Quem matou Afonso Dallas?

2 Episódio I - Ordens Áureas


Notas iniciais
Como havia dito, aí está o capítulo. Este apresenta um pouco do passado para se situar em alguns eventos importantíssimos que acontecerão à frente.

I

12/03/2014, 19h44min.

NAQUELA PARTE DA MANSÃO, dois homens conversavam. À primeira vista, poderia pensar que aquele era um papo eventual entre um homem de negócios e seu advogado. No entanto, caso analisasse com mais minúcia e perspicácia, perceberia tão facilmente que havia um véu de insegurança, confusão e receio, um afã de um misto de vários sentimentos.

— Sabe, doutor Rafael — comentou Afonso —, eu sempre tive essa mania. Me orgulho dela, mas acho que ninguém sabe olhá-la com os verdadeiros olhos.

— Por que diz isso?

Ele olhou para o teto com delicadeza e passou os dedos na incipiente de barba que se formava em seu queixo.

— Olhe, eu poderia citar a minha família inteira, meus subordinados, mas não precisamos ir longe. Você mesmo acha que isso não procede.

— Não me entenda errado. Eu só não acho que isso seja uma ideia muito proveitosa.

— Eu já estou com um pé na cova mesmo. — Seus olhos escuros, agora, brilharam de forma quase enternecida. — Quero deixar a vida gloriosamente.

O homem mais jovem, Rafael, vestido um traje costumeiro de empresas, engoliu em seco.

— E o senhor acha que o que está almejando seja a forma gloriosa?

O velho, cuja papada já balançava, a pele flácida e enrugada, batucou os dedos na mesa. Embora tivesse uma aparência acabada, ele tinha um ar pomposo e imperial, quase como se não precisasse esbanjar boa forma para persuadir qualquer pessoa com um simples olhar e um ardiloso sorriso. As roupas sofisticadas, de marcas e importadas de países de primeiro mundo, conferiam-lhe o acréscimo exato para ainda ostentar a posição honrosa que ele tinha.

— Talvez não, mas isso não vem ao caso.

— E a sua esposa? — perguntou Rafael.

— Heloisa vai ficar bem. — Ele não sabia que Heloisa morreria primeiro que ele.

A verdade era que, naquele plano que havia bolado, Afonso não queria que passasse da primeira parte; ele não queria saber se sua família seria capaz disso.

II

12/03/2014, 20h03min.

ATRÁS DA PORTA DO QUARTO, alguém escutava. Pegou somente algumas partes da conversa. Mas isso ainda era meio maluco.

III

23/06/2015, 17h42min

CÉLIO SE PREPAROU PARA SUA GRANDE jogada. E grande bolada! Ganharia muito dinheiro se eliminasse o alvo, como Jeferson, o cara que tinha lhe contratado, prometera. Tinha alguma coisa a ver com uma vingança, mas Célio não quisera entrar em detalhes, principalmente quando Jeferson tinha amizades tão suspeitas, como era aquele maníaco de nome Biloca. Célio conhecia algumas histórias sobre eles, mas achava que eram mentiras. Mas, na dúvida, era melhor manter-se longe.

Assim, para trucidar o alvo, ele pegou um carro roubado, um fusca caquético, com a pintura amarela desbotada — que arrostava com o fulgor do astro luzidio arqueado na língua azulada no céu — e a placa de identificação sem todas as letras, e partiu para a fazenda do homem em sua mira. Levava consigo uma arma comum, um revólver, com o cano brilhante, que tilintava conforme vinham os solavancos da estrada de chão ou buracos do asfalto.

O percurso foi longo e, quando ele chegou naquele lugar isolado, vendo a grande mansão perniciosa à sua vida, deixou o carro numa baixada meio distante, ainda na estrada. Palmilhou até um braquiara que o esconderia com facilidade. O sol calcinante o castigava com menos potência do que o comum, açoitando-o com seus raios impiedosos. Serei como ele: objetivo, impetuoso, implacável e eficaz. Ele sorriu, enquanto fitava a grande casa que desbravava à sua frente. Ele tinha que esperar o momento certo, pois qualquer erro faria o plano cair por terra. Precisava, pois, agir com cautela.

À medida que os minutos passavam, arrastando-se letargicamente como uma sucuri após devorar uma capivara, Célio foi ficando enfadonho. Já havia passado umas três horas e o homem não havia saído em nenhum momento. Do seu lugar, ele estava esperando ver o homem saindo e, só então, iria abordá-lo com um tiro na fuça. Fingiria que era um comerciante e, quando tivesse a oportunidade, enfiaria uma bala no peito do alvo.

Ele dividia seu olhar entre a casa, por onde ninguém aparecia — ou, se sim, alguém que não era seu alvo —, e pela estrada que o bordejava pelo lado direito. Alguns pássaros crocitavam, o que ele achou que pudesse estar identificando sua posição. Às vezes, ele imaginava ver os anus-pretos rindo dele, com um gracejo sardônico e escarninho.

Nada disso. O velho só não apareceu. O cansaço está deixando você louco.

IV

23/06/2015, 21h56min

ELE DEVIA TER DORMIDO.

Quando abriu os olhos novamente, encontrou-se numa negrura obsoleta. O sol já havia dado lugar para uma fatia de lua prateada que, como um diamante bruto, despontavam-se com clarões azulados e que formavam poças pelo mato alto, uma piscina cristalizada. A cor da grama, antes entre o verde e o amarelo queimado, tornou-se com uma vibrante lividez, tão semelhante às cores dos mortos que ele se sobressaltou. Havia um pequeno cupinzeiro ao seu lado, que lhe forneceu uma espécie de travesseiro quando ele acabou pegando no sono. Dormiu indiferente ao frio que lhe cortava os ossos e a vulnerabilidade de ser picado pelos insetos ou por alguma cobra venenosa que poderia, por algum acaso — a fome, provavelmente —, estar andando atrás de algum rato desprevenido.

É, refletiu ele, a vida é assim. A presa sempre perde para o predador. E, naquele caso, ele era o predador e seu alvo era a presa.

Ele decidiu se levantar e partir para outro plano, qualquer que ele fosse. Célio se sentia quebrantado. As costas doíam e seu bafo ameaçava queimar o que tocasse de tão asqueroso que estava. Lembrou-se que estava com fome e com vontade de ir ao banheiro. Findo as necessidades, recordou-se do seu trabalho. Precisava matar o velho. E por qual motivo mesmo ele ainda estava ali, com a barriga roncando sob um céu estourado de estrelas e uma brisa gélida a lhe cobrir? Os pensamentos embaralhados arduamente lhe entregaram a resposta. O velho não havia saído da casa até agora. Será que ele sabia que havia um assassino à sua espreita? Provavelmente, não, mas ele precisava mudar de estratégia. Sentar e esperar não estava funcionando.

Retirando-se do seu estado de torpor, ele caminhou, com as ervas a lhe dissimularem, até a entrada. Era um portão metálico, cujas grades, mesmo com a ação temporal, não mostravam indícios de ferrugem. Eram barras verticais bem tratadas, com pequenos vãos entre elas que lhe permitiam fitar o interior. A primeira coisa a ser vista era o extenso jardim bem cuidado, cheio de plantas festivas e espalhafatosas. No centro, uma piscina enorme serpenteava por uma estrada criada exclusivamente para os azulejos azuis e água cristalina. Atrás do primeiro baque sublime do telespectador, havia a mansão em si. Era grande, numa tonalidade neutra que não chamava atenção. Havia um grande coqueiro que lhe trazia um ar praiano convidativo.

Deixando os devaneios se desvanecerem, ele fungou. Estava frio. A noite o encobertava como um manto sombrio e mórbido. Numa mortalha tétrica, o sorriso brilhante do rapaz afrontava as roupas simples e com tonalidades imparciais, entre o branco sujo e o bege chamuscado. Ele ponderou sobre suas possibilidades. Podia esperar o completo amanhecer, a alvorada brilhante que com certeza o retiraria do torpor fidalgo, trazendo-lhe a um possível banho de piscina, onde Célio deixaria uma assinatura vermelha na água que lhe aferiria muito dinheiro e fortuna. Também podia tentar invadir a casa, o que poderia ser uma tarefa mais complicada, já que haveria seguranças.

Mas, por sorte, ele viu. Seu alvo estava vulnerável, de frente à porta, fumando despreocupadamente. Estava de roupão. A fumaça remoinhava-se sobre ar, uma fita turva que se espiralava. Ao longe, pelo que se podia perceber, ele era um homem não muito bonito, com linhas que lhe denotavam o tempo de vida e o trabalho cansativo de ser rico. Os cabelos esbranquiçados estavam espalhados pela lateral da cabeça como um anel, deixando o centro vago. Os olhos escuros e fundos, injetados e cansados, os quais Célio não enxergava com clareza, estavam perdidos em algum ponto vazio.

Velho burro!, exclamou ele em seu pensamento.

Célio saiu de seu sigilo e caminhou, com passos de algodão — como num processo de espionagem! —, e, quando julgou ter mira assaz para um tiro no peito, parou. Engatilhou, a arma em riste, e preparou a mira, deixando a boca do cano na direção desejada. Fechou um dos olhos e, então, sentiu um barulho e uma dor lancinante, como se agulhas elétricas o atravessassem. Levou sua mão até a nuca e sentiu algo pegajoso e molhado. À luz parca do luar, decifrou o vermelho vivaz do sangue. Caiu, enfim, com um baque oco, enquanto uma silhueta o mirava de maneira suspicaz e desconfiada. Ascendeu o campo periférico para o chefe e o chamou. Tornou a olhar para o homem que ainda emitia espasmos.

— Seu Afonso, olha o que eu encontrei. Estava apontando uma arma pra você — disse Carlos, um dos vários seguranças que havia no lugar. Vestia o traje preto, costumeiro e clichê. — Conhece?

Afonso mirou a figura estendida em frente a um de seus portões de entrada e deu uma tragada no cigarro. A fumaça dançou no ar até se dissipar como gelo no forno.

— Não — replicou, dando um alento putrefato. — Devia estar tentando me matar, como diversos outros. Mas não me importo com isso agora... — A voz foi perdendo o som no último período. — Como sabe, meu tempo é curto e precisamos fazer o que é necessário. — Afonso lançou um olhar cúmplice para o empregado. — Dê um jeito nele.

Carlos já estava acostumado com esses serviços sujos. Já havia feito uma vez, e o que acontecera antes fora uma coisa bem mais enfática do que essa. Ele ganhava muito por isso e fazia em nome da amizade de longa data entre eles. Carlos sabia que Afonso trabalhava sem a polícia; o meio em que vivia não era totalmente lícito.

Resignado, o subordinado abaixou a cabeça.

— Certo.

O segurança, com certa dificuldade, depois de aquiescer para o patrão, se abaixou e suspendeu o moribundo, levando-o para o bosque que circundava a mansão. Antes de sair, lançou uma última olhadela para o homem que o fitava impassível. Era um sujeito encurvado, linhas de aparência virulenta passando-lhe pelo corpo como marcas tétricas.

Afonso adentrou a residêncaia e encontrou as empregadas ainda trabalhando.

— Vão se deitar. Já está tarde. Amanhã vocês continuam.

As três empregadas, Joana, Virgínia e Mirian, assentiram sem dizer uma palavra, como o velho gostava. A mais velha entre elas, a que tinha o cabelo acastanhado, Joana, fitou o velho por alguns segundos antes de se esgueirara pelos cômodos suntuosos junto com as outras duas para seus respectivos quartos. Antes, no entanto, que Mirian, a mais nova e bonita entre as três, saísse, Afonso puxou-a. Ela se virou surpresa, os cabelos escuros rodopiando. Era filha de Jorge, um outro empregado e amigo de Afonso, e, por isso, havia herdado a pele de ébano luzidia, os traços fortes e atraentes — embora ela tivesse um corpo esbelto e torneado, diferente do homem. Com seus vinte e poucos anos, ela já tinha uma filha, Gabriela, que também vivia na mansão.

Os olhos de Mirian, vívidos e sedutores — mas agora arregalados e temerosos —, já sabiam o que ia acontecer.

— Mais tarde — afirmou Afonso e, então, depois de acariciar seus seios, permitiu-a continuar o trajeto.

Notas finais
Amanhã sai o próximo.