Quem Nós Somos?

28 K - Era inevitável.


"Você esteve em coma profundo, mas eu estava aqui quando você pensava que não havia ninguém
Eu ainda estava aqui
Você estava com medo, mas eu lhe disse
"Abra seus olhos"

Nunca deixei de ser alguém que poderia amá-la direito
Tive que te mostrar do jeito mais difícil
Só o tempo irá dizer
Revelações e mágoas fazem você perceber
Que eu sempre estive bem na sua frente

Então acorde seu coração que dorme
Sei que às vezes nós vamos ter medo
Mas não vamos mais ser cautelosos, minha querida
Estou aqui
Então acorde (...)"

Wake Up — The Vamps

Por Kile Woodwork

Assim que ouvi as palavras de Eadlyn, procurei, aflito, a minha carteira dentro da minha mochila; e assim que vi o couro marrom já envelhecido da mesma, senti uma onda de alívio percorrer o meu corpo todo.

Pelo menos isso não foi roubado.

—O que vamos fazer? — A garota me pergunta, apreensiva. Tínhamos pouco dinheiro agora; muito pouco. — Como vamos voltar para casa, Kile?

Estou prestes a lhe responder, quando a voz da senhora de uns 60 e poucos anos, acabou me tirando do meu transe de estresse. Ela abriu um sorriso enrugado para nós dois, e então apontou gentilmente para um dos salgados que estavam dentro de um ambiente de vidro. Assenti com a cabeça, e então a mulher perguntou algo em um frânces que não tinha certeza se havia compreendido, mas acredito que tenha questionado sobre quantos eu iria querer.

Deux, s'il vous plaît— pedi à ela, tomando o cuidado de erguer dois dedos para garantir que ela entenderia realmente e me daria os dois salgados que pedira em frânces.

Concordou com a cabeça e então colocou cada um dentro de um saquinho branco, nos entregando em seguida.

Merci— agradeci, enquanto que Eadlyn apenas abriu um sorriso vago para a senhora.

Nos sentamos à uma das mesas que ficavam aos fundos do pequeno barzinho, enconstados na janela. O sol estava quente, e então a garota colocou uma das mãos na lateral do rosto, tentanto inutilmente se proteger um pouco da luminosidade forte.

—Sério, Kile... — ela suspira. — E agora?

Dou uma grande mordida no folhado de frango e, enquanto mastigo lentamente, penso em alguma alternativa plausível. Eadlyn me fita agora com o cenho franzido, impaciente.

Engulo.

—Vamos avisar nossos pais — digo ao ajustar meus óculos no rosto.

A garota bufa alto e se joga na cadeira, cruzando os braços firmemente sobre o peito, desviando o rosto para o lado oposto ao da grande janela.

—Não podemos — avisa, emburrada.

—Por quê? — Quero saber, minhas sobrancelhas franzindo-se.

—Porque se eu chamar um deles pra vir nos buscar ou mandar dinheiro, todo o discurso que eu dei sobre querer seguir o meu próprio caminho vai cair por água abaixo, eles não vão confiar nas minhas decisões se eu sempre recorrer a eles — ela faz uma careta agora; — e se tia Marlee souber, é a mesma coisa que minha mãe saber saber.

Penso sobre aquilo e acabo concordando com a cabeça; ela tinha razão.

—Mas qual o problema deles saberem ? — Questiono antes de dar mais uma dentada na massa crocante do folhado.

—Eles devem estar preocupados, ninguém sabe exatamente para onde iríamos, e também, a graça da viagem é essa... uma coisa particular, independente — retruca e, então, revira seus olhos azuis que hoje pareciam mais escuros.

Suspiro alto.

—Não temos escolha, Eadlyn... precisamos de dinheiro — digo o óbvio e aponto com minha mão livre para o meu folhado que já estava na metade. — Olhe, já está quase acabando e eu ainda estou com fome!

—Pegue o meu — diz, enquanto empurra o salgado na minha direção, mas eu a impeço de continuar quando coloco minha mão sobre a sua.

Ela sobe os olhos para o meu rosto, e Eadlyn me parecia tão diferente esta manhã. Os cabelos estão bagunçados e soltos, e eu não fazia a mínima ideia de que eles eram tão ondulados assim... sua pele está bronzeada, mas a pontinha do nariz está um pouco avermelhada, assim como parte de suas bochechas. Os lábios um pouco franzidos, e as roupas surradas, lhe conferiam um ar completamente diferente da patricinha que me acostumei a ver pelo o campus.

Me parecia normal.

Lindamente normal.

—Não quero o seu, Eadlyn — rebato ao revirar os meus olhos também. — Você tem que comer — digo, enquanto tiro minha mão da sua e a coloco sobre a mesa de plástico.

—Eu não quero voltar agora — diz, meio que choramingando, meio que irritada...

—Precisamos de dinheiro pra sobreviver aqui — falo com um suspiro áspero.

E aí, ficamos em silêncio. Observo enquanto Eadlyn começa a bater, de forma impaciente, seu dedo indicador na mesa, seus olhos olham para todos os lados, e o seu rosto está concentrado e franzido, parecia que estava tentando pensar em algo pra nos ajudar. De repente, ela fita pela a janela, olhando para a rua simples e agora movimentada. Ela estreita os olhos, até que abre gradativamente um sorrisinho de lado.

—Tenho uma ideia! — Fala ao me encarar com os olhos muito abertos e uma expressão que está, claramente, aliviada.

Faço cara de desconfiado.

—Você? Ideia... ? — Deslizo meus dedos pela a minha barba que já está grande. — Só quero que você saiba, que se for algo ilegal, eu estou fora... sério.

Eadlyn faz uma careta e então me mostra a língua.

—Você é destestável — resmunga. — Não tem nada de ilegal.

—Nada nadinha? — Confirmo com uma sobrancelha erguida.

—Kile, pare de ser insuportável.

—Sou tão insuportável que você está aqui, na França, comigo— olho para ela com a cabeça um pouco inclinada para o lado, enquanto cruzo os braços e abro um sorrisinho sacana. — Devo ser o cara insuportável mais suportável do mundo — reflito com um fajuto ar pensativo.

—Chega de gracinha. Olhe para fora e então irá saber do que estou falando — me diz.

Viro a cabeça para a janela; eu não tinha certeza de que dia era hoje, mas talvez fosse um final de semana... ou feriado, pois tinha muita gente andando pela a rua. Lá, do outro lado da calçada, havia uma loja de instrumentos musicais. Há uma placa também, com alguns violões e guitarras, e teclados e, até mesmo, algumas cornetas. Volto a olhar para Eadlyn, que sorria maníacamente.

—E então, o que me diz? — Me indaga antes de dar uma mordida em seu salgado.

—Ali está escrito que eles alugam instrumentos, é isso? — Retruco, ainda meio confuso.

—Sim! — Responde, animada.

—Tá, mas e aí... ?

Revira seus olhos e eu abro um sorriso divertido.

—Podemos alugar, daí você canta e a gente consegue um dinheiro pra conseguir um lugar pra dormir, e depois pra voltar pra casa.

—Não sei se isso vai dar certo, não — digo, desconfiado, olhando de relance para a loja do outro lado da rua.

—Você canta bem, as pessoas irão contribuir pro seu talento.

—Sério... isso não vai dar certo.

—Você é pessimista.

Marcus gostava de me dizer isso também.

—Sou realista, cherie.

—Vamos tentar.

—Iremos gastar o dinheiro que nos restou pra alugar um violão e cantar pra tentar arrecadar dinheiro? — Resmungo, entediado. — É isso mesmo que eu entendi?

—É um investimento.

—De alto risco, não acha?

—Se não der certo... — ela começa, fazendo uma careta engraçada; — nós pedimos pro meu pai nos mandar dinheiro pra voltar pra casa. Ele vai me achar patética, que não sei me virar sozinha, mas... não temos muitas alternativas.

—Eu até aceito isso aí... mas antes, tenho uma condição pra você.

—Qual?

—Terá que cantar comigo também.

—Não sei cantar.

—Qual é, Eadlyn... sua mãe e sua avó eram musicistas e sabiam cantar, duvido que tenha pulado a sua geração — forço com um sorrisinho torto nos lábios.

—Não sei cantar muito bem, então não, não vou cantar — retruca, parecendo decidida.

—Tudo bem, então — falo eu, antes de arrastar a cadeira para trás e me levantar.

—Onde pensa que vai, Woodwork? — Quer saber, autoritária.

—Vou ligar pros meus tios — respondo simplesmente, virando-me de costas brevemente pra poder soltar uma risadinha.

—Babaca.

—Flor de jasmim.

—Idiota.

—Linda.

Ela bufa alto e eu me viro exatamente de frente pra ela, ainda sorrindo.

—Cretino — balbucia, evidentemente irritada.

—Anja — rebato; mas então, reflito melhor e digo: — Desculpa, me equivoquei, anja é forçar a barra demais — e aí lhe lanço uma piscadinha.

Eadlyn fecha os olhos por alguns segundos, antes de me fuzilar com eles.

—Eu canto — diz de repente.

Me sento novamente na cadeira, satisfeito.

—Ora, ora... que maravilha.

—Mas só uma música — avisa ao apontar sua unha quebrada pra mim.

Abro um sorriso alegremente, afinal, aquilo era mais do que eu esperava conseguir com o meu blefe.

Assim que saímos do bar e agradecemos à senhorinha que foi muito simpática conosco, seguimos diretamente até a loja de instrumentos, que se chamava Coin Musique. Negociamos com um homem que, graças a Deus, falava um pouco de espanhol e que não teve dificuldade em entender o nosso sotaque e nosso frânces primário. Demos quase todo o dinheiro que tinha nos restado a ele, e então alugamos um violão pelo o restante do dia.

Deveríamos entragá-lo por volta das 19:00 da noite. Eadlyn e eu procuramos um lugar para começar a tocar, e quando encontramos uma praça com bastante movimento de pessoas a pé, ou com bicicletas, nos acomodamos abaixo de uma árvore e nos sentamos em um banco de mármore.

Eadlyn colocou um chapéu na grama verdinha, rodeada por pequenas florzinhas violetas e rosas, e então se sentou ao meu lado.

—Você começa — digo.

Ela faz cara de nojo pra mim.

—Tá — diz, mal humorada.

A garota fica em silêncio por um momento, até que sua voz começou a ecoar pela a praça, e ela era realmente afinada. Não conhecia a música, mas mesmo assim comecei a tocar um arranjo que pudesse se encaixar na sua melodia.

E naquele momento, eu só conseguia olhar pra Eadlyn.

I never thought that you would be the one to hold my heart;
But you came around and you knocked me off the ground from the start
(Eu nunca pensei que você seria aquele a curar o meu coração;
mas você apareceu e me tirou do chão desde o começo)
You put your arms around me
And I believe that it's easier for you to let me go
You put your arms around me
And i'm home
(Você coloca os seus braços ao meu redor
E eu acho que é mais fácil você me deixar ir...
mas você coloca seus braços ao meu redor
E eu me sinto em casa)
How many times will you let me change my mind and turn around?
I can't decide if I'll let you save my life or if I'll drown
(Quantas vezes você vai me deixar mudar de ideia e dar meia volta?
Eu não consigo decidir se deixo você salvar minha vida ou se eu me afogo)
I hope that you see right through my walls
I hope that you catch me 'cause I'm already falling
I'll never let our love get so close
You put your arms around me and i'm home
(Espero que você veja bem através das minhas paredes
Espero que você me segure, pois eu já estou caindo
Eu nunca vou deixar o nosso amor se aproximar tanto
Você coloca seus braços ao meu redor e eu me sinto em casa)
The world is coming down on me and I can't find a reason to be loved
I never wanna leave you but I can't make you bleed if I'm alone
(O mundo está desmoronando sobre mim e não consigo encontrar motivo para ser amada
Eu nunca vou querer te deixar, mas não posso fazer você sangrar se eu estiver sozinha)
You put your arms around me
And I believe that it's easier for you to let me go
(Você põe os seus braços ao meu redor
E eu acredito que é mais fácil você me deixar ir)
I hope that you see right through my walls
I hope that you catch me 'cause I'm already falling
I'll never let our love get so close
(Espero que você veja bem através das minhas paredes
Espero que você me segure, pois eu já estou caindo
Eu nunca vou deixar o nosso amor se aproximar tanto)
You put your arms around me and i'm home
(Você coloca seus braços ao meu redor e eu me sinto em casa)
I've tried my best to never let you in, to see the truth...
And I've never opened up, I've never truly love 'till you put your arms around me
(Eu tentei o meu melhor para nunca deixar você entrar, para ver a verdade...
E eu nunca me abri, eu nunca realmente amei ninguém até você por os seus braços ao redor de mim)
And i believe that it's easier for you to let me go
I hope that you see right through my walls
I hope that you catch me 'cause i'm already falling
I'll never let our love get so close
You put your arms around me and I'm home
(E eu acredito que é mais fácil você me deixar ir
Espero que você veja bem através das minhas paredes
Espero que você me segure, pois eu já estou caindo
Eu nunca vou deixar o nosso amor se aproximar tanto
Você coloca seus braços ao meu redor e eu estou em casa)

Quando Eadlyn terminou, seus olhos piscaram algumas vezes antes dela me olhar com um sorriso bonito, e então olhou ao nosso redor, e algumas pessoas haviam parado para lhe ouvir. A partir daí, começamos a receber os nosso primeiros trocados do dia.

Era mais ou menos 18:45 quando encerramos o nosso 'turno' e começamos a contar o dinheiro que havíamos conseguido e verificar qual decisão teríamos que tomar. Ou pedir ajuda pra voltar pra casa, ou continuar com o nosso trabalho por aqui.

—E então? — Eu pergunto, assim que ela começou a recolocar as moedas e notas dentro de uma bolsinha azul e rosa.

Quando seus olhos me fitaram, seus lábios formavam um sorrisinho de lado muito satisfeito, e então eu já sabia que poderíamos continuar ali na França por mais um dia.

Entregamos o violão para o homem de uns 32 ou 34 anos, e lhes dissemos que voltaríamos amanhã. Ele perguntou em um espanhol bem procunciado, se tínhamos algum lugar pra dormir e, quando lhe demos uma negativa, o cara falou que tinha um hotel barato por ali mesmo. Desenhou um mapa super simples para seguirmos, e quando chegamos no tal lugar, ele não parecia tão ruim quanto à pousada em que ficamos no primeiro dia em que chegamos ali, no entanto, também não era lá grande coisa. A mulher da recepção só falava frânces, o que fez com que demorássemos um pouco mais do que seria normal para conseguirmos o quarto.

—35 — diz ao pegar uma chave de algum lugar abaixo da bancada e nos entregar.

Merci— Eadlyn e eu dissemos juntos.

—Eu estou exausta — ela me falou quando abriu a porta do quarto e entramos.

O lugar era bem pequeno, mas, para a minha surpresa, tinha uma cozinha junto com o quarto. Uma cama de casal, bem arrumada, estava à direita, com uma janela média acima da cabeceira e, logo em seguida, havia uma pequena porta de cor verde musgo, que julguei ser a porta do banheiro. À esquerda, está uma bancada pequena e simples, com um fogão elétrico e um mini refrigerador.

—Uma cozinha — ela diz ao abrir um sorriso.

—Finalmente poderemos comer uma comida de verdade!

Ela me olha por alguns segundos, o sorriso ainda estava no seu rosto.

—E eu estou morrendo de fome.

—Você pode ficar por aí, descanse um pouco... vou ir no mercadinho do qual passamos antes de chegar aqui e comprar algo pra gente comer.

—Não quer que eu vá com você? — Me pergunta.

—Você não está cansada? — Pontuo com as sobrancelhas arqueadas.

Eadlyn larga suas coisas em cima da cama e então coloca as mãos dentro do bolso traseiro de sua calça jeans.

—Estou...

—Pode ficar tranquila, eu juro que vou voltar — provoco.

—Acho bom, porque se você me abandonar aqui, irei atrás de você até o inferno.

—Pra poder cuspir no meio da minha testa uma vez mais? — Questiono com uma risada.

Ela joga seus cabelos para trás e empina o nariz.

—Exatamente.

Como tinha muito pouco dinheiro, optei por um pacote de massa espaguete, uma cebola, um molho enlatado e 3 ou 4 salsichas. E, ainda assim, acabei me arrependendo, acho que acabei gastando demais. Quando voltei ao quarto, encontrei com uma Eadlyn vestindo um short branco de algodão e curto, uma blusa fina e escura com uma alça fina e trançada. Assim que me viu entrar, ela se levanta apressada de cima da cama e vai direto na sacola que eu carregava.

—Foi o que deu pra comprar — aviso, já tirando minha camisa. — Vou tomar banho — falo, me dirigindo até o banheiro que, graças a Deus, estava limpo. Mais limpo do que eu poderia imaginar e desejar nessas circunstâncias.

Não sou do tipo de pessoa que fica muito tempo no banho, mas eu estou tão cansado, tão cansado, que me permiti ficar mais ou menos uns 15 minutos embaixo da água, aproveitando para relaxar o meu corpo um tanto dolorido pela a noite anterior mal dormida. E, pensando nisso, lembrei do corpo de Eadlyn no meu colo, do quanto eu gostava de sentir o gosto do beijo dela e de como, em um momento de coerência, ela havia mudado de ideia e dito que naquele lugar não era o momento de transarmos.

Isso quer dizer que ela queria que esse momento... existisse?

Assim que me vesti com minha calça de moletom, saí para fora e vislumbrei Eadlyn Schreave ali, em frente à bancada, parecendo confusa ao tentar dar um jeito nos alimentos relativamente simples que eu havia comprado.

—Está difícil? — Pergunto com um sorriso nos lábios.

Ela me lança um olhar mortal. Me escoro na bancada com os braços cruzados, enquanto a observava colocar salsichas picadas dentro da panela, junto com a cebola e o molho; em seguida, a garota coloca a massa crua dentro da panela e liga o fogão.

—Eu acho que está errado — eu falo.

—Não está — retruca, mandona.

—Olha... não era pra ter água ali? — Pergunto á ela.

Dá de ombros.

—Não, o calor vai fazer ficar mole a massa — diz, com um ar de quem realmente sabia do que estava falando.

Dou risada.

—Me diz que você está brincando.

—Não tô, Kile — resmunga ao revirar os olhos.

—Precisa de água isso, e acho que o molho se faz em outra panela... — falo, tentanto me lembrar de alguma coisa que titia me ensinou há anos atrás, dos quais não me lembro de quase nada.

—Aff — solta ela, irritadinha, enquanto desligava o fogo e tirava cuidadosamente a massa e colocava em outra panela. Em seguida, a encheu de água e foi tentar dar um jeito no molho.

Ficou olhando para a panela por alguns instantes, provavelmente pensando no que teria que fazer depois de ter colocado os ingredientes dentro da panela, e eu achei aquilo bem... fofo. Ela está de lado pra mim, e eu não conseguia ver o seu rosto direito, apenas os seus lábios projetados para a frente, em um biquinho, e seus cabelos, infelizmente, me impediam de vê-la direito, já que estavam tapando a maior parte de seu rosto.

E quando eu ergui minha mão para colocar seu cabelo atrás da orelha, e ela virou para mim com os olhos muito abertos, foi que eu me dei conta de algo.

Algo que me pegou de surpresa, mesmo que talvez, no fundo, eu já devesse esperar que acontecesse. Mesmo assim, não estava preparado.

A gente nunca sabe quando vai se apaixonar, não existe um relógio e um calendário sobrenatural, nos dizendo a data, o dia, a hora. Simplesmente acontece. De repente, em determinado momento, quando isso nem passava pela a sua cabeça, você olha pra aquela pessoa e pronto, alguma coisa ocorreu, alguma coisa mudou. É instantaneamente, sem aviso. Em um minuto você se sente muito bem sozinho, no outro, você sabe que precisa dela na sua vida. É gradativo, eu acho. Talvez, quem sabe, eu estivesse me apaixonando aos poucos, mas o processo era tão lento e subjetivo, que quando o sentimento chegou de vez, eu levei um susto. Estou um pouco assustado, sim.

Algo parecido com acordar de um daqueles sonhos horríveis de queda. E foi assim comigo agora, enquanto olho pra Eadlyn e ela me olha de volta, e então volta a me ignorar e a picar o restante da cebola para poder colocar dentro da panela.

E seu cabelo está tão bonito todo bagunçado, e ela é tão bonita pra mim, que não sei como não percebi antes, como não me apaixonei antes. De certo deve ser assim que acontece essas coisas... quando você não quer se apaixonar por alguém. Fui ingênuo ao acreditar que mandava no meu próprio coração, eu jamais poderia evitar que isso acontecesse... e aconteceu.

—Eadlyn — eu a chamo, e a garota me fita atentamente. — Você é frustrante... — e não disse mais nada antes de beijá-la e ser correspondido imediatamente.