Quem Nós Somos?
8 K - Devia ter pensado melhor antes de começar isso.
"Garota, eu te falei, a vida é nada fácil. Eu não quero dizer isso, mas o mundo é maior que o teu quarto."
TNT — O mundo é maior que o teu quarto
Kile Woodwork
Eadlyn está meio vermelha. Parecia que tinham substiuido sua cabeça por um grande tomate maduro. Se não fosse tão assustador, provavelmente eu estaria rindo muito neste exato momento. Ela larga o seu aparelho telefônico em cima da cama e, lentamente, senta-se em uma poltrona roxa e felpuda, em seguida sua cabeça encontra-se entre as suas pernas e ela fica assim durante alguns segundos, enquanto Marcus e eu trocamos olhares.
— Posso saber como que a minha mãe ficou sabendo disso? — Seus olhos azuis focam-se em mim, seus lábios levemente curvados para baixo.
Dou de ombros e então ergo as duas mãos na altura das orelhas.
— Não sei do que está falando, mas com certeza eu sou inocente! — Murmuro ao abrir um sorriso de canto. Eadlyn estreita seu olhar, erguendo o seu rosto e empinando o seu nariz.
— Woodwork, você contou para a tia Marlee que nós estamos namorando? — Ela quer saber. Faço uma careta.
— Óbvio que não, por quê? — Retruco, começando a ficar realmente receoso.
Eadlyn crava seu cotovelo no braço na poltrona e espalma a mão em sua testa, enquanto dá um longo e profundo suspiro. Seus olhos se fecharam por alguns instantes.
— Porque minha mãe acaba de me ligar, dizendo que quer conhecer o meu novo namorado, que está muito feliz e que quer nos ver juntos logo. — Ela franze os lábios, a expressão muito séria.
Arqueio as sobrancelhas.
— Mentira. — Eu digo, agora fora a minha vez de procurar algum lugar pra sentar.
Eadlyn solta uma risadinha mal humorada.
— Bem que eu gostaria. Meus pais não vão sossegar até conhecerem você. — Bufa.
Pisco algumas vezes antes de massagear minhas têmporas. Aperto a ponto do meu nariz.
— Mas eles já me conhecem — argumento, minha voz um pouco mais alta do que eu planejava.
— Te conhecem como o sobrinho da melhor amiga dela, e do melhor amigo do meu pai. — Ela me fuzila com o olhar, cruzando seus braços firmemente diante do corpo. — Agora eles querem te conhecer como o meu namorado. Você tem noção do quanto eles me incomodaram pra eu apresentar o Eikko pra eles?!
Fico quieto por alguns segundos, olhando para os meus tênis — surpreendentemente limpos. Eu deveria ter cogitado essa possibilidade. No dia da festa, quando cheguei em casa, minha tia Marlee estava sentada no sofá, sorrindo tanto que pensei que seus dentes tinham quase uma vida própria. Ela me perguntou sobre Eadlyn e eu, e respondi que erámos amigos agora. Quis saber sobre o motivo de eu ter mudado de visual, e respondi que era apenas uma forma de mudar um pouco. Titia não pareceu ficar satisfeita com a minha resposta, e argumentou que só passamos a nos vestir melhor quando queremos impressionar alguém, eu revirei os olhos e disse não tinha nada a ver. E neste caso realmente não tinha nada a ver. Mas eu não poderia simplesmente contar a verdadeira razão para esta mudança radical em minha aparência, não queria decepcioná-los. Suspiro.
Por que ela tinha que ter ligado para America? Por quê? Me diga, Senhor, me diga o por quê.
— E agora? — Cutucou Eadlyn, quando meu silêncio pesou demais no ambiente. Ela parece estar completamente impaciente.
— O que ela disse exatamente? — Pergunto, enquanto me inclino para a frente, na poltrona que nem me lembrava direito de ter me sentado.
— Que comprou passagens para irmos vê-los. — Diz secamente.
— Eu não vou ir. — Falo, convicto. Eu não sou obrigado.
Eadlyn aponta sua unha vermelho sangue para mim.
— Escute aqui, namorado, você que me meteu nessa palhaçada e agora você vai ter que ir sim e se apresentar pros meus pais.
— Podemos dizer que foi um equívoco da minha tia, não seria a primeira vez que ela aumenta alguns acontecimentos. — Murmuro, sentindo uma fagulha de esperança se acender no meu coração.
Eadlyn desliza sua língua pelos seus lábios que estavam secos. Ela balança sua cabeça de um lado para o outro, seus cabelos lançaram no ar um aroma agradável de morangos ou algo do tipo.
— Minha mãe vai querer vir aqui, daí. Eu não quero que meus pais venham pra cá.
— Por quê? — Questiono exasperado.
— Por que eu tenho uma vida a parte aqui. Se eles vierem, não virão sozinhos. Virão com um amontoado de jornalistas curiosos e então o sossego que tenho tendo aqui, estará acabado.
— Só por causa disso? Seria uma visita curta, eu pressuponho.
Ealdyn se levanta da poltrona e começa a caminhar de um lado para o outro, as mãos em sua cintura.
— Não.
— E por que mais? — Quero saber.
— Não te interessa. — Ela bufa e revira seus olhos.
— Minhas belezuras, eu vou saindo aqui. Acho que vocês tem muito para conversar e eu não quero ser testemunha de nenhum assassinato. — Diz Marcus, dando poucas longas passadas até a porta. Ele abriu um sorriso cheio de dentes para nós, e então lançou uma piscadinha para Eadlyn antes de partir.
Eu e a garota ficamos em silêncio por alguns minutos. Ela agora está de costas para mim, fitando alguma coisa pela a janela de seu quarto. Coço minha nuca, realmente incomodado por não ter pensado em todas as possibilidades que este plano tinha de dar errado. Só sei que não quero me apresentar para America e Maxon como o namorado de sua única filha. Não quero também, ter que mentir pros meus tios, que me criaram como se eu fosse realmente o seu filho legítimo. Seria uma dor que eu não queria lhes causar.
Só que, ao mesmo tempo, não quero recuar no plano. Sabia que tinha incomodado profundamente Erik na festa, e que poderia provocá-lo ainda mais se conseguíssimos manter esta encenação entre mim e Eadlyn. Ele merecia ter seu ego ferido por mim, o cara que ano após ano fora ofendido das mais diversas formas. Queria e ainda quero, humilhá-lo da mesma forma como me humilhou.
— Já sei. — Falo, me erguendo da poltrona e colocando minhas mãos dentro do bolso da calça jeans escura. Eadlyn se vira para mim, sua expressão indecifrável. — Vamos dizer que ainda não estamos namorando, estamos apenas nos conhecendo.
— Meus pais virão para cá, caso a gente não apareça por lá. — Diz ao erguer uma sobrancelha. — Eles vão querer te conhecer.
— Mas eles já me conhecem. — Repito ao empurrar com o dedo indicador meus óculos para trás.
Eadlyn franze o cenho.
— A última vez que eles te viram, você devia ter... Sei lá, uns 12 anos? — Ela revira os olhos. — Você era quase uma criança, não conta. As pessoas mudam quando crescem.
Deslizo o meu dedo pelo o meu queixo barbudo.
— Engraçado, você continua a mesma criança mimada que conheci há anos atrás. Seu argumento não é cem por cento verdadeiro. — E então abro um sorriso de canto, que provocou em Eadlyn uma expressão de nojo. Achei graça disso.
— Você quer saber? — Ela joga seus braços pra cima e então senta-se na beirada da janela. — Quer saber? — Repete ela, de repente suas feições transmitindo humor. — Vamos nos apresentar como namorados pras nossas famílias também.
Faço uma careta feia e cruzo os braços.
— Como é que é?
— Isso o que você ouviu. Meus pais sempre tenteram me influenciar pra terminar com o Erik, eles não gostavam dele.
— Seus pais tem bom gosto, ao menos. — A cortei.
— ... E você é bem o tipinho deles. — Continua ela, como se eu não a tivesse interrompido. Seu olhar para mim fora quase de piedade, e se eu não tivesse mais interessado na poeira que vi em cima de sua cômoda, teria ficado razoavelmente ofendido. — Será perfeito. Eles vão parar de me incomodar.
— É só você dizer que terminou com Erik, não precisa de um novo namorado. — Eu digo, bufando.
Eadlyn semicerrou os olhos.
— E se a notícia de que a filhinha querida dos Schreave está novamente solteira vazasse na internet? Eikko com toda a certeza ficaria sabendo. — Argumenta.
Penso sobre isso.
— Não acho que ficariam sabendo.
— Mas e se ficassem?
— Por que diabos uma notícia dessas, vinda lá da Inglaterra, chegaria ao campus de uma universidade espanhola? — Quero saber. Eadlyn me fitou debochada por alguns instantes, antes de soltar da beirada da janela e sentar-se de frente para o seu notebook.
— Vem aqui. — Diz, exigente.
Arqueio as sobrancelhas.
— Você está mandona demais para o meu gosto, cherie.
Ela franze a testa.
— Para de bichisse e vem aqui de uma vez, quero te mostrar uma coisa. — Murmura praticamente soltando fogo pelas narinas. Com um suspiro resignado, me inclino sobre a mesa e dou uma olhadela na página inicial da Google.
— Tá, e aí? — Questiono, começando a me sentir entediado daquela conversa. Tinha mais coisas para fazer, muito mais importantes, como a minha lição da disciplina de amanhã.
— Espera, idiota. — Retruca, enquanto digita rapidamente o nome de seus pais no buscador. Rapidamente, várias notícias sobre America e Maxon, assim como algumas antigas sobre Eadlyn, encheram a tela. Muitas manchetes eram de Londres mesmo, mas várias outras eram internacionais, como The Guardian, New York Times, alguns jornais famosos aqui da Espanha e de outros países. Mas o que mais me chamou atenção, era que praticamente a metade das notícias, eram referente à vida pessoal da família Schreave.
— Uou, seus pais são tipo... celebridades. Pensei que seu pai era só político. — Eu digo, enquanto assumo o mouse e rolo a seta para baixo.
Eadlyn se escora em sua cadeira, parecendo um pouco cansada.
— Ao que parece, eles são interessantes demais pras notícias serem apenas voltadas para as coisas boas que papai já fez por Londres. — Ela dá de ombros.
— Deve ser por isso que você anda por aí como se tivesse um rei na barriga. — Eu falo, com uma risadinha que eu tinha certeza que a deixaria zangada. Tiro os olhos da tela a tempo de vê-la fazer uma careta pra mim. Quando volto minha atenção novamente para as chamadas das matérias, uma me chama atenção. Está intitulado como Eadlyn Schreave X America Schreave: Quando a genética não é o suficiente. Curioso, clico no link que era de uma revista virtual sobre fofocas conhecida, mas que a reputação não era das melhores, visto que volta e meia saía alguma informação pela a televisão de que alguém a estava processando por difamação e etc.
A matéria está prestes a ser carregada diante de mim, quando Eadlyn fecha o notebook com um baque alto. Coço a lateral do meu rosto.
— Ué. — Digo ao franzir as sobrancelhas. Eadlyn está com as bochechas um pouco mais rosadas que antes, mas não sei dizer se é por que está corada, ou por que passou algum tipo de maquiagem — ela usa muita maquiagem, sério.
Eadlyn desliza as mãos pelo seus cabelos e cruza os braços.
— Você percebeu que qualquer coisa que eles façam vira notícia? Aqui eu estou, de certa forma, protegida das fofocas, mas isso não significa que não possa acontecer. — Diz.
Suspiro.
— E você não se importa de mentir pros seus pais? — Questiono, sentindo que minhas palavras e tom de voz saíram bastante críticas.
Ela me encara.
— E você não se importa de mentir pros seus tios? — Retruca.
Fiquei sem palavras por alguns segundos.
— Mas eu tenho um objetivo, que é me vingar. E não tenho o costume de mentir para eles. — Tento me defender, mesmo sabendo que essa desculpa não cola nem para mim, quem dirá para ela.
A expressão de Eadlyn é cética.
— Claro, esqueci que você é um bom menino. Fajuto, mas é. — Ela revira seus olhos. — E eu também tenho um objetivo com isso.
Arqueio uma sobrancelha.
— E qual é? Ter o meu corpo nu? — Um sorrisinho mal criado repuxou os cantos dos meus lábios.
Eadlyn pareceu surpresa por um instante com a minha resposta, seus olhos piscam várias vezes antes de suas feições se contorcerem em uma careta.
— Me poupe, Kile. — Ela bufa, e eu solto uma risada alta.
— Qual é o seu objetivo então? — Quero saber, agora realmente curioso.
Ela encolhe um dos ombros, e então cruza seus braços.
— Agradar os meus pais. — Diz, mal humorada.
Finjo que estou secando gotas de suor inexistentes do meu rosto.
— Ufa, pensei que era algum tipo de plano diabólico, agora você me pegou de surpresa. — Abro um sorriso com todos os dentes a mostra. — Mas sério... nada de assassinatos e humilhações pra ninguém?
— Nossa, o seu senso de humor me deixa enjoada, acho que vou vomitar.
— Cuidado, seu pai não vai gostar de saber que você tem sentimentos bons aí dentro, e que quer agradar os seus pais.
Ela franze as sobracelhas.
— O quê? Do que está falando, idiota?
— Seu pai verdadeiro, o diabo. — E então começo a rir, realmente era muito divertido provocá-la. Eadlyn abriu a boca para cuspir em mim, mas dessa vez eu estava esperto e me esquivei.
— Saía daqui, A-GO-RA! — Berra ela.
— Será um prazer, cherie. — Retruco ainda com um sorriso no rosto, incapaz de esconder o quanto estava me divertindo. Assim que saío do quarto, Eadlyn fecha a porta com um estrondo, enquanto que meu corpo se sacudia de tanto que eu ria.
Será que nossas famílias realmente acreditariam que estávamos apaixonados um pelo o outro? HAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHA, não, acho que não.
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