Quem ama, luta
1 Capítulo I, parte 1 - O crucifixo
Notas iniciais
Sim, isso mesmo! A Miss está voltando com tudo, uma história nova, vida revigorada!
Isso é sinal de que eu vou floppar as outras histórias? Claro que não! Tomei vergonha na cara e já estou escrevendo o próximo capítulo de algumas fics minhas. Então relaxem e apreciem o novo foco que estou fazendo e espero que gostem.
Perdoem-me os erros e boa leitura!
Era um dia plácido às margens do rio São Francisco, que até o momento ainda não havia sido nomeado assim. Em meio a tantas tonalidades de transparência daquelas águas tão cristalinas e o azul intenso do céu marcado pelo branco das nuvens tenras e imponentes, havia o verde em imensidão daquelas árvores impávidas e colossais crescendo nos solos férteis daquela floresta vasta. Onde floreiam as mais diversidades de fauna e flora que em sua maioria ainda eram desconhecidas até mesmo pela mente mais íntegra existente naquela época... as terras distantes que mais tarde seria palco para uma história fatídica, Brasil.
Contudo, Brasil ainda era usado apenas para designar a espécie de árvore nativa da Mata Atlântica que continha uma resina avermelhada e madeira resistente, sendo conhecida pelos povos nativos de ibirapitanga.
Se aventurando pelas raízes e caules abundantes daquela floresta em questão, havia uma mulher de pele com a coloração semelhante ao caramelo, as írises de seus olhos tão escuros quanto suas pupilas, e seu cabelo liso e opaco como uma noite sem estrelas no céu. As madeixas de seu cabelo curto num estilo Chanel, na altura de seu queixo, se encontravam tão emaranhados por causa do descuido e da vida alvoroçada da jovem.
Nadi, uma indígena Tupi com a mesma idade jovial que seu rosto aparentava, procurava por seu irmão mais novo em meio a tanto matagal. Ela se encontrava aborrecida por ter que, mais uma vez, obriga-lo a tomar o banho diário. Era tão frustrante ter que dispensar a pesca com o pai para ter que caçar o pequeno fujão e inventar estórias para assustá-lo, afim de encorajar a importância de uma boa higienização... as obrigações femininas eram muito maçantes.
Para sua sorte, Nadi era uma ótima caçadora. Seguir pistas e seus instintos era o hobby que a mais agradava, e convenhamos, Cauê não era muito bom em se esconder.
Após se esgueirar por alguns minutos no arvoredo adentro, ela encontra pequenas pegadas frescas próximo a um ramalhete de bromélias pisoteadas. Quem quer que tenha passado por ali estava com muita presa. Nadi bufa irritadiça, seu irmão era óbvio demais... Ela ligeiramente olha para cima e consegue avistar um cacho de cabelos negros em formato de pote presos a um galho de um ipê amarelo em sua visão periférica. Alvo avistado.
Como quem não quer nada, a indígena finge não ter visto Cauê pendurado na árvore com um sorriso irônico nos lábios finos e rosados. Era engraçado ver ele cantar vitória antes da hora, como se não conhecesse a irmã que tinha. Nadi revira os olhos com esse pensamento e pega uma pequena pedra do chão, que estava próximo de seu pé direito. Em sua cabeça passam mil e uma histórias que pajé (chefe religioso da aldeia) contava para ela e a irmã primogênita quando as mesmas ainda eram criança, mas nenhuma parecia ajudar nesta situação. No fim, ela decide criar a própria história.
—Sabe, o pajé disse uma vez que as crianças que deixam de tomar banho são amaldiçoadas pelo Jurupari (deus da escuridão), e quando estão dormindo são sequestradas pelo Curupira... -Disse a Tupi em alto e bom som, observando meticulosamente a pedra em sua mão. -Dizem que as crianças levadas ele transforma naquela árvore que dá frutos de olhos (guaraná).
A indígena aguardou alguns segundos, esperando que Cauê se rendesse ao infortúnio final do conto macabro que inventara, porém, seu irmão não ousou mexer um músculo desde então. Ela sabe jogar o jogo dele. Se o menino iria se portar daquela maneira, bem, ele iria sofrer as consequências. Nadi apertou com força a pedra irregular, sentindo a geometria pontuda do material rochoso roçar a pele fina de sua mão, tornando aquela área um pouco avermelhada. Mantendo a respiração calma e compassada, ela calculou mentalmente a direção e a quantidade de força necessária para a pedra acertar o galho da árvore próximo a localização do garoto.
Um minuto de silêncio e concentração e... por poucos centímetros a pedra não acerta a testa de Cauê. O menino se desequilibra pelo susto e cai nos arbustos de joelhos, apoiando as duas mãos no chão logo em seguida. Ele prontamente a olha incrédulo das ações providenciadas da irmã mais velha, como se o que ela acabara de fazer fosse o pior dos crimes cometidos. A pele acastanhada de Cauê apresentou tons arroxeados no local de impacto com o chão, e um pouco de sangue começara a escorrer pelos ferimentos provocados pela queda. Ele engoliu o choro e o nó que se formou em sua garganta, se sentiu como uma pobre doninha atingida pelas costas.
—Você está louca? Eu poderia ter morrido! – Proferiu o garoto, lançando um olhar descrente à sua irmã enquanto se levantava com certa dificuldade.
—Quanto drama, Cauê! Já caí de palmeiras maiores que essa árvore. -Nadi cruzou os braços e suspirou profundamente. -E também não estaríamos nessa situação se você tivesse ido junto às outras crianças se banhar no rio.
—Sabe que eu tenho medo de me afogar assim como... você sabe. -Cauê deu uma longa pausa, não tinha certeza sobre continuar o assunto já que trazer tudo à tona ainda era difícil para ele. -Os garotos sempre riem de mim por conta disso.
O garoto transmitiu toda a sua tristeza pelos seus olhos cor de âmbar. Nadi sabia o quanto Cauê era um menino incrivelmente sensível e não pôde deixar de sentir empatia perante ao irmão desamparado. A indígena então se aproximou do irmão devagar, como se pudesse assustá-lo com qualquer movimento brusco e acariciou seus cabelos negros na tentativa de reconforta-lo.
Alguns minutos se passaram com extrema rapidez, com as costas das pequenas mãos, Cauê pressionou os olhos com delicadeza. Ele não choraria mais... não mais.
—Eu fico ao seu lado até terminar. Mas apenas se você me prometer que se esforçará para vencer esse seu temor de água. Ou deixarei o papai vir da próxima vez...
A espinha dorsal de Cauê se arrepiou de imediato. Conhecendo o pai, ele não seria tão compreensível quanto suas irmãs eram. Um sorriso brando se formou em seus lábios rosados, e vendo que não tinha escolha a não ser aceitar a proposta de Nadi, ele a seguiu pela trilha de volta a sua aldeia sem pestanejar.
A caminhada pacata pela floresta sempre era agradável quando se tinha uma companhia tão querida. O melhor nem era a brisa cortês que afagava seus cabelos ou o constante piar e bater de asas dos pássaros tropicalmente coloridos que davam uma sensação de alegria. Cauê amava estar perto de seus familiares e deste em questão, ele pensava ser imbatível, tanto que se houvesse algum sinal de perigo ele apostava a sua vida que Nadi era capaz de salvá-lo. Era a irmã predileta do garoto.
O farfalhar das folhas, o riso da pressão das águas dos rios batendo nos pedregulhos, o chocalho das serpentes, o rosnar das onças... tudo parecia completamente normal aos olhos comuns de uma criança, porém, algo não parecia certo para os sentidos apurados de uma caçadora nata. Ela não sabia se eram os espíritos da floresta tentando se comunicar consigo, ou apenas dedução perante a repentina movimentação anormal do ambiente.
Nadi segurou seu irmão pelo ombro e fez um gesto de silêncio com a outra mão disponível, fazendo o garoto engolir em seco após demonstrar um semblante amedrontado. Algo não estava certo.
Meticulosamente, Nadi se abaixou até que sentisse seus glúteos repousarem em seus calcanhares. Ela fechou os olhos para que sua audição ficasse um pouco mais apurada, crente que os presságios do xamã de sua aldeia finalmente viessem a calhar. Vendo a irmã se concentrar tanto, Cauê fez o mesmo, mas ao invés de fechar os olhos, ele apenas apanhou algumas pedras que estavam próximas aos seus pés para usar como arma. Um minuto de silêncio. Ruídos de folhas secas sendo pisoteadas puderam ser ouvidos com clareza há cerca de cinco metros de distância deles. A indígena prestava muita atenção no barulho, tentando identificar o que ou quem era a fonte... Maldita hora em que fora esquecer seu arco e as flechas em sua oca.
Por parecer passos de dois homens adultos, pelo som mais forte causado pelo impacto nas folhas e no solo, Nadi achou melhor ficar na encolha e deixar quem quer que fosse ir embora. Não que ela estivesse com medo de enfrentá-los, em luta corporal ela se garantia com maestria, mas o fator que a preocupava era o de arriscar a segurança de seu irmão mais novo e por não possuir uma arma ela facilmente teria problemas caso eles chamassem por reforços. Se eles não os localizassem, Nadi e Cauê ficariam bem.
Conforme os segundos se passavam, os passos iam se distanciando. A mulher permaneceu de prontidão a atacar até que não fosse mais possível ouvir nenhum barulho sequer.
O que ela não esperava era que os ruídos iriam recomeçar, só que de outra direção.
—Cauê, não! -Sussurrou em tom de ameaça, alto o bastante para que o irmão pudesse ouvir.
O garoto se levantou com a mesma rapidez de uma águia atacando sua presa, e com a mesma velocidade, jogou uma das pedras na fonte do barulho. Inesperadamente a rocha atingiu alguma coisa pois logo depois eles escutaram um guinchado de algum animal abatido.
Sem pensar duas vezes, Cauê correu no rumo da origem do chiado, fazendo a irmã ir logo atrás. Não demorou muito até chegarem ao destino, deixando Nadi impressionada com o feito do pequeno. Ele havia acertado um tatuzinho, que se encontrava protegido em formato de bola. Mesmo que não o tenha matado, dava para perceber um pequeno “amassado” em seu couro enrijecido, o que era estupendo em vista a distância e o tamanho do animal.
—Oh, coitadinho! Podemos levá-lo para casa? -Indagou Cauê, se aproximando devagar do tatu-bola protegido. -Eu prometo que vou alimentá-lo todos os dias e tratar de sua ferida. Vamos, por favor?
—Não podemos. Animais devem ficar na natureza. E também tenho certeza de que o Caipora cuidará bem dele... Aproposito, o que nós deveríamos estar preocupados é com aquilo. -Disse, apontando para um objeto estranho próximo ao bicho.
Nadi apanhou do chão o objeto para inspecioná-lo melhor. Era um crucifixo de prata preso em uma corrente, usado habitualmente como um colar, pintado com uma tinta de tonalidade dourada. O pingente era muito bem detalhado e transmitia uma beleza e delicadeza nunca vista antes pela jovem. Obviamente ela não fazia ideia do que era e nem seu significado, apenas estava maravilhada. Era como se aquele pingente tivesse o poder de hipnotiza-la. Bem... e se esse era realmente o objetivo dele? Nadi jogou o crucifixo para longe ao tentar se recompor. Ela precisava voltar logo e avisar Pajé o mais rápido possível.
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