Quem Tem Medo do Bicho Papão?
7 Onde Tudo Começou
Notas iniciais
A escuridão total envolve Rita, ao mesmo tempo em que a mão do monstro solta o seu pescoço. Sem conseguir enxergar nada, a mulher sente seu corpo bater no chão, e começar a deslizar na superfície gosmenta. Ela balança os braços, mas não há no que se segurar. Subitamente, ela escuta o som de portas se abrindo.
Em um quarto fracamente iluminado, as portas duplas de um armário se abrem, e Rita é jogada para fora, com as portas se fechando em seguida. Ela se levanta, e olha em volta, assustada. A luz que ilumina o cômodo parece vir do lado de fora, transmitida pela janela. Ainda ouve-se o som de chuva.
Rita percebe que há um berço no meio do quarto. A mulher tem a sensação de ser atingido por uma onda extremamente forte. Ela sabe onde esta. Conhece aquele quarto. É a casa onde começou seu casamento com Lester, o quarto onde seus dois primeiros filhos morreram.
Repentinamente, um choro de bebê enche o quarto. O som parece vir de dentro do berço. Rita recua lentamente, enquanto as lagrimas voltam a encher os seus olhos. Mais uma vez, o medo intenso invade o seu espírito. Com certeza era o quarto, que lhe trazia dolorosas lembranças.
Rita vira-se para a porta, mas antes que possa avançar, a porta se fecha. A mulher continua a recuar, sentindo a já familiar dificuldade em respirar. Ela leva as mãos aos ouvidos, tentando abafar o ensurdecedor som do choro, mas é inútil.
RITA
– Isso não é real! Não é real!
Neste momento, algo atravessa o armário arrebentando a porta, e cai em cima de Rita. A mulher tenta se levantar, mas trata-se de algo pesado. Ao empurrar o que a atingiu para o lado, ela nota que é algo rígido e volumoso. Ao olhar para o que a acertou, Rita percebe horrorizada que se trata de um cadáver. Ela se arrasta para longe, sufocando um grito de pavor. O cadáver se ergue, como se fosse uma marionete, e olha para Rita. A luz do quarto se acende em fase baixa, iluminando o rosto do morto. Ele esta branco, e um pouco apodrecido, mas não resta duvida de quem seja, é Lester. A boca dele se abre, e ele fala com uma voz arranhada.
LESTER
– Rita, por que deixou que as coisas chegassem a este ponto?
Rita esta acuada na parede. Ela tenta falar alguma coisa, mas simplesmente não sabe o que dizer.
LESTER
– Ele matou as crianças embaixo do seu nariz. Depois, eu te pedi ajuda, mas você não quis me ouvir. Depois que ele matar você, ele vai matar Eunice e as crianças.
Ele se aproxima do berço, e de dentro dele, retira algo enrolado em lençóis. Lester segura a fonte do choro em seus braços.
LESTER
– Você deixou que fizessem isso com a nossa pequena Shirley.
Lester mostra o que o lençol oculta. Trata-se de um pequeno esqueleto, que lança um sorriso sem vida para Rita. A mulher olha fixamente para a terrível aparição que se posta diante dela. Lagrimas escorrem fixamente de seus olhos. Então ela fala.
RITA
– É mentira. Tudo isso é culpa sua. Você acreditou. Você permitiu que ele fizesse tudo isso, não eu.
Rita se põe de pé. As lagrimas que escorrem por seu rosto não são mais de tristeza ou medo, são de fúria.
RITA
– Tudo o que você disse é uma mentira, sempre foi! Você nunca acreditou que eu era alguém capaz. Essa coisa nos seus braços não é real. Minha filha nunca seria usada dessa forma. Agora você Lester, você atraiu a morte o mal para si mesmo, e agora não passa de uma droga de uma marionete!
Rita empurra com força o corpo do ex marido, que cai sobre o berço, o quebrando. O esqueleto que ele carregava nos braços se transforma em pó. O cadáver parece voltar a ser um corpo morto.
RITA
– Quem esta com medo agora, hein? Aparece!
Uma fumaça negra começa a sair da boca e do nariz do cadáver de Lester, formando uma nuvem negra. A nuvem assume a forma de um ser encapuzado, e então se solidifica. Da base do manto negro surgem pés descalços, com enormes unhas sujas. A pele dos pés é azulada, e parece estar coberta por uma espessa gosma.
BICHO PAPÃO
– Não fique confiante, Rita. Você vai ter o mesmo fim deste covarde.
RITA
– Vou mesmo? Então por que fez esse showzinho? Por que não me matou na casa de Eunice? Por que me trouxe aqui.
O monstro se aproxima dela e ergue a garra, colocando-a ameaçadoramente em frente ao rosto de Rita.
BICHO PAPÃO
– Por acaso esta com pressa de morrer? (diz com raiva)
RITA
– Eu estava morrendo de medo. Até perceber o porquê me trouxe de volta a este lugar. Nesta casa, eu não poderia ignorar a sua existência, certo?
O monstro agarra Rita pelo pescoço, e a prensa contra a parede.
BICHO PAPÃO
– Você tem razão. Acho que subestimei você, Rita. É mais esperta do que eu imaginei. Seu truque na casa de Eunice foi bom, mas nada que eu já não tenha visto antes. Mas não pense que vai vencer. Eu faço isso há séculos.
RITA
– Então acho que ficou descuidado com a idade (Diz com a voz sufocada, devido ao aperto do monstro).
Rita coloca a sua mão sobre a garra que aperta o seu pescoço, e começa a afastá-la. Um misto de medo, raiva e surpresa surge nos olhos da criatura. Ele força o braço em direção a Rita, mas ela mantém o braço firme.
RITA
– Algum problema? Você parece assustado.
O Bicho Papão urra de raiva, e com a outra garra, investe contra o peito de Rita. Mas ela é mais rápida, e segura o pulso da criatura, evitando ser atingida. Subitamente, o monstro grita de dor, e recua, com fumaça saindo dos seus pulsos.
BICHO PAPÃO
– Você me queimou, sua piranha! Como diabos esta fazendo isto?!
Rita ri, e dá um passo a frente.
RITA
– Você é mesmo uma criatura muito arrogante. Tão cheio de si, tão poderoso. Mas cometeu um grande erro ao usar Lester para tentar me fazer sentir culpada.
Ela continua avançando em direção a criatura, que começa a recuar.
BICHO PAPÃO
– O que esta dizendo?
RITA
– Existe um sentimento que é capaz de suplantar o medo. E ao me trazer aqui, e me fazer lembrar tudo o que eu perdi, de tudo que você me tirou, alem de esfregar a omissão de Lester na minha cara, eu nunca senti...
BICHO PAPÃO
– Oh não.
RITA
– Tanta raiva na minha vida!
Rita se joga sobre o Bicho papão, o agarrando pelo pescoço, e começa a estrangulá-lo. A criatura tenta se soltar, mas Rita o está sufocando com uma força quase sobrenatural. A gosma começa a escorrer de todos os orifícios do rosto do monstro. A carne do Bicho Papão começa a se contrair, recolhendo-se dentro do manto. As garras, manchadas de sangue, tambem começam a se desintegrar. Rita não para de apertar o pescoço do monstro. A mulher sente então a massa em suas mãos perder completamente a rigidez. Ela sente algo gosmento por baixo do tecido. Não há mais um rosto debaixo do capuz, somente um monte de gosma, que escorre para fora. Rita cai no chão, com o manto vazio na mão. O Bicho Papão se desintegrou, tudo o que sobrou foi uma poça de gosma no chão.
Rita ergue a cabeça, ofegante. Ela se levanta cambaleante, apoiando-se na parede para não cair. A mulher coloca a mão do lado da barriga, e sente uma substancia viscosa. Ela ergue a mão, e percebe que sua pele esta manchada de vermelho. Há quatro furos em sua blusa.
RITA
– Maldito filho da mãe.
Rita vai até a entrada do quarto, e agradece a deus quando a porta abre depois que ela gira a maçaneta. A mulher atravessa o corredor, e desce as escadas que tantas vezes desceu e subiu no passado. Ela vai até a porta de entrada, que tem a chave embutida na fechadura, e sai da casa.
ALGUNS MINUTOS DEPOIS
Rita esta andando pela calçada. A chuva cai sobre ela. O sangue começa a escorrer lentamente sobre seu corpo. A mulher repete mentalmente que precisa sobreviver. Só mais um tempo.
Nesse instante, a estrada é iluminada pela luz de um carro. Um taxi se aproxima. Rita se joga em frente ao veiculo. O motorista freia o carro, não acertando a mulher por pouco. Um homem de aparentemente 60 anos, de cabelos brancos, desce do taxi, assustado.
TAXISTA
– Ah meu deus. Moça, a senhora esta bem?
Rita não consegue responder. Tudo que ela consegue fazer é se apoiar no capô do carro, e desabar no chão logo em seguida. O velho taxista percebe que sangue manchou a lataria do seu carro.
TAXISTA
– Fique calma, moça. Eu vou chamar uma ambulância!
O taxista avança para o radio do carro, mas então, ele ouve uma voz fraca o chamar.
RITA
– Espere. Antes de fazer qualquer coisa... Me dê seu telefone, pelo amor de deus.
DELEGACIA: HORAS DEPOIS
Eunice esta sentada em uma cadeira em uma delegacia. Sarah e a irmã estão no sofá enroladas em um cobertor. A pequena Ângela adormeceu nos braços da irmã. Um policial entra na sala, e se dirige a Eunice
POLICIAL
– A viatura que enviamos acabou de entrar em contato, senhora. E infelizmente não encontramos nenhum vestígio do homem que invadiu a sua casa, e atacou à senhora e suas filhas. Batemos na casa da frente, e encontramos sua vizinha morta.
EUNICE
– Ah, não.
POLICIAL
– Ainda não temos certeza se foi obra do mesmo criminoso, ou se foi um acidente.
EUNICE
– E a minha irmã? Algum sinal dela?
POLICIAL
– Infelizmente não, senhora. Mas já demos o alerta geral. Se a senhora me der licença, preciso voltar ao trabalho.
O policial sai da sala. Eunice e Sarah trocam um olhar cansado. Era sorte Angela já ter dormido. Elas haviam combinado que era melhor não contar a verdade a policia. Angela concordara em ficar quietinha, mas era só uma criança, e ainda por cima, estava assustada. Seria muito fácil a menina soltar a língua.
Eunice se lembra de acordar sobressaltada no chão do corredor, como se acordasse de um pesadelo. Mas infelizmente aquela era uma situação bem real. A mulher recorda de ter descido correndo as escadas de sua casa, ignorando a incomoda dor que sentia nas costas. Ela chega à sala a tempo de ver Sarah sair correndo da cozinha com a irmã, muda de pavor, nos braços. Eunice corre até as filhas, e as abraça. De dentro da cozinha, se escutam sons assustadores, como se um furacão tivesse se materializado lá dentro.
Eunice lembra-se de ter mandado Sarah levar Angela para fora, e esperar lá. A filha adolescente apresentou sinais de histerismo, mas Eunice agarrou a garota pelos braços, e a sacudiu, lembrando-lhe que Angela dependia dela. Sarah conteve seu nervosismo, e correu com Angela para a noite chuvosa.
Eunice ainda se lembra da macabra cena que encontrou na cozinha. Lembra-se do desespero que sentiu ao ver o monstro encapuzado voar para dentro da dispensa carregando sua irmã. A porta bateu logo atrás deles, e em seguida, a luz da casa voltou. Mas na dispensa, não havia nenhum sinal de Rita ou da criatura que a levara. E é com vergonha que Eunice recordava que não teve coragem de entrar na dispensa para conferir mais de perto.
Mesmo com a volta da Luz, Eunice correu para fora da casa, onde Sarah e Angela a esperavam. A falta de movimento na casa da velha Margaret Laurie não inspirou confiança em Eunice, o que fez a mãe levar as filhas para longe dalí, e procurar ajuda na outra quadra. Mais tarde, isso se revelou uma decisão acertada.
As três correram até a casa de um casal que vivia na outra quadra. Eunice orientou as filhas a deixarem só ela falar. Na casa do casal, Eunice chamou a policia, dizendo que alguém havia invadido a sua casa, e atacado a sua família. O dono da casa onde pediram ajuda se ofereceu a levá-las a delegacia mais próxima, enquanto os policiais verificavam a sua casa.
Eunice se lembra de todos os acontecimentos enquanto olha para o teto de uma sala reservada da delegacia. Ela olha para o lado, e percebe que Sarah seguiu o exemplo da irmãzinha, e caiu no sono. Apesar da noite terrível, seus bens mais preciosos estavam a salvo. Graças a Rita.
EUNICE
– Onde você esta, minha irmã?
CASA DE EUNICE
Três policiais vasculham a casa, enquanto um detetive de policia esta na sala. Ele pega o seu celular para fazer uma ligação, e percebe que o aparelho esta sem bateria. O detetive volta-se para o aparelho de telefone, e percebe uma luz piscando no aparelho da secretaria eletrônica.
DETETIVE
– Vejam só.
Ele se aproxima, e aperta o botão para ouvir a mensagem.
DELEGACIA
Já é dia. Eunice esta sentada diante do detetive. Através do vidro da porta, vê-se Sarah e Angela sentada na sala de espera.
DETETIVE
– Através da ligação que sua irmã deu, nós conseguimos chegar a este taxista. Ele diz que a encontrou no meio da rua, e chamou uma ambulância. Ela ainda estava viva quando eles chegaram, mas sua irmã apresentava feridas internas, e parece ter perdido muito sangue. Ela não resistiu o caminho até o hospital. Eu sinto muito. Queria ter boas noticias.
Eunice fica em silencio por alguns instantes, e então pergunta.
EUNICE
– O que ela dizia na ligação?
DETETIVE
– Não significou muito pra nós, mas talvez signifique alguma coisa para a senhora ou alguma de suas filhas. Ela se referiu as três.
EUNICE
– Eu posso ouvir a mensagem?
POUCO DEPOIS
Eunice, Angela, Sarah, e o Detetive escutam a gravação da mensagem que Rita deixou na mensagem eletrônica.
RITA
– Ola Eunice. Imaginei que você e as garotas não estariam em casa (ela dá uma risada amarga). Eu preciso que você e as meninas me escutem com atenção. Em primeiro lugar, quero pedir perdão por todo o mal que eu causei. Nada disso teria acontecido se eu não estivesse por perto, então peço perdão a todas vocês. Sinto muito pelo Mike, Sarah, mesmo. Mas quero que saibam que este pesadelo acabou. O Bicho Papão esta morto, eu matei o filho da mãe. Não precisam mais ter medo. Confiem em mim, ele nunca mais vai incomodar vocês. Espero que... (Ouve-se um gemido de dor. Uma voz é ouvida no fundo da mensagem).
TAXISTA
– Moça, a ambulância já vai chegar!
RITA
– Espero que nos vejamos de novo. E se não nos vermos, saibam que estarei sempre com vocês.
A mensagem termina, e uma voz eletrônica anuncia que a mensagem terminou.
DETETIVE
– Significa algo pra vocês?
EUNICE
– Não pra mim, detetive.
SARAH
– Pra mim não significa nada.
O detetive volta-se para Angela.
DETETIVE
– E pra você, garotinha?
Angela olha para a mãe e para a irmã, e então balança a cabeça negativamente.
DOIS MESES DEPOIS
Angela esta em seu novo quarto. Há pouco mais de um mês, ela se mudou com a mãe e com a irmã para um apartamento. O apartamento é menor do que a casa, mas é confortável, e principalmente não traz nenhuma lembrança. A menina esta deitada na cama, lendo “As Crônicas De Narnia”. Sarah entra no quarto.
SARAH
– Hora de dormir, mocinha.
ANGELA
– Mais dez minutos (diz em tom de suplica).
SARAH
– Nada disso (diz Sarah recolhendo o livro). Mamãe diz que você tem que dormir as onze, e são onze. Devia se considerar com sorte, no meu tempo era as dez.
Angela ri, enquanto se ajeita na cama.
ANGELA
– Esse é o lado ruim da mamãe ter voltado a estudar. Era muito mais fácil enrolar a ela do que a você.
SARAH
– Tá certo. Dorme bem pestinha.
ANGELA
– Boa noite, mana.
SARAH
– Pra você tambem, Angela.
Sarah apaga a luz, e deixa o quarto.
ANGELA
– Boa noite, anjo da guarda.
Angela vira-se na cama, e fecha os olhos. Sobre a cômoda, do lado da cama da menina, esta um porta retrato com a foto de Rita.
CASA DE MIKO
Miko dorme coberto com os lençóis. Ultimamente, ele não consegue esquecer a historia que Angela contou na pracinha. Miko não sabe por que Angela foi embora do bairro juntamente com a mãe. Mas ouviu os pais conversando que tinha algo a ver com a morte da tia de Angela. Mas não podia ter nada a ver com aquela historia de Bicho Papão. Era só uma invenção da cabeça boba da Angela. De repente, Miko sente um arrepio na espinha, ao ouvir o insistente barulho de algo raspando contra o piso, mais precisamente embaixo da sua cama.
FIM
Notas finais
Para quem se interessar, em breve postarei uma One Shot baseada em mais um conto do mestre Stephen King (Sim, eu adoro esse cara. Hehehe).
Quem puder, deixe um review apontando erros e acertos deste desfecho, e até a proxima!
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