Quem sou eu?

5 Essa eu fiz pro nosso amor


Capítulo 4

Essa eu fiz pro nosso amor

— PELO AMOR DE DEUS, TIAGO! — Frank gritava no outro lado do campo — PEGA A PORRA DA BOLA!

— VOCÊ TÁ GRITANDO COM UM CARA QUE TÁ JOGANDO SEM ÓCULOS? — Sirius falou me defendendo.

— Meu Deus, vocês levam esse jogo muito a sério! — Remus era o juiz das partidas normalmente, e ficava sempre no meio termo.

— VOCÊ NEM É DO MEU TIME, FRANK, TÁ PREOCUPADO COMIGO PEGANDO A BOLA POR QUE? — gritei. Meu óculos havia quebrado pela segunda vez só nessa partida, e eu me desafiei a jogar sem nada, algo que não estava dando muito certo.

— POR QUE QUERO JOGAR DE IGUAL PRA IGUAL, SEU SEM NOÇÃO!

— EU JURO QUE VOU EMBORA! — Remus gritou.

— Às vezes esqueço que o Remus é o que mais tenho medo de vocês. — Pedro falou do gol.

— A gente não pode continuar amanhã? Já tá tarde e eu quero ir pra casa, eu pego meu reserva. — falei sentando na grama, pingando de suor.

— Que também tá quebrado. — Sirius disse me acompanhando.

— Tá, 11 horas. — Frank falou e olhou em direção ao lugar onde ficavam as mesas para pessoas comerem. — Alice e as meninas chegaram. Não vai ficar, Ti?

— Hoje não dá, marquei encontro com a minha TV pra maratonar Modern Family… — me levantei e bati a grama grudada em mim — Mas amanhã a gente almoça depois do jogo.

— Pensei que você e Lílian estavam bem, sabe… Fazem 6 meses já. — Pedro colocava novamente a camiseta.

— Estamos bem, temos nos falado e eu até conheci a menina nova que ela tá, Mary, né? Que é de família gringa.

— Isso, a que o Frank, por algum motivo, até hoje chama de Maria. — Lupin disse e provocou uma risada em todos, que caminhavam até o portão para saírem do campo.

— Pelo amor de Deus, nem faz sentido isso, tenho certeza que pensam igual. — o homem se defendeu.

— Enfim, estamos bem. Só tô cansado, tem sido corrido na empresa por que estamos perto de dezembro e muitas empresas têm pedido artes novas para as datas próximas, até estamos com empresas de fora, então mais coisa ainda. — parei antes de chegar até onde as mulheres estavam. — Mas não fiquem nervosos, amanhã eu sou todinho de vocês, meus anjos.

— Você fala como se não fosse todos os dias… — Frank saiu andando com Pedro e Sirius logo atrás, deixando apenas um Remus de braços cruzados o encarando com uma sobrancelha arqueada.

— Que foi? — perguntei.

— Eu te conheço, Potter. — ele respondeu.

— Ainda bem.

— Sei que não está tudo bem, e sei que ainda deve chorar no banho por ela.

— Aonde você quer chegar com isso?

— Que eu sei que ela chora no banho ainda também.

Minha cara deve ter sido engraçada, pois pude perceber que Remus continha uma risada.

Depois do término com Lílian decidi não me envolver com ninguém até me ter como resolvido em alguns assuntos, além de focar em mim. Sempre acabava me embolando em relacionamentos que não eram duradouros, e esse último realmente me marcara por que eu sabia que iríamos ficar juntos, mas não ficamos.

Esse basta fez com que eu tomasse consciência de mim mesmo, e foi algo que me ajudou a crescer. E eu não estava com mágoa alguma dela. Eu realmente estava feliz, porque sei o quanto de felicidade ela merece, após relacionamentos abusivos romanticamente ou familiares, após decepções e pessoas que não a apoiavam, eu ficava (e fico) feliz por ela ter alguém tão legal como Mary por perto — e Alice me contava, quando eu perguntava, como as duas estavam indo, e por mais que às vezes ainda doesse, era bom saber que ela estava bem.

E assim íamos indo.

Depois de um tempo, voltamos a nos falar normalmente por mensagens e até terminamos Avatar em um dia em que ninguém queria assistir TV numa festa na casa de Frank e Alice, então, sentamos no sofá e assistimos tudo.

— E você quer que eu faça alguma coisa? — não tinha o porque ele me contar aquilo, estávamos bem.

— Eu não sei, Tiago, só não parece certo a forma que vocês estão… eu adoro a Mary, mas já conheço Lílian o suficiente pra saber bem que ela não está totalmente feliz.

— Não posso chegar nela e forçar algo, Remus! Ela é grandinha, e ela já provou isso quando acabou tudo entre a gente! Não é por que você acha algo, ou até o resto do pessoal concorda, que é verdade, cara. Eu tô melhorando muito e você viu, é óbvio que ainda gosto dela, mas eu vou fazer o que? A parte principal disso é eu não forçar ela a nada, e assim vai continuar sendo.

— Eu sei, desculpa. É só que…

— Eu sei, Rem, eu também queria ter crianças ruivas com ela…

— Idiota. — ele olhou atrás de mim, em direção à mesa — Acho que estão nos chamando.

Olhei para trás e Marlene acenava sem parar uma das mãos.

— Acho que ela só tá tentando fazer um avião pousar mesmo. — falei e Remus riu, me empurrando para o lado. Às vezes me esquecia como ele era o maior de nós, e também o mais sensível, no final de tudo. Passei muito tempo me preocupando em protegê-lo durante a escola, com bullying e tudo o mais, que esquecia como o tempo havia passado.

— Tenho um anúncio! — Marlene falou logo que nós dois chegamos mais próximos à mesa.

— Fale.

— Vamos fazer o amigo secreto amanhã! — ela bateu palmas animadas com um grande sorriso.

— QUE? — Sirius disse depois de cuspir a água que bebia.

— O que tem?

— Marlene, você bateu a cabeça? Como que compra presente em um dia, minha filha?

— Sirius, você dá um jeito que eu sei.

— Mar, não é melhor deixar pra depois? — Alice falou.

— Não! Eu vou ter de ir pra casa dos meus pais passar o mês todo lá, e Dora vai comigo depois de uns dias e eu não quero deixar pra janeiro. Estudei o calendário e amanhã é o ideal. — a mulher colocou as mãos na cintura.

— E não pensou em avisar a gente antes? — interrompi.

— Não, porque eu analisei ontem.

— Não olhem para mim, vocês conhecem a peça. — Dora disse se levantando para ir até o balcão.

— Onde vai ser? — Lílian perguntou.

— Aqui, amanhã à noite.

— Ora ora, então o jogo tá cancelado pra amanhã! — Frank se ajeitou na cadeira — Sorte sua, Potter. Vê se compra um óculos novo amanhã.

— Tá, tá. Avisa o Sirius o horário que eu tô indo.

— CALMA, TIAGO! TIRA O PAPEL AQUI! — Marlene foi até mim e esticou as duas mãos em forma de concha, onde tinham pedaços pequenos de papel. — Fecha os olhos.

Obedeci e tirei um dos papéis pequenos, falando que leria em casa. Me despedi de todo mundo e segui meu caminho até em casa, pra onde iria a pé, pois eram apenas algumas ruas longe dali.

O que Remus esperava que eu fizesse?

Essa pergunta não saiu de mim por todo o caminho até o apartamento, e muito menos durante toda a noite enquanto tentava me concentrar na quinta temporada de Modern Family.

Não havia o que fazer.

Lílian havia tomado uma decisão e era isso, o que mais eu poderia fazer além de respeitá-la e ainda tê-la por perto como a amiga e pessoa que admirei desde o primeiro momento? Era muito melhor do que não ter ela ali para conversar e dar risada. É claro que em alguns momentos eu sabia o que seu olhar significava, mesmo ela estando com Mary, pois, como eu disse à ela quando acabamos: eu não duvidava do que ela sentia por mim.

Mas seis meses se passaram e aqui estávamos, ela com uma namorada legal, e eu com meu trabalho andando e sem nenhum drama romântico aparente — Ok, a coisa toda de Evans poderia ser considerado um drama, mas eu prefiro não contar como tal. Pareço mais adulto falando assim.

Sirius ficava preocupado de nos deixar sozinhos ou me deixar com elas, mas eu não me importava mais — é óbvio que eu preferia que ela estivesse segurando a minha mão, me abraçando e que no final fôssemos juntos para o apartamento de algum dos dois, mas não se podia ter tudo nessa vida, não é mesmo?

Não tinha o que fazer.

Mesmo que Remus, ou sei lá mais quem, esperasse que eu fizesse alguma coisa, esperaria sentado. Não sou mais um homem de atitudes, e sim um homem coerente e consciente e maduro que fala ‘’Uau! Sou maduro!’’ e que havia deixado os dias de choro e para trás, pois não mais sofreria pelo amor rápido porém intenso que viveu com uma mulher incrível.

E que ainda está apaixonado por ela.

Merda!

Abri o papel do amigo secreto que deixei em cima da escrivaninha do quarto quando fui me deitar, e Sirius ainda não havia chego, sempre tentando manter no pensamento o ‘’Que não seja ela, que não seja ela, que não seja ela.’’

E não foi ela.

Foi Frank.

Seria mais fácil de achar um presente sem que eu corresse o risco de falar ‘’Ah, minha pessoa secreta é uma pessoa incrível, maravilhosa, que beija bem e que é a pessoa que estou apaixonada… algum palpite?’’

Respirei fundo e me joguei na cama.

Daria tudo certo, e amanhã eu iria em alguma loja comprar algo para Longbottom, junto de um óculos novo.

(...)

— EBA! TODO MUNDO AQUI! — Marlene gritou quando viu eu e Sirius entrarmos pelo portão principal do local. — E TIAGO TROUXE O VIOLÃO.

— Você fala como se não tivesse me mandado mais de 20 mensagens para eu trazer ele. — falei quando cheguei mais perto do grupo e coloquei o violão no chão.

— E daí? Tem diversão pra mais tarde. Vamos, é lá que vamos ficar… — ela apontou para o meio do gramado, onde tinha mesas e cadeiras. — Aluguei pra gente, vocês sabem que não brinco em serviço.

— Meu Deus, Marlene, o que faríamos sem você? — Sirius deu um beijo em sua testa.

— É disso que gosto como reconhecimento.

Nos arrumamos no campo, enquanto conversávamos, bebíamos e comíamos as coisas dispostas nas mesas. Às vezes Marlene acabava chorando por lembrar que não nos veríamos até o ano que vem, às vezes Sirius se juntava à ela. E em algum momento Pedro pegou o violão e tocou notas aleatórias, enquanto Sirius o incentivava jogando o cabelo de um lado para o outro e gritando palavras aleatórias como ‘’UHU!’’

Toda aquela cena era o que fazia valer a pena no final. Estar ali, num sábado à noite, num campo de futebol com as estrelas e a lua logo acima de nós, como se o infinito nos acolhesse, era o que me deixava feliz. E outra coisa me deixava feliz: sentir o olhar dela em mim.

Não nego que por vezes era eu quem a olhava, e conforme cada vez mais a bebida ia se misturando, menos discreto ficávamos. Mas ainda assim, sentia o olhar em mim, com aqueles olhos verdes e grandes, me encarando, como que procurando por alguma brecha para conversar — ou apenas para admirar mesmo.

Quando foi chegada a hora dos presentes, Marlene iniciou, revelando que sua pessoa era Alice e assim foi indo, até que chegou a hora de Remus.

— A minha pessoa é alguém muito querida para mim, que eu conheço desde criança e que me livrou de diversas encrencas, assim como eu livrei ele de várias emprestando algumas tarefas para ele copiar. Ou até ajudando ele a paquerar alguém. — ele levantou as mãos e todos deram risada — Ele usa óculos e sempre o quebra, teve um ano, quando entrou no futebol da escola, que teve 15 pares de óculos. Ainda bem que o grau dele é baixo. E ele nem faz ideia de que convenci meu namorado a manipular ele pra vir com a minha… opa, a dele. A camiseta dele.

— De nada, Ti! — Sirius falou e eu olhei para a camiseta azul com dinossauros que ainda não havia devolvido.

— Então, como estágio do luto, eu entrei na aceitação de que perdi ela, e agora presenteio Tiago Potter com a camiseta azul escuro com dinossauros, que eu espero que você adore, é do seu tamanho, mas não tem como trocar. — Ele esticou um pacote vazio de presente para mim.

— Você é ridículo, Lupin! — levantei e fui até ele para lhe dar um abraço e todos deram risada. — Bom… — pude ver Lílian se arrumando na cadeira, endireitando a postura, às vezes esperando que ela fosse a presenteada por mim? — minha pessoa é o Frank, não tenho poemas pra ele porque ele implicou com a porra do meu óculos o dia todo ontem, mas tá aqui. E considere o meu novo óculos um presente bônus, já que você se preocupa tanto com ele.

— Eu espero que até o fim da noite meu poema esteja sendo ditado… — ele soltou uma larga risada e me deu um abraço, continuando a falar e explicar quem era sua pessoa.

Senti o celular vibrar e fui conferir.

Celular do Tiago

Lílian: sua cara nem deve arder…

Tiago: E deveria?

Lílian: claro?? quanto tempo você tá com essa camiseta, Potter?

Tiago: Agora é minha, então…

Lílian: olha isso, sem vergonha alguma, mano

Tiago: Ih, Evans, toma cuidado que se continuar assim logo mais tô é roubando uma roupa sua.

Lílian: você não tem tanta audácia assim, isso te garanto

Tiago: Vamos ver…

Lílian: vai tocar hoje?

Lílian: Mary falou que queria poder ouvir, eu e as meninas já falamos bastante de como você canta bem…

Lílian: ela até disse pra fazermos um dueto

Tiago: Diga para Mary que hoje é o dia de sorte dela pois ela ouvirá a minha voz de anjo

Tiago: Mas sem duetos. Não divido holofotes. Só com Sirius.

A imagem de nós dois cantando lado a lado, dividindo uma canção, sob a iluminação do céu da noite, fez meu corpo sentir aquele tremor que eu costumava sentir quando envolvia ela. O que começava na ponta dos dedos das minha mãos, e se espalhava até o pé e cabeça, algo que fazia com que meu estômago se movimentasse e meu coração acelerasse um pouco.

Talvez fosse infarto.

Provavelmente era, eu me alimentava mal.

O pior é se fosse infarto e paixão.

Marlene anunciou que eu já poderia pegar o violão de volta e tocar algo decente e certo, o que fez com que Sirius e Pedro a vaiassem, ao passo que ela respondeu com o dedo do meio.

— Ok… qualquer uma? — perguntei quando Pedro me entregou o violão.

— O que seu coração mandar. — Alice falou aconchegada em Frank.

— Essa eu fiz pra nós dois bêbados dançando numa festa de gente rica e sem graça. Essa eu fiz pra toda letra do Cazuza que eu decorei porque 'cê disse que gostava — olhei de relance para Lílian, que tinha um sorriso de lado, e as mãos juntas com a de Mary. — Essa eu fiz pra sua mãe só porque ela é tão linda e sempre sabe o que dizer, essa eu fiz pras tuas quedas na calçada, tua risada alta. Essa eu fiz pra você…

Pensei em como foi conhecer ela, naquele bar tão conhecido, cantando ‘’Exagerado’’, e como foi olhar pela primeira vez em seus olhos e ouvir sua voz suave percorrer todo o meu corpo, como a física na escola me ensinou — mesmo que eu não tenha prestado atenção em nada. Pensei em como passei dois dias escutando os covers dela pelo YouTube, e como comecei nossa primeira conversa, no meio do grupo com todo mundo mesmo, com uma mensagem de ‘’Ei, vi teus covers! Você canta MUITO!’’

— Eu já tinha desistido de mim, minha vida é sempre assim.. Eu tenho a minha fama de sofredor, então não conta pra ninguém — todos fizeram ‘’shhh’’ — Mas essa eu fiz pro nosso amor!

— Oh oh oh — todos cantaram comigo, o que me fez rir.

— Essa eu fiz pro nosso amor! — Frank pegou o rosto de Alice e deu um beijo na ponta de seu nariz.

— Essa eu fiz pra Alameda Três, pra Avenida São João, cada lugar que a gente se beijou. Essa eu fiz pra minha jaqueta jeans, pra minha blusa do Taz, toda roupa que você tirou. — esperava não estar ficando vermelho, pois senti meu rosto esquentar. E caso tenha ficado, que ninguém perceba, ou pela bebida, ou pela luz fraca. — Essa eu fiz pra todo show lotado em que eu perdi a letra

— Porque eu pensei em você. — Sirius cantou apontando para Remus.

— Essa eu fiz pra cada estrela linda que por baixo da língua você me fez ver.

Pensei nas noites antes de nos beijarmos pela primeira vez, onde éramos os últimos a sairmos do bar, por perdermos a hora conversando, e onde, quase sempre, eu acabava dormindo no chão da sala de seu apartamento, e ela no sofá logo ali, e algumas vezes caíamos nos sono apenas nos encarando. Sem dizer um palavra. Apenas apreciando.

— Eu já tinha desistido de mim, minha vida é sempre assim, eu tenho a minha fama de sofredor, então não conta pra ninguém.

— Mas essa eu fiz pro nosso amor! — Dorcas cantou com Marlene.

— Oh oh oh — todos cantamos.

— Essa eu fiz pro nosso amor. — Remus cantou depois de Sirius lhe dar uma cotovelada.

— Essa eu fiz pra cada passo nosso, cada dia lindo da nossa história. É cedo essa sobre o nosso amor, também de ser do dia em que, 'cê foi embora… — suspirei. Como havia dito ontem, ainda doía, pensar nisso tudo e em mais coisas ainda, e como havia acabado rápido, apesar de ter parecido uma vida toda. E agora ela estava ali, na minha frente, me ouvindo cantar uma música que se encaixa no nosso amor, mas enquanto está de mão dada com outra pessoa. — Sobre minha blusa do Taz desbotada. Sobre sua mãe tão muda quando eu ligava. Sobre eu bebendo sem você do meu lado… — fechei os olhos sentindo aquelas palavras me atingindo, como se eu estivesse me livrando de algo que finalmente conseguiu sair de mim. — Sobre eu chorando quando toca ‘’Exagerado’’ — abri os olhos a tempo de ver que ela mexia os lábios junto de mim.

Pensei em todos os nossos beijos depois do primeiro, em público, bem como sempre fomos, transparentes um com o outro e sem pudor de conversa. Isso foi o que mais admirei, pois nunca havia tido alguém assim próximo de mim, construindo algo. Na verdade, não consigo escolher apenas uma coisa que admirei nela, pois é impossível de se escolher.

E era impossível deixar de pensar nela, ela sempre estaria ali comigo, em tudo o que me marcou, e ainda marcava, mesmo em nossa amizade. Mas, eu sentia estar deixando ir embora não ela da minha vida, mas o peso que coloquei em mim. Me senti, de certa forma, livre de qualquer coisa que me prendia, não por ela, mas por todas as pessoas que já estive e conheci.

Naquele momento era apenas eu e nada mais.

— Eu já tinha desistido de mim, minha vida é sempre assim. Eu tenho a minha fama de sofredor, então não conta pra ninguém… Mas essa eu fiz pro nosso amor, oh oh oh. — cantei com toda a força que senti sair de dentro de mim.

— Essa eu fiz pro nosso amor. — Alice cantarolou. — Oh oh oh.

— Essa eu fiz pro nosso amor. — Lílian terminou a música, não olhei para ela, mas sua voz me fez tremer mesmo de longe, e seu olhar enxergava tudo de mim, como sempre.

Todos aplaudiram e pediram uma repetição.

E eu apenas toquei noite adentro, sentindo a mudança em mim.

E parecia que Lílian sentia também.