estendendo a mão.
— Morgan – Respondeu ele, virando novamente as costas e indo embora.
O sino da igreja badalou ao fundo, ecoando nos corredores da escola, era a hora da saída no período na noite.
— Não é nada gentil me deixar com a mão estendida – Ela o seguiu
— É bom você se afastar – Avisou, o que é claro, ela não obedeceu.
Andou do seu lado, só pra provocar, até o portão que dava até a rua. Seu olhar não se cruzara com o dele até o momento em que o menino fantasma se virou para olhar em seus olhos. Ela parou de repente e o encarou também, mas quando percebeu que sua íris estava completamente negra já era tarde. Ficou em uma espécie de transe, seu globo ocular parecia vazio, era um denso lago escuro que guardava monstros em suas profundezas, embora ela não tivesse visto nenhum.
“Se... afasta!” – Sua voz, agora bem mais grave, desumana, ecoava dentro da cabeça dela, mesmo que a criatura estranha não tivesse abrido a boca.
Ela fechou os olhos, recuperou o fôlego, e quando viu, o moço da capa preta já estava longe, descendo a rua em direção á casa escondida de costas pra igreja.
Passaram-se alguns dias, quando o sino da igreja tocara anunciando ás 11 da noite. Olivia junto com seus novos amigos maldosos matava aula na calçada em frente ao colégio, quando os portões abriram na hora da saída. Eles observavam os alunos irem para suas casas, quando o famoso fantasminha passou por eles.
Coturnos escuros marchavam forte e rapidamente, assim como o coração da coitada quando o viu. Não estava apaixonada, mas seu ímpeto pelo mistério a deixava fortemente entregue à incógnita que era o moço de preto. Havia algo ali, ela sabia disso. Assim que se foi, o batido forte de seu coração deu lugar ao som de zombaria de seus colegas.
— Tá apaixonadinha – Um deles cutucava sua costela, em tom de provocação.
— É o amor... – Outro cantarolava
— Você são tão infantis... – Ela revirou os olhos – Não estou apaixonada... É só que... – Lhe faltaram as palavras quando ela lembrou de seus olhos vazios.
— Só que...? – Outra deles provocou – É tanto amor que você nem tem palavras pra descrever?
— Não é amor – Ela disse pra si mesma, mas em voz alta – Tá mais pra curiosidade...
— Há ditados que dizem que a curiosidade matou o gato – Comentou Sirius, um amigo mais de fora da rodinha, em tom levemente sério pra uma brincadeira — ...ou a gata.
— Como? – Olivia indagou, um tanto quando confusa, a quem não obteve mais respostas.
Não que a falta de respostas fizesse ela desistir de obter uma, afinal isso nunca fez o seu feitio. E esse era o problema. Sirius também sabia disso, além de mais coisas que o dito cujo sabia, o que também era um problema.
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