Quem sou eu?
2 Louquinho
Capítulo 1
Louquinho
— Oh! Então essa é a ruiva bonita e misteriosa? — Perguntei, torcendo o máximo para parecer desinteressado, mas pelo olhar que Sirius me dera, parece ter sido em vão. Ou era apenas uma daquelas vezes que ele conseguia quase que ler minha mente e ninguém mais conseguia.
— Sim, aparentemente Marlene reconheceu ela de um vídeo aleatório de cover no YouTube e… bem… você sabe como Marlene consegue ser bem convincente quando quer. — Remus apertou os olhos pra de cabelo cacheado duas cadeiras longe dele.
— E vocês não estão aproveitando essa maravilha! — A mulher falou e apontou apreciando a que cantava.
— Até que ela canta bem. — Dei de ombros e Sirius soltou uma risada alta, e, não que eu fosse realmente matá-lo, mas desejei que tivesse uma forma de fazer isso ali mesmo.
Quando a música acabou a maioria do bar bateu palmas e a mulher parecia
ligeiramente envergonhada. Não que eu achasse que ela tinha de ter vergonha de algo, pois, vendo assim, não haveria uma só razão para alguém não apreciá-la em qualquer forma que fosse.
Ela exalava confiança e alegria, e todos os seus traços mostravam uma pessoa gentil. Sua voz conseguia tocar qualquer um que ouvisse e me atrevo até a compará-la aquelas sereias das histórias, sabe? Simplesmente incrível e tudo o que eu queria era mergulhar numa água por ela.
E eu nem sei nadar direito.
Mas creio que nada se compara a quando ela falou e tocou minha mão para nos cumprimentarmos.
Não quero parecer muito desesperado ou, não sei, desesperado, mas senti meu coração subir na minha boca, enquanto meu estômago tremia todo e parecia que eu estava flutuando. Sirius com certeza anotou isso para tirar sarro mais tarde.
— Ele é o Tiago, mas aparentemente perdeu a noção de como se fala. — Sirius pegou em meus ombros e me chacoalhou.
— Oi, perdão! É que você me lembrou alguém… Sou Tiago Pereira, prazer!
— Lílian Esteves. Remus falou bastante de você, Tiago! — Ela sorriu e senti me derreter todo. Tem como ser mais patético do que isso?
— Contou o nome todo pra já apresentar o nome que vai querer que ela tenha quando casarem? — Sirius falou baixo quando sentamos novamente.
— Cala a boca.
— Sabe que nessa daí é mais complicado, certo? Mora com Rem.
— Eu não vou gostar dela, Six, fica tranquilo.
— Oh, sim. Por que você sempre fica babando no meio do corredor por qualquer pessoa que cante aqui, né? Me esqueci disso.
— Você não tem uma coisa melhor pra fazer do que encher meu saco não? — Perguntei sorrindo.
— A única coisa mais interessante que te encher é o meu namorado, e agora ele tá ocupado, então…
— Sou o sortudo.
— Ainda bem que sabe.
Passei a noite entre disfarçar estar olhando para Lilian, e a olhar por algum assunto aleatório que ela começava a contar e no qual eu me entretia muito. Não era muito uma pessoa de beber, então naquele momento era praticamente o único sóbrio e ela parecia saber disso, porque direcionava a história para mim, e eu acreditava que ela estava fazendo isso a 30 minutos já.
E ela poderia continuar pelo tempo que quisesse que eu não enjoaria.
Em alguns momentos alguém falava algo no meio, ou até mesmo eu contava alguma coisa sobre mim, mas em geral, preferi apreciar ela contar dos casos que passou na vida, de ouvir sua risada e ainda ter uma desculpa para conseguir apreciar cada vez mais seus detalhes.
Não que eu estivesse sentindo algo a mais, afinal, ela moraria com Remus e as coisas não poderiam ficar complicadas.
Mas apreciar não faz mal algum, certo?
Passagem do tempo
20 dias
Eu não me orgulhava do que estava pensando. Faziam apenas 20 dias que eu conhecia Lílian, a nova colega de apartamento de um dos meus melhores amigos e, possivelmente, uma das mulheres mais encantadoras que já vi até hoje. E faziam aproximadamente 15 dias que eu deitei no sofá do apartamento que divido com Sirius, após termos passado o dia ajudando Remus e Lilian com arrumações no apartamento deles, e disse comigo mesmo o quão encantadora ela era.
O que acontece é que não foi apenas para mim mesmo, pois essa frase havia saído em voz alta, o que fez Sirius, que estava deitado no chão próximo de mim, levantar a cabeça e dar um sorriso:
— Você não pode estar falando sério, Tiago! — ele tinha um brilho nos olhos que fez com que eu me preocupasse com sua sanidade mental.
— O que? Você não achou ela encantadora?
— Primeiro que no século em que estamos ninguém mais fala ‘’encantadora’’...
— Seu namorado fala.
— Mas ele pode. Segundo que, eu sabia que você ficaria caído por ela em dias. — ele se sentou e ergueu a mão direita — Toca aqui! — e levantou sua mão esquerda, fazendo com que se encontrassem.
— Você é um sem noção. E eu não estou caído, só, acho ela encantadora. Pedro e Dora disseram o mesmo.
— Mas Pedro e Dora não tem o mesmo histórico que você, meu amigo.
— De novo isso? — revirei os olhos.
— Sim, pois é a verdade.
— Não há nada além de admiração pela pessoa que Lílian é, dou minha palavra de escoteiro — fiz um gesto que lembrei ter visto ele e Pedro fazerem diversas vezes, já que ambos haviam sido escoteiros quando mais novos.
— Não brinque com coisa séria, Tiago, posso fazer um nó com esses seus braços.
E, agora, cá estou eu, indo pro trabalho no ônibus cheio das 6h da manhã pensando em como eu gostaria de poder beijar aquela mulher ruiva que me faz rir desde o primeiro dia que a conheci; como eu gostaria de pegar em sua mão enquanto andamos perto um do outro; ou como queria poder dividir a cama com ela, ou qualquer outra coisa assim. E tudo isso por que ela me mandou uma piada extremamente ruim de um filme ruim na mesma intensidade que assistimos semana passada num canal de TV aberta qualquer.
Se ela conseguia ter esse efeito em mim com uma piada ruim, o que aconteceria se a piada fosse boa?
Ou pior, o que aconteceria se fosse uma daquelas conversas longas, com debates e ideias, das quais perdemos a noção do tempo e terminamos dando boas risadas após 3 horas conversando e eu me vejo encarando sua boca e apenas querendo quebrar o espaço que ainda tem entre nós?
Os pensamentos e preocupações são tantos que quase perco o ponto em que deveria descer — fui lembrado por uma senhora que sempre encontro lá e a qual virei amigo, e até ganho coisas em crochê de natal e aniversário.
O problema de Lílian é que ela é incrível em tudo o que ela faz.
Ela canta, ela dança, ela desenha — mesmo dizendo que seus traços não são bons, eles são -, já vi algumas músicas que ela escreveu e são ótimas, ela sabe socializar e conversar como ninguém. Ela é carinhosa, e animada demais, sempre está ali quando se precisa e tem muitos assuntos para qual falar, uma vez ela ficou discutindo sobre marcas de papel higiênico com Marlene por um bom tempo.
E mesmo que ela esteja falando de papéis higiênico eu não consigo deixar de admirar o quão bem ela fala. Eu queria ter metade da dicção que aquela mulher tem, é sério!
Eu nem preciso me esforçar para conseguir ouvir Sirius dando uma risada disso tudo enquanto Remus apenas balança a cabeça em negativa, Frank entrega uma nota de dez reais para Pedro e o mesmo diz ‘’Eu avisei.’’. E eu odiava como eu não precisava me esforçar.
Ia fazer um mês ainda que eu havia terminado com Edgar — e faziam apenas 15 dias que eu havia deixado as, supostas, coisas dele na portaria do prédio em que ele mora para não o encontrar. Não que ele não tenha ido até o meu apartamento diversas vezes cobrar essas coisas, e não que eu só tenha jogado coisas aleatórias dentro de uma caixa por que mesmo depois de analisar e tentar lembrar de que coisas eram essas, eu simplesmente não conseguia e cheguei a conclusão que ele fez aquilo apenas para me deixar doido, então, joguei umas 20 coisas numa caixa de papelão e dei por resolvido.
Ele não havia reclamado, então acho que é isso mesmo.
Sirius disse que provavelmente ele estava destruindo tudo o que dei já que pertencia a mim e me arrependi, pois lembrei que havia colocado uma camiseta verde muito legal lá dentro, mas não tinha como voltar mais atrás.
Quando entrei no prédio em que trabalho vi a recepcionista, Emmeline no lugar de sempre:
— Bom dia, marujo! — ela disse sorridente como sempre com o cabelo cacheado preso em uma parte atrás e o resto solto.
— Meu Deus! Você é muito brega, né? — me apoiei no balcão.
— Brega é você, meu filho. Ou você acha que fala como uma pessoa de 23 anos normal?
— Não é minha culpa que você e todos os outros não entendem o meu vasto vocabulário.
— Ai, Tiago, você me cansa às vezes, sabia?
— Isso é mentira, você não conseguiria ficar sem mim.
— Quer almoçar hoje? — ela perguntou enquanto me entregava a lista de estagiários para assinar.
— Sim. Quer sair hoje?
— Olha, Ti, você é muito legal, e a gente já ficou algumas vezes mas foi isso, sabe? A gente dá junto como amigos só. — Emmeline colocou a mão no peito o que me fez dar risada.
— Fica tranquila eu já te superei.
— Eu não duvido, você já superou o seu ex lá.
— Sou assim mesmo… — dei de ombros — E aí, quer sair amanhã ou não?
— Onde e com quem?
— Com o pessoal e uma garota que você não conhece, é a que tá morando com Remus. No lugar de sempre, onde tem karaokê pra cantarmos quando estivermos com vontade e um palco pra quem realmente sabe cantar.
— UH! É aquela garota? — a garota esfregou uma mão na outra com um sorriso de lado. Eu havia comentado com ela sobre Lílian algumas vezes, coisas sutis de como ela é, mas em algum momento Emmeline jurou que eu estava apaixonado e que precisava conhecer a divindade que fez o impossível acontecer.
— É a Lílian, e nem um pio pra ninguém do que você acha que estou sentindo por ela… muito menos para o Sirius. Pode contar pra ela menos pro Sirius.
— Tá. Mas se você não estivesse sentindo você não teria medo de eu contar pra alguém, especialmente pro Sirius. — eu entreguei a lista e ela pegou — me manda depois o horário.
— Tchau, Emme.
Emmeline foi a primeira amiga que fiz por aqui. Quando entrei no começo do ano, ela já trabalhava fazia um ano e meio, e foi quem ficou responsável por me mostrar onde tudo ficava, como funcionava tudo, e, consequentemente, foi me contando sobre as pessoas também. Logo na primeira hora que fiquei com ela, já havia me avisado sobre com quem eu deveria fazer contatos, e com quem, com toda a certeza, eu deveria ficar longe. Me contou quem tinha um caso com quem, e um escândalo do tipo ‘’tal pessoa era casada com tal, que namorava com tal, e engravidou outra’’.
Sempre fui extrovertido, mas naquele ponto de começo do ano estava exausto da faculdade, de trabalhar e só queria me jogar no sofá e ganhar dinheiro dali mesmo — Pedro dizia que não era impossível, eu só precisava inventar uns vídeos legais e lançar na internet, mas mesmo para isso eu estava muito desanimado.
E não é como se eu fosse A Pessoa Mais Animada agora, mas é que tenho visto uma finalidade para eu fazer tudo que faço atualmente.
E Emme me ajudou muito nesse ponto, com ela ali eu tinha alguém a mais em um espaço de trabalho que eu nunca havia tido antes, e, com o tempo, nos tornamos amigos fora dali, onde ela sai comigo e com os outros em algumas vezes — e até sem mim, indo pra algum lugar com Alice e Marlene.
Minha mesa é num espaço próximo à sala da minha superior, o qual eu presto serviços diretos, e próximo a sala do café, o que queria dizer que consigo escapar da minha mesa para me encher de café durante vários momentos enquanto fico ali — eu não me orgulho disso, mas às vezes um homem apenas precisa sair de seu trabalho para esfriar a cabeça. Mesmo que isso aconteça 15 vezes ao dia.
Trabalhar como designer gráfico é algo legal de se fazer, e algo também que escolhi fazer por que queria — embora eu coloque a mão na consciência algumas vezes e me questione o que eu tô fazendo com a minha vida. Minha superior é, por um acaso, parente de Sirius, Andrômeda Tonks — pois agora é casada, como sempre gosta de lembrar -, então nos damos bem (na maioria das vezes), considerando que ela me conhece desde que eu era uma criança, mas eu juro que ela não teve nada a ver com minha vaga na empresa!
Costumamos trocar várias ideias para trabalhos novos, e conforme o cliente que fosse, ela deixa na minha mão todo o processo e ainda me dá os devidos créditos. Eu simplesmente não tenho o que reclamar. Em um final de semana tivemos de terminar uma encomenda para um cliente grande e importante da empresa, então, Andy decidiu que seria uma boa ideia que eu dormisse de sexta até domingo em sua casa, que Ted entenderia e que eu ainda deveria levar Remus, Pedro e Sirius para ele não se sentir sozinho, e quando terminássemos ficaríamos com ele.
Essas pequenas -ou grandes — coisas, faziam com que eu me sentisse — e sinta — cada vez mais acolhido aqui dentro, pela maioria, pelo menos.
— Bom dia, Andy! — falei quando coloquei minha mochila na cadeira, pois sua porta estava aberta.
— Bom dia, Tiago! Pronto para sextar hoje? — ela disse sorridente enquanto grampeava alguns papéis.
— Pessoas com 30 anos deveriam ser proibidas de falar palavras assim.
— Você fala como se vocês falasse sem que parecesse com 50 anos de idade.
— Qual é o problema de todo mundo com o jeito que eu falo? — perguntei tentando conter uma risada.
— Ontem você disse ‘’bulhufas’’, Potter. — Amos Diggory falou da pequena mesa à minha frente, separada por uma tela de computador.
— Que mosquito irritante esse, alguém mais tá ouvindo?
— Negue o quanto quiser, mas você tem um senhor de idade ai dentro.
— Sou uma alma antiga, você não entende a minha complexidade.
— É por causa desses papos que te chamo de velho. — ele terminou dando uma piscada. — Conseguiu me arranjar com a Emmeline?
— Você é um cara de pau, né? Tem boca, vai falar com ela. Você tem até o número dela.
— Mas você é amigo dela.
— E? Não sou cupido e ainda nem vou ganhar nada com isso.
— A gente pode sair em casal: eu, você, ela, e qualquer pessoa que você estiver na época. — ele falou se levantando e esticando o corpo — Olha que proposta tentadora!
— Eu prefiro nem responder. — falei, e ele soltou uma risada, indo em direção ao seu supervisor com alguns papéis na mão.
Peguei o celular e abri na conversa com Emmeline.
Telefone do Tiago
Tiago: Eai, gatinha. Quer tc?
Emme: pelo menos você digita como alguém decente, quase.
Tiago: Ia te mandar o horário, mas a falta de educação é tanta que nem quero mais.
Emme: manda logo
Emme: você não aguentaria sem mim lá
Tiago: 20:00, tá com mesa reservada mas a Alice já vai estar antes, pelo o que ela disse.
Emme: eu mando mensagem pra ela confirmando.
Tiago: Esqueço que vocês são amigas.
Emme: acontece, né? apresentou a elite da sociedade aqui, não tem como não virar amiga.
Soltei o celular e comecei trabalhar, abrindo e-mail, vendo os pedidos que Andy deixou em bilhetes para mim e finalizando entregas para o final do dia. Normalmente quando eram dias assim não costumava perceber, pois era, de certa forma, rápido, embora cansativo. No almoço acabei não indo com Emme e incentivei Amos a coincidentemente encontrá-la no restaurante onde comíamos sempre — e ele voltou feliz, o que significa que, talvez, tenha dado certo. Confiaria mais na palavra de Emmeline do que na dele.
Já haviam dado 18h30min quando Andrômeda tocou em meu ombro me avisando do horário, chequei o celular e algumas mensagens apareciam mas, em principal a de Lílian.
Telefone do Tiago
Lílian: E aí, vai ir hoje como?
Tiago: Pernas.
Lílian: Me pergunto como eu vivi sem o seu senso de humor por 23 anos da minha vida.
Tiago: Não viveu, você começou a viver quando me conheceu a 20 dias atrás.
Lílian: Decorou o dia que nos conhecemos? eu sei que te marquei assim, Potter, mas releva um pouco aí.
Tiago: Você não me afeta tanto assim, Evans.
Lílian: Eu vou fingir que acredito…
Lílian: E aí, vai como?
Tiago: Vou sair agora do trabalho, o apartamento de vocês é mais perto, posso passar ai pegar uma roupa do Remus.
Lílian: Ou minha. Eu tenho uma que combinaria com seus olhos.
Tiago: Repara muito nos meus olhos?
Lílian: Sempre que possível
Lílian: Tô te esperando aqui, chega logo que a gente vai de Sirius.
Tiago: Sempre, né…
Eu odiava perceber o sorriso que tinha sempre que ela mandava mensagem, e o que eu sentia conforme íamos conversando cada vez mais, pois era assustador. Eu nunca me senti assim antes. Eu já havia pensado em como era se sentir assim, enquanto assistia alguma coisa ou enquanto escutava alguma música, e sempre preguei por esse amor verdadeiro, esse sentimento que era sempre o motivo pelo qual eu terminava: não sentia que teria um futuro ali, pois não sentia tudo aquilo.
E agora eu estava sentindo.
E também estava com medo e tentava fugir de todas as formas daquilo, mas às vezes simplesmente não conseguia evitar.
Me despedi de Emmeline e falei que logo encontrava ela, e ouvi ela gritar ‘’MAIS TARDE VOU CONHECER A FUTURA SENHORA POTTER, CERTO?’’, mas não deu tempo de responder.
O apartamento de Remus e Lílian eram três quarteirões do escritório, então eu iria a pé. Era comum durante a semana eu passar por lá, ou simplesmente quando estou muito cansado, ir lá para dormir e ir para o trabalho no dia seguinte. E, pelo menos, sempre me recebiam bem por lá.
Toquei a campainha do número 25 e recebi um grito da garota em resposta
— TIAGO?
— MEU DEUS!
— SOBE LOGO.
— TÁ.
O portão abriu e eu segui em direção ao elevador para o andar certo. Ao chegar lá, bati na porta e um Remus vermelho de cansaço, sem camisa, a abriu e apenas a deixou assim e foi em direção à cozinha, onde podia ouvir Lílian falando alto. Quando segui até lá vi qual era o motivo de toda a agitação: um pássaro estava voando por lá, e por onde ele havia entrado, não tinha a menor ideia.
— POR ONDE ELE VEIO? — perguntei da porta da cozinha.
— POR UMA JANELA OU PELA SACADA EU NÃO SEI! — Remus respondeu, e lembrei que ele tinha medo de pássaros, por algum motivo inexplicável.
— PRECISAMOS TIRAR ELE DAQUI! — Lílian disse.
— OU ACEITAR QUE ELE TOMOU POSSE DO NOSSO APARTAMENTO E TEMOS DE SAIR DAQUI! — Lupin gritou de volta em desespero.
— CALMA! — falei — A GENTE PODE ABAIXAR ESSAS VASSOURAS E PARAR DE GRITAR, DEIXAR O BICHO ACALMAR E DEPOIS TENTAMOS CAPTURAR. SIRIUS CHEGA LOGO NÉ? ELE É BOM NESSAS COISAS.
— CERTO!
— ABAIXEM E SAIAM DA COZINHA! — dei espaço para passarem e não demorou muito para que o pássaro se acalma-se lá dentro, e para que Sirius chegasse.
— Meu pai, o que é isso? — Sirius disse abrindo a porta.
— Tem um pássaro aqui… tava bem pior quando cheguei. — falei apontando para cozinha, e ele foi em direção à ela, já entendendo o recado.
— Bom, agora que o monstro está indo embora, vou terminar de me arrumar… — Remus falou se levantando do chão que ainda estava deitado — e com isso digo tomar mais um banho.
— Eu só vou colocar roupa, quem não gostar de mim ao meu natural com suor e vermelha, não me merece. — Lílian foi em direção ao seu quarto.
— Ainda bem que não te mereço, então. — eu disse enquanto me levantava para ir até a cozinha ver como Sirius estava se saindo.
— Você não me merece, mas me quer, Potter.
— Como está aí? — perguntei me juntando a ele na janela do cômodo.
— Bem. — ele olhava para o céu — mas ele sujou várias coisas, Remus vai surtar.
— Nada fora do comum…
— E aí, será que é hoje que você se declara para a ruiva?
— Você bem que quer mesmo, né?
— Imagina só, você fica bêbado, começa a se declarar e depois chora no meu ombro. É perfeito.
— Eu prefiro acreditar que você seria um irmão e não deixaria eu fazer isso.
— Tem que me testar primeiro. — ele bateu na minha costa e foi chamando Remus para se apressar.
Peguei uma camiseta emprestada com Lupin — uma azul escuro com vários dinossauros espalhados, algo muito interessante de se ter para um professor de história sério como Remus Lupin.
Após todos estarmos prontos e devidamente dispostos no carro de Sirius, não pude deixar de notar em como Lílian estava na noite, e como, fosse de uma forma simples ou arrumada, ela conseguia fazer meu coração disparar mais rápido — sem exagero, isso realmente acontecia.
Ela estava com o cabelo que dava em seu ombro em duas pequenas tranças, com uma sombra que combinava com sua blusa vermelha, uma calça jeans solta e um all star vermelho — ela dizia que combinar as cores em como se vestia era a maior diversão de se vestir. Talvez eu tenha olhado por tempo demais, pois, após algum momento ela se virou para mim com uma das sobrancelhas arqueadas e um sorriso divertido no rosto, e, ao contrário do que eu pensava, não disse nada, apenas me mandou uma piscada e voltou a olhar pela janela ao seu lado.
E eu tinha certeza que ela sabia o quão bonita ela era, e como se misturava bem às luzes da cidade.
— Chegamos, crianças. Papai vai estacionar o carro, mas podem ir descendo e encontra tia Alice lá dentro. — Sirius falou se virando para trás.
— Cuidado pra não bater o carro… — disse antes de fechar a porta.
O bar estava como sempre conheci: Iluminado na medida certa, com mesas cheias por todo o ambiente, música rolando fosse do rádio, do karaokê ou cantada no palco, e muitas conversas.
Vimos Alice, Frank e Emme na mesa que costumávamos sentar e, assim que cumprimentamos todo mundo, começamos a trocar conversas, seja com Lílian conhecendo Emmeline, Frank contando o que aconteceu no trabalho, Remus relatando coisas que seus alunos faziam e sempre eram hilárias, ou Emmeline falando sobre como fora o almoço com Diggory.
— Simplesmente não vai, mas não vou desperdiçar uma boa cadeira assim, né? — a garota disse antes de levar um copo de coca à boca.
— Meu Deus, Emmeline! Que modos são esses? — falei dando risada.
— E ela tá mentindo? Não tá! — Lílian concordou levantando seu copo e as duas brindaram.
— Já contaram do pássaro? — Sirius falou.
— Não, mas não querem ouvir… olha só, a Marlene e a Dorcas chegaram, que pena. — Remus acenou para as duas.
Conforme a noite foi passando, mais risadas surgiram, o karaokê foi tomado várias vezes por nós, tivemos de buscar Marlene várias vezes no caminho de volta do banheiro, e assim foram indo. E cada vez mais que ia indo, mais Lílian parecia mais bonita e chamativa, e eu não conseguia mais deixar de olhá-la. E ela não fazia questão de parar o que quer que estivesse acontecendo ali.
Até que, em um momento completo de não lucidez e coragem dada pelo álcool consumido durante as horas que passaram lá, me levantei e, diferente de antes, não fui até o microfone do karaokê, e sim até o pequeno palco no centro do bar. Cheguei no microfone, traçando um caminho meio torto, e ajustei o suporte para o meu tamanho, enquanto via Sirius, que havia estado por perto durante toda à noite, provavelmente buscando que eu não fizesse alguma besteira, como tínhamos conversado mais cedo.
— Tiago, vamos sentar. — ele falou sério no meu ouvido, me puxando.
— Six, você cuidou bem de mim, está livre, meu pupilo. Preciso fazer isso. — eu falei empurrando seu peito e ele se sentou numa cadeira logo à frente.
— Boa noite! Meu nome é Tiago.... — fiz uma pausa. A bebida fazia com que eu me sentisse mais engraçado do que eu geralmente era, e uma vontade imensa de imitar a fala de James Bond surgia em mim — Tiago Potter. E agora, eu vou cantar uma música dedicada à: não vou falar quem, mas a pessoa vai saber. Eu espero. É Louquinho.
Não haviam instrumentos, então apenas comecei a fazer o barulho dos instrumentos e soltei a frase de início:
— Essa é pra você! — apontei para a mesa onde estávamos, ao longe — Eu sei que você sempre enjoa fácil, Se apega pouco, descartando os outros. Quero esquecer, meio sem querer de te responder e parecer mais solto. — fiz movimentos com as duas mãos e pude ver Sirius levantar o celular para gravar — Mas me chama, eu sempre vou. Todo mundo me avisou que você iria me deixar.... O QUÊ? — gritei para a plateia.
— LOUQUINHO! — alguns responderam, incluindo meus amigos.
— ISSO! Você me deixa louquinho, chorando baixinho, louquinho de amor… — minhas mãos fizeram movimentos circulares ao lado da minha cabeça — louquinho, você me deixa louquinho, chorando baixinho, louquinho de amor, louquinho. — respirei fundo e soltei o microfone do suporte, pensei ter visto Lílian se aproximando, mas naquele momento não sabia se confiava mais nos meus sentidos. — AGORA VAI REPETIR ENTÃO EU VOU PULAR! Você confunde a minha vontade com fraqueza... — era definitivamente ela ali perto — um riso tão covarde que esconde a tua beleza ah! — conseguia sentir sua presença logo ali e me virei para ela — Perdi a cabeça, sei lá, era tão claro que você ia me deixar… louquinho.
Terminei a canção assim, sem terminar de fato, por que agora Lílian estava a, pelo menos, quatro passos de mim, e, antes que eu pudesse tomar alguma atitude ou analisar aquele cenário, como puxá-la para perto e beijá-la, ela mesma o fez.
Senti suas duas mãos em minha nuca e cabelo, nossos lábios grudados, quentes e com gosto de muitas bebidas, e envoltos nas palavras que haviam acabado de sair da minha boca em frente à tantas pessoas que eu não conhecia. E nada disso importou, porque ali estava eu, Tiago Potter, beijando Lílian Evans, em meio a um bar, depois de me declarar de uma forma brega e clichê, que tanto acreditava que não era.
E eu não queria que aquilo parasse rápido.
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